Terra Americana

A primeira vez que ouvi falar no livro Terra Americana, da escritora Jeanine Cummins, foi na revista O da apresentadora Oprah Winfrey. Além de fazer rasgados elogios, ela o incluiu no seu famoso clube de leitura. Fiquei bastante interessada e, em tempos de pandemia, pensei em comprá-lo no formato audiolivro apesar de ter dúvidas se entenderia um inglês mais coloquial e carregado de gírias. Felizmente, no mesmo dia precisei ir ao supermercado e, como já estava na rua, aproveitei para ver as novidades na Livraria Argumento que voltara a funcionar depois de ficar fechada por quatro meses. E lá estava ele, exposto na sessão dos lançamentos. Mais não preciso dizer.

Terra Americana começa de forma eletrizante: uma família inteira é chacinada durante uma comemoração de aniversário de quinze anos. Salvam-se apenas um menino de oito anos e sua mãe, Lydia. O mandante foi Javier, chefe do cartel de narcotráfico mais poderoso de Acapulco no México.

Até a tragédia acontecer, Javier e Lydia eram amigos. Eles se conheceram quando Javier se tornou um cliente assíduo da livraria que era de Lydia. Os dois tinham gostos literários muito parecidos, as conversas fluíram facilmente, e, pouco a pouco, estavam falando de suas vidas.

Mesmo depois de saber pelo marido, que era jornalista, a verdadeira identidade desse cliente gentil e educado, ela não conseguiu romper a amizade com Javier. Talvez por essa razão, não esperasse que ele reagisse de forma tão violenta quando saiu no jornal uma matéria, escrita pelo marido, dizendo quem realmente Javier era, e falando dos crimes que ele cometera.

Apavorada, Lydia precisou fugir com o filho e se tornou, de uma hora para outra, num daqueles casos que costumava acompanhar pelo noticiário com distanciamento e uma certa pena: o de homens, mulheres e crianças que, pelos mais variados motivos, tentavam entrar a todo custo nos EUA.

Inicialmente o livro foi recebido com muitos elogios tanto por outros escritores quanto pelo público. John Grisham chegou a dizer: “Escrevo porque gosto de ler e há muito que uma leitura não me provocava tanta emoção. O enredo é inteligente e imprevisível. A mensagem é oportuna sem ser política. As personagens são violentas, bondosas, frágeis e heroicas. É um livro autêntico.”

Entretanto, logo surgiram vozes discordantes dizendo que a autora não tinha legitimidade para falar sobre migração ilegal porque, além de não ser mexicana, não vivenciara as situações descritas no livro. Jeanine defendeu-se afirmando que havia procurado dar visibilidade ao sofrimento dos migrantes clandestinos e que, durante cinco anos, pesquisara exaustivamente sobre o tema, chegando a visitar o México diversas vezes para poder narrar com maior veracidade as histórias daqueles que eram tratados como indesejáveis.

Vivemos tempos estranhos. Desde quando um escritor precisa se perguntar se pode ou não abordar um tema que lhe interesse? Quem diz o que um escritor pode ou não escrever? Um homem não se pode imaginar sendo mulher e vice-versa? Alguém que veio de uma classe social mais favorecida não pode se colocar no lugar de um desvalido? Uma pessoa que enxerga não pode criar um personagem deficiente visual? Quem não matou ninguém não pode escrever sobre assassinatos? Outros olhares e visões de mundo não são mais permitidos? Onde fica o contraditório, a imaginação e principalmente a empatia? Um bom escritor oferece ao leitor a chance de conhecer outras vidas, de “calçar os sapatos do outro”. Qualquer movimento que impeça um escritor de falar através de seus personagens tem, para mim, um nome: censura.

No meio da algazarra surgiu uma voz respeitada no mundo literário para defender o livro: o da escritora Sandra Cisneros, de origem mexicana. Inicialmente ela disse que “Terra Americana não é apenas o grande romance americano, é também o grande romance de Las Americas, o grande romance do mundo! A história internacional dos nossos tempos”. Como a polêmica continuasse, insistiu: “Terra Americana tem o potencial de educar um público que não foi previamente exposto às histórias dos migrantes, que desconhece os problemas que acontecem nas fronteiras. Alguém comprará o livro pensando apenas em se divertir, e a história entrará como um cavalo de Troia, trazendo reflexões e conhecimento. Terra Americana vai mudar as mentes (dos americanos), de um jeito que eu não consegui fazer com as minhas histórias”

Se essa não é a função primordial de um livro, não sei mais o que dizer.

Avó em dobro

Em tempos de corona vírus, as redes sociais andam frenéticas. Muitas notícias falsas, outras relevantes e as minhas favoritas: as postagens divertidas.

Peço desculpas por reescrever uma piada que, com certeza, já leram centenas de vezes, mas ela me fez rir quando chegou pela primeira vez no WhatsApp: “Querido Deus, podemos desinstalar o ano de 2020 e reinstalá-lo? Veio com um vírus!”

Diferentemente de quem o enviou, não quero deletá-lo, não. Apesar dos pesares foi no início do mês que nasceu o meu primeiro neto e, como podem imaginar, estou explodindo de felicidade.

Assim que espalhei a notícia, recebi no mesmo dia de minha amiga C. um presente especial, Colo de avó, escrito por Roseane Murray e ilustrado por Elisabeth Teixeira.

A casa da avó

às vezes é um circo.

A avó é a palhaça Coração,

de peruca cor-de-rosa

e retalhos no macacão

(…)

O neto é mágico, domador de feras

e engolidor de fogo,

tira moedas e a sortes das orelhas.

Às vezes, a farra é tanta

que a avó-coração se derrete

e inunda a sala

de sinos e risos.

C. me avisou que apesar de o livro ser encantador, em breve eu receberia outro, com o qual me identificaria mais.

Dito e feito, uma semana depois chegou Minha avó, escrito e ilustrado pela Mariana Massarani. Ele conta a história de uma menina que conversa com a avó através da internet. É o jeito possível de demonstrar amor e carinho, quando se mora bem longe de quem se gosta.

O mesmo acontece comigo e com meu neto: um oceano e muitas terras nos separam. Se não fosse essa pandemia… Ah, com certeza eu estaria, neste exato momento, estreitando-o nos meus braços.

Enquanto esse dia não chega, as fotos e os vídeos que recebo do bebê me confortam, e os livros me auxiliam a esquecer, um pouco, o isolamento forçado.

Donana e Titonho

Durou pouco mais de duas horas a tempestade que desabou sobre o Rio de Janeiro, na última noite de quarta-feira (06/02/19). Ventos a 100 km por hora e chuvas torrenciais derrubaram postes de eletricidade deixando diversos pontos da cidade às escuras. Como se tivessem sido arrancadas pela mão de um gigante enfurecido, árvores que aparentavam robustez expunham na manhã seguinte raízes desnudadas. A chuva arrastou carros largando-os submersos a metros de distância. Toneladas de lixo foram jogadas nas ruas e nas praias. A lama deslizou pelas encostas, soterrando casas e um ônibus. Sete pessoas morreram.

Ao acompanhar as notícias da tragédia foi impossível não lembrar de Donana e Titonho, personagens do livro de Ninfa Parreiras, ilustrado por André Neves.

De forma poética, a autora narra a história de um casal de catadores de lixo que construiu uma vida sem alicerces e sonhos pequeninos.

 

Tonho conheceu Nana

Entre escombros

Duma casa caída

O moço cavava a terra

A moça desenrolava fios

Juntos montaram um canto.

Com peças que descobriam.

Casaram e se mudaram

Cataram e juntaram os dias.

 

Era noite escura quando a chuva traiçoeira os pegou de surpresa.

 

Com a enxurrada que escorria

Descia lama

Água barrenta

Tramas

Trincas

Trancos

Pedra

Tronco

Parafuso

 

Donana e Titonho perderam o pouco que tinham, assim como famílias de carne e osso que moravam no alto da Rocinha.

Fechei o livro com o coração aflito. Como era possível ter gostado tanto de uma história tão triste? Seria tão bom se ela não precisasse ser  contada!

Felizmente Ninfa Parreiras não está anestesiada para o sofrimento alheio. Seu Donana e Titonho é um brado contra a indiferença, que transforma vidas humanas em números. Estatísticas fatais que poderiam ser evitadas. Basta de tanta omissão e descaso!

 

  • Donana e Titonho

Ninfa Parreiras e André Neves

Editora Paulinas

R$ 32,50

Isto é um poema que cura os peixes

 

Sigo o blog Brain Pickings da escritora e crítica literária Maria Popova, que trocou a Bulgária, sua terra natal, pelos EUA. Ela é novinha, tem apenas 35 anos, e apesar da pouca idade tem uma cultura vastíssima. Ao pesquisar um pouco mais, soube que, quando era criança, uma das avós costumava ler para ela os mais variados textos selecionados de enciclopédias. De tudo o que acompanho no blog, um dos meus temas favoritos é o dedicado à literatura infantil.

Antes de prosseguir, preciso admitir que não costumo ler poesia. Tenho a impressão de tratar-se de um idioma estrangeiro, com uma musicalidade diferente, ao qual não fui apresentada. Mesmo assim, fiquei bastante curiosa ao ler sobre Isto é um poema que cura os peixes. O título criativo e as ilustrações postadas fizeram com que o procurasse aqui no Brasil.

O livro não é uma novidade. Na verdade, Isto é um poema que cura os peixes foi reeditado pela  SM em 2017. Mas como todo o livro que se conhece pela primeira vez, pelo menos para mim, era como se fosse um lançamento.

O texto do poeta francês Jean-Pierre Siméon recebeu as belíssimas ilustrações de Olivier Tallec. A editora teve o cuidado de escolher o poeta Ruy Proença como tradutor.  A primeira vez que  li a história foi em inglês. Estranhei o fato da palavra “boredom” ter sido traduzida em português por “tristeza”. Afinal, “morrer de tédio” é uma coisa e “morrer de tristeza” é outra bem diferente. Quem estaria com a razão? Procurei o original e a palavra é “ennui” e “ennui” é tédio!

Por que não foi feita a tradução literal da palavra? Será que editora e tradutor acharam que as crianças não a conheceriam? Difícil de acreditar, afinal desde a mais tenra idade todos nós conhecemos esse sentimento e continuamos pela vida a fora a vivenciá-lo.

Com exceção desse pequeno “ruído” inicial: “Mãe meu peixe está morrendo! Depressa, o Léo vai morrer de tristeza!”, a leitura é extremamente prazerosa.

A mãe diz ao filho para ele oferecer um poema ao peixinho. O menino não sabe o que isso é. Procura e pergunta em todo o lugar, e, acaba por ficar mais confuso. Ele não sabia que existiam tantas respostas tão diferentes umas das outras. E foi o que ele disse a Léo e, consequentemente, a mim também:

Se o coração não estiver entediado, a vida é um infinito poema em desenvolvimento.

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