Allegro ma non troppo

Será que ao terminar a leitura de Allegro ma non troppo os leitores fizeram o mesmo que eu e procuraram curiosos pelo concerto para violino de Dvorák?

Eu já apreciava o trabalho da escritora brasiliense Paulliny Gualberto Tort, mas, por descuido, deixei que o seu primeiro romance ficasse esquecido embaixo de tantos outros que se acumulam numa pilha de crescimento interminável.

A notícia de que o livro era um dos semifinalistas ao Prêmio Literário Oceano de 2017 fez, no entanto, que o resgatasse lá do fundo e o passasse à frente dos outros.

Em Allegro ma non troppo , Paulliny narra a busca empreendida por  Daniel, um jovem violinista de 20 anos, para encontrar o irmão mais velho que sumiu por vontade própria e deixou a mãe  amargurada.

Gostei bastante da maneira como a autora incorporou  e soube exteriorizar o psicológico do principal personagem masculino. Assim como apreciei a forma como integrou as peculiaridades de Brasília e arredores ao cenário da trama. É palpável o carinho que a autora nutre por sua cidade natal.

O texto flui limpo e ágil, sem excessos, com descrições enxutas de lugares e sentimentos. Os personagens se entrelaçam de forma surpreendente, e o final do livro é original e inusitado.

Mais não digo para não estragar o prazer de quem se interessar em conhecer o trabalho de uma jovem escritora que pisa com o pé direito no cenário literário nacional.

 

  • Allegro ma non troppo

Paulliny Gualberto Tort

Editora Oito e Meio

R$ 39,90

 

Na Minha Pele

Por ser emprestado, o livro de Lázaro Ramos furou a fila dos que aguardam há meses para serem lidos.

Logo nas primeiras páginas percebi a importância de Na Minha Pele e me peguei pensando que ele deveria ser leitura obrigatória – ó palavra antipática! – para os alunos do Ensino Médio.

Do mesmo jeito que um pai amoroso não consegue admitir que sua filha venha a ganhar um salário inferior ao de um colega homem apenas pelo fato de ser mulher, ou que um troglodita abuse dela fisicamente simplesmente porque ela bebeu demais numa festa, está na hora de questionarmos seriamente por que é que as oportunidades de educação escolar, profissional e ascensão social são abissalmente desiguais para possuidores de fenótipos biológicos diferentes.

Por que estranhamos quando vemos um negro sendo o cliente e não o garçom de um restaurante chique? Por que todos os meus médicos são brancos? Qual o sentido de tudo isso e como é possível continuar vivendo com antolhos sociais?

Se esse debate não faz parte de muitas famílias brasileiras, está na hora das escolas levarem para a sala de aula o livro de Lázaro Ramos. E quem sabe, num futuro do qual tomara eu faça parte, a pergunta “É bom ser negro no Brasil?”, se tornará totalmente irrelevante. Por hora, eu sei qual é a resposta.

 

  • Na Minha Pele

Lázaro Ramos

Editora Objetiva

R$ 34,90

E-Book R$ 23,90

Coração de inverno, coração de verão

Assim que deslizei a ponta dos dedos pelas pequeninas saliências – semelhantes a flocos de neve – que cobriam a capa do livro, intui estar diante de uma história sensível e delicada.

Escrito pela carioca Leticia SardenbergCoração de inverno, coração de verão”, aborda um tema complicado: o luto infantil. Principalmente quando se trata da perda dos pais. Não sabemos como e onde isso aconteceu, mas o mundo dessa criança congelou numa saudade que não tem mais fim.

A autora compara o luto a um rigoroso e interminável inverno que o menino atravessa sozinho e desesperançado. Conselhos, cuidados e distrações o ajudaram um pouco, mas só por alguns momentos.

Entretanto, da mesma maneira que é impossível impedir uma estação do ano de suceder à anterior, algo parecido também acontece com essa criança.

Sem querer, ele encontra uma jovem com um coração luminoso e acolhedor que compreende e respeita a sua tristeza. E pouco a pouco, o que antes era inverno passa a ser verão, e o menino que antes sofria sozinho agora compartilha alegrias.

As ilustrações de “Coração de inverno, coração de verão” são do premiado ilustrador paulista Alexandre Rampazo, e retratam com muita sensibilidade sentimentos que merecem e precisam ser expressos.

 

  • Coração de inverno, coração de verão

Leticia Sardenberg (texto)

Alexandre Rampazo (ilustrador)

Editora Zit

Público-alvo: a a partir de 8 anos

R$34,90

Rita Lee – uma autobiografia

Apesar do estrondoso sucesso de vendas, não me interessei em comprar o livro Rita Lee uma autobiografia.

Dancei, pulei e namorei muito ouvindo suas canções, mas nunca me identifiquei com as maluquices da cantora. No entanto, como me emprestaram, não custava nada dar uma olhada.

E foi assim, meio com um pé atrás e certa curiosidade que iniciei a leitura.

Ainda estava me familiarizando com os personagens que fizeram parte da infância cor de rosa da autora, quando, sem a menor cerimônia, recebi o primeiro chacoalhão. Acorda que é para ficar esperta, muitos outros abalos sísmicos virão!

Algumas revelações da cantora/compositora me incomodaram bastante, mas em outras passagens do livro me peguei sorrindo. Aos poucos a minha má vontade para com a artista foi sumindo.

Impossível não admirar uma mulher que após ter feito uma cesariana, no dia seguinte já estava “namorando” com o marido. Ao casal serei sempre grata pelas canções “Mania de você” e “Banho de espuma”.

Costuma-se associar o caos à destruição, mas após ler Rita Lee uma autobiografia constatei que o caos também pode ser muito fértil. Não é que “a ovelha negra da família” (como ela mesma se intitula) soube utilizá-lo a seu favor?

 

  • Rita Lee – uma autobiografia

Globo Livros

R$44,90

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