Ó dúvida cruel, por qual começar?!

Entrei de pés e cabeça na campanha “Neste Natal dê um livro de presente”. Não só ofereci vários, como também já recebi MUITOS que se juntaram aos que ganhei de aniversário. Espero ter acertado no gosto de quem vou presentear ( garanto que escolhi com o maior cuidado),  mas os que eu recebo são sempre do meu agrado, porque fui eu mesma que os escolhi.

Os primeiros presentes foram Velhos são os outros da Andrea Pachá; um livro infantil que de tão sensível faz jus ao nome: Emocionário  ; e a autobiografia da Michelle Obama. Pelo correio chegou Como se encontrar na escrita da Anna Holanda.

Poucos dias depois recebi uma caixa com cinco livros, presente conjunto das amigas que fiz quando morei em Salvador. Esse presente comunitário tornou-se uma tradição natalina, assim como as rabanadas que como uma única vez ao ano. Mesmo sabendo o que contém, abro-a sempre com certa ansiedade, porque não sei quais são os livros que irei receber. Eles fazem parte de uma lista que enviei previamente, mas quais são os que se encaixam no orçamento das minhas amigas ou se encontram disponíveis na livraria on-line, é uma incógnita

Como já comentei num post anterior, este ano tive interesse em ler mais escritores portugueses contemporâneos. Por essa razão ganhei Perguntem a Sarah Gross de João Pinto Coelho e Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo.

Por sugestão de um blogueiro pedi e recebi a caprichada edição com capa dura e fitinha vermelha de Kindred, escrito pela norte-americana Octavia E. Butler, considerada a Grande Dama da ficção científica. Não é meu estilo, mas gosto de sair da minha zona de conforto.

A primeira vez que ouvi falar n’A Uruguaia foi numa conversa que entreouvi entre um livreiro e uma cliente. Eles falavam com tanto entusiasmo sobre o livro que atiçaram a minha curiosidade.

Além de blogs de leitura, também sigo alguns instagrams que falam especificamente sobre literatura infantil. Foi através do @blogeraoutravez que me interessei por Escrito e Desenhado por Enriqueta. Gente, que livro mais fofo é esse! Parabéns ao autor Liniers e à editora Vergara & Riba que o publicou no Brasil. Super indico para maiores de seis anos – crianças que gostam de desenhar e estão começando a ler e escrever – até …. aí o céu é o limite! O que importa é gostar de livros ilustrados e criativos.

Por último, minha irmã que fugiu do frio europeu, trouxe-me Para onde vão os guarda-chuvas do escritor português Afonso Cruz. O livro foi-me indicado pela minha amiga de infância Isabel O., que assim como eu é leitora compulsiva.

Meu problema agora é escolher qual ler primeiro. Ó dúvida cruel!

Gostei dos dois

Falta pouco para o meu aniversário e logo será Natal. Aguardo ansiosa pelos presentes-livros que irei receber. O problema – se é que se pode chamar de problema – é que ainda não dei conta de todos que ganhei ano passado. Como sou indisciplinada, passei na frente outros livros que por alguma razão me atraíram.

Um que furou a fila foi Pequenos incêndios por toda a parte, da escritora norte-americana Celeste Ng. Escolhi porque não queria ler nada muito sério durante os longos voos que fiz ao viajar recentemente.

Com efeito, a narrativa começou bem descontraída, mas gradativamente os conflitos ganharam intensidade. Questões complexas sobre a maternidade foram levantadas: o desejo de ser mãe e não conseguir; escolher maneiras pouco comuns para se ter um filho; adoções inter-culturais e raciais; abandonar um bebê num momento de desespero; fazer ou não um aborto… Com engenhosidade a autora embaralha todas as possibilidades alterando as circunstâncias e as crenças iniciais dos personagens.

Ao terminar Pequenos incêndios por toda a parte, tive vontade de emendar com o outro livro de Celeste Ng, Tudo que nunca Contei, mas me contive. Depois de tanto tempo sem ir a Portugal, regressei determinada a descobrir os novos escritores portugueses.

Lembrei que ganhara no ano passado Índice médio de felicidade escrito por David Machado. O livro recebeu em 2015 o Prêmio da União Europeia de Literatura. Fiz uma ótima escolha ao resgatá-lo do esquecimento, porque encontrei um escritor de texto ágil e claro.

A narrativa se passa durante a grave crise econômica que atingiu Portugal em 2008. O personagem principal, apesar de sofrer graves revezes profissionais, procura manter o otimismo. Cada manhã é um novo desafio. Talvez fosse mais fácil se ele se concentrasse em resolver apenas os próprios problemas, mas não é assim que ele age. Não dá para ser feliz se fingir que não vê as mazelas dos amigos ou se ignorar o pedido de ajuda de uma estranha.

Impossível não comparar aquela época com a atual realidade brasileira. Certo que o governo de lá tomou medidas duras e impopulares – o mesmo terá que se fazer por aqui -, mas fiquei com a sensação de que o mais importante foi a mudança da mentalidade dos portugueses. Daniel, personagem principal do livro, representa uma nova geração que não se conformou com a perspectiva de um destino sombrio e, com determinação e muita criatividade, arregaçou as mangas para modificá-lo.

Índice médio de felicidade é uma leitura inteligente para se começar 2019 com o pé direito. Quanto a mim, vou correr atrás da outra obra do David Machado publicada no Brasil: Deixem falar as pedras. Que bom que meu aniversário está próximo!

Ana Paula – perfil duma lisboeta

Não gosto do nome Ana Paula. Considero-o piroso, cafona. Se bem me lembro, quando morava em Portugal, os prenomes bonitos eram os de rainhas, como Margarida, Isabel, Catarina, Felipa ou então os de santas: Teresa, Cecília, Inês. O onipresente Maria era muito bem visto, quer fosse usado solitáriamente ou na companhia de outros que soam estranhos ao ouvido brasileiro, como Maria João. Certas combinações apesar de muito comuns como Maria das Dores, Maria das Graças, Maria de Lurdes, eram sem graça, assim como  Gracinda, Conceição ou Lúcia. Naquela época os prenomes deviam ser clássicos e atemporais. Nomes, que bem mais tarde aprendi a gostar, como Alice, Andreia ou Beatriz  eram pouco usuais e Gabrielas simplesmente não existiam.  Ana Paula era um nome sem tradição, retirado do romance de um escritor português: Joaquim Paço D’Arcos.

Meu pai apreciava bastante o escritor. Tinha todos os seus livros encadernados em couro marmorizado e letras douradas. Como Joaquim Paço D’Arcos não era citado nas aulas de literatura, eu, do alto das minhas certezas de adolescente, considerava-o um escritor menor.

No entanto, por ser muito ligada a meu pai, fiquei curiosa em conhecer a heroína que tanto o encantara.  Enfrentei as pouco mais de trezentas páginas com uma irritação crescente. Como era possível alguém em sã consciência desejar para a própria filha um destino tão cruel? Tudo bem que Ana Paula era muito bonita, graciosa, um ser repleto de virtudes, mas, por escolha própria, fadada a uma vida infeliz. Uma idiota!

Esbravejei de tudo o que foi jeito, apesar de não haver mais nada a fazer: Ana Paula é o meu nome.

Quando mais tarde herdei a biblioteca do meu pai, assim que surgiu uma oportunidade, desfiz-me de todos os Joaquim Paço D’Arcos.

Os anos se passaram, mas inexplicavelmente eu não esquecia a Ana Paula. Sempre que encomendava algum livro no site Estante Virtual procuráva-o sem sucesso. Até que na última viagem que fiz a Lisboa entrei despreocupada num sebo e o encontrei. Encadernado em couro vermelho o livro mantinha no seu interior a capa original.

No voo de regresso comecei a lê-lo mais uma vez. Impressionante como o meu olhar sobre a obra se modificou. Não importa mais se a personagem é idiota ou não. Estou encantada com o enredo da história, a elegância da escrita, a construção psicológica dos personagens e a descoberta de novas palavras como êmulo, arreganho, nimbar, souteneur.

Leio Ana Paula sem pressa e transporto-me para uma Lisboa dos anos trinta no século passado. Uma época de rígidas convenções sociais e auto infligidas prisões morais.

Pergunto-me como é possivel um escritor tão popular, com uma obra tão vasta e merecedora de tantos prêmios estar praticamente esquecido. Talvez porque Joaquim Paço D’Arcos era salazarista e se opôs à Revolução dos Cravos ocorrida em 1974. Se for esse o caso, a poeira dos exaltamentos políticos já baixou e está na hora de recuperar a obra de quem retratou com maestria a vida portuguesa entre as décadas 30 a 60 do século XX.

Quanto a mim, pretendo aos poucos recuperar os livros de que me desfiz, e tentar fazer as pazes com o meu nome.

 

* Êmulo – rival, adversário, oponente

*Arreganho – ousadia, valentia

*Nimbar – tornar sublime, enaltecer

*Souteneur – cafetão

E eu fui a Lisboa!

Antes de mais nada, quero pedir desculpas às amigas portuguesas por não as ter procurado quando estive recentemente em Portugal. Foram poucos dias e as saudades que tinha da minha irmã e de meu filho eram tantas que foi neles que concentrei todos os meus beijos e vontade de atualizar as conversas.

Levei o guia ‘’Vá a Lisboa e me leve com você’’. Minha irmã, que acompanhou as andanças, ficou impressionada como ele está atualizado.

Quando o adquiri no início do ano, montei um mini roteiro com o que pretendia visitar da próxima vez que fosse a Lisboa. Claro que não pude fazer tudo o que queria, mas mesmo assim estive no Museu Nacional do Azulejos e apreciei o painel O Casamento da Galinha mencionado no guia. Dentro do complexo, do qual faz parte o museu, surpreendi-me com a beleza da igreja do convento Madre de Deus, de deixar qualquer visitante de queixo caído.

Consegui tambem almoçar n’O Magano em Campo de Ourique. Felizmente fizemos reserva, porque o restaurante estava socado de gente. O couvert oferecido, por si só, era uma refeição completa: saladinha de polvo, mini rissoles de camarão, empadinhas de galinha, cogumelos recheados. Cada entrada mais deliciosa do que a outra. Para fechar com chave de ouro o programa, sentado numa mesa ao lado rodeado de amigos, estava o escritor Miguel Sousa Tavares. Ele é o autor de um romance histórico que muito aprecio e costumo indicar para todo mundo: Equador.

A minha empolgação foi grande porque na véspera ao fazer  uma visita relâmpago a uma livraria, tinha comprado o seu último livro: Cebola crua com sal e broa. Pena que o deixara no hotel e não pude pedir-lhe que escrevesse uma dedicatória.

Na verdade, eu tinha ido à livraria atrás de outro livro, que me havia sido indicado pela professora do curso que estou fazendo no Instituto das Letras. Era a primeira vez que ouvia falar em Afonso Cruz e achei o título muito curioso: ‘’Vamos comprar um poeta’’.

Fiquei sabendo que o escritor é tambem ilustrador, cineasta e músico, e recebeu diversos prémios nas áreas em que atua. Aqui no Brasil a editora Companhia das Letras publicou: ‘’Flores’’ e “Jesus Cristo bebia cerveja’’.

A ideia inicial era ler rapidamente ‘’Vamos Comprar um Poeta’’, visto que o livro tem apenas 100 páginas, e depois oferecê-lo à professora. Mas achei a história tão original que mudei de ideia. Posso até emprestá-lo (que perigo!), mas quero guardá-lo na minha estante.

Na manhã do dia em que regressei ao Brasil, encontrei tempo para visitar o Centro Cultural de Belém. Depois, passei rapidinho na loja de souvenirs. Bem na entrada, uma capa despojada com um título sucinto chamou minha atenção: ‘’Lisboa o guia ilustrado’’, um projeto pessoal de Amir-Alexandros Afendras. Folheei-o apressadamente e me apaixonei. O livro era todo ilustrado com aquarelas que contavam resumidamente os costumes e a história da cidade.

Os desenhos referentes às comidas foram decisivos para esquecer que as malas estavam fechadas. Com certeza encontraria um espaço para guardá-lo. Onde mais, se não ali, aprenderia as diversas maneiras de beber um café (bica, italiano, carioca, pingado, garoto, com cheirinho, mazagran, abatanado e outras mais) ou encontraria uma ilustração tão bonita que mostrasse os diferentes tipos de frutos de mar servidos nos restaurantes lisboetas?

Depois, quando pude apreciá-lo com mais calma, encontrei um capítulo referente a personalidades que iam desde reis e escritores, passando por Cristiano Ronaldo e artistas plásticos. Lá estava Joana Vasconcelos –  tem um enorme e flamejante coração de Viana, construido com talheres de plástico vermelhos, bem na entrada da exposição -, e uma pessoa que não conhecia. Em cima do nome Alexandre Farto (Vhils) está desenhado um prédio cuja fachada tem um rosto pintado. Pesquiso na internet e descubro tratar-se de um pintor e grafiteiro considerado um dos maiores nomes mundiais da arte urbana. Sorrio e penso como os livros por mais despretensiosos que sejam sempre me surpreendem e ensinam alguma coisa.

Se mesmo assim minhas amigas não estiverem convencidas,  saibam que não consegui tomar um sorvete no Santini e nem comer um único pastel de nata!

 

  • Cebola crua com sal e broa

Miguel Sousa Tavares

Editora Clube do Autor

20 euros

  • Vamos comprar um poeta

Afonso Cruz

Editora Caminho

12,90 euros

  • Lisboa o guia ilustrado

Amir-Alexandros Afendras

Editora Majericon

20 euros

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