As coisas como elas são

No dia das mães ganhei de presente um leitor de livros digital. Entusiasmou-me a possibilidade de encontrar nesse formato livros que estão esgotados ou que ficariam muito caros se os encomendasse em papel dos EUA. Apesar dessas vantagens inquestionáveis, esqueci-o no fundo de uma gaveta, por vários meses.

Uma promoção tentadora me animou a usá-lo. Todos os e-books, que normalmente são mais em conta que um livro físico, estavam com desconto de 50%. Impossível recusar. Como não baixar aquele livro que “namorei” na última vez que estive na livraria, e que só não levei por causa da pilha que me aguardava em casa? Agora ele se tornara uma autêntica pechincha.

O romance em questão é “As coisas como elas são” da escritora norte-americana Laurie Frankel, e foi eleito em 2017 por diversos sites, jornais e revistas como o livro do ano nos EUA.

Ele conta a história de um casal que tem quatro filhos. Ao saber que serão pais mais uma vez torcem pela chegada de uma menina. No entanto, nasce mais um menino. Ele cresce rodeada de amor e carinho, mas, diferentemente dos irmãos, ainda bem novinho, demonstra interesse em usar vestidos e deixar o cabelo comprido. No início os pais acreditam que é apenas uma fase, uma brincadeira e, assim que for para a escola, ela seguirá o exemplo dos irmãos. Não é o acontece, e eles percebem que o filho mais novo se sente mais à vontade sendo uma menina.

Apesar de fazer ressalvas a algumas passagens do livro (a história que o pai inventou e conta para os filhos é confusa e sem graça) e ter críticas quanto à tradução e revisão do texto, achei a leitura de “As coisas como elas são” muito interessante. Na verdade mais do que isso, trata-se de uma leitura necessária e esclarecedora. Porque ela aborda um assunto que ainda é tabu: a transexualidade.

Como reconhecer e ajudar um filho (a) a fazer a transição de gênero? Como protegê-lo(a) dos preconceitos e da ignorância?

Ignorância na qual eu também me incluo, afinal, o que sei sobre o tema? Será que eu tive alguma colega de escola ou faculdade que não se sentia a vontade dentro do próprio corpo? Por que é que aquela menina roía todas as unhas até deixar as cutículas sangrando? Quanta desinformação, quantos segredos, quanto medo. O medo paralisa, afasta, alimenta preconceitos.

Está mais do que na hora de buscar informações e cuidar de quem sofre em silêncio. Para mim, a leitura de “As coisas como elas são” foi um bom começo.

Histórias de migrações

Quando terminei de ler Terra Americana fiquei interessada em conhecer outras histórias de migrantes. Ao procurar por sugestões constatei que já tinha lido algumas.

Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e Aqui estão os sonhadores da escritora camaronense Imbolo Mbue.

O primeiro conta a história de uma jovem nigeriana, Ifemelu, que emigra para os Estados Unidos para cursar uma universidade. O romance acompanha a vida de Ifemelu nos dois países, e narra a sua história de amor com Obinze, colega de colégio.

O segundo livro relata as experiências de duas famílias na cidade de Nova York durante a crise financeira de 2008: uma família de imigrantes dos Camarões, a família Jonga, e a de seus empregadores ricos, a família Edwards.

Os dois livros receberam comentários no blog e podem ser acessados clicando em cima do título.

Li também O retorno da escritora Dulce Maria Cardoso. Apesar de não se tratar de uma migração propriamente dita – quem deseja entrar no país não são estrangeiros, mas nacionais nascidos num outro continente -, os recém-chegados são recebidos com desconfiança e hostilidade. São portugueses fugidos das ex-colonias e chegam aos milhares na metrópole. Recebem o nome de os retornados, mas poderiam também ser chamados de os indesejados. O livro é impactante, como tudo o que escreve a minha escritora portuguesa favorita.

Puxei pela memória e lembrei de O clube da Felicidade e da Sorte da escritora norte-americana Amy Tan, filha de imigrantes chineses.

É uma pena que o livro só possa ser encontrado em sebos, porque, tenho certeza, uma nova geração de leitores se encantaria com a história das quatro mulheres chinesas que emigraram para os EUA na década de 40. Elas refizeram suas vidas em São Francisco e para não esquecer as tradições da terra natal e poder repassá-las às filhas (para quem os únicos valores que importam são os do ‘american way of life’), se reúnem semanalmente em torno de uma mesa de mahjong. Está criado assim ”O clube da felicidade e da sorte”.

Na estante, encontrei um outro livro maravilhoso, Buda no Sótão da escritora Julie Otsuka. Ele conta os sonhos de mulheres que deixaram o Japão para se casar com desconhecidos nos EUA. A narrativa narra o choque inicial dessas mulheres ao chegarem a São Francisco na década de 1910, o nascimento e criação dos filhos, que não se interessam pela cultura de seus pais, e, por fim, a deportação de famílias inteiras para campos de exclusão. Este fato aconteceu depois que a base militar norte-americana Pearl Harbour foi bombardeada pelos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.

O mundo atual não está nem um pouco acolhedor para aqueles que precisam recomeçar a vida em outro país. Será que se conhecêssemos suas histórias seríamos mais tolerantes? Será que a literatura tem o poder de construir pontes de empatia? Tomara que sim.

 

Terra Americana

A primeira vez que ouvi falar no livro Terra Americana, da escritora Jeanine Cummins, foi na revista O da apresentadora Oprah Winfrey. Além de fazer rasgados elogios, ela o incluiu no seu famoso clube de leitura. Fiquei bastante interessada e, em tempos de pandemia, pensei em comprá-lo no formato audiolivro apesar de ter dúvidas se entenderia um inglês mais coloquial e carregado de gírias. Felizmente, no mesmo dia precisei ir ao supermercado e, como já estava na rua, aproveitei para ver as novidades na Livraria Argumento que voltara a funcionar depois de ficar fechada por quatro meses. E lá estava ele, exposto na sessão dos lançamentos. Mais não preciso dizer.

Terra Americana começa de forma eletrizante: uma família inteira é chacinada durante uma comemoração de aniversário de quinze anos. Salvam-se apenas um menino de oito anos e sua mãe, Lydia. O mandante foi Javier, chefe do cartel de narcotráfico mais poderoso de Acapulco no México.

Até a tragédia acontecer, Javier e Lydia eram amigos. Eles se conheceram quando Javier se tornou um cliente assíduo da livraria que era de Lydia. Os dois tinham gostos literários muito parecidos, as conversas fluíram facilmente, e, pouco a pouco, estavam falando de suas vidas.

Mesmo depois de saber pelo marido, que era jornalista, a verdadeira identidade desse cliente gentil e educado, ela não conseguiu romper a amizade com Javier. Talvez por essa razão, não esperasse que ele reagisse de forma tão violenta quando saiu no jornal uma matéria, escrita pelo marido, dizendo quem realmente Javier era, e falando dos crimes que ele cometera.

Apavorada, Lydia precisou fugir com o filho e se tornou, de uma hora para outra, num daqueles casos que costumava acompanhar pelo noticiário com distanciamento e uma certa pena: o de homens, mulheres e crianças que, pelos mais variados motivos, tentavam entrar a todo custo nos EUA.

Inicialmente o livro foi recebido com muitos elogios tanto por outros escritores quanto pelo público. John Grisham chegou a dizer: “Escrevo porque gosto de ler e há muito que uma leitura não me provocava tanta emoção. O enredo é inteligente e imprevisível. A mensagem é oportuna sem ser política. As personagens são violentas, bondosas, frágeis e heroicas. É um livro autêntico.”

Entretanto, logo surgiram vozes discordantes dizendo que a autora não tinha legitimidade para falar sobre migração ilegal porque, além de não ser mexicana, não vivenciara as situações descritas no livro. Jeanine defendeu-se afirmando que havia procurado dar visibilidade ao sofrimento dos migrantes clandestinos e que, durante cinco anos, pesquisara exaustivamente sobre o tema, chegando a visitar o México diversas vezes para poder narrar com maior veracidade as histórias daqueles que eram tratados como indesejáveis.

Vivemos tempos estranhos. Desde quando um escritor precisa se perguntar se pode ou não abordar um tema que lhe interesse? Quem diz o que um escritor pode ou não escrever? Um homem não se pode imaginar sendo mulher e vice-versa? Alguém que veio de uma classe social mais favorecida não pode se colocar no lugar de um desvalido? Uma pessoa que enxerga não pode criar um personagem deficiente visual? Quem não matou ninguém não pode escrever sobre assassinatos? Outros olhares e visões de mundo não são mais permitidos? Onde fica o contraditório, a imaginação e principalmente a empatia? Um bom escritor oferece ao leitor a chance de conhecer outras vidas, de “calçar os sapatos do outro”. Qualquer movimento que impeça um escritor de falar através de seus personagens tem, para mim, um nome: censura.

No meio da algazarra surgiu uma voz respeitada no mundo literário para defender o livro: o da escritora Sandra Cisneros, de origem mexicana. Inicialmente ela disse que “Terra Americana não é apenas o grande romance americano, é também o grande romance de Las Americas, o grande romance do mundo! A história internacional dos nossos tempos”. Como a polêmica continuasse, insistiu: “Terra Americana tem o potencial de educar um público que não foi previamente exposto às histórias dos migrantes, que desconhece os problemas que acontecem nas fronteiras. Alguém comprará o livro pensando apenas em se divertir, e a história entrará como um cavalo de Troia, trazendo reflexões e conhecimento. Terra Americana vai mudar as mentes (dos americanos), de um jeito que eu não consegui fazer com as minhas histórias”

Se essa não é a função primordial de um livro, não sei mais o que dizer.

Mais leituras na quarentena

O livro ficou guardado na estante por mais de dois anos. Ganhei-o de presente, e apesar de ter me interessado pela história que ali era contada, a leitura das primeiras páginas não me seduziu.

No entanto, como este ano o escritor norte-americano Colson Whitehead ganhou pela segunda vez o prêmio Pulitzer na categoria ficção, e estimulada pelo movimento “vidas negras importam”, decidi dar uma segunda chance a The Underground Railroad – os caminhos para a liberdade”.

Desta vez, a história fluiu. Logo estava torcendo por Cora, uma jovem escrava que, auxiliada por um amigo, usou uma rota de fuga conhecida como Ferrovia Subterrânea para escapar aos horrores sofridos em uma plantação de algodão no sul dos Estados Unidos.

Apesar de ter esse nome, esse sistema de fuga, que surgiu no final do século XVIII e teve o seu apogeu no início e meados do séc. XIX, não era totalmente subterrâneo e muito menos ferroviário. Com efeito, o primeiro e verdadeiro transporte subterrâneo de passageiros só foi inaugurado em janeiro de 1863 e, bem longe dali, em Londres.

O esquema de fuga consistia em pular de um esconderijo para outro, quer ele fosse um celeiro, igreja, porão ou gruta, sempre contando com o auxílio de abolicionistas, negros nascidos livres e ex-escravos. O destino final eram os estados livros do norte, o Canadá e também o México. Uma estimativa indica que até 1850, cem mil escravos alcançaram a liberdade graças a esse sistema.

Entusiasmada com a leitura de “The Underground Railroad”, emendei com O olho mais azul” * da escritora, também norte-americana, Toni Morrison. Se o primeiro já tinha sido uma paulada, este foi uma surra completa.

A história de Pecola, uma menina negra de onze anos, se passa nos anos 1940 num bairro pobre dos EUA, e é contada por aqueles que acompanharam com indiferença ou impotência o seu desmoronar: colegas de escola, vizinhos, parentes, e um falso pastor.

Nascida num lar pobre e disfuncional, ela queria saber: Como é que se faz isso? Quero dizer, como é que a gente faz alguém amar a gente?

A menina acreditava que o problema estava no tom de sua pele, e todas as noites rezava para que a cor de seus olhos mudasse para azul.

Pecola baseou a sua ideia de beleza no que ela podia ver – os livros disponíveis na escola apresentavam crianças brancas, as bonecas eram bonecas brancas, as casas limpas e cuidadas eram a dos brancos. O seu mundo era feio e sujo e os pais a rejeitavam.

Já se passaram quase oitenta anos desde que O olho mais azul foi escrito e infelizmente a sua história permanece atual. Ainda não podemos balançar a cabeça com indignação – como fazemos em relação à escravidão – para as condições de vida da maioria dos negros, tanto nos EUA quanto no Brasil.

Achamos natural que morem em favelas ou bairros sem saneamento básico, que as escolas tenham um ensino de qualidade inferior, que sofram nos corredores dos hospitais, que não tenham acesso aos infinitos recursos da justiça, que só frequentem os restaurantes como empregados e que tenham medo de serem parados pela polícia, pois sabem que receberão um tratamento bem diferente daquele dado a um branco.

Enquanto não for possível responder com um “Claro, qual é o problema?” à pergunta: “Você gostaria de ser negro no Brasil?”, estaremos muito longe de ser uma sociedade justa e igualitária.

* O exemplar que eu li é do clube de leitura TAG. No momento, a editora Companhia das Letras só disponibiliza o formato E-book.

Entradas Mais Antigas Anteriores Próxima Entradas mais recentes

%d blogueiros gostam disto: