Duas leituras bem diferentes

Gosto de intercalar uma leitura “séria” com outra mais leve, e normalmente acerto nas escolhas. Mas emendar Amsterdam do escritor Ian McEwan com O ódio que você semeia da rapper americana Angie Thomas foi ousado demais.

O primeiro romance narra o embate entre dois amigos que alcançaram grande sucesso profissional, e voltam a se encontrar durante o funeral de uma amante que tiveram em comum. A reaproximação os faz trocar promessas e confidências. Vaidosos, eles acreditam estar acima de quaisquer dilemas morais, mesmo quando suas atitudes podem prejudicar outras pessoas. No entanto quando um deles censura a atitude que o outro pretende tomar, este se sente ofendido e revida acusando o agressor de se comportar de forma infame. A miopia moral dos dois ex-amigos se exacerba em insultos e rasteiras mútuas, terminando por provocar uma tragédia.

Apesar de ter apreciado esta história, que em 1998 venceu o Booker Prize na categoria de melhor romance, o meu livro favorito de Ian McEwan continua sendo Na Praia. Mesmo assim agradou-me a construção refinada dos personagens e as descrições precisas e elegantes.

Talvez tenha sido essa por razão que estranhei a escrita de O ódio que você semeiarepleta de diálogos coloquiais e frases curtas -, perfeita para leitores que ainda não aprenderam a apreciar uma leitura mais burilada. É importante ressaltar que o livro é classificado como ficção juvenil, recomendado para leitores entre 14 e 21 anos.

Também me incomodou a quantidade de referências aos diversos modelos de tênis das marcas Jordan, Eleven, e Js, cantores como Salt-N-Pepa, gênero musical R&B, danças Wobble, Hit the Quan e Nae-Nae, e a diferença entre comer um sorvete com cobertura de cereal Cap’n Crunch ou biscoito Oreo. Tudo muito comum para um afro-americano nascido na virada do milênio, mas que só fizeram confirmar a minha ignorância de costumes e o abismo geracional.

Feitas estas considerações um tanto ou quanto rabugentas, quero dizer que não só gostei de O ódio que você semeia como considero a sua leitura extremamente necessária por abordar um tema cruel com profundas raízes, tanto na sociedade norte-americana quanto na brasileira: o preconceito racial.

A personagem principal Starr é uma adolescente negra que presenciou o assassinato do melhor amigo de infância ser cometido à queima roupa por um policial branco.

Cansada de ver casos como este serem tratados com parcialidade e complacência pela justiça, ela se questiona se deve permanecer calada ou mostrar a sua indignação e contar exatamente o que sucedeu.

Pessoas como nós em situações assim viram hashtags, mas raramente conseguem ter justiça.

Além de ser testemunha dessa chocante brutalidade, na escola Starr suporta “brincadeiras” e comentários dúbios por parte de uma colega que se diz ser sua amiga. Mas até quando ela estará disposta a ouvir sem reclamar, apenas para não ser tachada de suscetível ou encrenqueira?

Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?

Assim como Starr, precisamos denunciar os preconceitos que persistem na nossa sociedade, quer sejam raciais, econômicos, de gênero ou culturais.

Aproveito para fazer o mea-culpa. Qualquer estilo literário deve ser valorizado por suas qualidades intrínsecas e não ser rotulado de forma depreciativa. Não existem gêneros melhores ou piores, existem livros bem escritos e livros ruins. Definitivamente não é o caso de O ódio que você semeia.

 

 

Pertinho de casa

Se o leitor acompanha as notícias do Rio de Janeiro com certeza está a par do caos que aconteceu durante este último Carnaval. Precavida, não quis pagar para ver, e com receio de não poder entrar ou sair de casa – a não ser que me fantasiasse e participasse de um bloco de rua – rumei com meu marido na sexta-feira de Carnaval para Penedo a 175 km da capital.

Depois de uma viagem que demorou mais do que o previsto por conta de um engarrafamento infernal na saída do Rio, atravessamos o portal da cidade de Penedo. Rodamos algumas centenas de metros, viramos à esquerda numa pontezinha estreita pintada de branco, e chegamos à pousada localizada no final de uma rua tranqüila e sem saída.

O gerente recebeu-nos com um largo sorriso e recomendou diversos restaurantes onde poderíamos almoçar, visto que, assim como a maioria dos estabelecimentos hoteleiros de Penedo, a pousada só oferecia café da manhã.

Para não correr o risco de voltarmos para casa no final do feriado com as roupas apertadas – conseqüência inevitável das deliciosas trutas, salsichões, batatas rosti, chocolates, bolos e cervejas artesanais que degustamos -, depois das refeições caminhávamos pelo centrinho da cidade. Fiquei encantada ao notar que temporariamente as mazelas do Rio haviam ficado para trás. Exceto por um intenso trânsito na rua principal da cidade, não se viam sinais de miséria e as ruas estavam todas limpas e cuidadas.

Nossos passeios não se restringiram apenas a Penedo e exploramos Visconde de Mauá e arredores. Felizmente a pequeníssima vila que havíamos visitado há mais de vinte e cinco anos, não tinha perdido a atmosfera bucólica e “bicho grilo” de antigamente.

Bem ao lado da Casa dos Beatles (um pub muito simpático decorado com itens que homenageiam a banda de Liverpool) acontecia uma feirinha de produtos orgânicos, onde comprei uma granola salgada. (Assim que voltei ao Rio espalhei uma colherada sobre a primeira de muitas sopas de dieta, e a granola transformou o meu insosso creme de abóbora em uma iguaria deliciosa.)

Continuando o reconhecimento da região, seguimos por uma estradinha de terra à procura das cachoeiras do Vale do Alcantilado. Durante o trajeto cruzamos com pouquíssimos carros. Ao chegar surpreendemo-nos por encontrar um turismo organizado com muitos visitantes. Ao todo são nove cachoeiras localizadas dentro de uma propriedade particular e para visitá-las é preciso pagar uma taxa de manutenção.

Apesar de alcantilado significar escarpado, íngreme, a visita não exige equipamento ou calçados especiais. Apenas é preciso ter fôlego para subir, subir, subir… No caminho encontramos senhoras de sapatilhas, chinelos, e um casal com um bebê de colo. Para facilitar o acesso às cachoeiras, o proprietário instalou cordas e corrimãos nos trechos mais escorregadios e instáveis. Depois era só relaxar e aproveitar a boa energia das águas correntes e refrescantes.

No dia seguinte aproveitamos a proximidade do Parque Nacional de Itatiaia e fomos conhecê-lo.

Influenciada pela recente leitura de “Meu querido canibal” do escritor baiano Antonio Torres, a cada curva da estrada imaginava ver índios tubinambás se movendo por entre as arvores e cipós da cerrada Mata Atlântica.

Desta vez, visitamos apenas algumas cachoeiras localizadas na parte baixa do parque. Ao descer em direção à saída reparamos numa pequenina placa que dizia ateliê dos artistas.  Como continuávamos imbuídos de intenções exploratórias fomos procurá-los.

O carro subiu outra estrada quase paralela aquela que acabáramos de descer. Como não sabíamos quantos ateliês existiam ao todo, passamos pelo primeiro, depois pelo segundo até que a estrada acabou.  Ao longe se via a construção abandonada do outrora movimentado Hotel Simon. Fizemos meia volta e paramos no primeiro ateliê.

Fomos recebidos por Christian Spencer, um tranqüilo australiano que nos mostrou as suas obras mais recentes. Quadros grandes pintados em acrílico e executados com pinceladas numerosas e curtas. A maioria representando a amplidão territorial do seu país natal. Um em especial agradou-me: a tela estava toda preenchida por muitas penas nos tons de laranja, preto e branco. Essas penas são a única parte colorida das cacatuas pretas de cauda vermelha, uma ave típica da Austrália.

Christian nos contou que morava ali com a mulher. O ateliê do casal era a primeira casa pela qual havíamos passado, e onde ela se encontrava no momento. Às pessoas que se surpreendiam por morarem tão isolados, costumava dizer que quando se tem “olhos de ver” a mata todo dia presenteia com uma novidade. Como o voo de um raro beija-flor de bico curvo, que ele observara nessa mesma manhã.

A conversa estava boa, mas queríamos ainda visitar a sua companheira e artista plástica brasileira, Tatiana Clauzet. Ela nos recebeu no ateliê de janelas amplas, onde soberana reinava uma espaçosa mesa de trabalho. Sobre ela estava preso um desenho inacabado, e, em perfeita ordem, enfileiravam-se godês com amostras de tintas aquareladas e vários pincéis de tamanhos e cerdas diferentes.

Apesar de ambos retratarem nas suas obras a paixão que têm pela natureza, os estilos artísticos não poderiam ser mais diferentes. Enquanto as pinturas de Christian parecem não caber na tela, as de Tatiana são mais delimitadas, desenvolvidas em cores chapadas e formas mais geométricas. Encantei-me por seus retratos da fauna brasileira.

Ao flanar pelo ateliê, encontrei dois DVD’s dirigidos por Christian que estavam à venda: Cerrado – além da névoa e A dança do tempo que foi premiado em festivais internacionais.  Além dos quadros e gravuras o visitante podia comprar cartões com desenhos de animais e dois livros ilustrados pela Tatiana. O livro infantil Bichos de Cá, publicado em 2014 Bamboo Editorial, fez por um instante meus olhos brilharem gulosos.

No entanto, logo em seguida, lembrei que conscientemente tinha deixado o cartão de credito no quarto da pousada, certa de que não iria usá-lo no passeio. Uma pequena frustração que em nada ofuscou o prazer que tive em conhecer o trabalho e os artistas que souberam abrir mão das tentações dos centros urbanos.

Regressamos ao Rio na quarta-feira de Cinzas. Nos dias que se seguiram meu animo esteve elevado, feliz por ter encontrado tão perto de casa, lugares onde a preservação da natureza fala mais alto e é possível encontrar um turismo com qualidade.

A glória e seu cortejo de horrores

Não cheguei a fazer o mesmo que o escritor Reinaldo Moraes que, ao terminar de ler o ultimo romance da Fernanda Torres, de tão empolgado que ficou, o leu de novo. Mesmo assim posso afirmar que gostei muito de “A glória e seu cortejo de horrores”.

Conforme já tinha feito em “Fim” – quando retratou a vida de cinco amigos moradores de Copacabana – a escritora deu voz a um personagem masculino já avançado nos anos. Desta vez, o ancião nasceu e foi criado na Tijuca, de onde “fugiu” assim que iniciou a carreira artística de ator.

É o próprio artista quem conta a epopeia, desde os tempos em que se apresentou em povoados no interior da Bahia – para conscientizar as massas populares -, aos anos gloriosos de galã de novelas e ator teatral de sucesso, até o retumbante fiasco como protagonista principal de uma encenação delirante e megalomaníaca de Rei Lear.

Mais uma vez apreciei a facilidade da autora em descrever de forma irônica e, por que não dizer, um pouco cruel, o processo de envelhecimento de uma pessoa:

A meia-idade é um período de descuidos e incertezas na vida de um homem. Na da mulher, também, mas elas, pelo menos, enfrentam calores cíclicos, depressões hormonais que justificam as escolhas tortas. O homem, não, ele continua idêntico ao que sempre foi, só que pior, cada dia pior, enxaguando os cabelos, às escondidas, com xampus tonalizantes, e enlouquecendo de amor por meninas que poderiam ser suas filhas. As mulheres são mais realistas. A natureza obriga.

Também me diverti imaginando a quem ela estaria se referindo quando incorporou tantos “causos” profissionais à vida do personagem principal.

Se a escritora – criada nas coxias do meio artístico – não tem idade para ter presenciado muitas dessas histórias, com toda a certeza as escutou serem contadas pelos pais (Fernanda Montenegro e Fernando Torres) ou por seus amigos. Porque cada episódio narrado parece remeter a algum ator real, como se tivesse “um nome com endereço certo”, algo que só os iniciados poderão confirmar.

A leitura de “A glória e seu cortejo de horrores” atiçou a minha curiosidade para outros textos. Além da já mencionada peça de Shakespeare, Rei Lear, o romance de Fernanda Torres comentou sobre outra peça de teatro: “Tio Vânia”, de Tchekhov.

O meu primeiro impulso foi comprá-la. Mas bastaram alguns minutos de reflexão para desistir da ideia. Por mais que eu resista, preciso me conformar que jamais vou conseguir dar conta de tudo o que desejo ler. E assim, o nome Tchekhov foi devidamente anotado e se juntou à interminável lista de escritores que pretendo ler um dia.

 

  • A glória e seu cortejo de horrores

Fernanda Torres

Companhia das Letras

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Aqui estão os sonhadores

É difícil de acreditar, mas o número de imigrantes ilegais vivendo nos EUA é quase o dobro dos moradores da cidade do Rio de Janeiro. São mais de onze milhões de pessoas vindas de diversos cantos do mundo – sabendo ou não falar inglês, com ou sem habilidades profissionais– desejosas de alcançar o tão mitificado “sonho americano”. Fico imaginando que tipo de vida essas pessoas levavam em seus países a ponto de desistirem de tudo e se arriscarem numa aventura incerta e cara.

Pois é sobre um casal assim que trata o primeiro romance da escritora camaronesa Imbolo Mbue, residente nos EUA há mais de uma década.

Aqui estão os sonhadores” conta a história de Jende e sua mulher Neni que imigraram para os EUA na esperança de construírem um futuro melhor do que aquele que teriam no país natal (Camarões). Eles acreditavam na própria capacidade de trabalho e desejavam, acima de tudo, dar uma vida boa para o filho de seis anos, e também para o bebê que estava para nascer.

Os primeiros empregos que Jende encontrou foram cansativos e mal remunerados. Mas graças à recomendação de um parente, que morava nos EUA há mais tempo, finalmente sua sorte começou a mudar. Ele foi contratado para ser o motorista particular de um importante executivo do banco Lehman Brothers, e de sua família.

Discreto e atencioso, Jende logo notou que a vida do casal para o qual trabalhava não era exatamente um mar de rosas. Enquanto dirigia para o patrão, também presenciava conversas telefônicas de trabalho que quase sempre terminavam em calorosas discussões.

Mas se os patrões tinham problemas, ele também os tinha. O visto temporário que lhe permitiu entrar nos EUA expirara há muito tempo, e ele precisava manter o emprego a qualquer custo para não ser deportado.

Por isso, quando a crise financeira de 2008 estourou levando à falência o banco onde o patrão trabalhava, a sua permanência nos EUA ficou ainda mais instável.

Mas será que valia a pena lutar por um sonho – por mais lindo que ele fosse – se isso viesse a causar sofrimento a outras pessoas, ou se Jende precisasse compactuar com atitudes indefensáveis?

Aqui estão os sonhadores” é uma reflexão poderosa sobre as dificuldades que os imigrantes ilegais encontram nos EUA. E graças às recentes medidas anti-imigração adotadas pelo governo Trump tornou-se um leitura mais atual do que nunca.

 

(O livro foi o vencedor do Prêmio PEN/Faulkner de ficção de 2017 concedido a escritores vivos norte-americanos)

 

  • Aqui estão os sonhadores

Imbolo Mbue

Globo Livros

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