Difícil de acreditar

Ano que vem todas as escolas públicas do país deverão possuir uma biblioteca. Como se trata de uma lei promulgada em 2010*, em tese, poderíamos dizer que houve tempo suficiente para implementar essa norma. Infelizmente, duvido que isso venha a acontecer. Pela minha experiência, como voluntária numa escola municipal, sei das dificuldades enfrentadas pela direção para manter em funcionamento a sala de leitura da instituição.

Se a secretaria de educação da prefeitura não consegue completar o quadro de professores necessários para estar nas salas de aula; se é preciso recolher donativos, entre os funcionários e voluntários, para cobrir as despesas de recuperação das salas que foram atingidas pelas destrutivas chuvas de verão; então, é difícil acreditar que, no próximo ano, cada escola terá um profissional dedicado à biblioteca. (Para que uma sala de leitura possa ser chamada de biblioteca é preciso a presença de um profissional especializado, no caso um bibliotecário.)

Não fosse pela parceria com a OSCIP “Parceiros da Educação”, a sala de leitura estaria fechada. Uma amiga – sabendo o quanto esse assunto me mobiliza – indicou-me para trabalhar como voluntária. Agora, uma vez na semana, sou monitora de leitura das turmas do 4º e 5º ano.

Lembro da primeira vez que visitei o lugar onde iria trabalhar. Tive a impressão de entrar numa sala repleta de preciosidades literárias.

Mesmo reconhecendo que muitos livros precisam ser descartados ou substituídos por outros mais novos, a sala de leitura é um oásis para os alunos que, infelizmente, ainda não perceberam o seu imenso valor.

Até 2014, o governo federal investia na renovação dos acervos das bibliotecas escolares. Chegavam às mãos das crianças os lançamentos estalando de novos. Mas, de lá para cá, isso deixou de acontecer.

Como seduzir as crianças com livros visualmente pouco atraentes? Primeiro, é preciso oferecer “iscas” suculentas, para depois mostrar-lhes as machucadas, com as páginas soltas. Elas também podem ser bem saborosas. Foi assim, arrumando estantes e livros que encontrei “Os restos mortais”.

Publicado em 1994, o estado físico do livro não era dos melhores. Folheei-o com curiosidade. Afinal, tratava-se de uma história escrita pelo exímio contador de histórias, o mineiro Fernando Sabino. Os contratempos do personagem principal para enterrar um empregado que era muito estimado pelo seu pai, possuem um humor ácido que contrasta com o final sensível da narrativa.

Ano passado o governo federal lançou um edital para retomar o programa de distribuição de livros nas escolas públicas. Os que forem selecionados deverão ser entregues no final deste ano, e só estarão disponíveis nas salas de leitura em 2020. Já não era sem tempo.

A leitura é a seiva que nutre toda aprendizagem. Se as crianças não descobrirem o  quanto ela pode ser prazerosa, logo os estudos se tornarão enfadonhos e, possivelmente, abandonados. Muitas vezes, a sala de leitura é o único lugar onde os alunos, que estudam em escolas socialmente mais vulneráveis, têm acesso aos livros.

Como é possível descuidar de algo tão importante, num país tão desigual quanto o nosso?

*lei 12.244 de 2010

  • Os restos mortais

Fernando Sabino

Editora Ática

R$ 45,00

 

Mergulho na Escrita com Silvia Carvão

Comecei 2019 animada, com vontade de escrever mais, muito mais. Por essa razão, inscrevi-me na primeira oficina do ano no Instituto Estação das Letras : Mergulho na Escrita, ministrada pela Silvia  Carvão.

O grupo de participantes era pequeno. Talvez porque os encontros aconteceram no turno da manhã ou porque muita gente ainda estava de férias. Para nós, isso foi ótimo porque a interação aconteceu mais rapidamente. Durante cinco manhãs consecutivas as preocupações do cotidiano nem chegaram a arranhar a bolha de encantamento que Silvia preparou para nós.

Ouvimos canções de artistas brasileiros (não direi quais para não estragar a surpresa de futuros participantes, apesar de ter certeza que Silvia renova o seu repertório a cada oficina), brincamos com os nossos nomes próprios, relembramos cenas da infância, criamos personagens, inventamos histórias e fizemos uma infinidade de outras atividades.

Graças ao jeito acolhedor de Silvia, minhas colegas e eu escrevíamos velozmente sem nos preocuparmos com certo ou errado. As ideias simplesmente brotavam no papel. Entre uma atividade e outra, Silvia lia para nós.

Numa tarde, depois de um dia do curso, fui visitar uma amiga que se encontrava hospitalizada. Faltava pouco para ser operada , mas além de estar amedrontada, o tempo que restava para a realização do procedimento custava-lhe a passar. Tentei distraí-la sem muito sucesso. Não sabia mais o que dizer quando lembrei dos textos que escutara de manhã.

Li um, dois e um terceiro que, por fim, a fez sorrir. Logo chegaram os enfermeiros.

Como era previsto, tudo correu bem. Dias depois voltei a visitá-la. Bem disposta e com o semblante tranquilo, minha amiga pediu: Paula, conte de novo a história do diabinho.

E foi o que eu fiz.

Aconteceu às quatro da tarde, em plena luz do dia. O menino estava lá, espichado como um gato, na rede em seu quarto. Caderno e lápis na mão. Balançando suavemente, estava inventando uma história, quando viu pela janela o diabo pulando o portão de sua casa.

Estremeceu. Seus pais haviam saído para fazer compras e sua irmã ainda não voltara da escola.

O diabo veio caminhando pelo jardim, em direção à porta, pisoteando as margaridas que se insinuavam ao vento. Na hora o menino pensou que o diabo, com seus poderes demoníacos ia atravessar as paredes, mas ele simplesmente deu um sopro diabólico e seu bafo insuportável derreteu a porta instantaneamente. Depois, ao chegar no quarto e ver o menino apavorado na rede, deu um sorrisinho perverso e , exalando seu mau cheiro infernal, disse diabolicamente:

– Vim te pegar, garoto. Vou te levar pro inferno.

Mas aí inesperadamente, o menino perdeu o medo. Espichou-se então pela rede, todo belo e formoso, sem dar a mínima pro diabo.

– Você não pode me pegar – o menino disse.

-Posso – reagiu o diabo avançando com a sua cara de mau.

O menino retrucou:

– Não pode!

O diabo ficou mais endiabrado ainda e esbravejou:

– Por que não?

– Porque eu posso parar de escrever – disse o menino.

E parou.

(Carrascoza, João Anzanello. Nova Escola, Abril de 1991)

 

Em silêncio, agradeci a Silvia que, sem saber, transformou histórias num santo remédio.

Velhos são os outros!

O título do mais recente livro de Andréa Pachá, Velhos são os outros, remeteu-me ao de um outro livro: Precisamos falar sobre Kevin. Eles não têm absolutamente nada em comum. Nada, nadinha mesmo. Mas o “precisamos falar sobre…” ficou zunindo na minha cabeça. Precisamos falar sobre a velhice, e com urgência!

O assunto costuma ser jogado para debaixo do tapete, como se o silêncio nos mantivesse jovens para sempre. Verdade seja dita, que graças aos avanços da medicina, morre-se cada vez mais tarde. Até recentemente era raro ter na família um parente com mais de oitenta anos, quanto mais dois ou três! Antes a velhice se escondia, hoje está aí, digna e visível para quem quiser ver.

Lembro de ficar surpresa quando, há uns trinta anos, presenciei uma senhora estrangeira fazer turismo numa cadeira de rodas. Ela entrava e saía da van, ajudada pelo marido, com a maior naturalidade. Para mim esse comportamento era uma novidade. Estava habituada com idosos trancados em casa,  envergonhados de expor publicamente as suas limitações locomotoras. Felizmente isso mudou. Recentemente, vi uma velhinha conduzindo lépida e fagueira a sua cadeira de rodas motorizada, numa calçada movimentada de Ipanema.

Mas divago. Apesar de ser desse jeito desembaraçado que pretendo encarar no futuro a minha velhice, infelizmente, isso nem sempre acontece, de acordo com a juíza Andréa Pachá. O título do livro foi pinçado de uma conversa que teve com a mãe, quando lhe perguntou quando ela se havia percebido velha. Do alto dos seus longevos 77 anos a mãe respondeu: Velha, eu? Velhos são os outros!

A escritora é juíza há 24 anos e, inicialmente, trabalhou numa Vara de Família. Os embates que presenciou e julgou viraram as emocionantes histórias reunidas no livro A vida não é justa.

Atualmente, Andréa está lotada numa Vara de Sucessões. Graças ao seu olhar compassivo, consegue enxergar por trás dos processos de linguajar frio e empolado, os conflitos que eles escondem.  Ao recontar essas histórias, ela dá voz aos idosos para expressarem livremente seus desejos e necessidades.

Mas o livro também faz um alerta: Não adianta querer esconder o sol com a peneira, e fingir que a velhice só chega para os outros. É preciso aceitar com serenidade a natural ação do tempo, deixando tudo bem explicado e resolvido, para que as últimas vontades sejam respeitadas e não haja brigas  entre parentes quando não se estiver mais por aqui.

Encontro Marcado

Uma amiga de Salvador  ligou querendo saber se eu conhecia na cidade algum grupo que se reunisse para trocar livros.

Não estava à procura de um clube de leitura, onde todos os participantes lêem o mesmo livro, para depois conversarem e trocarem opiniões sobre ele.  O que ela queria mesmo era fazer um empréstimo: “o meu pelo seu”.

Estava interessada em Leonardo da Vinci, escrito por Walter Isaacson. Assustou-se ao saber quanto custava. Chegou a encontrar opções mais em conta no site Estante Virtual, mas, na verdade, também lhe faltava espaço para guardar novos livros em casa. Um clube de trocas seria perfeito.

Achei a idéia ótima, mas infelizmente não conhecia nenhum clube assim. Sugeri que criasse um grupo entre amigos sabidamente leitores, onde cada um diria o que gostara de ler e o que se dispunha a emprestar. Se fosse feita uma “ata” da reunião caso o livro emprestado demorasse a ser devolvido seria facilmente rastreado. Ela riu e disse que me escolheria para ser a presidente do grupo.

No decorrer da conversa sobre livros, livrarias e sebos, comentei que tinha ficado muito satisfeita ao reencontrar no Rio, depois de ficar fora dezesseis anos, uma locadora de livros funcionando no mesmo lugar.

Diferentemente das locadoras de filmes – que fecharam as portas por causa da concorrência desleal da pirataria e dos novos canais de televisão – lá estava ela firme e forte, resistindo a crises e às novas tendências de leitura. Felizmente, ainda existe toda uma geração de leitores que não aderiu ao livro digital.

A Locadora de Livros Encontro Marcado fica no segundo andar de uma galeria em Ipanema, pertinho do metrô da Nossa Senhora da Paz. O acervo escolhido a dedo é basicamente de ficção e está muito bem conservado. Não dá nojinho manusear um livro sobre o qual não se sabe quantas pessoas folhearam antes de você. Para quem gosta de literatura policial, a locadora é um prato cheio.

E se a minha amiga morasse no Rio, com certeza, encontraria o livro que procura.  Karen, a proprietária do espaço, tem o cuidado de adquirir os lançamentos mais desejados.

Em tempos de espaços pequenos com poucas estantes e orçamentos apertados a Locadora Encontro Marcado é um achado!

 

  • Locadora de Livros Encontro Marcado

Rua Visconde de Pirajá, 303/s.loja 202

Ipanema

Tel. (021) 2287-8702

karenk@mls.com.br

Horário de funcionamento:

segunda, quarta e sexta das 10 às 17 hs

terça e quinta das 12 às 19 hs

sábado das 10 às 14 hs

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