Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre é uma escritora paulista que merece ser conhecida. Gostei do seu primeiro livro, Restos de Nós (premiado pela Fundação Biblioteca Nacional), e agora ela se superou. A temática de “Arroz, feijão, crimes e farofa e O banquete das hienas” é bem diferente  do livro anterior. Se Restos de Nós era um romance histórico e transcorria entre duas épocas cronologicamente distintas, este é bem atual e espirra sangue para todos os lados.

Na verdade são dois títulos reunidos no mesmo volume. O primeiro engloba vinte contos, ao mesmo tempo, brutais e belos. Estranho não? Como é possível encontrar beleza naquilo que é abjeto ou cruel? Pois a escritora consegue essa proeza. A linguagem literária é limpa, quaisquer excessos e penduricalhos foram eliminados, e a violência é descrita no osso. Os horrores são viciantes, difíceis de serem esquecidos.

Segundo Bia Onofre, as histórias são ficcionais, mas para o leitor instala-se a dúvida.  Cometidos por pessoas comuns, iguais aquelas com quem esbarramos todos os dias, passamos a olhar para os vizinhos com mais cuidado. Será que esse rapaz tão simpático esconde alguma coisa, e o gerente de banco, e o menino de rua?  Quantas maldades perambulam por aí que nem desconfiamos?

A segunda parte do título, O banquete das hienas, reúne mini e nano contos. A temática é a mesma. Só que, desta vez, alguns explicitam aquilo que pensamos ou gostaríamos de verbalizar e realizar… caso fossemos psicopatas.

 

“Tentei explicar que o problema era no hardware, mas ele não me ouviu. Culpa do Windows, alegou. Foi fechando os programas, precisava formatar.

Não me perguntou se eu tinha back-up. Arremessei lá de cima. Pela única janela que o analista havia deixado aberta.”

 

Raphael Montes que se cuide. Bia Onofre chegou com vontade de dividir com ele o espaço dedicado às histórias de crime e horror.

 

  • Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre (biaonofre@hotmail.com)

Giostri Editora

R$ 30,00

Tudo é rio

A primeira vez que ouvi falar nesse livro foi no final de julho pelo Facebook. Era uma indicação feita pela Martha Medeiros, na linha do tempo de uma amiga que temos em comum.

Para mim, uma recomendação dessa escritora que tanto aprecio, era para ser seguida sem questionamentos ou demora. O problema estava na pequena editora mineira, a Quixote + Do Editoras Associadas (nome estranho, não?), que com certeza não deveria ter uma boa distribuição no Rio de Janeiro.

Como esperava, não foi fácil encontrar o livro nas livrarias tradicionais, e me esqueci da sugestão. Até que no Dia dos Pais, a crônica de Martha Medeiros – que sai todos os domingos, na revista Ela do jornal O Globo – falava exatamente sobre ele: Tudo é rio.

“É bem possível que você nunca tenha escutado falar em Carla Madeira, mas sugiro que abra espaço para ela entrar na sua vida. Até o final de 2018, espero que essa autora mineira já esteja encabeçando as listas dos mais vendidos, que esteja sendo disputada para entrevistas e que esteja recebendo propostas de editoras para lançar algum novo livro, já que o de estréia, Tudo é rio, é a revelação do ano.”

E continua: “Tudo é rio é uma obra-prima, e não exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao serem terminados, dão vontade de começar tudo de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa.”

Assim que surgiu uma oportunidade, corri para a minha livraria dileta, aquela localizada numa rua interna do Leblon. Logo na entrada encontrei exposta com destaque a pilha de Tudo é rio.

Confesso que no primeiro momento fiquei surpresa com a força erótica do texto.  A falta de escrúpulos da personagem Lucy – apresentada logo no início da história – ao mesmo tempo em que incomodava me fascinava. E foi assim de espanto e respeito que me deixei seduzir pela trama enxuta e lírica de Tudo é rio.

Para quem não tem o hábito de ler escritores nacionais, vale muita a pena conhecer Carla Madeira, uma escritora com o frescor da novidade e o poder de fisgar o leitor.

 

  • Tudo é rio

Carla Madeira

Quixote + Do Editoras Associadas

R$ 49,00

Semeadoras de Leitura

Aos poucos vou descobrindo as preciosidades literárias que o Rio de Janeiro tem para oferecer. Só neste mês conheci dois espaços culturais dedicados à literatura infantil.

O primeiro localiza-se na Urca, numa casinha pintada de amarela praticamente debruçada sobre a baía da Guanabara. Foi ali que, em 2016, a professora e escritora Helena Lima montou a editora Lago de Histórias.

Um ano depois, o espaço abriu-se para novas atividades. Além de fazer lançamentos, promover oficinas de criação literária e contação de histórias, a editora realizou um concurso para que outros escritores pudessem se incorporar ao caprichado catálogo.

Em uma dessas oficinas conheci os livros da Helena Lima.

Logo de cara me encantei com o esmero dos projetos gráficos e na escolha cuidadosa dos ilustradores. Dos diversos títulos expostos, um em especial chamou a minha atenção: Soldado.

Ilustrado por Thiago Baltar, o livro narra o encontro de um menino com um morador de rua. A amizade que surge entre os dois é simples e isenta de preconceitos. Se o menino oferece pequenos presentes ao novo amigo, este, por sua vez, lhe ensina a reparar nas pequeninas coisas que olhares apressados não conseguem ver.

O livro é um apelo – mais do que oportuno – para que a sociedade se envolva com empatia na solução de uma realidade vergonhosa, que aflige um contingente grande de brasileiros.

O segundo espaço cultural é mais reservado e fica em Santa Teresa. Ele pertence à La Grande Dame da literatura infanto-juvenil brasileira, Lygia Bojunga. Da varanda da casa descortina-se uma ampla visão da Baía da Guanabara. É ali que a escritora mora parte do ano.

Depois de ganhar, em 2002, o Prêmio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award) – considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil – a escritora reuniu toda a sua extensa obra literária, que estava espalhada por diversas casas editoriais, e montou a própria editora: a Casa Lygia Bojunga.

Desde a criação da logomarca, passando pela escolha do papel, pelo formato do livro (todos têm o mesmo tamanho, fácil de ser levado dentro de uma mochila ou bolsa), até o preço de venda (o mesmo para todos, independentemente do número de páginas que cada história tiver), tudo foi idealizado por ela.

No entanto, a montagem da editora não foi suficiente para satisfazer a irrequieta Lygia Bojunga. Quatro anos depois, surgiu a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, com o propósito de promover o interesse pela leitura.

A instituição desenvolve projetos na região serrana do Rio de Janeiro, onde a escritora tem um sítio. Crianças e adolescentes de baixa renda participam de contações de histórias e rodas de leituras.  Mini bibliotecas também foram criadas e livros são doados para diversas ONGs espalhadas por todo o país.

Enquanto isso, na sede em Santa Teresa, mediante pré-agendamento, são feitas visitas guiadas para que alunos de escolas e pequenos grupos possam ter contato com a obra literária da escritora, composta de 23 títulos.

Como não poderia deixar de ser, saí abraçada a um livro: Feito à mão. Na verdade, eu queria muitos outros, mas puxei bem forte o freio da moderação.

Com certeza existem muitas outras mais, mas foi o trabalho efetuado por Helena Lima e Lygia Bojunga que conheci recentemente. Vejo as duas como semeadoras de leitura. Elas não dão importância às nuvens agourentas que cobrem o atual cenário cultural do país. Determinadas continuam plantando histórias na imaginação das crianças e dos jovens. Sabem que em algum momento o plantio vai dar bonitos frutos.

  • Soldado

Helena Lima

Editora Lago de Histórias

R$ 39,90

 

  • Feito à mão

Lygia Bojunga

Casa Lygia Bojunga

R$34,00

O Anjo Pornográfico

Apesar de só assistir a jogos de futebol de quatro em quatro anos e apenas quando o Brasil entra em campo (depois da derrota na ultima sexta vou hibernar até 2022), lembro que gostei bastante de ler a biografia de um jogador de futebol: “Estrela solitária- um brasileiro chamado Garincha”, escrita pelo jornalista Ruy Castro.

Recentemente, deleitei-me com a transcrição no Jornal Literário Rascunho da conversa feita pelo escritor durante a abertura do evento cultural Paiol Literário, que  ocorreu em junho em Curitiba.

O escritor discorre sobre o seu processo de escrever biografias e cita algumas normas que costuma seguir: a de não aceitar pedidos para escrever sobre alguém específico ou que ainda esteja vivo. Comenta sobre o trabalho descomunal que é pesquisar a vida de uma pessoa, e que é impossível traçar um perfil consistente sem entrevistar no mínimo duzentas outras.

Uma observação em especial chamou minha atenção. A de que os parentes costumam ser os menos informados sobre o biografado. É verdade que conhecem seus hábitos, seus gostos e idiossincrasias, mas o que sabem daquele homem ou mulher quando se encontrava longe do ambiente familiar? Afinal é esse lado escondido que torna a vida do biografado interessante e verossímil.

O moderador perguntou a Ruy Castro o que achava de ter sido processado por revelar assuntos que, na maioria das vezes, os familiares preferiam que continuassem escondidos. O escritor concordou que o biógrafo poderia ser responsabilizado caso fizesse um trabalho mal feito, mas que a obra não deveria ser censurada. Em último caso, quem não concordasse com os fatos narrados que escrevesse a própria versão.

Todas as irmãs do Nelson Rodrigues ficaram de mal comigo. (…) Elas acharam que protegi a viúva do Nelson. As irmãs – não só do Nelson como de todos os Rodrigues – tinham uma relação quase incestuosa com seus irmãos e ódio a todas as cunhadas, naturalmente. Tanto que se você ler as peças do Nelson, todas aquelas tias virgens, solteironas e neuróticas são as irmãs dele.

O comentário fez-me retroceder a quando cheguei ao Brasil e a revista reinante nos cabeleireiros cariocas era a Fatos &Fotos. Foi ela quem me apresentou à obra de Nelson Rodrigues. Na época procurava com uma mistura de fascínio e pudor a página com a crônica do escritor maldito. Agora, essa curiosidade ressurgia.

Quando terminei de ler o artigo lembrei que tinha diversos livros do Ruy Castro na estante. Será que a biografia sobre Nelson Rodrigues conseguira sobreviver às mudanças de apartamentos e cidades? Lá estava ela junto aos outros livros do Ruy Castro, que meu marido e eu compramos ao longo dos anos (não me desfiz de nenhum). O livro tinha as páginas amareladas pelo tempo e conservava a etiqueta da livraria Sicilano.

Assim que li os primeiros parágrafos,  atraquei-me a O Anjo Pornográfico.

A escrita de Ruy Castro além de ser extremamente envolvente – ele é uma autêntica Sherazade versão masculina – é bastante informativa. Ainda estou no início, mas já recebi uma aula de história bem interessante. A poucos meses de uma eleição presidencial, constato que por mais instável que seja o momento político brasileiro, o país já atravessou outras crises tão ou mais dramáticas do que esta. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues teria a dizer sobre tudo isto.

P.S. Ao avançar na leitura encontrei uma frase de Nelson Rodrigues que responde à minha indagação e infelizmente continua atual: Em Brasília todos são inocentes e todos são cúmplices. 

 

  • O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues

Ruy Castro

Editora Companhia das Letras

R$ 77,90

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