Se eu fosse um livro

No início de maio, realizou-se em Salvador o 3º Festival de Ilustração e Literatura Expandido. O evento acontece de dois em dois anos e já tem lugar garantido no cenário cultural da cidade. A organizadora, Flávia Bomfim, sempre convida artistas gráficos que além de mostrarem seus trabalhos mais recentes, também apresentam propostas inovadoras para a produção literária. Um dos temas que mais me agrada é o que diz respeito ao universo das ilustrações.

Entre os convidados deste ano estava o premiado ilustrador português André Letria, que em parceria com o pai, o escritor José Jorge Letria, publicou um livro, “Se eu fosse um livro”, pelo qual me apaixonei imediatamente assim que o folheei.

Precisei segurar o desapontamento quando André confirmou que ele não estava à venda, pois fazia parte do mostruário de sua editora independente, a Pato Lógico.

Por sorte, eu tinha me inscrito numa oficina ministrada por ele, na qual os participantes trabalhariam tendo esse livro como tema.

Depois de todos conhecerem a proposta do livro, André Letria ofereceu duas pilhas de cartões arrumadas como cartas de baralho, para que escolhêssemos aleatoriamente uma imagem e uma palavra representando uma ação. O desafio proposto foi criar uma frase que obrigatoriamente começasse com: “Se eu fosse um livro…”. Isto feito, era a vez de desenhar uma imagem que representasse a frase. Nada de muito elaborado, afinal nem todos os participantes eram ilustradores.  Coube a mim a imagem de uma cadeira e a palavra analisar.

Depois de muitas frases escritas e descartadas finalmente cheguei à definitiva: “Se eu fosse um livro, distrairia quem espera sentado numa cadeira para ser analisado” Ufa, que doideira!…

Agora vinha a parte mais difícil. Como colocar isso em imagens?

Rabisquei um sujeito sentado numa cadeira lendo um livro, uma porta fechada e um relógio de parede. Queria passar a ideia de alguém que aguardava numa ante-sala para ser analisado (tanto poderia ser a de um consultório médico quanto a de um gerente de RH) mas que, de tão entretido, não percebia o tempo passar.

Satisfeita com o resultado e seguindo as instruções de André, procurei reduzir a ilustração ao essencial. De novo, desenhei a cadeira, o livro, a porta e o relógio, mas no lugar do homem coloquei um ponto de interrogação. Era o máximo que conseguia limpar da imagem.

André gostou da ideia geral e sugeriu algumas pequeninas alterações: “O que achas se diminuíssemos bem a porta e o relógio? E se transformássemos a cadeira em um livro-montanha, para ser escalado?” E assim, com essa simplicidade, tanto a expectativa da análise quanto a cadeira sumiram, e o leitor foi transportado para outro tempo e lugar.

As mudanças propostas foram tão radicais, que para reconhecer o meu trabalho, mantive a cadeirinha. Agora, ao rever o esboço feito por André reconheço o quanto ela é desnecessária.

Este post tem um final feliz. Lembrei a tempo que um amigo chegaria em breve de Portugal e, sem a menor cerimônia, pedi que trouxesse na mala o meu objeto de desejo. Agora, posso me deleitar quantas vezes quiser e dizer: Se eu fosse um livro, nunca havia de sentir pressa de ler a palavra “Fim” .

 

Soube que o livro já foi publicado no Brasil pela editora Globo Livros e custa R$ 46,00

Nossas Noites

A primeira vez que ouvi falar do livro Nossas noites foi na coluna de Cora Rónai. Ela o indicava como presente a ser oferecido no Dia das Mães, dizendo que se tratava de: “(…) um pequeno romance terno e perspicaz, uma história de amor pouco convencional, sem final feliz, mas cheia de afeto e de bons sentimentos”.

Mais uma vez, segui a sua indicação e logo comprovei que era verdade tudo o que escrevera sobre ele.

A história do livro se passa numa pequenina cidade, no interior dos EUA, onde todos os moradores se conhecem, mesmo que seja só de vista. Certo dia Andie, uma septuagenária viúva, faz uma visita a Louis, que mora a poucas casas distante da sua, e lhe faz um convite inusitado. Será que ele – sendo também viúvo – gostaria de vez em quando lhe fazer companhia à noite, para conversarem e dormirem juntos?  Inicialmente surpreso, Louis concorda com a proposta.

E assim, dessa forma direta sem grandes firulas, começa uma bonita amizade entre dois idosos solitários, iguais a tantos outros que, apesar de não conhecermos, nos enternecem toda vez que os vemos passear de mãos dadas pelos corredores do shopping ou saindo de uma sessão de cinema conversando entre si.

Não espere reviravoltas na trama que flui de maneira segura e tranquila. Sendo personagens bem reais, eles têm preocupações com os filhos adultos e problemas de saúde. No entanto, o maior desafio que precisarão vencer é o preconceito de que existe um prazo de validade para iniciar um relacionamento amoroso.

Nossas noites foi o último romance escrito pelo autor americano Kent Haruf antes de falecer, e o primeiro editado pela Companhia das Letras. Espero que a editora publique os anteriores, porque definitivamente fiquei muito curiosa em conhecer a obra do autor.

 

  • Nossas Noites

Kent Haruf

Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

Mentes disciplinadas (e outra nem tanto)

No mês de abril comemora-se o Livro Infantil. Por essa razão muitas escolas realizam feiras de livros e promovem encontros dos escritores com os alunos como forma de incentivá-los a ler.

Foi assim que na semana passada visitei o Colégio Padre Antônio Vieira e no dia seguinte o Colégio Nª Srª das Mercês para conversar sobre A Pergunta Mais Importante e O Menino Enrolado.

Por mais que aprecie esses encontros, é sempre com um friozinho na barriga que encaro todas aquelas crianças reunidas. Afinal sou eu sozinha diante de um público normalmente agitado e perguntador, que perde a concentração com facilidade.

Já conhecia o primeiro colégio, inclusive foi onde meus filhos estudaram assim que viemos morar em Salvador. Quanto ao segundo tive uma agradável surpresa. Apesar de ficar na tumultuada Avenida Sete de Setembro, seus amplos e extensos corredores com tetos altos, seu pátio interno ensolarado e florido com o nicho da santa ao fundo, remeteram-me à época em que estudei num colégio de freiras em Sintra, e fizeram-me esquecer a azáfama barulhenta do mundo lá fora.

A apresentação nas Mercês aconteceu no turno da manhã e correu melhor do que esperava. Quando terminou, dei os parabéns à coordenadora e comentei que tinha achado a turma muito participativa e interessada. Ela agradeceu, e disse que talvez fosse porque os alunos estavam aprendendo a meditar. Era bem possível que por saberem se concentrar conseguissem aproveitar melhor as atividades que lhes eram oferecidas. De novo parabenizei-a pela iniciativa. Quem sabe não era esse o empurrão que faltava para as crianças descobrirem o prazer da leitura? Como mergulhar numa história se a mente não sossega para focar na página de um livro?

De volta ao burburinho externo do colégio, tinha pela frente uma hora de espera, antes de me encontrar com uma amiga com quem marcara um almoço no Porto do Moreira, tradicional restaurante no centro da cidade onde se come um delicioso frango ao molho pardo.

Caminhando pela Avenida Carlos Gomes avistei do outro lado da calçada a Livraria Vozes escondida atrás de grades intimidantes.  E se eu entrasse só para conferir os lançamentos? Como trazia dentro da bolsa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, (que pretendia ler no restaurante caso minha amiga se atrasasse um pouco) imaginei estar protegida e entrei confiante certa de que nada poderia me seduzir.

Interessante como cada livraria tem um estilo próprio de expor as novidades. Enquanto as maiores dão ênfase às editoras que pagam para ter seus lançamentos bem visíveis, as livrarias menores revelam muito as preferências literárias do responsável por arrumar as mesas expositoras. Livros que normalmente iriam direto para a estante ganham destaque e visibilidade.

Folheei um livro, peguei outro… Estava tudo sobre controle até que o meu olho bateu num livro bonito de capa dura: Os Conquistadores – Como Portugal forjou o primeiro império global. Fingi não estar interessada e segui adiante. Demorei-me na livraria o máximo que pude testando a minha força de vontade. Mas quando precisei sair para não chegar atrasada ao meu encontro, joguei para o alto os bons propósitos e decidida dirigi-me até ao caixa levando não um, mas dois livros: Conquistadores do historiador inglês Roger Crowley e, Amar… Apesar de tudo do padre filósofo, Jean-Yves Leloup. Afinal encontrava-me em uma livraria religiosa e, por que fingir, a minha força de vontade estava há muito tempo totalmente desacreditada!

 

  • Conquistadores – Como Portugal forjou o primeiro império Global

Roger Crowley

Selo Crítica (Editora Planeta)

R$ 69,90

 

  • Amar… Apesar de tudo: para que cada um de nós transforme o seu destino em um projeto consciente

Jean-Yves Leloup

Editora Vozes

R$30,00

 

 

Como Ser As Duas Coisas (ou nenhuma)

Tenho uma palavra para dizer como me senti quando comecei a ler Como Ser As Duas Coisas de Ali Smith: Decepcionada. Ok, uma segunda: Frustrada. Bom, quem diz duas palavras diz três: Zangada.

Nunca tinha lido nada dessa autora de quem só ouvi falar maravilhas. O livro foi finalista do Man Booker Prize 2014 e ganhou diversos prêmios. Enfim, só podia ser coisa boa. Toda empolgada comecei a ler a primeira pagina e não entendi nada. Insisti mais um pouco e continuei na mesma. Deveria ser o cansaço. Fechei o livro e apaguei a luz.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que vi na mesinha de cabeceira foi o livro, e fiquei um tantinho mal humorada. Antes mesmo de por o pé no chão decidi que a experiência da noite anterior não iria me intimidar, e retomei a leitura.

 

“Ho isso aqui se contorce à maravilha é veloz como um                                                                         

peixe puxado pela boca no anzol                                                                                                             

se um peixe pudesse ser pescado através de uma                                                                              

parede de dois metros de espessura ou uma                                                                                  

 flecha se uma flecha pudesse voar numa mansa                                                                                    

espiral como a mola de um caracol ou uma                                                                                        

estrela com cauda se a estrela fosse arremessada                                                                                    

ao alto além de larvas e vermes e (…)”

 

E por aí vai. Li e reli umas três vezes, espiei as páginas seguintes e percebi que a escrita continuava sem fazer o menor sentido para mim.

Como diz um amigo, “detesto livros ou filmes que são mais inteligentes que eu!” Decepcionada, frustrada e zangada deixei-o de lado. Não valia a pena insistir quando não tenho tempo para ler tudo o que desejo.

Fui à pilha que não para de crescer, e peguei o terceiro volume da tetralogia da Elena Ferrante, História De Quem Foge e De Quem Fica. Deste eu tenho certeza que vou gostar.

 

  • Como ser as duas coisas

Ali Smith

Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,90

 

  • História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante

Editora Globo (coleção Biblioteca Azul)

R$ 44,90

 

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