Novidades & Críticas literárias # 2

Revisor secreto

Apesar de levar todos os créditos, tenho que confessar que meus posts são produzidos a quatro mãos. Não há um texto que coloque no blog que não passe antes pelo meu “revisor secreto”. Ele é o expert em vírgulas e eu a negação.

Como mora em outro estado, trocamos mensagens via e-mail. Normalmente concorda com o que escrevo e não costuma dar muitos pitacos. Entretanto no último post não se conteve e soltou o verbo:

Só porque você gosta de livros e quer que tenha mais gente interessada em leitura, ou outros não podem fazer nenhuma crítica negativa?* Todo mundo é obrigado a escolher jogar confete ou ficar calado? Não gostei da conclusão.

Sozinha, dei boas risadas com seu comentário, mas mesmo assim mantive a minha opinião.

Criticando outra frase que eu escrevera: “definitivamente isso não é verdade!” meu revisor retrucou com filosofia:

O que é a “verdade”? Podemos discutir o conceito depois, mas não sei se você pode dizer que a crítica que ela faz não é verdadeira.

Neste caso acatei a sugestão. Afinal quem sou eu para dizer o que é verdade ou não? As verdades são tantas quantas forem as opiniões das pessoas sobre o objeto analisado.

Acredito que houve da minha parte um exagero de assertividade (muito comum nos tempos atuais, diga-se de passagem) e também preguiça em explicar melhor porque gostara do livro A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Não sou crítica literária, nem fiz faculdade de letras, portanto não sei analisar um romance com todos os esses e erres. Simplesmente gosto ou não gosto. Muitas vezes pressinto que estou diante de algo excepcional e outras vezes que é melhor largar o que estou lendo para não perder mais tempo.

No livro de Martha Batalha, o que mais me agradou  foi a escrita leve e inteligente, própria de uma contadora de histórias. Como costuma acontecer numa boa conversa, a autora faz desvios para descrever personagens e narrar eventos paralelos que terminam por explicar melhor o porquê do que está acontecendo. Esses volteios são como pequenas bifurcações que vão dar a lugar nenhum, mas embelezam uma leitura descontraída e não comprometem a história como um todo.

Espero que desta vez tenha ficado mais claro porque recomendo A Vida invisível de Eurídice Gusmão.

  • Revisão da própria revisão

Novidades & Críticas Literárias

Leonardo & Martha

Se em tempos de vacas magras já não é fácil um autor (a) novato (a) ser publicado no Brasil, imagine em tempos de vacas esquálidas.

Por essa razão parabenizo a editora Oito e Meio que, além de garimpar novos talentos, mostra o caminho das pedras através de cursos on-line como o Carreira Literária.

Recentemente conheci dois novos escritores brasileiros: Leonardo Villa-Forte e Martha Batalha.

Cheguei até ao primeiro quando me inscrevi na 1ª turma do Carreira Literária e quis saber quais eram os autores que faziam parte do catálogo da editora.

Leonardo é autor veterano, já publicou pela Oito e Meio um livro de contos, e no final do ano passado lançou o seu primeiro romance cujo título achei muito bonito: O princípio de ver histórias em todo o lugarFoi esse o livro que eu li.

Ele conta a história de um publicitário que se sente rejeitado pela namorada, quando ela vai fazer um curso no exterior durante três meses. Para tentar esquecê-la e conhecer outras pessoas, decide montar no seu apartamento uma oficina de Criação Literária, mesmo sem ter aptidão para isso.

No decorrer do curso, o professor começa a acreditar que os contos escritos pelos alunos expõem, na verdade, os desejos inconfessáveis de cada um deles. A reunião final do grupo termina de forma surpreendente.

Soube de Martha Batalha através de uma nota que saiu em um jornal paulista. Fiquei curiosa porque a autora apesar ter pertencido ao mundo editorial brasileiro, e na época ter reeditado escritores de qualidade como Millor Fernandes, não conseguiu o apoio de seus pares quando quis publicar o seu primeiro romance.

Só depois de ter os direitos comprados por várias editoras estrangeiras é que a Companhia das Letras percebeu que estava deixando escapar uma boa novidade literária.

A maior parte de A vida invisível de Eurídice Gusmão transcorre nos anos quarenta do século passado na Tijuca, reduto da classe média carioca. De maneira perspicaz e com muito humor a autora narra a jornada das irmãs Eurídice e Guida que não desistem de buscar um sentido para suas vidas, mesmo depois de verem diversos de seus planos e sonhos desfeitos.

Outros personagens gravitam ao redor das duas irmãs e são descritos de forma sucinta e inteligente, como Zélia a vizinha: Do pai ela herdou o gosto pela notícia, da mãe a vida restrita ao lar. Do mundo ganhou desgostos, do destino a falta de escolhas. Formou-se assim a essência da fofoqueira.

Não chego a ser tão entusiasta quanto a jornalista Cora Rónai que considerou “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” como um dos melhores livros que leu este ano. Entretanto, acho totalmente despropositada e injusta a crítica de Camila von Holdefer, publicada no mesmo jornal paulista que me apresentou à autora. Segundo ela, trata-se de um romance opaco e banal. Definitivamente não compartilho com sua opinião!

Quando as pesquisas mais recentes informam que os brasileiros não leem por falta de tempo, gosto e paciência, o comentário mal humorado da colaboradora faz um desserviço aos poucos leitores que procuram conhecer e compram livros de autores brasileiros, principalmente, os novatos.

 

  • O principio de ver histórias em todo lugar

Leonardo Villa-Forte

Editora Oito e Meio

R$ 39,90

  • A vida invisível de Eurídice Gusmão

Martha Batalha

Editora Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book  R$ 27,90

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