Arrancar as raízes

Li os três livros em sequência: primeiro Kindred, depois Minha História e por último Cadernos de memórias coloniais. Só bem no final é que me dei conta do vinculo que os unia. De estilos e abordagens bem diferentes, todos foram escritos por mulheres, e se não discorrem abertamente sobre os horrores e as consequências da escravidão tocam no tema, quer ela tenha ocorrido em tempos passados ou mais recentes.

Kindred – Laços de sangue foi escrito por Octavia E. Butler, considerada uma das grandes damas da ficção científica norte-americana. Sua literatura apresenta personagens femininos fortes, como a protagonista principal de Kindred. O livro conta a história de Dana – esse é seu nome – que ao mudar-se para um novo apartamento com o marido, inexplicavelmente é transportada de 1976 para o século XIX.  A viagem no tempo a coloca numa situação muito perigosa porque ela é negra e vai parar numa fazenda sulista americana onde se torna escrava.

A minha impressão é de que Kindred – laços de sangue foi escrito para um público jovem. A narrativa mostra que o racismo se aprende pelo exemplo, e que se não for combatido passará de uma geração para outra como um comportamento natural e justificável.

A segunda leitura foi Minha História de Michelle Obama. Preciso admitir que logo no início – ainda no prefácio – fiquei encantada com a franqueza e a escrita desenvolta da autora. Apesar dos avanços, duramente conquistados pelos afro-americanos, os estereótipos entranhados por uma sociedade escravocrata persistem.

“Era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa. Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudante e até de certos professores como se quisessem dizer: Eu sei por que você está aqui.”

Ou quando durante a campanha do marido, Michelle se questionou se o país estaria preparado para eleger um presidente negro. Durante os oito anos em que morou na Casa Branca ela sabia que era julgada com mais rigor do que as predecessoras. Como se esperassem que, a qualquer momento, ela fizesse uma besteira para legitimar o preconceito.

O último livro, Cadernos de memórias coloniais de Isabela Figueiredo, tocou-me fundo. Apesar de não ser uma retornada, sou da mesma geração que a escritora. Se não nasci numa província ultramarina (nome dado às colônias), cresci ouvindo comentários degradantes sobre a população nativa.

A autora recorda o passado idílico vivido pelos colonos portugueses às custas de um povo que só conceitualmente não podia ser descrito como escravizado. Pela pouca idade que tinha na época, essa conta não lhe pode ser cobrada.

Os adultos com o passar do tempo procuram justificativas para as próprias atitudes, as crianças não. O entendimento do que é certo ou errado ainda não se esmaeceu com subterfúgios atenuantes. É sofrido acompanhar a divisão interna sentida pela autora, em relação ao próprio pai. Se por um lado não compactuava com o pensamento dele, por outro amava-o profundamente.

O livro é brutal e verdadeiro. Muitos leitores se queixaram que Isabel exagerou nas tintas. Não é essa a minha opinião. Mesmo sem ter estado lá, reconheço que essa ideologia respingou em mim e desde sempre esforço-me para que ela não contamine as minhas atitudes ou pensamentos.

Kindred, Minha História e Cadernos de memórias coloniais espoem as diversas faces do racismo, e reforçam a necessidade de continuar arrancando as  raízes desse mal  profundamente entranhado na nossa sociedade.

 

Ó dúvida cruel, por qual começar?!

Entrei de pés e cabeça na campanha “Neste Natal dê um livro de presente”. Não só ofereci vários, como também já recebi MUITOS que se juntaram aos que ganhei de aniversário. Espero ter acertado no gosto de quem vou presentear ( garanto que escolhi com o maior cuidado),  mas os que eu recebo são sempre do meu agrado, porque fui eu mesma que os escolhi.

Os primeiros presentes foram Velhos são os outros da Andrea Pachá; um livro infantil que de tão sensível faz jus ao nome: Emocionário  ; e a autobiografia da Michelle Obama. Pelo correio chegou Como se encontrar na escrita da Anna Holanda.

Poucos dias depois recebi uma caixa com cinco livros, presente conjunto das amigas que fiz quando morei em Salvador. Esse presente comunitário tornou-se uma tradição natalina, assim como as rabanadas que como uma única vez ao ano. Mesmo sabendo o que contém, abro-a sempre com certa ansiedade, porque não sei quais são os livros que irei receber. Eles fazem parte de uma lista que enviei previamente, mas quais são os que se encaixam no orçamento das minhas amigas ou se encontram disponíveis na livraria on-line, é uma incógnita

Como já comentei num post anterior, este ano tive interesse em ler mais escritores portugueses contemporâneos. Por essa razão ganhei Perguntem a Sarah Gross de João Pinto Coelho e Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo.

Por sugestão de um blogueiro pedi e recebi a caprichada edição com capa dura e fitinha vermelha de Kindred, escrito pela norte-americana Octavia E. Butler, considerada a Grande Dama da ficção científica. Não é meu estilo, mas gosto de sair da minha zona de conforto.

A primeira vez que ouvi falar n’A Uruguaia foi numa conversa que entreouvi entre um livreiro e uma cliente. Eles falavam com tanto entusiasmo sobre o livro que atiçaram a minha curiosidade.

Além de blogs de leitura, também sigo alguns instagrams que falam especificamente sobre literatura infantil. Foi através do @blogeraoutravez que me interessei por Escrito e Desenhado por Enriqueta. Gente, que livro mais fofo é esse! Parabéns ao autor Liniers e à editora Vergara & Riba que o publicou no Brasil. Super indico para maiores de seis anos – crianças que gostam de desenhar e estão começando a ler e escrever – até …. aí o céu é o limite! O que importa é gostar de livros ilustrados e criativos.

Por último, minha irmã que fugiu do frio europeu, trouxe-me Para onde vão os guarda-chuvas do escritor português Afonso Cruz. O livro foi-me indicado pela minha amiga de infância Isabel O., que assim como eu é leitora compulsiva.

Meu problema agora é escolher qual ler primeiro. Ó dúvida cruel!

Gostei dos dois

Falta pouco para o meu aniversário e logo será Natal. Aguardo ansiosa pelos presentes-livros que irei receber. O problema – se é que se pode chamar de problema – é que ainda não dei conta de todos que ganhei ano passado. Como sou indisciplinada, passei na frente outros livros que por alguma razão me atraíram.

Um que furou a fila foi Pequenos incêndios por toda a parte, da escritora norte-americana Celeste Ng. Escolhi porque não queria ler nada muito sério durante os longos voos que fiz ao viajar recentemente.

Com efeito, a narrativa começou bem descontraída, mas gradativamente os conflitos ganharam intensidade. Questões complexas sobre a maternidade foram levantadas: o desejo de ser mãe e não conseguir; escolher maneiras pouco comuns para se ter um filho; adoções inter-culturais e raciais; abandonar um bebê num momento de desespero; fazer ou não um aborto… Com engenhosidade a autora embaralha todas as possibilidades alterando as circunstâncias e as crenças iniciais dos personagens.

Ao terminar Pequenos incêndios por toda a parte, tive vontade de emendar com o outro livro de Celeste Ng, Tudo que nunca Contei, mas me contive. Depois de tanto tempo sem ir a Portugal, regressei determinada a descobrir os novos escritores portugueses.

Lembrei que ganhara no ano passado Índice médio de felicidade escrito por David Machado. O livro recebeu em 2015 o Prêmio da União Europeia de Literatura. Fiz uma ótima escolha ao resgatá-lo do esquecimento, porque encontrei um escritor de texto ágil e claro.

A narrativa se passa durante a grave crise econômica que atingiu Portugal em 2008. O personagem principal, apesar de sofrer graves revezes profissionais, procura manter o otimismo. Cada manhã é um novo desafio. Talvez fosse mais fácil se ele se concentrasse em resolver apenas os próprios problemas, mas não é assim que ele age. Não dá para ser feliz se fingir que não vê as mazelas dos amigos ou se ignorar o pedido de ajuda de uma estranha.

Impossível não comparar aquela época com a atual realidade brasileira. Certo que o governo de lá tomou medidas duras e impopulares – o mesmo terá que se fazer por aqui -, mas fiquei com a sensação de que o mais importante foi a mudança da mentalidade dos portugueses. Daniel, personagem principal do livro, representa uma nova geração que não se conformou com a perspectiva de um destino sombrio e, com determinação e muita criatividade, arregaçou as mangas para modificá-lo.

Índice médio de felicidade é uma leitura inteligente para se começar 2019 com o pé direito. Quanto a mim, vou correr atrás da outra obra do David Machado publicada no Brasil: Deixem falar as pedras. Que bom que meu aniversário está próximo!

Ana Paula – perfil duma lisboeta

Não gosto do nome Ana Paula. Considero-o piroso, cafona. Se bem me lembro, quando morava em Portugal, os prenomes bonitos eram os de rainhas, como Margarida, Isabel, Catarina, Felipa ou então os de santas: Teresa, Cecília, Inês. O onipresente Maria era muito bem visto, quer fosse usado solitáriamente ou na companhia de outros que soam estranhos ao ouvido brasileiro, como Maria João. Certas combinações apesar de muito comuns como Maria das Dores, Maria das Graças, Maria de Lurdes, eram sem graça, assim como  Gracinda, Conceição ou Lúcia. Naquela época os prenomes deviam ser clássicos e atemporais. Nomes, que bem mais tarde aprendi a gostar, como Alice, Andreia ou Beatriz  eram pouco usuais e Gabrielas simplesmente não existiam.  Ana Paula era um nome sem tradição, retirado do romance de um escritor português: Joaquim Paço D’Arcos.

Meu pai apreciava bastante o escritor. Tinha todos os seus livros encadernados em couro marmorizado e letras douradas. Como Joaquim Paço D’Arcos não era citado nas aulas de literatura, eu, do alto das minhas certezas de adolescente, considerava-o um escritor menor.

No entanto, por ser muito ligada a meu pai, fiquei curiosa em conhecer a heroína que tanto o encantara.  Enfrentei as pouco mais de trezentas páginas com uma irritação crescente. Como era possível alguém em sã consciência desejar para a própria filha um destino tão cruel? Tudo bem que Ana Paula era muito bonita, graciosa, um ser repleto de virtudes, mas, por escolha própria, fadada a uma vida infeliz. Uma idiota!

Esbravejei de tudo o que foi jeito, apesar de não haver mais nada a fazer: Ana Paula é o meu nome.

Quando mais tarde herdei a biblioteca do meu pai, assim que surgiu uma oportunidade, desfiz-me de todos os Joaquim Paço D’Arcos.

Os anos se passaram, mas inexplicavelmente eu não esquecia a Ana Paula. Sempre que encomendava algum livro no site Estante Virtual procuráva-o sem sucesso. Até que na última viagem que fiz a Lisboa entrei despreocupada num sebo e o encontrei. Encadernado em couro vermelho o livro mantinha no seu interior a capa original.

No voo de regresso comecei a lê-lo mais uma vez. Impressionante como o meu olhar sobre a obra se modificou. Não importa mais se a personagem é idiota ou não. Estou encantada com o enredo da história, a elegância da escrita, a construção psicológica dos personagens e a descoberta de novas palavras como êmulo, arreganho, nimbar, souteneur.

Leio Ana Paula sem pressa e transporto-me para uma Lisboa dos anos trinta no século passado. Uma época de rígidas convenções sociais e auto infligidas prisões morais.

Pergunto-me como é possivel um escritor tão popular, com uma obra tão vasta e merecedora de tantos prêmios estar praticamente esquecido. Talvez porque Joaquim Paço D’Arcos era salazarista e se opôs à Revolução dos Cravos ocorrida em 1974. Se for esse o caso, a poeira dos exaltamentos políticos já baixou e está na hora de recuperar a obra de quem retratou com maestria a vida portuguesa entre as décadas 30 a 60 do século XX.

Quanto a mim, pretendo aos poucos recuperar os livros de que me desfiz, e tentar fazer as pazes com o meu nome.

 

* Êmulo – rival, adversário, oponente

*Arreganho – ousadia, valentia

*Nimbar – tornar sublime, enaltecer

*Souteneur – cafetão

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