Encontro Marcado

Uma amiga de Salvador  ligou querendo saber se eu conhecia na cidade algum grupo que se reunisse para trocar livros.

Não estava à procura de um clube de leitura, onde todos os participantes lêem o mesmo livro, para depois conversarem e trocarem opiniões sobre ele.  O que ela queria mesmo era fazer um empréstimo: “o meu pelo seu”.

Estava interessada em Leonardo da Vinci, escrito por Walter Isaacson. Assustou-se ao saber quanto custava. Chegou a encontrar opções mais em conta no site Estante Virtual, mas, na verdade, também lhe faltava espaço para guardar novos livros em casa. Um clube de trocas seria perfeito.

Achei a idéia ótima, mas infelizmente não conhecia nenhum clube assim. Sugeri que criasse um grupo entre amigos sabidamente leitores, onde cada um diria o que gostara de ler e o que se dispunha a emprestar. Se fosse feita uma “ata” da reunião caso o livro emprestado demorasse a ser devolvido seria facilmente rastreado. Ela riu e disse que me escolheria para ser a presidente do grupo.

No decorrer da conversa sobre livros, livrarias e sebos, comentei que tinha ficado muito satisfeita ao reencontrar no Rio, depois de ficar fora dezesseis anos, uma locadora de livros funcionando no mesmo lugar.

Diferentemente das locadoras de filmes – que fecharam as portas por causa da concorrência desleal da pirataria e dos novos canais de televisão – lá estava ela firme e forte, resistindo a crises e às novas tendências de leitura. Felizmente, ainda existe toda uma geração de leitores que não aderiu ao livro digital.

A Locadora de Livros Encontro Marcado fica no segundo andar de uma galeria em Ipanema, pertinho do metrô da Nossa Senhora da Paz. O acervo escolhido a dedo é basicamente de ficção e está muito bem conservado. Não dá nojinho manusear um livro sobre o qual não se sabe quantas pessoas folhearam antes de você. Para quem gosta de literatura policial, a locadora é um prato cheio.

E se a minha amiga morasse no Rio, com certeza, encontraria o livro que procura.  Karen, a proprietária do espaço, tem o cuidado de adquirir os lançamentos mais desejados.

Em tempos de espaços pequenos com poucas estantes e orçamentos apertados a Locadora Encontro Marcado é um achado!

 

  • Locadora de Livros Encontro Marcado

Rua Visconde de Pirajá, 303/s.loja 202

Ipanema

Tel. (021) 2287-8702

karenk@mls.com.br

Horário de funcionamento:

segunda, quarta e sexta das 10 às 17 hs

terça e quinta das 12 às 19 hs

sábado das 10 às 14 hs

Conheci uma ilustradora de histórias

Uma das razões que me deixou animada para voltar a morar no Rio de Janeiro, foi a possibilidade de participar de cursos e palestras que não aconteciam em Salvador, e dos quais era informada através das redes sociais.

Assim que me instalei, matriculei-me na Estação das Letras. Até agora já me inscrevi em dois cursos: a oficina de Contação de Histórias com Francisco Gregório Filho, e o curso Letras de Brincar com Ninfa Parreiras.  Tanto um quanto o outro corresponderam as minhas expectativas, visto terem sido ministrados por profissionais apaixonados pelos respectivos ofícios. Entretanto, o que não esperava é que os meus colegas de turma tivessem algo a me ensinar.

Os participantes dos dois cursos foram diferentes. Apesar de uma natural timidez, gosto das apresentações iniciais quando cada aluno fala um pouco sobre a trajetória pessoal e por que está ali. Os relatos são bem diferentes, mas temos um ponto comum: o apreço pelas histórias quer sejam elas narradas oralmente, escritas ou ilustradas.

Em um post anterior comentei sobre a professora Sergiane que conheci na oficina de Contação de Histórias. A sua motivação era encontrar outros caminhos que estimulassem os alunos a descobrirem o prazer da leitura.

Hoje, quero apresentar Elê Nogueira, artista plástica, minha colega no curso realizado pela escritora e psicanalista Ninfa Parreiras.

Aparentemente, Elê era a única do grupo que não tinha muita familiaridade com a literatura infantil. Desejava construir uma ponte entre as histórias infantis e o trabalho que realizava. Quando se identificou como ilustradora meus olhos brilharam. Cada vez que escrevo uma história fico imaginando as múltiplas possibilidades visuais que ela pode ter, dependendo de quem a desenhar.

Assim que pude procurei @elenogueira no instagram. De imediato me apaixonei pelo colorido de suas aquarelas. O tema principal é a infância. A maioria dos desenhos retrata crianças risonhas brincando em grupo ou sozinhas. Eles transmitem a genuína alegria infantil. Outras mostram meninos desprotegidos dormindo ao relento, cobrindo-se com caixas de papelão. Surpreendi-me por Elê não reconhecer que cada uma de suas ilustrações é a semente de uma história em potencial.

No decorrer do curso, Ninfa propôs que criássemos pequenas narrativas. Deveríamos nos inspirar nos textos do Livro dos Abraços, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Baseada na narrativa de Burocracia 3, escrevi a crônica que se segue. Para ilustrá-la convidei Elê Nogueira.

 

Descasos

Josiane estava cansada de ser diarista. Três patroas diferentes, cada uma mais exigente que a outra. Nenhuma lhe dava moleza. O trabalho era instável. Se ficasse doente ou se uma delas viajasse perdia a diária.O delicado malabarismo para equilibrar as contas no final do mês ruía.

De tanto rezar para Padim Cíço finalmente arrumou um emprego como mensalista. Agarrou-o com unhas e dentes. É certo que ganharia menos, mas contava com um valor garantido e teria direito a todos os benefícios sociais. Finalmente poderia trocar o celular que pressentia estar prestes a pifar.

Ao completar o primeiro mês no emprego dirigiu-se toda animada a loja de departamentos. O vendedor atendeu-a muito bem e ficou acertado que pagaria o telefone em suaves prestações. Mas na hora de finalizar a compra constataram que havia algo de errado com o seu CPF.

No dia seguinte explicou o caso à patroa e pediu para sair mais cedo. Esta concordou, pensando: “pobre não pode ter dinheiro na mão que logo começa a gastar.”

Na repartição pública, Josiane aguardou em pé por quase duas horas. A funcionária que a atendeu despachou-a em menos de cinco minutos declarando que o problema não estava no CPF, mas no título de eleitor.

Como já era tarde para se deslocar até o cartório, no dia seguinte contou com a compreensão da patroa que, desta vez, não escondeu uma ligeira irritação.

O trânsito estava pior do que o costume. Para seu desespero, chegou a tempo de ver a pesada grade, que protegia a porta do cartório, sendo abaixada. Sem coragem de contar à patroa o que acontecera, Josiane esperou o mês terminar.

Assim que recebeu o segundo salário pediu de novo para sair mais cedo. Precisava saber o que estava errado com o título de eleitor.  Agora não era só a falta do CPF que a impedia de comprar parcelado, se não pudesse votar, no futuro teria sérios problemas.

Dentro do ônibus voltou a apelar a Padim Ciço. Como por milagre o transito fluiu. Josiane foi prontamente atendida por um servidor que se demorou em uma minuciosa pesquisa.  Por fim, ele afirmou convicto que não havia nada de errado com o seu título de eleitor.

Dali mesmo, a pobre moça foi direto à loja de departamentos, onde lhe disseram que o seu CPF continuava com problemas.

Exausta ligou para a patroa. Com um fiapo de voz avisou que no dia seguinte não iria trabalhar.

Madrugou na porta da Receita Federal e foi a primeira pessoa a entrar na repartição. Desanimou ao ver que teria que falar de novo com a mesma funcionária. Bem que tentou explicar o que estava acontecendo, mas de novo recebeu a mesma resposta: o erro estava no título de eleitor.

De volta ao Cartório Eleitoral, Josiane implorou por ajuda. Não sabia mais a quem recorrer e se não conseguisse regularizar o CPF, sua vida formal estaria toda travada.

Apiedado, o servidor assinou e carimbou uma declaração atestando que o titulo de eleitor dela estava nos conformes. De tão agradecida, Josiane quis beijar-lhe as mãos. Constrangido, ele as recolheu rapidamente, despedindo-se com um sorriso e dando-lhe um leve tapinha nas costas.

De volta à Receita Federal, Josiane conteve-se para não esfregar aquele papel no nariz da funcionária petulante. Esta depois de passar os olhos rapidamente na folha digitou alguma coisa, fitou a tela por longos minutos, teclou de novo, fez algumas perguntas e finalmente concordou. A explicação que deu a Josiane foi confusa, cheia de palavras difíceis. No entanto, ela compreendeu o final: “…, agora está tudo resolvido, mas o número do CPF só estará liberado daqui a quatro meses”.

Josiane não sabia se ria ou chorava de frustração. Murmurou algo incompreensível e cedeu o lugar a outro infeliz, que aguardava para ser mal atendido.

Desatenta, desceu a imponente escadaria da repartição pública. Não reparou no degrau quebrado, desequilibrou-se e caiu como se fosse um espantalho. Com o impacto, o celular pulou da bolsa, deslizou pela calçada e parou debaixo das rodas do ônibus que acabara de chegar no ponto.

Várias mãos ajudaram Josiane a se levantar. Quanto ao celular não havia nada a fazer. A perda era total.

Finalmente, ela pode dar vazão à frustração que se acumulava há dias. Chorou e gritou de dor pelo joelho que sangrava e pelo tornozelo inchado.

Sem poder avisar a patroa, Josiane ficou três dias em casa para se recuperar da queda. Quando regressou ao trabalho não teve tempo de explicar o que acontecera, foi sumariamente demitida.

Quem sabe a ilustração que complementa este post é o início de uma parceria de histórias construídas a quatro mãos?

 

 

Selo Cátedra 10 e 1 poema

Quando dei por finalizada a minha mudança para o Rio de Janeiro, procurei me informar sobre quem e onde se realizam atividades voltadas para a produção literária infantil.

Ao pesquisar na internet encontrei o Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC (iiLER) localizado no campus da Gávea. O instituto tem por objetivo promover pesquisas e cursos que estimulem a leitura e a formação de leitores. Em 2016,  em parceira com a UNESCO, criou o selo Seleção Cátedra 10  concedido às publicações literárias infanto-juvenis que se destacaram no mercado brasileiro, quer seja pelo texto, as ilustrações ou pelo projeto editorial.

Coincidentemente, a premiação aconteceria mais tarde, no mesmo dia em que fiz a pesquisa. Ao passar os olhos na lista dos selecionados, reconheci dois títulos que eu já tinha recomendado aqui no blog: “Coração de inverno, coração de verão” e “O passeio”.

(para saber quais foram os selecionados clique aqui)

Curiosa em conhecer pessoalmente os autores e o ilustrador dos livros, que tanto me haviam agradado, decidi participar do evento mesmo sem ter um convite oficial.

O auditório estava lotado. Antes da entrega dos prêmios, foi prestada uma homenagem póstuma à ilustradora mineira Ângela Lago e houve contação de histórias. Uma representante do iiLER – que infelizmente não recordo o nome – falou sobre o movimento do politicamente correto, tanto de grupos conservadores quanto progressistas, que ao examinarem textos consagrados, o fazem literalmente, esquecendo-se de contextualizá-los e reconhecer suas nuances e representações simbólicas.

A palestrante terminou declamando um poema que de tão atual parece que foi escrito ontem:

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(VERDADE – Carlos Drummond de Andrade – Corpo, 1984)

Enquanto um olho ri o outro chora

Ainda tenho caixas para abrir, roupas de cama para guardar e livros para arrumar nas estantes, mas faz quase um mês que não escrevo nada no blog e isso me incomoda.

A razão de tamanho descuido é que ando às voltas com mais uma mudança de apartamento. Não uma mudança tranquila de um bairro para o outro, mas uma mudança de cidade, para outro estado.

Depois de dezesseis anos morando em Salvador retornei ao Rio de Janeiro. Sempre soube que isso aconteceria um dia, mas em algum momento, que não sei bem precisar, deixei de sonhar com essa volta e abracei tudo o que Salvador generosamente me oferecia. Por isso, quando chegou a hora de embalar móveis, pratos e livros, senti-me confusa e dividida.

Antes de partir, antecipei diversos almoços de final de ano. Curioso é que sempre fiz piada desses encontros. No decorrer do ano procurava me reunir com os amigos para por a conversa em dia e dar boas risadas, mas à ultima hora alguém desmarcava. Finalmente, todos esses almoços se realizavam num único mês, como se o mundo fosse acabar e nunca mais fossemos nos rever. Agora, mesmo sabendo que estou apenas a duas horas de distância de avião, a possibilidade de não ver mais quem eu gosto e me faz bem, não parece tão absurda.

Apesar de não ter medo de recomeços – afinal, no âmago de toda mudança existe a semente de infinitas possibilidades – e me sentir feliz por estar de novo perto de parentes e amigos queridos, um dos meus olhos brilha de contentamento enquanto o outro chora de saudades.

(Imagens retiradas da internet: Salvador- Zarpo Magazine / Rio de Janeiro SB viagem)

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