Quando eu voltar a ser criança

Desejosa por aprimorar a minha voz infantil, já que gosto de escrever para crianças, pedi ajuda a uma escritora mais experiente, a Anna Cláudia Ramos. Ela me indicou a leitura de “Quando voltar a ser criança”, de Janusz Korczak.

Após uma rápida pesquisa, fiquei surpresa por nunca ter ouvido falar nesse escritor e pedagogo que viveu no século passado.

Revolucionário, Korczak fundou um orfanato em Varsóvia onde cuidava das crianças como se elas fossem gente grande, protegendo-as da prepotência dos adultos. Como diretor da instituição criou um tribunal onde elas eram estimuladas a solucionar não só os próprios conflitos como também a julgar os seus educadores, caso achassem necessário.

Quando os nazistas ocuparam a Polônia, ele e os órfãos foram confinados no gueto de Varsóvia. Ali viveram por pouco mais de dois anos até serem deportados para o campo de concentração de Treblinka. Antes de partir, Korczak teve a chance de escapar, pois lhe foi oferecido um salvo conduto, que ele recusou. Em agosto de 1942, juntamente com duzentas crianças, morreu asfixiado nas câmaras de gás.

A leitura de “Quando voltar a ser criança” me comoveu. Fiquei encantada como o autor compreendeu e soube colocar em palavras o turbilhão de emoções que se atropelam no intimo de uma criança.

(…) É incômodo a gente ser pequeno. A toda a hora tem que se esticar, levantar a cabeça. As coisas acontecem lá nas alturas, acima de nós. A gente se sente sem importância, desprestigiado, fraco, perdido. Talvez seja por isso que gostamos de ficar em pé ao lado dos adultos que estão sentados. Então podemos ver os seus olhos.

Mesmo assim, por se tratar de um interesse pessoal – ligado ao desejo de escrever literatura infantil – num primeiro momento achei que não precisava compartilhar esta leitura no blog.

Nesse meio tempo, a mudança para o Rio de Janeiro e as festas de fim de ano fizeram com que eu diminuísse o ritmo de leitura. No entanto, uma resenha elogiosa a um livro juvenil – que li no blog Um tempo entre meus livros – chamou-me a atenção. Por se tratar de um livro fininho, coloquei-o na frente de outras leituras mais volumosas. E assim, descobri o impactante “Uma vez”, do escritor australiano Morris Gleitzman.

Ele conta a historia de um menino que, depois de esperar por três anos que os pais o fossem buscar no internato católico onde o deixaram, decide fugir para procurá-los.

Se no início a inocência do garoto chegou a me irritar, aos poucos acompanhei o seu sofrido amadurecimento à medida que ele era engolfado pela cruel realidade existente fora dos muros protetores do internato.

Exímio contador de histórias, o menino acreditava que os pais não podiam buscá-lo porque ainda não tinham encontrado um lugar seguro para guardar os livros que estavam na livraria da qual são proprietários. Tudo o que ele sabia é que existiam pessoas más que não gostavam de livros escritos por judeus e por isso os queimavam assim que os encontravam.

A liberdade durou muito pouco, porque logo ele foi capturado por soldados que falavam uma língua estrangeira. Se durante muito tempo as histórias que ele inventou o protegeram, agora não podiam mais.

Quando tudo parecia perdido, ele foi salvo por um desconhecido que aparentemente possuía algum prestígio entre os nazistas. Este homem misterioso o levou para um lugar seguro onde estavam outras crianças.

Apesar de ter como público alvo os jovens e, por essa razão, intercalar momentos de leveza como implicâncias e brincadeiras de crianças, a história não suavizou o sofrimento e as humilhações sofridas pelos judeus.  Por diversas vezes precisei respirar fundo para prosseguir com a leitura.

Mas a grande surpresa de “Uma Vez” aguardava-me no final. No posfácio do livro o autor revelou que fizera uma homenagem ficcional a Janusck Korczak.

Agora eu entendia o porquê da história de “Uma Vez” ser contada na primeira pessoa e descrever algumas das picuinhas e brincadeiras infantis. Eram referências indiretas ao livro “Quando voltar a ser criança” de Janusck Korczack, sendo que o salvador do menino era na verdade o próprio Korczack.

Como poderia ignorar a coincidência e não comentar sobre os dois livros em um mesmo post? Apesar de serem duas propostas de leitura bem diferentes – uma escrita em tempos de paz e a outra em tempos de guerra, assim como para públicos distintos – são vários os pontos que unem as duas obras.

Claro que cada uma pode ser lida independentemente da outra, mas com certeza ficará bem mais interessante se se conhecer a vida e a obra de Janusck Korczak.

 

  • Quando eu voltar a ser criança

Janusck Korczak

Summus Editorial

 

  • Uma Vez

Morris Gleitzman

Editora Paz e Terra

Uma história de Natal

Mais uma vez, minhas amigas se uniram para me presentear com o que mais gosto: livros.

Como não havia espaço para os recém-chegados, fui limpar as estantes. Ao selecionar os que iriam embora, caiu no chão um livro fininho.  Ele era do meu filho, quando ainda estava no colégio. Tendo conseguido sobreviver a tantos “expurgos”, esse livro deveria merecer uma atenção especial.

Trata-se do volume 8 da coleção Para Gostar de Ler, uma seleção de contos de autores como Ignácio de Loyola Brandão, Stanislaw Ponte Preta*  e outros expoentes da literatura brasileira.

Por ter chegado de Portugal às vésperas de cursar o ensino médio, não conheci alguns dos autores que compunham a seleção. O vestibular se avizinhava, e precisei me dedicar à longa lista de leituras obrigatórias.  Daquela época, lembro que achei José Alencar muito chato e gostei bastante de Aluísio Azevedo (mais tarde reli O Cortiço por puro prazer). A obra de Jorge Amado foi um caso todo especial.

Bem que tentei ler A morte e a morte de Quincas Berro d’água, mas quem disse que eu entendia o que estava escrito? De dez palavras oito eu precisava consultar no dicionário. Decepcionada, acabei deixando o livro de lado. Quem diria que, muitos anos depois, não só iria viver na mesma cidade dos personagens da história, como também iria me encantar com o linguajar do escritor baiano?

Mas voltando ao volume 8 da coleção Para Gostar de Ler, nele encontrei um conto natalino escrito por Marcos Rey que compartilho com vocês.

Pega ladrão, Papai Noel!

Ele não era bem um Papai Noel, era mais um Santa Claus, pois trabalhava numa cadeia de lojas multinacional, a Emperor Presentes e Utilidades Domésticas, aquela grande, da avenida. Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas no próprio States para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota, apesar de cantar o “Jingle Bell” com imperdoável sotaque latino-americano. Mas seu visual, mesmo sem uniforme, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isso: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

-Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a Emperor andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido numa bolsa promocional da Emperor. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, e fez voz de vigia:

-Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel aludido, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares. Aí, novamente Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão logo à saída da loja chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase… Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

(…) Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

-Mas não comprei.

-Ahn?

-Ganhei.

-De quem?

-De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir. Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

 

Torço para que um dia esta história seja apreciada apenas como uma bela peça literária – como fazemos com os contos de Charles Dickens – e não mais como um retrato ainda atual da nossa realidade social.

Desejo um Feliz Natal aos meus leitores, e muitas boas leituras em 2018.

 

*Pseudônimo do jornalista Sérgio Porto

Selo Cátedra 10 e 1 poema

Quando dei por finalizada a minha mudança para o Rio de Janeiro, procurei me informar sobre quem e onde se realizam atividades voltadas para a produção literária infantil.

Ao pesquisar na internet encontrei o Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC (iiLER) localizado no campus da Gávea. O instituto tem por objetivo promover pesquisas e cursos que estimulem a leitura e a formação de leitores. Em 2016,  em parceira com a UNESCO, criou o selo Seleção Cátedra 10  concedido às publicações literárias infanto-juvenis que se destacaram no mercado brasileiro, quer seja pelo texto, as ilustrações ou pelo projeto editorial.

Coincidentemente, a premiação aconteceria mais tarde, no mesmo dia em que fiz a pesquisa. Ao passar os olhos na lista dos selecionados, reconheci dois títulos que eu já tinha recomendado aqui no blog: “Coração de inverno, coração de verão” e “O passeio”.

(para saber quais foram os selecionados clique aqui)

Curiosa em conhecer pessoalmente os autores e o ilustrador dos livros, que tanto me haviam agradado, decidi participar do evento mesmo sem ter um convite oficial.

O auditório estava lotado. Antes da entrega dos prêmios, foi prestada uma homenagem póstuma à ilustradora mineira Ângela Lago e houve contação de histórias. Uma representante do iiLER – que infelizmente não recordo o nome – falou sobre o movimento do politicamente correto, tanto de grupos conservadores quanto progressistas, que ao examinarem textos consagrados, o fazem literalmente, esquecendo-se de contextualizá-los e reconhecer suas nuances e representações simbólicas.

A palestrante terminou declamando um poema que de tão atual parece que foi escrito ontem:

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(VERDADE – Carlos Drummond de Andrade – Corpo, 1984)

Hibisco Roxo

Às vezes, quando leio um livro que gosto e considero importante, me imagino sugerindo-o como leitura para alunos do Ensino Médio. Como ficaria mais fácil estudar as questões sociais se, em vez de serem apresentadas nos livros didáticos, elas fossem debatidas em leituras ou filmes estimulantes! Certamente Hibisco Roxo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie faria parte da lista.
A autora conta a história de Kambili, uma adolescente de 15 anos. Ela é filha do proprietário do único jornal, que corajosamente enfrenta os governantes corruptos do país. Kambili se orgulha do pai, cujo destemor o torna uma figura pública admirada e respeitada. Entretanto, ele possui outro lado, conhecido apenas pelos mais íntimos, que o torna um homem temido e assustador. Dos parentes que questionam o seu comportamento tirânico, ele mantém uma distancia cerimoniosa, quando não os exclui definitivamente do convívio mais próximo.
O enredo toca em questões espinhosas como o fanatismo religioso, a corrupção dos políticos e o total descaso das autoridades para com a educação e a saúde. Temas que assombram não só a Nigéria mas também o Brasil. Em certo momento da história – ao procurar uma solução no estrangeiro para a falta de oportunidades profissionais – a tia de Kambili desabafa:
“Os que estudaram vão embora, aqueles que têm potencial para consertar o que está errado. Eles deixam os fracos para trás. Os tiranos continuam reinando porque os fracos não conseguem resistir. Você não vê que é um círculo vicioso? Quem vai quebrar esse círculo?”
O comentário soou-me tristemente familiar.
Mas para mim, o que fez de Hibisco Roxo um livro especial, a ponto de querer indicá-lo para os adolescentes, foi não só porque aborda temas que fazem parte do nosso cotidiano, mas também porque debate outro assunto extremamente sofrido: a violência doméstica.
Não estou falando da violência boçal, fruto da ignorância, mas daquela disfarçada em boas intenções, que não distingue gênero, cor da pele ou status social, e se perpetua de geração em geração ao se confundir com o ato de educar: “Eu te castigo porque te amo”.
O livro de Chimamanda Ngozi Adichie dá voz a todos que se calam por vergonha ou medo.

 

  • Hibisco Roxo

Chimamanda Ngozi Adichie

Editora Companhia das Letras

R$ 44,90

E-book R$ 29,90

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