Uma tarde com Márcio Vassallo

Recentemente participei de um encontro com o jornalista e escritor de livros infantis, Márcio Vassallo.

Cheguei um pouco atrasada, mas, mesmo assim, consegui um lugar ao lado de Márcia Cristina Silva. Conheci a escritora ano passado, quando participei do curso que ela deu no Instituto Estação das Letras, sobre como Produzir seu Livro de Literatura Infantil e Juvenil. Gostei tanto que já estou inscrita na próxima turma que começa em março.

Custei um pouco a me ligar no que Márcio dizia (culpo o copo de vinho que bebi a mais no almoço), mas à medida que escutava as histórias que ele vivenciou com o filho, fui me envolvendo.

A primeira aconteceu quando o menino, ainda pequeno, o acordava bem cedo para que ele o visse brincar. Na verdade, o filho brincava sózinho, mas precisava de uma plateia. Afinal de que adianta criar algo se não se tem a quem mostrar? Naquele momento o pai era o leitor da história imaginada pela criança.

Na hora bateu um sentimento de culpa porque me lembrei das vezes em que, por impaciência, não dei bola às invenções dos meus filhos. Prometi, a mim mesma, me redimir quando os netos chegarem.

Márcio enfatizou a necessidade de exercitarmos a imaginação, de prestar atenção ao que acontece à nossa volta, e dar novos significados à realidade.

Imaginação é uma grande desobediência.

Ele frisou a palavra REPARAR várias vezes. Reparar significando consertar, observar e parar para descobrir o que não é óbvio.

Márcio deu alguns exemplos de como alimenta a criatividade. Sempre que pode, discretamente,  presta atenção às conversas de estranhos. Frases soltas são as favoritas. De posse desses fragmentos ele imagina novos desfechos, diferentes daqueles que jamais conhecerá.

Ou, quando ao passar por um sujeito que vendia umas bonecas de plástico muito sem graça em Copacabana , sugeriu que a frase no cartaz fosse trocada. Em vez de anunciar simplesmente o preço da mercadoria, por  que não dizer: “Faça uma boneca feliz, dê uma criança para ela”. Essa alteração foi suficiente para Márcio constatar que, enquanto esteve no banco, o ambulante conseguiu vender três bonecas.

De outra vez, ele e o filho entraram num táxi. No início permaneceram em silêncio. De repente, o filho num tom de voz baixo, mas alto o suficiente para ser ouvido pelo motorista falou: Pai volta para o Roberto!

Ao ouvir tal comentário o motorista ficou surpreso mas não esboçou qualquer emoção. Pai e filho prosseguiram alimentando a história absurda. Ao chegarem ao destino, Márcio pediu ao filho que gesticulasse, fingindo que o assunto não terminara. Discretamente olharam para trás e viram o motorista embasbacado, acompanhando de longe o desfecho da conversa. Quando o táxi finalmente partiu, ambos riram imaginando o que ele diria mais tarde, ao se encontrar com os amigos numa roda de bar ou então à mulher na hora de dormir.

Enquanto Márcio contava essas histórias, em momento algum percebi qualquer traço de deboche. Na verdade, era como se ele o filho tivessem feito um acordo para colocar um pouco de humor e fantasia no cotidiano de desconhecidos. Simples assim.

Se Márcio criou histórias vividas em táxis, outras tantas aconteceram dentro de aeroportos e aviões. A mais engraçada ocorreu há muito anos, numa de suas inúmeras viagens para divulgar o seu trabalho.

Ao passar a bagagem de mão pelo raio X, o segurança pediu que ele a abrisse porque detectara um objeto estranho. Sendo um agente federal, ele vestia terno escuro e tinha um porte intimidante. O artefato que chamara atenção era uma lamparina de aspecto antigo. Com todo o cuidado o segurança pegou na lamparina e perguntou: é a do Aladim? Surpreso, Márcio respondeu que sim.

– Posso fazer um pedido?

Sem saber se ele brincava ou falava a sério, Márcio concordou. O agente concentrou-se por alguns segundos e depois, calçado com luvas de borracha, desajeitadamente esfregou a lamparina. Ao terminar, encabulado, devolveu-a.

Márcio ficou tocado pela criança que se escondida dentro daquele grandalhão. Durante muito tempo viajou com a lamparina dentro da mala de mão, curioso para descobrir se outros funcionários trocariam a sisudez por breves momentos de encantamento. Infelizmente isso nunca mais aconteceu.

De história em história, as horas passaram voando. Quando dei por mim estava batendo palmas porque o encontro terminara. Saí de lá não só com um sorriso no rosto, mas também com um outro olhar, brilhante e curioso.

Obrigada, Márcio Vassalo. Até o próximo encontro.

 

Alguns livros que Márcio Vassallo apresentou no evento:

  • De filho para pai – Abacatte Editorial
  • Da minha praia até o Japão – Global Editora

 

Passarinha

Ao arrumar a estante de livros encontrei Passarinha, escrito por Kathryn Erskine. Comprei-o há alguns anos, mas, como passei outras leituras na frente, ele ficou esquecido por muito tempo. Na época interessei-me pelo livro porque Passarinha ganhara o prestigiado National Book Award de 2010, na categoria juvenil.

Comecei a folheá-lo e como estivesse gostando, reli as informações da contracapa. Um comentário em especial chamou-me a atenção:

Este livro vai lhe dar uma boa sacudida e se não se tornar um clássico, há algo de errado com todos nós”.

Quem seria esse Jim Trelease que o escreveu? Parei a leitura e fui pesquisar. (sou expert em me desviar daquilo que estou a fazer no momento) O Google informou tratar-se de um educador norte-americano que enfatiza a importância de se ler em voz alta para crianças, por acreditar que essa é a melhor forma delas se apaixonarem pela literatura.  Ele escreveu o livro The Read-Aloud Handbook (O manual de leitura em voz alta) traduzido para diversos idiomas tão diferentes quanto polaco e japonês e que vendeu mais de duas milhões de cópias ao redor do mundo. Hum… será que foi publicado no Brasil? (mais uma pesquisa na internet) Não, não foi, e acho até que seria uma boa ideia.

Mais outra ressalva: Para melhor se aproveitar Passarinha, recomendo a leitura de O sol é para todos de Harper Lee, ou, melhor ainda, que se veja o filme baseado no livro. O ator principal, Gregory Peck, teve uma atuação memorável, merecedora de ganhar o Oscar de Melhor Ator em 1963. O livro de Kathryn Erskine faz muitas referências ao clássico americano. Inclusive o próprio título é a tradução livre de Mockingbird, o pássaro que consta no título original: To kill a mockingbird.

E agora foco, Paula, pare de dispersar! Volte ao livro Passarinha razão deste post.

O livro conta a história de Caitlin, uma menina com uma capacidade acima da média para a leitura, que desenha muito bem em preto e branco e é portadora da Síndrome de Asperger. Este transtorno a impede de fazer amigos, porque além de não compreender o que as expressões faciais querem dizer, ela é muito literal ao falar e a entender o que lhe dizem.

Se já não é fácil decodificar o mundo que a cerca, Caitlin precisa, também, aprender a lidar com o assassinato do irmão. Era ele quem a ensinava a se comportar diante das situações corriqueiras do cotidiano.

O livro impressionou-me bastante por mostrar, com clareza, como pensa um portador com essa síndrome. Por diversas vezes tive vontade de abraçar e acarinhar a personagem, mesmo sabendo que isso seria impossível, pois Catlin não gosta que as pessoas invadam o seu espaço pessoal.

Apenas um exemplo: Para Catlin a hora do recreio era uma autêntica tortura. Enquanto para as outras crianças o recreio era diversão, para ela era uma “aula”, onde se gritava, a luz era forte de mais e se recebiam empurrões de todos os lados.

Gostei muito de Passarinha. Uma leitura sofrida e, ao mesmo tempo, apaixonante. Como não me encantar com uma história que fala de empatia e solidão? Se há um sentimento que perpassa toda a história é a necessidade de acolher aqueles que são diferentes de nós. Nada mais atual e necessário.

Donana e Titonho

Durou pouco mais de duas horas a tempestade que desabou sobre o Rio de Janeiro, na última noite de quarta-feira (06/02/19). Ventos a 100 km por hora e chuvas torrenciais derrubaram postes de eletricidade deixando diversos pontos da cidade às escuras. Como se tivessem sido arrancadas pela mão de um gigante enfurecido, árvores que aparentavam robustez expunham na manhã seguinte raízes desnudadas. A chuva arrastou carros largando-os submersos a metros de distância. Toneladas de lixo foram jogadas nas ruas e nas praias. A lama deslizou pelas encostas, soterrando casas e um ônibus. Sete pessoas morreram.

Ao acompanhar as notícias da tragédia foi impossível não lembrar de Donana e Titonho, personagens do livro de Ninfa Parreiras, ilustrado por André Neves.

De forma poética, a autora narra a história de um casal de catadores de lixo que construiu uma vida sem alicerces e sonhos pequeninos.

 

Tonho conheceu Nana

Entre escombros

Duma casa caída

O moço cavava a terra

A moça desenrolava fios

Juntos montaram um canto.

Com peças que descobriam.

Casaram e se mudaram

Cataram e juntaram os dias.

 

Era noite escura quando a chuva traiçoeira os pegou de surpresa.

 

Com a enxurrada que escorria

Descia lama

Água barrenta

Tramas

Trincas

Trancos

Pedra

Tronco

Parafuso

 

Donana e Titonho perderam o pouco que tinham, assim como famílias de carne e osso que moravam no alto da Rocinha.

Fechei o livro com o coração aflito. Como era possível ter gostado tanto de uma história tão triste? Seria tão bom se ela não precisasse ser  contada!

Felizmente Ninfa Parreiras não está anestesiada para o sofrimento alheio. Seu Donana e Titonho é um brado contra a indiferença, que transforma vidas humanas em números. Estatísticas fatais que poderiam ser evitadas. Basta de tanta omissão e descaso!

 

  • Donana e Titonho

Ninfa Parreiras e André Neves

Editora Paulinas

R$ 32,50

Arrancar as raízes

Li os três livros em sequência: primeiro Kindred, depois Minha História e por último Cadernos de memórias coloniais. Só bem no final é que me dei conta do vinculo que os unia. De estilos e abordagens bem diferentes, todos foram escritos por mulheres, e se não discorrem abertamente sobre os horrores e as consequências da escravidão tocam no tema, quer ela tenha ocorrido em tempos passados ou mais recentes.

Kindred – Laços de sangue foi escrito por Octavia E. Butler, considerada uma das grandes damas da ficção científica norte-americana. Sua literatura apresenta personagens femininos fortes, como a protagonista principal de Kindred. O livro conta a história de Dana – esse é seu nome – que ao mudar-se para um novo apartamento com o marido, inexplicavelmente é transportada de 1976 para o século XIX.  A viagem no tempo a coloca numa situação muito perigosa porque ela é negra e vai parar numa fazenda sulista americana onde se torna escrava.

A minha impressão é de que Kindred – laços de sangue foi escrito para um público jovem. A narrativa mostra que o racismo se aprende pelo exemplo, e que se não for combatido passará de uma geração para outra como um comportamento natural e justificável.

A segunda leitura foi Minha História de Michelle Obama. Preciso admitir que logo no início – ainda no prefácio – fiquei encantada com a franqueza e a escrita desenvolta da autora. Apesar dos avanços, duramente conquistados pelos afro-americanos, os estereótipos entranhados por uma sociedade escravocrata persistem.

“Era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa. Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudante e até de certos professores como se quisessem dizer: Eu sei por que você está aqui.”

Ou quando durante a campanha do marido, Michelle se questionou se o país estaria preparado para eleger um presidente negro. Durante os oito anos em que morou na Casa Branca ela sabia que era julgada com mais rigor do que as predecessoras. Como se esperassem que, a qualquer momento, ela fizesse uma besteira para legitimar o preconceito.

O último livro, Cadernos de memórias coloniais de Isabela Figueiredo, tocou-me fundo. Apesar de não ser uma retornada, sou da mesma geração que a escritora. Se não nasci numa província ultramarina (nome dado às colônias), cresci ouvindo comentários degradantes sobre a população nativa.

A autora recorda o passado idílico vivido pelos colonos portugueses às custas de um povo que só conceitualmente não podia ser descrito como escravizado. Pela pouca idade que tinha na época, essa conta não lhe pode ser cobrada.

Os adultos com o passar do tempo procuram justificativas para as próprias atitudes, as crianças não. O entendimento do que é certo ou errado ainda não se esmaeceu com subterfúgios atenuantes. É sofrido acompanhar a divisão interna sentida pela autora, em relação ao próprio pai. Se por um lado não compactuava com o pensamento dele, por outro amava-o profundamente.

O livro é brutal e verdadeiro. Muitos leitores se queixaram que Isabel exagerou nas tintas. Não é essa a minha opinião. Mesmo sem ter estado lá, reconheço que essa ideologia respingou em mim e desde sempre esforço-me para que ela não contamine as minhas atitudes ou pensamentos.

Kindred, Minha História e Cadernos de memórias coloniais espoem as diversas faces do racismo, e reforçam a necessidade de continuar arrancando as  raízes desse mal  profundamente entranhado na nossa sociedade.

 

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