Para onde vão os guarda-chuvas

É possível sentir saudades de um livro que ainda não se terminou? Pois é isso o que sinto enquanto leio devagarzinho “Para onde vão os guarda-chuvas”, do escritor português Afonso Cruz.

No início tive a impressão de adentrar em um labirinto. Por vezes a narrativa bifurcava, outras vezes conduzia-me a um beco sem saída. Curiosamente, não me senti confusa nem irritada, simplesmente deixei-me levar pelas múltiplas histórias contadas pelo autor.

A atmosfera que envolve o romance remete à magia das Mil e Uma Noites, sendo eventualmente perturbada por comportamentos desumanos ou ações fundamentalistas. Uma mistura aparentemente contraditória onde transitam personagens de todos os matizes: sábios, enamorados, cruéis, ingênuos, sensuais, brutos e conciliadores. Nesse universo mítico, a própria Morte também aparece para dar o seu recado.

A prosa de Afonso Cruz é sedutora e nela me perco:

“As pegadas não são as marcas dos nossos pés, são as marcas das nossas paixões, das nossas obrigações, dos nossos castigos, dos nossos prazeres. São o lugar por onde andamos, e isso revela muita coisa, mais do que impressões digitais e biografias oficiais. As pegadas, por vezes, (…) mostram quem pisamos, (e) evidenciam quem seguimos.”

Para onde vão os guarda-chuvas” merece ser apreciado agora, e guardado com carinho. Deixar o tempo maturar e relê-lo daqui a alguns anos, quando, com certeza, o livro será outro e eu também.

 

  •   Por enquanto o livro só foi publicado em Portugal. No Brasil a editora Companhia das Letras lançou outras obras do escritor: Flores e Jesus Cristo bebia cerveja

Duas decepções e uma boa surpresa

Fiquei mais de um mês sem postar, mas isso não significa que pus os livros de lado. Acontece que as ultimas leituras foram pouco prazerosas – apesar de terem recebido ótimas críticas – e, por essa razão, não me apeteceu comentá-las.

A primeira decepção foi com A Gorda, da escritora Isabela Figueiredo. Interessei-me pelo livro porque, como disse em um post anterior, gostei muito do outro livro da escritora, Caderno de memórias coloniais.

Decidida a não me deixar abater e interessada em conhecer outros autores lusófonos, iniciei a leitura de Esse cabelo – a  tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteira, da angolana, Djaimilia Pereira de Almeida. A escritora havia sido um dos destaques da FLIP no ano passado.

A trama não poderia ser mais atual e interessante, já que aborda temas como racismo, padrões de beleza feminino, identidade social, etc. Mas de novo, a leitura não fluiu. Li uma frase, reli, e nada do texto me cativar. Dei-me por vencida e pus o livro de lado.

Lembrei que fizera o mesmo quando tentei ler O Apanhador no Campo de Centeio na adolescência. Acho que os problemas próprios da idade eram mais do que suficientes para me fazer debruçar com paciência sobre a rabugice depressiva de outro jovem.

Felizmente, no início deste ano, resolvi dar uma  nova chance a Holden Caulfield, e constatei que meu olhar havia mudado. Com satisfação, mergulhei com empatia nos questionamentos do atormentado personagem.

Por essa razão, decidi fazer o mesmo com Esse cabelo…  Quem sabe se o deixar hibernando por algum tempo na estante eu possa apreciá-lo melhor?

Por último, gostaria de fazer uma ressalva muito importante para quem ainda não leu ou gostaria de reler “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Como é possível que a editora, detentora por anos a fio dos direitos da obra no Brasil, não tenha se dado ao trabalho de corrigir erros ortográficos, nem de melhorar o projeto gráfico do livro? Nele, não consta uma linha sequer sobre o autor, nem uma pequenina resenha da história. Ainda por cima cobram o exorbitante preço de R$ 75,00.

Lamentei ter lido o livro antes do lançamento da caprichada edição feita em junho pela editora Todavia. A tradução foi atualizada, a ilustração da capa é a original americana e o preço está bem mais em conta: R$ 59,90. Essa nova versão de O Apanhador no Campo de Centeio vale a pena guardar ou oferecer de presente.

Circe

Em julho de 2013 li A Canção de Aquiles e considerei-o por antecipação a melhor leitura que faria naquele ano. A narrativa abordava de forma ágil e eletrizante a história do herói grego Aquiles e a Guerra de Troia. Encantada com o estilo da escritora norte-americana, Madeline Miller, fiquei aguardando pelo próximo livro.

No final do ano passado, surgiram na impressa estrangeira críticas elogiosas ao seu novo trabalho, Circe, e em abril o livro chegou às livrarias brasileiras.

A trama parecia bem interessante. Ela contava a história de Circe, filha do poderoso titã Hélio, o deus sol. Circe apaixonou-se por um pescador chamado Glauco. Como deusas e mortais não podiam casar entre si, ela o transformou numa divindade marinha. Em vez de se sentir agradecido, Glauco caiu de amores pela ninfa Cila. Enfurecida e cheia de ciúmes, Circe transformou-a em um monstro horrendo de seis cabeças. O seu gesto enfureceu os deuses que a exilaram para todo o sempre na ilha Eana.

Os séculos se passaram, até que um dia atracou na ilha, Odisseu, também conhecido como Ulisses. Ele voltava para casa, para os braços de sua amada Penélope, depois de lutar durante anos na guerra de Troia. Seduzido por Circe, acabou ficando mais tempo do que deveria, e quando partiu deixou a feiticeira grávida. Dessa união nasceu Telêmaco, que mais tarde viria a matar o pai, e depois casaria com… O livro não diz com quem, mas vale a pena pesquisar, porque se trata de uma união, para dizer no mínimo, surpreendente.

Como esperado, comecei a leitura de Circe bem animada. Mas para meu desapontamento, a magia que me envolveu logo no começo de A Canção de Aquiles, desta vez não aconteceu.

O texto parecia-me repleto de descrições hiperbólicas e desnecessariamente melodramático. Para piorar, tive muita dificuldade para simpatizar com a personagem principal. Bem que a autora tentou fazer uma releitura mais simpática daquela que era considerada a deusa máxima da feitiçaria e da magia negra, mas achei Circe lamurienta e possessiva, chatinha mesmo. As referências sobre mitologia que tanto haviam me agradado no primeiro livro, desta vez, me soaram didáticas e pouco inspiradoras. Se não fosse por uma descrição ou outra, como o nascimento do Minotauro ou a luta entre Circe e o monstro marinho, diria que a leitura foi decepcionante.

Em 2012 Madeline Miller concorreu ao Orange Award* com A Canção de Aquiles e venceu. Este ano ela está na disputa com Circe. Se ganhar não contará com o meu aplauso.

 

  • Circe

Madeline Miller

Editora Planeta

R$ 59,90

 

* O prêmio literário britânico concedido somente a mulheres de qualquer nacionalidade, que escrevem em inglês e foram publicadas no Reino Unido. Atualmente a condecoração chama-se Prêmio Feminino de Ficção.

Sem lugar no mundo

Sem lugar no mundo foi encontrado por acaso em 2010, numa barraca de caridade, na cidade francesa de Nice. A publicação de 1945 era de uma editora suíça que não existe mais. Não sei se quem o descobriu se interessou pelo livro porque no passado tinha conhecido a autora ou, se ao folheá-lo, percebeu a importância do que tinha em mãos.

Nele, Françoise Frenkel, conta como era a sua vida em Berlim, antes dos nazistas chegarem ao poder, e o pesadelo que viveu até conseguir refúgio na neutra Suíça.

Apaixonada por livros, ela surpreendeu-se quando, ao visitar a capital da Alemanha em 1921, teve dificuldade em encontrar um estabelecimento que vendesse livros em francês. Ciente de que a cidade possuía uma vida cultural intensa e sofisticada, decidiu abrir a primeira livraria francesa de Berlim. Durante um bom tempo “La Maison du Livre” fez bastante sucesso. Era o ponto de encontro de intelectuais e estudantes, ávidos pelas novidades que chegavam de Paris.

Quando as perseguições aos judeus começaram, a loja de Françoise tornou-se um lugar não só perigoso, mas também inviável, e ela precisou fugir.

A autora buscou refúgio na França, visto que a Polônia, seu país natal, estava sob o jugo alemão. Não demorou muito para que essa escolha se mostrasse desastrosa. Passados nove meses de relativo sossego precisou iniciar uma nova fuga, desta vez, para o sul do país. A tranquilidade durou pouco. Acovardado, o governo francês dobrou-se ao inimigo, e ajudou-o na perseguição aos judeus.

Françoise escondeu-se em Nice, mas ali também não era seguro. Se fosse descoberta seria deportada imediatamente para um campo de extermínio. Fugir para o país vizinho não era uma opção, pois os italianos eram aliados dos alemães. Restava vencer uma montanha de papéis e carimbos burocráticos para depois enfrentar uma longa e extenuante marcha até à Suíça.

Este não foi o primeiro relato que li sobre as atrocidades cometidas contra os judeus. Normalmente são romances históricos ficcionais. Cria-se uma empatia com os personagens, mas nada é tão angustiante quando se sabe que quem escreveu, realmente, viveu tudo aquilo. Alguém que poderia ser um conhecido, um amigo, ou talvez o nosso professor do colégio ou da faculdade.

Óbvio que todas as medidas adotadas pelos nazistas foram asquerosas, mas sempre se podia jogar a culpa no governo, dizer que não se votou neles, e lavar as mãos como Pôncio Pilatos. O que me incomoda profundamente nesses relatos é que não há desculpa para as mesquinharias cometidas por pessoas comuns. Como aquela feita por uma castelã, que inicialmente aceitou esconder a autora mediante o pagamento de uma importância considerável. Entretanto, assim que soube que a polícia a vigiava, em vez de simplesmente mandá-la embora, não teve a decência de guardar para si o que pensava e disse irritada:

Quantos aborrecimentos! Se pudesse prever toda essa chateação, jamais teria aceitado essa missão. Ah, de jeito nenhum!

Durante quatro anos a autora perambulou de um esconderijo para outro. Sentiu fome, frio e muito, muito medo. Quase sempre sozinha, eventualmente contava com a ajuda de algum francês corajoso. Dessa forma, Françoise Frankel conseguiu entrar clandestinamente na Suíça, onde finalmente pode se sentir segura. Foi lá, no centro de uma Europa em guerra, que escreveu Sem lugar no mundo.

Ao falar da sua jornada pessoal, Françoise Frankel nos faz lembrar dos judeus que não sobreviveram.

 

  • Sem lugar no mundo

Françoise Frankel

Editora Bazar do Tempo

R$ 54,00

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