Circe

Em julho de 2013 li A Canção de Aquiles e considerei-o por antecipação a melhor leitura que faria naquele ano. A narrativa abordava de forma ágil e eletrizante a história do herói grego Aquiles e a Guerra de Troia. Encantada com o estilo da escritora norte-americana, Madeline Miller, fiquei aguardando pelo próximo livro.

No final do ano passado, surgiram na impressa estrangeira críticas elogiosas ao seu novo trabalho, Circe, e em abril o livro chegou às livrarias brasileiras.

A trama parecia bem interessante. Ela contava a história de Circe, filha do poderoso titã Hélio, o deus sol. Circe apaixonou-se por um pescador chamado Glauco. Como deusas e mortais não podiam casar entre si, ela o transformou numa divindade marinha. Em vez de se sentir agradecido, Glauco caiu de amores pela ninfa Cila. Enfurecida e cheia de ciúmes, Circe transformou-a em um monstro horrendo de seis cabeças. O seu gesto enfureceu os deuses que a exilaram para todo o sempre na ilha Eana.

Os séculos se passaram, até que um dia atracou na ilha, Odisseu, também conhecido como Ulisses. Ele voltava para casa, para os braços de sua amada Penélope, depois de lutar durante anos na guerra de Troia. Seduzido por Circe, acabou ficando mais tempo do que deveria, e quando partiu deixou a feiticeira grávida. Dessa união nasceu Telêmaco, que mais tarde viria a matar o pai, e depois casaria com… O livro não diz com quem, mas vale a pena pesquisar, porque se trata de uma união, para dizer no mínimo, surpreendente.

Como esperado, comecei a leitura de Circe bem animada. Mas para meu desapontamento, a magia que me envolveu logo no começo de A Canção de Aquiles, desta vez não aconteceu.

O texto parecia-me repleto de descrições hiperbólicas e desnecessariamente melodramático. Para piorar, tive muita dificuldade para simpatizar com a personagem principal. Bem que a autora tentou fazer uma releitura mais simpática daquela que era considerada a deusa máxima da feitiçaria e da magia negra, mas achei Circe lamurienta e possessiva, chatinha mesmo. As referências sobre mitologia que tanto haviam me agradado no primeiro livro, desta vez, me soaram didáticas e pouco inspiradoras. Se não fosse por uma descrição ou outra, como o nascimento do Minotauro ou a luta entre Circe e o monstro marinho, diria que a leitura foi decepcionante.

Em 2012 Madeline Miller concorreu ao Orange Award* com A Canção de Aquiles e venceu. Este ano ela está na disputa com Circe. Se ganhar não contará com o meu aplauso.

 

  • Circe

Madeline Miller

Editora Planeta

R$ 59,90

 

* O prêmio literário britânico concedido somente a mulheres de qualquer nacionalidade, que escrevem em inglês e foram publicadas no Reino Unido. Atualmente a condecoração chama-se Prêmio Feminino de Ficção.

Uma salada de frutas

salada-de-frutas

O final do ano presta-se para, entre outros tantos balanços, relembrar os livros que mais marcaram e que, com certeza, encontrarão um lugar especial na estante. Quem sabe, um dia terei a oportunidade de os reler ou talvez emprestar algum a quem saiba respeitar o sistema V & V (vai e volta).

O ano começou muito bem com a leitura do sensível Arroz de Palma de Francisco Azevedo (literatura brasileira);

Depois veio a história verídica e impressionante A vida de um alemão de Bernd Wollschlaeger. Apesar do pai ter sido um oficial nazista, o autor conscientemente se converteu ao judaísmo (biografia);

Gostei muito do inteligente romance Dez mulheres de Marcela Serrano. Foi praticamente impossível não criar uma  identificação com uma ou outra das bem delineadas personagens femininas (literatura estrangeira);

A descoberta, mesmo que tardia, de Sherlock Homes foi incrível. Curti bastante a leitura de O cão dos Baskervilles (clássico);

Na categoria infantil fiquei encantada com Ter um patinho é útil. Impressionante como se podem criar, apenas com duas cores e com os mesmos desenhos, duas histórias diferentes (literatura infantil);

O projeto gráfico de A incrível fuga da Cebola também me fascinou. Inclusive fiquei muito tentada em comprar um segundo exemplar para poder desmontá-lo. É isso mesmo, o livro desmonta, ou melhor: DESCASCA! (literatura infanto-juvenil);

A canção de Aquiles de Madeline Miller foi das leituras mais prazerosas que fiz nos últimos tempos e graças a ele aumentei bastante os meus parcos conhecimentos sobre mitologia grega (literatura estrangeira);

O fazedor de velhos de Rodrigo Lacerda supostamente indicado como leitura juvenil fez-me refletir sobre a difícil escolha da carreira profissional quando se é muito jovem, e ofereceu-me boas sugestões de futuras leituras (literatura juvenil);

Apesar de conhecer o desfecho dos acontecimentos vividos na Alemanha de 1933 desejei muito que os relatos alarmistas do embaixador americano fossem levados a sério – como se sabe, isso não aconteceu. No Jardim das Feras de Erik Larson é uma excelente aula de história que se lê como um romance de suspense (Biografia – História);

Fecho a minha seleção de 2013 com o perturbador Os meus sentimentos de Dulce Maria Cardoso. Nele tudo é incomum, não só a história propriamente dita, mas principalmente a narrativa corrosiva e fragmentada feita pela protagonista nos momentos que antecedem a própria morte. (literatura portuguesa)

A relação dos “mais mais” do ano é uma autêntica salada de frutas onde as minhas preferências se misturam sem muita lógica. Com paladares diferentes cada livro estimulou minha imaginação e me incentivou a fazer novas descobertas num processo que não tem fim. E é com uma pilha de “novos frutos” que aguardo a chegada do Ano Novo.

A todos os que leem Fagulha de Ideias desejo um 2014 repleto de saborosas leituras!

A canção de Aquiles

Canção de AquilesAinda estamos no meio do ano, mas posso dizer com convicção que o meu livro favorito de 2013 é “A canção de Aquiles” de Madeline Miller.

Vencedor do prêmio Orange de Literatura 2012, este é o primeiro livro da autora que, até ficar famosa, ensinava latim, grego e Shakespeare, para alunos do ensino médio.

O romance histórico de Madeline Miller é baseado na Ilíada de Homero, e a autora demorou dez anos para terminá-lo. Coincidência ou não, foi mais ou menos esse tempo que durou a Guerra de Troia contada no poema épico.

A narrativa flui de forma eletrizante. Confesso que meus conhecimentos sobre a Antiguidade e Mitologia Grega eram e continuam sendo escassos, mas à medida que lia surpreendia-me com a variedade e a riqueza das histórias contadas, e que histórias!

O amor entre o invencível Aquiles e o seu melhor amigo de infância Pátroclo; um semideus que procura fugir ao seu destino e se esconde numa ilha vestido de mulher; uma virgem sacrificada para acalmar os deuses vingativos; um sacerdote que se humilha perante o rei para que a filha não seja oferecida como butim de guerra; a descrição do cerco interminável à cidade de Troia; um herói devastado pela morte violenta de seu amante; atos de crueldade, amizade e heroísmo… E muitas outras histórias mais.

Diversas vezes pesquisei na internet querendo confirmar se era tudo verdade, e sempre retornava à leitura mais animada, porque não só os fatos estavam corretos, como eram narrados de forma empolgante!

Espero sinceramente que a autora se anime com o sucesso de “A canção de Aquiles” e escreva logo a sua versão romanceada de “A Odisseia”, mas, por favor,  não faça os leitores esperarem outros dez anos!

  • A Canção de Aquiles

Madeline Miller

Editora Jangada

R$ 39,90

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