Você conhece Hannah Senesh?

Hannah-SeneshMuitas vezes, minha leitura não é linear. Não é incomum interrompê-la, movida pela curiosidade em saber um pouco mais sobre algum personagem verídico citado no romance, ou me aprofundar num assunto que desconheço, e que está sendo comentado no livro que leio no momento.

Quando isso acontece, faço uma pausa e inicio uma pesquisa na internet. Abro um link, depois outro, numa sequência infinita, até perceber que essa busca não terá fim, e dou um basta em mim mesma.

Sempre encontro alguma  pedrinha de ouro. Normalmente são escritores que não conheço, mas cujas obras já foram publicadas no Brasil.

Quando isso acontece, meus dedos coçam inquietos. Devo aproveitar o fato de estar diante do computador  e comprar logo o livro – para deixá-lo, sabe-se lá por quanto  tempo, na pilha dos que aguardam por ser lidos um dia – ou devo frear minha impulsividade e anotar seu nome na longa lista dos “tenho que ler”?

Desta vez a busca começou por causa da primeira linha de um poema escrito por uma jovem judia, assassinada aos 23 anos pelos nazistas::

“Ouvi uma voz, e fui”

Cheguei até ele porque mergulhara de cabeça nos dilemas morais e nos questionamentos políticos expostos no maravilhoso livro de Amós Oz, Judas. Há muito tempo não lia algo tão instigante.

Esse poema era declamado pelos judeus como incentivo ao combate durante a sangrenta guerra travada entre israelenses e palestinos, logo depois da criação do estado de Israel em 1948.

Como seria o resto do poema?  E quem era a autora?

Uma rápida busca me levou até Chana Senesz também conhecida como Hannah Senesh.

Nascida na Hungria em 1921, Hannah era filha de uma abastada família de intelectuais judeus. Durante a infância, teve pouco contato com o judaísmo, pois seus pais, assim como muitos judeus húngaros, estavam totalmente integrados ao meio circundante.

O pai já era falecido quando a mãe a colocou numa escola particular protestante. Graças aos ensinamentos de um professor que também era rabino, aprofundou seus conhecimentos sobre  o judaísmo, vindo a se tornar uma fervorosa sionista.

Em 1939, Hannah foi morar num kibutz em Eretz Israel, região considerada como a Terra Prometida pelos judeus. Foi nessa época que seu talento poético desabrochou.

Infelizmente, as notícias vindas da Europa eram as piores possíveis. Desejosa em participar no salvamento do maior número possível de judeus – inclusive da própria mãe, que continuava vivendo na Hungria – alistou-se no exército britânico e em junho de 1944 retornou à terra natal.

Infelizmente, poucos meses depois de sua chegada , foi traída por um informante e Hannah acabou sendo presa e torturada. Morreu aos 23 anos fuzilada por um pelotão de nazistas.

Quanto ao poema propriamente dito, cheguei até ele entrando em contato com Frida Milgrom, a organizadora do livro Hannah Senesh: Diários, poesias, cartas, que gentilmente me o enviou.

 

NO CAMINHO…

Uma voz chamou, e segui.

Segui, pois chamou-me a voz.

Segui, fugindo de um destino

atroz.

Mas na encruzilhada

Com fria alvura tapei

meus ouvidos

E chorei

Pelo que havia perdido.

(Cesaréia, dezembro de 1942)

 

Devo ou não devo comprar o livro? Meu dedo acaricia a tecla que com um clique fará a encomenda.

Afinal, comprar é mais fácil do que encontrar e assistir ao documentário americano: Abençoado o fósforo: A vida e a morte de Hannah Senesh (Blessed Is The Match: The Life And Death Of Hannah Senesh), dirigido por Roberta Goldman. O filme chegou aos oito finalistas que concorreram ao Oscar 2008 na categoria Melhor Documentário, porém não entrou na seleção final.

 

 

Se quiser saber um pouco mais sobre essa jovem símbolo de heroísmo e dedicação, preciso fazê-lo. Decidida aperto a tecla.

 

  • Hannah Senesh: Diários, poesias, cartas

Frida Milgrom (organizadora)

Editora Tordesilhas

R$ 39,90

 

 

À sombra do meu irmão

à-sombra-do-meu-irmãoQuando terminei de ler À sombra do meu irmão – as marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã, não comecei outro livro como normalmente costumo fazer.

Sempre quis saber como os alemães conseguiram refazer  suas vidas, e transformar uma mortífera máquina de guerra em uma nação economicamente poderosa e pacífica.

Que justificativas poderiam  dar às barbaridades cometidas durante a segunda guerra mundial?  Como superaram a ressaca moral de todo um povo?

Recentemente li uma matéria no jornal O Globo comentando que muitos alemães cometeram suicídio, apavorados com o futuro incerto que os aguardava, e temorosos de serem tratados pelos vencedores  da mesma forma como haviam tratado os judeus. Só em Berlim, mais de seis mil pessoas se suicidaram nos últimos dias da guerra *

Uwe Timm autor de À sombra do meu irmão, ao escrever sobre a própria família, fala na verdade de toda a nação.

Com a derrota, os  alemães assistiram a nova geração criticá-los e assimilar rapidamente a cultura dos vencedores.

Uma ofensa àqueles que acreditavam terem sido os eleitos para conquistarem o mundo, que acreditavam pertencer à raça escolhida.

Em relação ao genocídio cometido contra os judeus silenciaram ou disseram não saber o que estava acontecendo. Quanto à destruição que provocaram em quase toda a Europa adotaram a postura de vítimas. Eles também sofreram enormes baixas humanas  e suas  cidades foram ferozmente bombardeadas pelos aliados.

Gostei tanto de  À sombra do meu irmão que, ao terminar de o ler, não emendei com outro livro, nem o guardei na estante. Simplesmente o reli.

 

  • À sombra do meu irmão – as marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

Uwe Timm

Editora Dublinense

R$ 34,90

E-book R$ 18,90

 

* O Globo  (sábado 14/03/2015) Histeria de uma nação – Livro revela que suicídio de Hitler e Goebbles não foi fenômeno restrito à cúpula nazista. O´livro “Kind, versprich mir,dass du dich nicht erschiesst” foi escrito pelo historiador Florian Huber e pode ser traduzido livremente como “Criança, prometa que não vai se suicidar”

http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/suicidios-contaminaram-alemanha-nos-dias-finais-da-segunda-guerra-15594021

 

 

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