Vamos ler juntas

Não escrevo e não alimento o blogue há quase um ano. Falta-me a concentração necessária. Debaixo do chuveiro surgem ideias interessantes, e enquanto dirijo também. Mas, depois, onde encontro a serenidade para sentar – apenas por algumas horas – diante do computador? Tenho sempre outros interesses ou compromissos inadiáveis – na verdade, desculpas esfarrapadas – para não o fazer.

Felizmente, não perdi o prazer de ler, mesmo reconhecendo que a força hipnotizadora das minisséries, atrapalhou o fluxo habitual da leitura.

Gostaria de compartilhar no blogue os livros que li este ano, mas não lembro exatamente quais foram. Eles se misturaram aos que guardei na estante e aos que foram doados. Quero, no entanto, mencionar aqueles que li no grupo virtual “Vamos ler juntas?”, organizado por uma amiga de colégio.

Faço uma pausa para comentar que nunca me interessei em participar de clubes de leituras, por me considerar uma leitora solitária. Gosto de flanar pelas livrarias, “farejar” as novidades, e escolher conforme os interesses do momento. Entretanto, Celina, que me conhece muito bem, insistiu para que eu participasse e – devo admitir que fiquei curiosa – resolvi romper a minha “zona de conforto”. Afinal, seria um jeito de rever algumas colegas da adolescência que eu gostava, e não via há muito tempo, não só por conta da pandemia, mas, também, porque aos entrarmos na faculdade havíamos escolhido carreiras diferentes, e, mais tarde, mudado para outras cidades e até mesmo países.

Ana Cristina, responsável pela criação do grupo, reuniu seis amigas que haviam estudado na mesma turma do Colégio Teresiano, e uma colega da faculdade de Letras. Em comum, todas gostamos de ler.

Se a pandemia – da qual ainda não nos livramos – teve algo de bom foi mostrar que existem outras formas das pessoas se reunirem e conversarem sem precisar estar frente a frente. O primeiro encontro virtual aconteceu no dia 21 de maio e foi uma alegria. Depois de tentarmos pôr em dia as respectivas trajetórias de vidas: quem fez o quê, está morando aonde, casou, separou, se teve filhos e se já chegaram os netos, finalmente começamos a falar sobre o livro escolhido. Ah, o grupo decidiu afunilar o infinito universo de opções literárias, e escolheu ler apenas autores de língua portuguesa. Sendo que, mês sim mês não, o escritor seria brasileiro.

Começamos com O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe, e foi um sucesso. No mês seguinte foi a vez do magistral Torto Arado do baiano Itamar Vieira Jr. Depois vieram A Visão das Plantas da escritora angolana Djaimilia Pereira (confesso que não gostei muito), Fim da Fernanda Torres (foi a vez da Lalá não gostar), Mapeador de Ausências do Mia Couto, e encerramos o ano com Amar Verbo Intransitivo de Mário de Andrade, o único escritor já falecido. Escolhemos o último livro para entrar no espírito comemorativo do centenário da Semana de Arte Moderna que vai acontecer em fevereiro do ano que vem. Para as artes brasileiras foi um grande evento porque rompeu com a ditadura do classicismo europeu, copiado até então pelos artistas nacionais.

Para o próximo ano já foram escalados, ops, escolhidos O vendedor de passados de José Eduardo Agualusa; A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar; Niketche – uma história da poligamia da escritora moçambicana e vencedora do prêmio Camões 2021, Paulina Chiziane; e Quarto de despejo – diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus.

Acredito que assim que terminarmos todos eles, o livro do escritor timorense Luís Cardoso, O plantador de Abóboras, já terá encontrado uma editora brasileira. Foi com este livro que o escritor venceu o prêmio Oceanos.

O ano termina nos próximos dias e desejo, sinceramente, retomar o Fagulha de Ideias com a animação que costumava ter. Desejo também uma outra coisa, mas essa nem preciso dizer qual é. Tenho certeza de que é a mesma de quem me lê agora.

Na Terra do Cervo Branco

Quando vi pela primeira vez o livro Na Terra do Cervo Branco fiquei encantada. Gostei da sobrecapa elegante de fundo preto, com o título em letras laranjas e a imagem de um chifre comprido onde se enrosca um pano vermelho esvoaçante.

A textura das páginas era agradável, e as letras de formato e tamanho adequado proporcionavam uma leitura confortável. Peguei no livro com interesse. Puxa, era bem pesado. Quantas páginas teria? Oitocentas e sessenta e quatro no total. Será que eu encontraria tempo e teria paciência para ler esse “tijolo”? Não era um livro barato. O preço equivalia a dois bons romances. Sem poder contar com a opinião de uma vendedora que o tivesse lido, duvidei da minha capacidade de concentração e o devolvi à estante.

Pouco tempo depois chegou em minha casa o exemplar do mês de outubro do jornal Rascunho. (Abro um parêntesis para recomendar esta publicação, que tanto pode ser lida em papel como na versão digital. Sou assinante há anos e o jornal literário está cada vez melhor.) Pois bem, ele trazia uma matéria escrita por Marcos Alvito, que comentava sobre Na Terra do Cervo Branco:

O artigo ocupava duas páginas, e transcrevo aqui o que me capturou a minha atenção: “Se o propósito de Chen Zhongshi consistia em fazer um retrato do povo chinês antes da grande virada da segunda metade do século 20, a obra é um triunfo completo. Envolvente como uma novela televisiva, rico em costumes e religião, temperado com violência, sexo e pitadas de realismo mágico, tornou-se um enorme sucesso na China e foi adaptado para a televisão. Para quem desejar conhecer um pouco mais da cultura chinesa tradicional, Na Terra do Cervo Branco é um livro imperdível.”

Nas últimas semanas, tenho mergulhado diariamente nas paisagens, hábitos e conflitos de um povo fascinante. Sem esforço cheguei a página 509. Pelo caminho sublinhei esta passagem com a qual me identifiquei (Novo parêntesis. Sou considerada um bom garfo e não tenho medo de experimentar algo que não conheço):

Para Mestre Zhu, ler já não era um hábito, mas uma necessidade vital. Nenhuma iguaria deste mundo, depois de ser mastigada, conservaria seu sabor. Já os livros escritos pelos sábios suportam repetidas mastigações, pois uma frase pode levar a compreensões e inspirações diferentes a cada releitura. O leitor não só não enjoa, como tem a chance de perceber seu sabor de forma ainda mais intensa. Um prato saboroso, se for servido por três refeições seguidas, perderia seu encanto; uma bela roupa, se usada por quinze dias consecutivos, viraria um trapo; um bom livro, porém, pode ser lido por uma vida inteira.

Enquanto a vacina não chega, Na Terra do Cervo Branco é um ótimo companheiro. Fique em casa!

Tirza

Os motivos que me levam a escolher um livro são, por vezes, bem inusitados.

Certa vez, conversava com a vendedora da Livraria Argumento, quando ela me perguntou se eu já tinha lido algo de Arnon Grunberg.

Surpresa com a minha resposta negativa, meio brincando meio falando a sério, ela me disse que só voltaria a trocar “figurinhas” comigo depois que eu lesse o escritor. Achei engraçado o desafio e perguntei por qual deveria começar. Ela recomendou-me Tirza.

Este episódio aconteceu pouco antes do início da pandemia e, apesar de a livraria já ter voltado a funcionar, ainda não tive a oportunidade de lhe dar a minha opinião sobre o livro.

Quando a encontrar, vou dizer que há muito tempo uma leitura não me impactava tanto: desconfortável, angustiante, mas impossível de largar.

O autor holandês prende o leitor a um personagem que é obcecado pela filha mais nova. Difícil saber se gostamos dele ou, se assim como a sua ex-mulher, o menosprezamos. Ela abandonou-o e às duas filhas adolescentes, para viver uma aventura amorosa irresistível. Anos depois, quando foi forçada a engolir do mesmo veneno, retornou para casa como se nada tivesse acontecido. E, para minha revolta, ele a aceitou de volta!

O personagem se esforça, se rebaixa, faz de tudo para criar – de acordo com o que acredita ser o certo – um ambiente idílico para as suas meninas. Mas o projeto parece uma frágil canoa em alto-mar, cheia de furos impossíveis de serem tapados. Todos percebem o naufrágio eminente, menos ele.

Publicado em 2007, Tirza ganhou diversos prêmios. Em 2010 virou filme e foi selecionado para representar a Holanda ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar no ano seguinte.

Guardei o livro na estante faz alguns meses, mas, até hoje, quando lembro do final, revivo o choque que senti na época. Estou tomando coragem para ver o filme.

Dicas de leitura

Uma amiga de Salvador pediu-me sugestões de leitura. Ela contou que tem lido bastante durante a pandemia, porque é a única coisa que a faz esquecer a angustiante indefinição do momento atual.

Pensei em consultar este blog, mas há tempos que não o atualizo. Ponho a culpa na costumeira falta de concentração, que se agravou por causa da construção final de um prédio colado ao meu.

Foram meses infernais de uma barulheira sem fim. Quando finalmente o prédio foi concluído, acreditei que finalmente teria algum sossego. Mas, então, começaram as obras de adequação de cada apartamento: remoções de paredes internas, instalações dos ares-condicionados e armários, colocação de quadros e as conversas dos operários. Difícil ouvir os próprios pensamentos com tanto barulho ao redor.

Se ultimamente não tenho escrito, pelo menos, diferentemente de minha amiga, consigo me distrair vendo minisséries e palestras pela internet. São atividades que exigem pouca concentração e sempre podem ser feitas com fones de ouvido e o volume do som nas alturas.

No entanto, não deixei de lado a leitura. Ela é feita no final do dia quando a azáfama do prédio vizinho termina, ou então um pouco antes de dormir. Trata-se de um hábito arraigado em mim: para ter uma boa noite de sono, preciso ler, pelo menos, um ou dois parágrafos de um livro.

Mentalmente recapitulei o que me agradou e selecionei estas leituras para a minha amiga baiana:

Patchinko, escrito pela autora coreana-americana, Min Jin Lee, conta a saga de uma família pobre de imigrantes coreanos forçada a emigrar para o Japão, pouco antes do início da segunda Guerra Mundial. A história atravessa quatro gerações e narra as lutas que enfrentam para encontrar conforto em uma sociedade extremamente xenófoba que parece estar deliberadamente contra eles. O livro vendeu mais de um milhão de cópias e em 2017 foi finalista do National Book Award.

A Casa Holandesa da escritora Ann Patchett conta a história de dois irmãos (uma moça e um rapaz) expulsos pela madrasta da mansão onde cresceram, depois que o pai deles morre. De uma hora para a outra, se veem sozinhos e levando uma vida bem diferente daquela que acreditavam como segura e inalterável. As lembranças da casa da infância os assombram até a idade adulta, e reavê-la torna-se uma necessidade. Entretanto, os planos de vingança tomam um novo rumo quando surge do passado uma pessoa que acreditavam estar desaparecida para sempre.

Durante muito tempo, a história principal de Um lugar bem longe daqui não me interessou. Todas a vezes que lia a sinopse ficava indignada. Como era possível uma criança, de apenas seis anos, ser abandonada num pântano e conseguir sobreviver por mais de vinte anos, sem contar com a ajuda ninguém? O enredo me parecia improvável demais, e difícil de se sustentar por muito tempo. Mas foram tantas as críticas elogiosas que resolvi arriscar. Pois é, às vezes começasse uma leitura com um pé atrás e ela nos surpreende positivamente. A narrativa aparentemente bobinha cresceu até virar uma instigante história de mistério com um final surpreendente.

Tenho uma dificuldade enorme para me desfazer dos livros que gosto e me impactaram. É esse o caso de O tigre branco*. O exemplar me acompanha desde que foi publicado pela primeira vez no Brasil em 2008. O romance estava esgotado, mas depois de ser adaptado para o cinema e estar disponível no Netflix, voltou com força total. Narrado na primeira pessoa, ele conta a jornada de um rapaz indiano que conseguiu sair da miséria, utilizando-se de métodos nada ortodoxos, até tornar-se um empresário de grande sucesso. Como sempre, recomendo que primeiro se leia o livro para depois se ver a versão cinematográfica.

*Editora Harper Collins Brasil

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