Semeadoras de Leitura

Aos poucos vou descobrindo as preciosidades literárias que o Rio de Janeiro tem para oferecer. Só neste mês conheci dois espaços culturais dedicados à literatura infantil.

O primeiro localiza-se na Urca, numa casinha pintada de amarela praticamente debruçada sobre a baía da Guanabara. Foi ali que, em 2016, a professora e escritora Helena Lima montou a editora Lago de Histórias.

Um ano depois, o espaço abriu-se para novas atividades. Além de fazer lançamentos, promover oficinas de criação literária e contação de histórias, a editora realizou um concurso para que outros escritores pudessem se incorporar ao caprichado catálogo.

Em uma dessas oficinas conheci os livros da Helena Lima.

Logo de cara me encantei com o esmero dos projetos gráficos e na escolha cuidadosa dos ilustradores. Dos diversos títulos expostos, um em especial chamou a minha atenção: Soldado.

Ilustrado por Thiago Baltar, o livro narra o encontro de um menino com um morador de rua. A amizade que surge entre os dois é simples e isenta de preconceitos. Se o menino oferece pequenos presentes ao novo amigo, este, por sua vez, lhe ensina a reparar nas pequeninas coisas que olhares apressados não conseguem ver.

O livro é um apelo – mais do que oportuno – para que a sociedade se envolva com empatia na solução de uma realidade vergonhosa, que aflige um contingente grande de brasileiros.

O segundo espaço cultural é mais reservado e fica em Santa Teresa. Ele pertence à La Grande Dame da literatura infanto-juvenil brasileira, Lygia Bojunga. Da varanda da casa descortina-se uma ampla visão da Baía da Guanabara. É ali que a escritora mora parte do ano.

Depois de ganhar, em 2002, o Prêmio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award) – considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil – a escritora reuniu toda a sua extensa obra literária, que estava espalhada por diversas casas editoriais, e montou a própria editora: a Casa Lygia Bojunga.

Desde a criação da logomarca, passando pela escolha do papel, pelo formato do livro (todos têm o mesmo tamanho, fácil de ser levado dentro de uma mochila ou bolsa), até o preço de venda (o mesmo para todos, independentemente do número de páginas que cada história tiver), tudo foi idealizado por ela.

No entanto, a montagem da editora não foi suficiente para satisfazer a irrequieta Lygia Bojunga. Quatro anos depois, surgiu a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, com o propósito de promover o interesse pela leitura.

A instituição desenvolve projetos na região serrana do Rio de Janeiro, onde a escritora tem um sítio. Crianças e adolescentes de baixa renda participam de contações de histórias e rodas de leituras.  Mini bibliotecas também foram criadas e livros são doados para diversas ONGs espalhadas por todo o país.

Enquanto isso, na sede em Santa Teresa, mediante pré-agendamento, são feitas visitas guiadas para que alunos de escolas e pequenos grupos possam ter contato com a obra literária da escritora, composta de 23 títulos.

Como não poderia deixar de ser, saí abraçada a um livro: Feito à mão. Na verdade, eu queria muitos outros, mas puxei bem forte o freio da moderação.

Com certeza existem muitas outras mais, mas foi o trabalho efetuado por Helena Lima e Lygia Bojunga que conheci recentemente. Vejo as duas como semeadoras de leitura. Elas não dão importância às nuvens agourentas que cobrem o atual cenário cultural do país. Determinadas continuam plantando histórias na imaginação das crianças e dos jovens. Sabem que em algum momento o plantio vai dar bonitos frutos.

  • Soldado

Helena Lima

Editora Lago de Histórias

R$ 39,90

 

  • Feito à mão

Lygia Bojunga

Casa Lygia Bojunga

R$34,00

I Prêmio AEILIJ

No final de março foram anunciados os vencedores do I Prêmio AEILIJ de Literatura Infantil e Juvenil.  (AEILIJ é o acrônimo para associação de escritores e ilustradores da literatura infanto-juvenil).

Os participantes da associação são na sua maioria profissionais brasileiros que tiveram seus trabalhos publicados por editoras de diversos tamanhos em todo o país.

Gostei da criação desse prêmio, porque além de oferecer aos pais e educadores uma seleção de títulos com qualidade literária; dá visibilidade a escritores e ilustradores menos conhecidos; e indiretamente, divulga as pequenas editoras que costumam ter suas publicações restritas aos estados de origem.

Imagino que não tenha sido fácil selecionar os quinze finalistas entre tantos participantes.

Nessa primeira triagem, um título forte e poético chamou-me a atenção: Os filhos do deserto combatem na solidão, publicado pela editora CEPE de Pernambucano.

Achei curioso o fato de o autor não ser nativo nem residente no Estado, mas um gaúcho de quem nunca tinha ouvido falar: Lourenço Cazarré*.  Ignorância minha. O escritor que também é jornalista e autor de mais de cinqüenta livros, já recebeu mais de vinte prêmios literários, inclusive o prêmio Jabuti em 1998 na categoria infanto-juvenil.

Além do título, que remete ao poema Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, o que me atraiu para conhecer o trabalho de Lourenço Cazarré foi um comentário que ele fez em uma entrevista:

Meu objetivo como escritor juvenil é provar para um garoto de doze anos que se ele atravessa um livro de cem páginas, ele lê e não morre.

Concordo com essa observação. Realmente nessa faixa etária os jovens, mesmo aqueles que sempre gostaram de ler, deixam de lado essa atividade tão prazerosa. Eventualmente alguns a retomam mais adiante, mas outros se desinteressam pela leitura por completo.

Suponho que isso aconteça por algumas razões: a variedade de novos interesses que surgem na adolescência, a transformação do que era uma atividade recreativa numa obrigação escolar, e a falta de incentivo por parte dos pais. Sim, porque se quando o filho era pequeno ofereciam livros, liam juntos antes de dormir e visitavam livrarias, agora com os filhos crescidos deixam de presenteá-los achando que eles não precisam mais de incentivos.

Acredito que livro é  um objeto de primeira necessidade assim como a pasta de dentes.

Cabe aos pais cuidar da “higiene” literária dos filhos e oferecer-lhes sempre histórias de todos os tipos, quer eles peçam ou não. Duvido que se um exemplar for “esquecido” no quarto de um adolescente ele não o abra por mera curiosidade.

Os filhos do deserto combatem na solidão é uma ótima sugestão, mas vale a pena dar uma espiada na relação dos finalistas e vencedores do I Prêmio AEILIJ, tenho certeza que vai gostar.

 

*O escritor é pai do premiado ator Juliano Cazarré

Kafka e a boneca viajante

Uma amiga adepta do desapego convidou-me para dar uma olhada nos livros que pretendia doar. Entre vários, um livro fininho chamou-me a atenção: Kafka e a boneca viajante.

O livro escrito por Jordi Sierra i Fabra venceu em 2007 o Prêmio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil da Espanha. Desde muito cedo, o autor de nacionalidade catalã se apaixonou pelo ofício de contar histórias. Era ainda um garoto, de apenas doze anos, quando escreveu um romance (nunca publicado) com quase quinhentas páginas.

Na presente história, o autor parte de um fato verídico que aconteceu um ano antes de Franz Kafka morrer, e que posteriormente foi lembrado por sua companheira, Dora Dymant, em conversas com amigos.

Ao caminhar por um parque em Berlim, o casal encontrou uma menina – inexplicavelmente sozinha – chorando desolada porque havia perdido a boneca preferida. Tentando confortá-la, o famoso escritor disse que, com certeza, a boneca tinha viajado e que lhe mandaria uma carta contando as novidades. Para convencê-la, o escritor – conhecido por seu temperamento atormentado e anti-social – disse que era um carteiro de bonecas e que no dia seguinte traria uma carta escrita pela boneca fujona.

Durante três semanas Franz Kafka, que não teve filhos, dedicou seu tempo e talento para consolar uma criança desconhecida. As cartas nunca foram encontradas e foram apreciadas apenas por uma única leitora, cuja verdadeira identidade também nunca foi descoberta.

Para que essa breve e improvável amizade não caísse no esquecimento, Jordi Sierra i Fabra imaginou como essas cartas poderiam ter sido escritas. Respeitosamente, o autor catalão debruçou-se sobre as primeiras perdas e sofrimentos da infância, ao mesmo tempo em que com ternura estimulou a menina a acolher com alegria e confiança os acontecimentos e mudanças em sua vida, assim como na de uma simples boneca.

 

  • Kafka e a boneca viajante

Jordi Sierra i Fabra

Editora Martins Fontes

R$ 39,90

 

Quando eu voltar a ser criança

Desejosa por aprimorar a minha voz infantil, já que gosto de escrever para crianças, pedi ajuda a uma escritora mais experiente, a Anna Cláudia Ramos. Ela me indicou a leitura de “Quando voltar a ser criança”, de Janusz Korczak.

Após uma rápida pesquisa, fiquei surpresa por nunca ter ouvido falar nesse escritor e pedagogo que viveu no século passado.

Revolucionário, Korczak fundou um orfanato em Varsóvia onde cuidava das crianças como se elas fossem gente grande, protegendo-as da prepotência dos adultos. Como diretor da instituição criou um tribunal onde elas eram estimuladas a solucionar não só os próprios conflitos como também a julgar os seus educadores, caso achassem necessário.

Quando os nazistas ocuparam a Polônia, ele e os órfãos foram confinados no gueto de Varsóvia. Ali viveram por pouco mais de dois anos até serem deportados para o campo de concentração de Treblinka. Antes de partir, Korczak teve a chance de escapar, pois lhe foi oferecido um salvo conduto, que ele recusou. Em agosto de 1942, juntamente com duzentas crianças, morreu asfixiado nas câmaras de gás.

A leitura de “Quando voltar a ser criança” me comoveu. Fiquei encantada como o autor compreendeu e soube colocar em palavras o turbilhão de emoções que se atropelam no intimo de uma criança.

(…) É incômodo a gente ser pequeno. A toda a hora tem que se esticar, levantar a cabeça. As coisas acontecem lá nas alturas, acima de nós. A gente se sente sem importância, desprestigiado, fraco, perdido. Talvez seja por isso que gostamos de ficar em pé ao lado dos adultos que estão sentados. Então podemos ver os seus olhos.

Mesmo assim, por se tratar de um interesse pessoal – ligado ao desejo de escrever literatura infantil – num primeiro momento achei que não precisava compartilhar esta leitura no blog.

Nesse meio tempo, a mudança para o Rio de Janeiro e as festas de fim de ano fizeram com que eu diminuísse o ritmo de leitura. No entanto, uma resenha elogiosa a um livro juvenil – que li no blog Um tempo entre meus livros – chamou-me a atenção. Por se tratar de um livro fininho, coloquei-o na frente de outras leituras mais volumosas. E assim, descobri o impactante “Uma vez”, do escritor australiano Morris Gleitzman.

Ele conta a historia de um menino que, depois de esperar por três anos que os pais o fossem buscar no internato católico onde o deixaram, decide fugir para procurá-los.

Se no início a inocência do garoto chegou a me irritar, aos poucos acompanhei o seu sofrido amadurecimento à medida que ele era engolfado pela cruel realidade existente fora dos muros protetores do internato.

Exímio contador de histórias, o menino acreditava que os pais não podiam buscá-lo porque ainda não tinham encontrado um lugar seguro para guardar os livros que estavam na livraria da qual são proprietários. Tudo o que ele sabia é que existiam pessoas más que não gostavam de livros escritos por judeus e por isso os queimavam assim que os encontravam.

A liberdade durou muito pouco, porque logo ele foi capturado por soldados que falavam uma língua estrangeira. Se durante muito tempo as histórias que ele inventou o protegeram, agora não podiam mais.

Quando tudo parecia perdido, ele foi salvo por um desconhecido que aparentemente possuía algum prestígio entre os nazistas. Este homem misterioso o levou para um lugar seguro onde estavam outras crianças.

Apesar de ter como público alvo os jovens e, por essa razão, intercalar momentos de leveza como implicâncias e brincadeiras de crianças, a história não suavizou o sofrimento e as humilhações sofridas pelos judeus.  Por diversas vezes precisei respirar fundo para prosseguir com a leitura.

Mas a grande surpresa de “Uma Vez” aguardava-me no final. No posfácio do livro o autor revelou que fizera uma homenagem ficcional a Janusck Korczak.

Agora eu entendia o porquê da história de “Uma Vez” ser contada na primeira pessoa e descrever algumas das picuinhas e brincadeiras infantis. Eram referências indiretas ao livro “Quando voltar a ser criança” de Janusck Korczack, sendo que o salvador do menino era na verdade o próprio Korczack.

Como poderia ignorar a coincidência e não comentar sobre os dois livros em um mesmo post? Apesar de serem duas propostas de leitura bem diferentes – uma escrita em tempos de paz e a outra em tempos de guerra, assim como para públicos distintos – são vários os pontos que unem as duas obras.

Claro que cada uma pode ser lida independentemente da outra, mas com certeza ficará bem mais interessante se se conhecer a vida e a obra de Janusck Korczak.

 

  • Quando eu voltar a ser criança

Janusck Korczak

Summus Editorial

 

  • Uma Vez

Morris Gleitzman

Editora Paz e Terra

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