Quando o atraso e a antecedência se misturam

Confuso não? Vamos com calma que eu explico. Flanando em volta das mesas de livros usados expostos nos pilotis da PUC*, deparei com um livro que me interessou há quase dez anos. Seu nome está numa das numerosas listas de “Quero Ler” que anotei em algum caderninho perdido. Trata-se de “Nu, de botas” do paulista Antônio Prata.

Conheci o escritor quando morei em Salvador e meu marido, por razões profissionais, trazia nos finais de semana diversos jornais para casa. Eu passava as tardes de sábado e domingo lendo os jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os periódicos se amontoavam, e as crônicas da Cora Rónai, que saiam no Globo às quintas-feiras, encontravam-se com as do Antônio Prata, publicadas aos sábados na Folha de S.Paulo.

Sempre gostei do texto do escritor paulista, mas quando os jornais impressos foram substituídos pelas versões digitais deixei de acompanhar as suas crônicas. Por essa razão fiquei satisfeita quando encontrei em bom estado, e por apenas R$ 5,00 o livro acima mencionado.

Nu, de Botas” tem pedigree: ficou em terceiro lugar na categoria contos e crônicas do prêmio Jabuti de 2014, perdendo para Rubem Fonseca, o grande vencedor, e Luiz Vilela (confesso que nunca tinha ouvido falar neste escritor até fazer a pesquisa para este post). O terceiro lugar foi compartilhado com o escritor amazonense Milton Hatoum.

Mas voltando ao título inicial deste texto quero dizer que descobri o livro com quase dez anos de atraso e, na hora, me tomei de amores por ele. O autor narra histórias de sua infância transcorrida na década de 80. Encantaram-me as lembranças carregadas de afeto e humor, que ganham beleza e relevância ao serem descritas por quem não perdeu o olhar curioso e ingênuo de uma criança. Por essa razão e apesar de ainda faltarem seis meses para o Natal, o presente que darei aos meus amigos mais chegados está escolhido: vai ser “Nu, de botas”. A todos, desde já, desejo uma boa leitura!

*O sebo solidário que acontece quatro vezes ao ano no pilotis da PUC-RJ é um projeto da organização social CELPI, e toda a renda obtida com a venda dos livros é revertida em projetos sociais realizados no Morro Santa Marta.

Minha vida de menina

Recentemente uma amiga me pediu que a ajudasse a esvaziar as estantes da biblioteca dos pais.

O casal morou no apartamento por mais de sessenta anos, e nesse tempo todo nenhum deles se desfez dos livros que comprou ou ganhou de presente. Inclusive, guardaram a maioria dos que vieram como herança dos respectivos genitores. A tarefa não me intimidou. Afinal, já fiz mudanças suficientes para saber o que pode ser doado, o que merecia ser guardado mas jamais será relido, e aqueles impossíveis de serem descartados.

Admito que aceitei a incumbência porque sabia que, em algum momento, uma nova categoria seria criada: a dos livros que separaria para mim.

Foi assim que se “mudaram” para a minha estante As obras completas de Machado de Assis da editora Nova Aguilar, Raduan Nassar – Obra completa publicada pela Companhia das Letras (um único volume de capa dura forrado com tecido cor vinho tinto), um livro divertido de Frases para guardar da extinta editora Casa da Palavra, e Minha vida de menina.

Durante um bom tempo andei de olho no último livro. Acho que deste quando trabalhei como vendedora na Livraria Argumento, e já lá se vão vinte anos. Mas por conta de tantos lançamentos, indicações de blogs e sugestões de amigos, acabei por esquecê-lo. Finalmente, o tinha em mãos.

Minha vida de menina é o diário de uma adolescente e foi escrito no final do século XIX. Publicado pela primeira vez em 1942, teve como autora Alice Dayrell Caldeira, que utilizou o pseudônimo de Helena Morley

Desfrutei de uma leitura feita sem pressa. O relato de um cotidiano simples e rural no interior de Minas Gerais é feito numa prosa jovial, própria de uma menina de quatorze anos.

Os tempos são outros na cidade de Diamantina que antes foi próspera. Agora, ela atravessa um período de declínio econômico, pois a extração da pedra preciosa, que deu nome ao lugar, é cada vez mais escassa. Muitos são os “causos” que acontecem em uma família cheia de primos, tias e vizinhos bisbilhoteiros. As descrições de fartas e genuínas refeições mineiras aguçaram meu paladar. O fervor religioso católico se mistura com crendices e superstições que me fizeram rir: pentear o cabelo de noite, em nenhuma hipótese, pois se manda a mãe para o inferno.

Como não poderia deixar de ser, visto o período histórico no qual transcorre a narrativa (logo após a abolição da escravatura) aqui e ali surgem comentários que incomodam o leitor do século XXI. Triste é perceber que se em muitos outros quesitos a sociedade brasileira evoluiu, o preconceito e o racismo continuam enraizados como ervas daninhas entre nós. Até quando meu Deus?

Vamos ler juntas

Não escrevo e não alimento o blogue há quase um ano. Falta-me a concentração necessária. Debaixo do chuveiro surgem ideias interessantes, e enquanto dirijo também. Mas, depois, onde encontro a serenidade para sentar – apenas por algumas horas – diante do computador? Tenho sempre outros interesses ou compromissos inadiáveis – na verdade, desculpas esfarrapadas – para não o fazer.

Felizmente, não perdi o prazer de ler, mesmo reconhecendo que a força hipnotizadora das minisséries, atrapalhou o fluxo habitual da leitura.

Gostaria de compartilhar no blogue os livros que li este ano, mas não lembro exatamente quais foram. Eles se misturaram aos que guardei na estante e aos que foram doados. Quero, no entanto, mencionar aqueles que li no grupo virtual “Vamos ler juntas?”, organizado por uma amiga de colégio.

Faço uma pausa para comentar que nunca me interessei em participar de clubes de leituras, por me considerar uma leitora solitária. Gosto de flanar pelas livrarias, “farejar” as novidades, e escolher conforme os interesses do momento. Entretanto, Celina, que me conhece muito bem, insistiu para que eu participasse e – devo admitir que fiquei curiosa – resolvi romper a minha “zona de conforto”. Afinal, seria um jeito de rever algumas colegas da adolescência que eu gostava, e não via há muito tempo, não só por conta da pandemia, mas, também, porque aos entrarmos na faculdade havíamos escolhido carreiras diferentes, e, mais tarde, mudado para outras cidades e até mesmo países.

Ana Cristina, responsável pela criação do grupo, reuniu seis amigas que haviam estudado na mesma turma do Colégio Teresiano, e uma colega da faculdade de Letras. Em comum, todas gostamos de ler.

Se a pandemia – da qual ainda não nos livramos – teve algo de bom foi mostrar que existem outras formas das pessoas se reunirem e conversarem sem precisar estar frente a frente. O primeiro encontro virtual aconteceu no dia 21 de maio e foi uma alegria. Depois de tentarmos pôr em dia as respectivas trajetórias de vidas: quem fez o quê, está morando aonde, casou, separou, se teve filhos e se já chegaram os netos, finalmente começamos a falar sobre o livro escolhido. Ah, o grupo decidiu afunilar o infinito universo de opções literárias, e escolheu ler apenas autores de língua portuguesa. Sendo que, mês sim mês não, o escritor seria brasileiro.

Começamos com O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe, e foi um sucesso. No mês seguinte foi a vez do magistral Torto Arado do baiano Itamar Vieira Jr. Depois vieram A Visão das Plantas da escritora angolana Djaimilia Pereira (confesso que não gostei muito), Fim da Fernanda Torres (foi a vez da Lalá não gostar), Mapeador de Ausências do Mia Couto, e encerramos o ano com Amar Verbo Intransitivo de Mário de Andrade, o único escritor já falecido. Escolhemos o último livro para entrar no espírito comemorativo do centenário da Semana de Arte Moderna que vai acontecer em fevereiro do ano que vem. Para as artes brasileiras foi um grande evento porque rompeu com a ditadura do classicismo europeu, copiado até então pelos artistas nacionais.

Para o próximo ano já foram escalados, ops, escolhidos O vendedor de passados de José Eduardo Agualusa; A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar; Niketche – uma história da poligamia da escritora moçambicana e vencedora do prêmio Camões 2021, Paulina Chiziane; e Quarto de despejo – diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus.

Acredito que assim que terminarmos todos eles, o livro do escritor timorense Luís Cardoso, O plantador de Abóboras, já terá encontrado uma editora brasileira. Foi com este livro que o escritor venceu o prêmio Oceanos.

O ano termina nos próximos dias e desejo, sinceramente, retomar o Fagulha de Ideias com a animação que costumava ter. Desejo também uma outra coisa, mas essa nem preciso dizer qual é. Tenho certeza de que é a mesma de quem me lê agora.

Avó em dobro

Em tempos de corona vírus, as redes sociais andam frenéticas. Muitas notícias falsas, outras relevantes e as minhas favoritas: as postagens divertidas.

Peço desculpas por reescrever uma piada que, com certeza, já leram centenas de vezes, mas ela me fez rir quando chegou pela primeira vez no WhatsApp: “Querido Deus, podemos desinstalar o ano de 2020 e reinstalá-lo? Veio com um vírus!”

Diferentemente de quem o enviou, não quero deletá-lo, não. Apesar dos pesares foi no início do mês que nasceu o meu primeiro neto e, como podem imaginar, estou explodindo de felicidade.

Assim que espalhei a notícia, recebi no mesmo dia de minha amiga C. um presente especial, Colo de avó, escrito por Roseane Murray e ilustrado por Elisabeth Teixeira.

A casa da avó

às vezes é um circo.

A avó é a palhaça Coração,

de peruca cor-de-rosa

e retalhos no macacão

(…)

O neto é mágico, domador de feras

e engolidor de fogo,

tira moedas e a sortes das orelhas.

Às vezes, a farra é tanta

que a avó-coração se derrete

e inunda a sala

de sinos e risos.

C. me avisou que apesar de o livro ser encantador, em breve eu receberia outro, com o qual me identificaria mais.

Dito e feito, uma semana depois chegou Minha avó, escrito e ilustrado pela Mariana Massarani. Ele conta a história de uma menina que conversa com a avó através da internet. É o jeito possível de demonstrar amor e carinho, quando se mora bem longe de quem se gosta.

O mesmo acontece comigo e com meu neto: um oceano e muitas terras nos separam. Se não fosse essa pandemia… Ah, com certeza eu estaria, neste exato momento, estreitando-o nos meus braços.

Enquanto esse dia não chega, as fotos e os vídeos que recebo do bebê me confortam, e os livros me auxiliam a esquecer, um pouco, o isolamento forçado.

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