Janelas Abertas

Conheci o livro Janelas Abertas através de um vídeo postado na internet pela escritora baiana Mariana Paiva. Logo me interessei pelo tema que costuma ser pouco explorado: o de uma adolescente que mora com a mãe, em um quartinho, no apartamento onde esta trabalha como empregada doméstica.

Não foi fácil encontrar o livro publicado por uma pequena editora do interior de SP.  Precisei encomendá-lo, e assim que chegou, fiquei encantada com o caprichado projeto gráfico da editora Adonis.

Jéssica, a personagem principal, mora em um bairro de classe média alta e estuda numa escola pública. Ganha muitos presentes, mas não são exatamente os que gostaria de receber, porque são usados. Tem afeto pela patroa da mãe que sempre a tratou bem, mas ao mesmo tempo, ressente-se por ela pagar pouco.

À medida que a história se desenrola outros assuntos espinhosos, como preconceito racial e violência doméstica são apresentados, e o que inicialmente parecia ser uma relação desigual na verdade esconde segredos.

A narrativa tem diversas qualidades. Além de ser ágil, aborda um tema desconfortável de maneira inteligente e nem um pouco maniqueísta. Apesar de viver na interseção de dois mundos distintos, Jéssica não é amarga, nem se faz de vítima. Ela apenas procura encontrar saídas para não repetir as escolhas feitas pela mãe.

Nesse processo de autoconhecimento Jéssica contará com o apoio da melhor amiga e de uma professora.

Janelas Abertas é uma história bonita e questionadora que merece ser lida e recomendada aos jovens leitores.

 

 

  • Janelas Abertas

Lia D’Assis

Editora Adonis

R$ 39,50

 

 

 

A ponte que faltava

Dei-me de presente uma linda caixa de lápis de cor. Daquelas que fazem os olhos de qualquer criança ou adulto brilharem de desejo.

A caixa veio em três camadas que arrumei em dégradé de cores. Em um caderno de páginas sem pauta rabisquei cada um dos setenta e dois lápis, e ao lado de cada cor escrevi o nome correspondente. Surpresa, constato que poucas foram as cores que receberam os nomes simples que sempre conheci.  Certo que o laranja continua sendo laranja, assim como o preto continua sendo preto e o branco, branco. Quanto às outras, há uma infinidade de denominações bem criativas: Tem o amarelo canário, o amarelo sol, o amarelo limão e o amarelo espanhol; o azul, por sua vez, tanto pode receber o nome de uma ave (pavão), como ser uma cidade (Copenhagen), ou ser nuvem (esse eu achei que acertou em cheio! Antes de saber como se chamava, risquei-o no papel e pensei que se precisasse pintar uma nuvem essa seria a cor perfeita). Quanto aos verdes, tem para todos os gostos: o papagaio, a primavera, a maçã, o jade, a grama… Só não encontrei o conhecido verde bandeira nem o verde abacate.

Se a maior caixa de lápis que eu tive possuía apenas duas tonalidades de cinza (uma mais escura do que a outra) e que duraram uma eternidade porque eram pouco usadas – assim como o branco -, agora diante de mim eu tinha nove (eu disse nove!) cinzas diferentes. Os quentes e os frios, que por sua vez se subdividiam em percentuais de 20, 50, 70, como se fossem a gradação do cacau contido nos tabletes de chocolate. Um em especial achei muito elegante, o cinza francês, que me lembrou invernos chuvosos parisienses.

Acaricio os lápis com volúpia, sentindo-os rolar sob as pontas dos dedos. A caixa de lápis de cor é a minha “madeleine”. Vejo-me criança pintando e escrevendo histórias, pouco importando se seriam lidas, apenas desfrutando o que a imaginação generosamente me oferecia.

Interiormente, anseio que os lápis de cor sirvam de ponte para conectar a menina criativa que fui à mulher – preocupada em não errar – que sou hoje.

Mentes disciplinadas (e outra nem tanto)

No mês de abril comemora-se o Livro Infantil. Por essa razão muitas escolas realizam feiras de livros e promovem encontros dos escritores com os alunos como forma de incentivá-los a ler.

Foi assim que na semana passada visitei o Colégio Padre Antônio Vieira e no dia seguinte o Colégio Nª Srª das Mercês para conversar sobre A Pergunta Mais Importante e O Menino Enrolado.

Por mais que aprecie esses encontros, é sempre com um friozinho na barriga que encaro todas aquelas crianças reunidas. Afinal sou eu sozinha diante de um público normalmente agitado e perguntador, que perde a concentração com facilidade.

Já conhecia o primeiro colégio, inclusive foi onde meus filhos estudaram assim que viemos morar em Salvador. Quanto ao segundo tive uma agradável surpresa. Apesar de ficar na tumultuada Avenida Sete de Setembro, seus amplos e extensos corredores com tetos altos, seu pátio interno ensolarado e florido com o nicho da santa ao fundo, remeteram-me à época em que estudei num colégio de freiras em Sintra, e fizeram-me esquecer a azáfama barulhenta do mundo lá fora.

A apresentação nas Mercês aconteceu no turno da manhã e correu melhor do que esperava. Quando terminou, dei os parabéns à coordenadora e comentei que tinha achado a turma muito participativa e interessada. Ela agradeceu, e disse que talvez fosse porque os alunos estavam aprendendo a meditar. Era bem possível que por saberem se concentrar conseguissem aproveitar melhor as atividades que lhes eram oferecidas. De novo parabenizei-a pela iniciativa. Quem sabe não era esse o empurrão que faltava para as crianças descobrirem o prazer da leitura? Como mergulhar numa história se a mente não sossega para focar na página de um livro?

De volta ao burburinho externo do colégio, tinha pela frente uma hora de espera, antes de me encontrar com uma amiga com quem marcara um almoço no Porto do Moreira, tradicional restaurante no centro da cidade onde se come um delicioso frango ao molho pardo.

Caminhando pela Avenida Carlos Gomes avistei do outro lado da calçada a Livraria Vozes escondida atrás de grades intimidantes.  E se eu entrasse só para conferir os lançamentos? Como trazia dentro da bolsa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, (que pretendia ler no restaurante caso minha amiga se atrasasse um pouco) imaginei estar protegida e entrei confiante certa de que nada poderia me seduzir.

Interessante como cada livraria tem um estilo próprio de expor as novidades. Enquanto as maiores dão ênfase às editoras que pagam para ter seus lançamentos bem visíveis, as livrarias menores revelam muito as preferências literárias do responsável por arrumar as mesas expositoras. Livros que normalmente iriam direto para a estante ganham destaque e visibilidade.

Folheei um livro, peguei outro… Estava tudo sobre controle até que o meu olho bateu num livro bonito de capa dura: Os Conquistadores – Como Portugal forjou o primeiro império global. Fingi não estar interessada e segui adiante. Demorei-me na livraria o máximo que pude testando a minha força de vontade. Mas quando precisei sair para não chegar atrasada ao meu encontro, joguei para o alto os bons propósitos e decidida dirigi-me até ao caixa levando não um, mas dois livros: Conquistadores do historiador inglês Roger Crowley e, Amar… Apesar de tudo do padre filósofo, Jean-Yves Leloup. Afinal encontrava-me em uma livraria religiosa e, por que fingir, a minha força de vontade estava há muito tempo totalmente desacreditada!

 

  • Conquistadores – Como Portugal forjou o primeiro império Global

Roger Crowley

Selo Crítica (Editora Planeta)

R$ 69,90

 

  • Amar… Apesar de tudo: para que cada um de nós transforme o seu destino em um projeto consciente

Jean-Yves Leloup

Editora Vozes

R$30,00

 

 

Como Ser As Duas Coisas (ou nenhuma)

Tenho uma palavra para dizer como me senti quando comecei a ler Como Ser As Duas Coisas de Ali Smith: Decepcionada. Ok, uma segunda: Frustrada. Bom, quem diz duas palavras diz três: Zangada.

Nunca tinha lido nada dessa autora de quem só ouvi falar maravilhas. O livro foi finalista do Man Booker Prize 2014 e ganhou diversos prêmios. Enfim, só podia ser coisa boa. Toda empolgada comecei a ler a primeira pagina e não entendi nada. Insisti mais um pouco e continuei na mesma. Deveria ser o cansaço. Fechei o livro e apaguei a luz.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que vi na mesinha de cabeceira foi o livro, e fiquei um tantinho mal humorada. Antes mesmo de por o pé no chão decidi que a experiência da noite anterior não iria me intimidar, e retomei a leitura.

 

“Ho isso aqui se contorce à maravilha é veloz como um                                                                         

peixe puxado pela boca no anzol                                                                                                             

se um peixe pudesse ser pescado através de uma                                                                              

parede de dois metros de espessura ou uma                                                                                  

 flecha se uma flecha pudesse voar numa mansa                                                                                    

espiral como a mola de um caracol ou uma                                                                                        

estrela com cauda se a estrela fosse arremessada                                                                                    

ao alto além de larvas e vermes e (…)”

 

E por aí vai. Li e reli umas três vezes, espiei as páginas seguintes e percebi que a escrita continuava sem fazer o menor sentido para mim.

Como diz um amigo, “detesto livros ou filmes que são mais inteligentes que eu!” Decepcionada, frustrada e zangada deixei-o de lado. Não valia a pena insistir quando não tenho tempo para ler tudo o que desejo.

Fui à pilha que não para de crescer, e peguei o terceiro volume da tetralogia da Elena Ferrante, História De Quem Foge e De Quem Fica. Deste eu tenho certeza que vou gostar.

 

  • Como ser as duas coisas

Ali Smith

Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,90

 

  • História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante

Editora Globo (coleção Biblioteca Azul)

R$ 44,90

 

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