Caixa de chocolates

Já dava como perdida a encomenda que meu filho enviara pelo correio no início do ano, quando, finalmente, o porteiro me entregou uma caixa de papelão maltratada.

Dentro estavam três presentes cuidadosamente embrulhados em papel com motivos natalinos. O primeiro era para o casal: um calendário de parede com fotografias da cidade histórica onde ele mora e que ainda não conhecemos. O segundo presente era exclusivo para o pai: uma caixa de deliciosos bombons de chocolate. E o terceiro era para mim: um livro sobre livrarias independentes.

Ao examinar o livro pensei que, de tão bonito que era, teria sido uma maldade se a caixa tivesse se extraviado pelo caminho. Sem querer desmerecer os outros presentes, pude imaginar a satisfação de meu filho quando a namorada lhe mostrou o que ela havia encontrado para mim.

A capa de “Footnotes* from the world’s greatest bookstores” é dura e se levanta na vertical como uma tampa, protegendo o miolo da publicação. Depois, é só folhear o conteúdo normalmente.

O livro reúne ilustrações de 78 livrarias e sebos espalhados pelo mundo inteiro. Os desenhos são do cartunista norte americano Bob Eckstein. Cada um deles vem acompanhado de uma breve explicação sobre o estabelecimento comercial e comentários curiosos proferidos pelos proprietários, vendedores e freqüentadores, que tanto podem ser pessoas famosas como simples anônimos. Algumas das livrarias mencionadas tornaram-se saudosas recordações. Felizmente, a maioria continua de portas abertas.

 

Footnotes* from the world’s greatest bookstores” foi a minha “caixa de chocolates”. Cada página virada era como se eu saboreasse um diferente tipo de bombom. Tinha o sabor “livraria escondida no final de um longo túnel que desemboca num antigo abrigo antiaéreo”; o sabor “livraria-restaurante que oferece três livros de graça ao cliente no final da refeição”; o sabor “livraria móvel que circula por Lisboa com títulos de autores portugueses para que os estrangeiros os conheçam’; o sabor de “uma minúscula livraria parisiense onde cabem apenas quatro a cinco pessoas”; o sabor “livraria londrina flutuante”, e muitos outros “bombons” deliciosos.

Além de poder saboreá-los quantas vezes eu quiser, estes chocolates não engordam! Tem presente melhor?

 

Só vou dar uma olhada

 

Cheguei adiantada à sessão de cinema. Do outro lado da rua o letreiro luminoso da livraria convidava-me a entrar.

“Só vou dar uma olhada, só vou dar uma olhada” – era esse o meu mantra quando adentrei no estabelecimento comercial.

Fotografei as novidades que me chamaram atenção: O que vem ao caso, romance de estréia de Inez Cabral, filha do consagrado escritor João Cabral de Mello Neto, Brevíssima História de Portugal, para não esquecer as minhas origens, A improbabilidade do Amor, romance publicado por uma editora paulista que não conhecia a Morro Branco, e, finalmente, Garotas Mortas escrito por uma argentina, pelo qual me interessei após espichar o ouvido e escutar a cliente recomendando-o à vendedora.

Com uma pontinha de orgulho, segui o mantra à risca e saí sem comprar nada! Se quisesse ver o filme desde o início, não teria tempo para aguardar na fila do caixa da livraria.

Dois dias depois, voltei a usar do mesmo estratagema. “Só vou dar uma olhada, só vou dar uma olhada”, pensei ao entrar em uma livraria de outro bairro.

A arrumação dos lançamentos era diferente. Além daqueles que anteriormente tinham chamado a minha atenção, agora eu deparava com outros. Só que desta vez não tinha uma sessão de cinema para me apressar. Eu acabara de almoçar um delicioso ravióli recheado com abóbora, envolto em molho de manteiga, sálvia e lascas de amêndoas, muito bem acompanhado de um vinho chileno, e tinha todo o tempo do mundo para flanar por entre os corredores da livraria.

E foi assim que a minha força de vontade ruiu e se transformou em Sem lugar no mundo de Françoise Frenkel e Pequenos incêndios por toda a parte de Celeste Ng.

“Só vou dar uma olhada”. Sei… como eu gosto de me enganar!

 

 

 

O homem que plantava árvores

Impossível não lembrar de Sebastião Salgado quando se lê o conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono.

Assim como o personagem principal do livro, que saiu plantando árvores de espécies diferentes numa região inóspita no sul da França, o famoso fotógrafo brasileiro também reflorestou a propriedade que herdou do pai em Minas Gerais.

Ambos chamaram para si essa tarefa – que aos olhos de muitos parecia impossível -, sem esperar que as autoridades governamentais tomassem as providências necessárias que a elas competia.

O homem que plantava árvores foi escrito em 1953 quando a Europa ainda tentava compreender como tamanha barbaridade pudera acontecer em nome de… Em nome do quê mesmo?

Um sentimento amargo contaminava o espírito daqueles que haviam sobrevivido a duas guerras mundiais tão próximas uma da outra. Definitivamente, a raça humana estava condenada a se autodestruir.

Aí surgiu um livrinho despretensioso, de não mais de quatro mil palavras, que rapidamente se tornou um sucesso mundial. Ele contava a história de um pastor de ovelhas que sozinho recuperou uma região quase deserta. Sem esperar aplausos ou reconhecimento, fez o que achava ser necessário.  A sua atitude modificou não só toda a paisagem de um vale, como deu qualidade de vida aos habitantes desse lugar.

Recentemente voltei a pensar nesse pastor quando aceitei o convite da professora Sergiane para participar das comemorações da semana do Livro Infantil, realizadas na Escola Municipal Embaixador Dias Carneiro.

Eu a conheci no início do ano quando fizemos uma oficina com Francisco Gregório Filho sobre a arte de contar histórias. As aulas aconteciam no final do dia e eram ministradas bem longe de onde ela morava. Lembro que me imaginei no seu lugar e tive a certeza de que jamais teria a determinação para enfrentar, entre idas e vindas, duas horas dentro de um transporte público sujeito a atrasos e assaltos.

O entusiasmo dessa profissional contagiou-me, e assim, em uma manhã ensolarada, consultei o Waze e fui desbravar o bairro do Tanque, localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A fachada externa da escola bem que merecia uma pintura, mas lá dentro encontrei corredores limpos e uma sala de leitura com as estantes organizadas. Minha colega de curso é a responsável pela sala e procura mantê-la atualizada com novos lançamentos, mesmo que, para isso, eventualmente precise pagar do próprio bolso. Ela também promove jogos e cirandas, convida escritores e contadores de histórias para conversar com as crianças, e está sempre se reciclando em busca de novidades.

É bem possível que assim como o trabalho do anônimo pastor não foi reconhecido, o mesmo aconteça com o da professora Sergiane.  Muitos irão dizer que ela não faz mais do que a sua obrigação. Talvez seja verdade. Mas quando se vê tanto descaso para com a Educação, é bom encontrar alguém perseverante que forma futuros leitores com tanta paixão. Obrigada professora Sergiane por me mostrar que nem tudo está perdido.

 

  • O homem que plantava árvores

Jean Giono

Editora 34

R$ 49,00

Kafka e a boneca viajante

Uma amiga adepta do desapego convidou-me para dar uma olhada nos livros que pretendia doar. Entre vários, um livro fininho chamou-me a atenção: Kafka e a boneca viajante.

O livro escrito por Jordi Sierra i Fabra venceu em 2007 o Prêmio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil da Espanha. Desde muito cedo, o autor de nacionalidade catalã se apaixonou pelo ofício de contar histórias. Era ainda um garoto, de apenas doze anos, quando escreveu um romance (nunca publicado) com quase quinhentas páginas.

Na presente história, o autor parte de um fato verídico que aconteceu um ano antes de Franz Kafka morrer, e que posteriormente foi lembrado por sua companheira, Dora Dymant, em conversas com amigos.

Ao caminhar por um parque em Berlim, o casal encontrou uma menina – inexplicavelmente sozinha – chorando desolada porque havia perdido a boneca preferida. Tentando confortá-la, o famoso escritor disse que, com certeza, a boneca tinha viajado e que lhe mandaria uma carta contando as novidades. Para convencê-la, o escritor – conhecido por seu temperamento atormentado e anti-social – disse que era um carteiro de bonecas e que no dia seguinte traria uma carta escrita pela boneca fujona.

Durante três semanas Franz Kafka, que não teve filhos, dedicou seu tempo e talento para consolar uma criança desconhecida. As cartas nunca foram encontradas e foram apreciadas apenas por uma única leitora, cuja verdadeira identidade também nunca foi descoberta.

Para que essa breve e improvável amizade não caísse no esquecimento, Jordi Sierra i Fabra imaginou como essas cartas poderiam ter sido escritas. Respeitosamente, o autor catalão debruçou-se sobre as primeiras perdas e sofrimentos da infância, ao mesmo tempo em que com ternura estimulou a menina a acolher com alegria e confiança os acontecimentos e mudanças em sua vida, assim como na de uma simples boneca.

 

  • Kafka e a boneca viajante

Jordi Sierra i Fabra

Editora Martins Fontes

R$ 39,90

 

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