A Rainha Santa

Aproveitei a vinda de um amigo de Portugal e encomendei-lhe A Rainha Santa, da escritora Isabel Machado. Interessei-me por esse livro quando li a resenha no blog O Tempo Entre Meus Livros.

Vivendo há tanto tempo no Brasil, esqueci quase tudo o que aprendi sobre os reis portugueses. Uma exceção foi D. Dinis, o sexto rei de Portugal, sobre quem guardei algumas lembranças.

Recordo que simpatizava com ele por ser apreciador da música e da poesia, e ter inclusive composto diversas cantigas de trovador. Um rei que mandou plantar um pinhal para barrar a força dos ventos salgados que sopravam do oceano e destruíam as lavouras. Por ser o responsável pela fundação da primeira universidade em Portugal. E por ter se casado com Isabel de Aragão, a Rainha Santa, personagem central de uma das minhas lendas favoritas: O Milagre das Rosas.

Quanto às conquistas políticas de D. Dinis e suas brigas, primeiro com o irmão e depois com o filho herdeiro do trono, não me lembrava de nada. Batalha disto, batalha daquilo, era apenas uma sequência de eventos que não significavam nada para mim.

Talvez, se a professora de História tivesse contado os motivos que as provocaram… Mas como falar de filhos ilegítimos, se ela dava aulas em uma escola só de meninas, dirigida por uma congregação de freiras onde se aprendia sobre a indissolubilidade e a fidelidade matrimonial?

D.Dinis e o irmão eram filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Entretanto D. Dinis nasceu dois anos antes de o casamento dos pais ser validado pelo Papa. Por essa razão, o irmão que nasceu depois se considerava o verdadeiro herdeiro do trono.

Naquela época os casamentos eram tratados como negócios de Estado. As princesas eram prometidas, e entregues ainda crianças para serem criadas em outros reinos, como garantia de acordos de cooperação ou de paz. Não foi diferente com Dª Isabel que chegou à corte de Portugal com apenas 12 anos.

É bem possível que D. Dinis tenha amado a mulher, mas também a fez sofrer com o seu comportamento infiel.  Se foi por temperamento ou por não puder recusar uma ordem real, a rainha educou os outros filhos do marido junto com os seus: Constança e Afonso.

Afonso, o futuro rei de Portugal, entretanto, nunca viu essa convivência forçada com bons olhos. Desde o início, incomodava-lhe o favoritismo que o pai tinha por um de seus irmãos ilegítimos. Temeroso que este no futuro tentasse lhe usurpar o trono entrou em guerra contra o pai.

O romance histórico de Isabel Machado preencheu várias lacunas e me instigou a estudar mais sobre aquele período.

Infelizmente fiquei decepcionada ao descobrir que a lenda que tanto me encantara na infância, e que sempre associara exclusivamente a Santa Isabel rainha de Portugal, acontecera primeiro com a sua tia, Isabel princesa da Hungria, e com mais outras duas santas, Zita e Cacilda, sobre as quais nunca tinha ouvido falar.

Nada, no entanto, que empanasse o prazer que tive com a leitura de A Rainha Santa. Na verdade, fiquei curiosa em ler o romance anterior da escritora: Constança – a princesa traída por Pedro e Inês de Castro.  Já tenho uma nova encomenda para fazer ao meu amigo.

 

  • A Rainha Santa – romance histórico

Isabel Machado

A Esfera dos Livros

21,60 Euros

Se eu fosse um livro

No início de maio, realizou-se em Salvador o 3º Festival de Ilustração e Literatura Expandido. O evento acontece de dois em dois anos e já tem lugar garantido no cenário cultural da cidade. A organizadora, Flávia Bomfim, sempre convida artistas gráficos que além de mostrarem seus trabalhos mais recentes, também apresentam propostas inovadoras para a produção literária. Um dos temas que mais me agrada é o que diz respeito ao universo das ilustrações.

Entre os convidados deste ano estava o premiado ilustrador português André Letria, que em parceria com o pai, o escritor José Jorge Letria, publicou um livro, “Se eu fosse um livro”, pelo qual me apaixonei imediatamente assim que o folheei.

Precisei segurar o desapontamento quando André confirmou que ele não estava à venda, pois fazia parte do mostruário de sua editora independente, a Pato Lógico.

Por sorte, eu tinha me inscrito numa oficina ministrada por ele, na qual os participantes trabalhariam tendo esse livro como tema.

Depois de todos conhecerem a proposta do livro, André Letria ofereceu duas pilhas de cartões arrumadas como cartas de baralho, para que escolhêssemos aleatoriamente uma imagem e uma palavra representando uma ação. O desafio proposto foi criar uma frase que obrigatoriamente começasse com: “Se eu fosse um livro…”. Isto feito, era a vez de desenhar uma imagem que representasse a frase. Nada de muito elaborado, afinal nem todos os participantes eram ilustradores.  Coube a mim a imagem de uma cadeira e a palavra analisar.

Depois de muitas frases escritas e descartadas finalmente cheguei à definitiva: “Se eu fosse um livro, distrairia quem espera sentado numa cadeira para ser analisado” Ufa, que doideira!…

Agora vinha a parte mais difícil. Como colocar isso em imagens?

Rabisquei um sujeito sentado numa cadeira lendo um livro, uma porta fechada e um relógio de parede. Queria passar a ideia de alguém que aguardava numa ante-sala para ser analisado (tanto poderia ser a de um consultório médico quanto a de um gerente de RH) mas que, de tão entretido, não percebia o tempo passar.

Satisfeita com o resultado e seguindo as instruções de André, procurei reduzir a ilustração ao essencial. De novo, desenhei a cadeira, o livro, a porta e o relógio, mas no lugar do homem coloquei um ponto de interrogação. Era o máximo que conseguia limpar da imagem.

André gostou da ideia geral e sugeriu algumas pequeninas alterações: “O que achas se diminuíssemos bem a porta e o relógio? E se transformássemos a cadeira em um livro-montanha, para ser escalado?” E assim, com essa simplicidade, tanto a expectativa da análise quanto a cadeira sumiram, e o leitor foi transportado para outro tempo e lugar.

As mudanças propostas foram tão radicais, que para reconhecer o meu trabalho, mantive a cadeirinha. Agora, ao rever o esboço feito por André reconheço o quanto ela é desnecessária.

Este post tem um final feliz. Lembrei a tempo que um amigo chegaria em breve de Portugal e, sem a menor cerimônia, pedi que trouxesse na mala o meu objeto de desejo. Agora, posso me deleitar quantas vezes quiser e dizer: Se eu fosse um livro, nunca havia de sentir pressa de ler a palavra “Fim” .

 

Soube que o livro já foi publicado no Brasil pela editora Globo Livros e custa R$ 46,00

Não quero pagar para ver

Permanentemente estou à procura de indicações de leitura. Pergunto aos amigos o que estão lendo, leio jornais e revistas, e sigo diversos blogs literários, tanto nacionais quanto estrangeiros.

Graças ao blog O Tempo Entre Meus Livros, fico a par dos novos escritores portugueses e de livros que, pela temática específica, sei que dificilmente serão publicados no Brasil. É o caso do romance histórico A Rainha Santa, escrito por Isabel Machado.

Reza a história que ao ser proibida pelo marido, o rei D. Dinis, de distribuir esmolas aos pobres, a Rainha Isabel transformou os pães que iria doar em rosas. Um fato por si só extraordinário, mas ainda mais espantoso por ter ocorrido em pleno inverno, quando nenhum botão de flor brota e muito menos floresce. A Lenda das Rosas é talvez a minha favorita entre as muitas que aprendi nas aulas de História, quando ainda morava em Portugal.

Recentemente o mesmo blog recomendou Purga, escrito pela finlandesa Sofi Oksanen. Um dos motivos que levou a autora a escolher esse livro foi por saber muito pouco sobre a Estônia, país onde transcorre a maior parte da narrativa. Se ela sabe pouco e vive no mesmo continente, imagine eu que estou do outro lado do Atlântico, no hemisfério sul.

Segui sua indicação e fiquei muito satisfeita ao descobrir que o livro já havia sido publicado no Brasil com o nome Expurgo (ah, essas confusas diferenças de português!)

Para mergulhar melhor na história, fiz uma rápida pesquisa sobre o país. Trata-se de uma pequenina nação báltica que durante séculos foi dominada por diversas potências. Para se ter uma noção, suas dimensões territoriais correspondem a metade de Portugal que, por sua vez, cabe inteirinho no estado de Pernambuco.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, a Estônia foi anexada à União Soviética como mais uma de suas repúblicas socialistas, só voltando a ser independente em 1992.

O que me fez juntar esses dois livros tão díspares? O fato de acreditar que a maneira mais prazerosa de se aprender História é através da leitura.

Mesmo não sendo um romance histórico como A Rainha Santa, a leitura de Expurgo é uma excelente oportunidade para os alunos mais adiantados do Ensino Médio aprenderem, sem ser maçante, como e porque aconteceu a ocupação soviética nos países da Europa Oriental, além de debaterem um tema infelizmente atualíssimo: o tráfico de mulheres.

Mas é preciso correr, pois há um projeto de lei que desobriga o ensino de Geografia e História nas escolas brasileiras. Se for aprovado, lendas serão esquecidas, fatos históricos nunca serão ensinados e a compreensão do que ocorre no mundo será ignorada ou pior, manipulada.

Não quero pagar para ver.

 

  • Expurgo

Sofi Oksanen

Editora Record

R$ 70,90

a máquina de fazer espanhóis

a maquina de fazer espanhois

Foi com algum receio que comecei a ler a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe. Aqueles capítulos não muito longos, com pouquíssimos parágrafos, e sem letras maiúsculas para sinalizar o inicio das frases e os nomes próprios, me assustaram.

Feita esta consideração, quero dizer que após uma pequena dificuldade inicial, apreciei a narrativa segura do autor, e me emocionei com os personagens retratados no romance.

Com a morte da mulher, António Jorge da Silva, aos 84 anos, é colocado pela filha em um asilo. Revoltado por perder sua companheira de mais de cinco décadas, e ser obrigado a viver onde nunca imaginou, ele custa a se adaptar ao novo lar.

Mas, como diz a sabedoria popular “o que tem que ser tem muita força”. Aos poucos, a tristeza vai diminuindo, graças à solidariedade que recebe dos hóspedes mais antigos, e dos cuidados de profissionais atenciosos.

O Lar da Feliz Idade é um lugar de espera. Ali há poucos sonhos, muitos pesadelos e algumas alucinações. Os ecos de um passado subserviente e a constatação de antigas crenças equivocadas, rondam as lembranças do Sr. Silva, e também de seus novos amigos.

Uma leitura apressada poderá afastar o leitor, desconfortável com um tema tão duro e potencialmente angustiante.  Espero que isso não aconteça, porque, além de iluminar e dar voz de forma digna a uma parcela da população cada vez mais numerosa, o grande mérito do livro está em confirmar o que por vezes é esquecido. O que dá sentido à Vida – quer ela esteja no seu apogeu, ou prestes a se extinguir -, o que nos faz querer viver um pouco mais, o que nos resgatará do esquecimento, é o Outro.

precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade,nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingencia da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria.

Quem não cultiva afetos, ou não se preocupa em preservá-los, já morreu e não foi avisado.

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