A Casa e o Mundo lá fora

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A primeira vez que tomei conhecimento de “A Casa e o Mundo Lá Fora” foi através de uma nota pequenina que saiu em um jornal paulista. Chamou a minha atenção o fato do livro reproduzir as cartas escritas pelo educador Paulo Freire, durante o tempo em que viveu como exilado político, para sua prima em segundo grau de apenas nove anos, Nathercia Lacerda.

É incrível como um homem ocupado, que se encontrava numa situação tão sofrida, encontrava tempo para responder às cartas escritas por uma criança. Um pequeno-grande gesto que apenas confirma o quanto o educador sempre procurou escutar e dar voz àqueles que, pelas mais variadas razões, não recebiam o devido reconhecimento ou atenção.

As cartas falavam das belezas do novo país para onde se mudou com a família e, como educador, ele aconselhava a menina a nunca deixar morrer a curiosidade que existia dentro dela, mesmo quando crescesse e se tornasse adulta; e que se preocupasse com os outros porque “(…) hoje não são todas (as crianças) que podem rir. Rir não é só abrir ou entreabrir os lábios e mostrar os dentes. É expressar uma alegria de viver, uma vontade de fazer coisas, de transformar o mundo, de amar o mundo e os homens, somente como se pode amar a Deus”.

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A correspondência ficou guardada por muitos anos até que numa conversa despreocupada com as amigas Cristina Porto e Denise Gusmão (sobre os pertences que cada uma guardava de recordação), Nathercia comentou sobre as cartas que escrevera e das respostas que recebeu do parente querido de quem sentia saudades. Imediatamente as duas reconheceram que estavam diante de um tesouro que precisava ser revelado.

A editora Zit acolheu com entusiasmo a descoberta e, ignorando tempos de crise e contenção de despesas, publicou um livro muito lindo. Há muito tempo eu não via um projeto gráfico tão caprichado. As ilustrações, o design da capa e do miolo são criação da premiada ilustradora Bruna Assis Brasil.

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Não é de se estranhar que o livro tenha sido escolhido para compor o catálogo que a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) apresentará na Feira do Livro em Bolonha (3 a 6/04). Torço para que volte de lá premiado.

 

  • A Casa e o Mundo Lá Fora:  Cartas de Paulo Freire para Nathercinha

Nathercia Lacerda

Bruna Assis Brasil (ilustrações)

R$ 47,90

Como surgiu O Menino Enrolado

o-menino-enroladoDelicadamente acaricio o suave relevo das letras do título O Menino Enrolado. Como se não conhecesse a história, releio-a através do olhar de Ana Verana, a ilustradora. Detenho-me no meu desenho favorito – a menina sentada no chão, lendo um livro com as pernas cruzadas– e sorrio agradecida. Que belo trabalho ela fez!

Meu gosto pela literatura infantil está muito ligado ao poder sedutor das imagens. Acredito que se cativarem uma criança, é meio caminho andado para que ela se interesse pela história e, depois, por uma infinidade de outras mais.

Mas uma bela ilustração não estimula apenas a imaginação de uma criança, ela também pode atiçar a curiosidade de um adulto. Pois foi o que me aconteceu quando li “Oi au-au!” de Adam Stower, publicado no Brasil pela Brinque-Book.

O livro conta a história de uma menina que certa manhã vê no jardim um cachorro perdido. O bichano era na verdade um urso fujão. Encantada, a garotinha vai ao seu encontro enrolada em um cachecol bem comprido.  Ela o usa não só para se esquentar, mas também para amarrar o novo amigo e o levar para casa. O cachecol é enorme e as franjas, que se arrastam pelo chão, me lembraram uma luva. Claro que essa não era a intenção do ilustrador, mas eu olhava para aquele cachecol comprido e pensava em um braço longo, bem longo. Um braço rastejante!

Toda a vez que eu relia aquela história as idéias pipocavam: Como seria se alguém tivesse um braço assim? O que teria que fazer para ninguém pisar nele?  E por que será que o braço crescera tanto, enquanto o outro continuara normal? Talvez porque tivesse sido bem mais utilizado do que o outro, eu pensava. Mas, por que isso acontecera? Ora… Porque estava sempre esticado para agarrar alguma coisa. Mas quem quer pegar tudo o que vê? Crianças, claro! E… corruptos, mas esses são personagens impróprios para uma  história infantil.

De tanto ver as ilustrações desse livro, pouco a pouco, O Menino Enrolado foi tomando forma na minha cabeça. A história de um menino que tinha tudo o que queria, mas não sabia brincar. Um menino preso no próprio egoísmo, que só começou a fazer amigos depois de descobrir que compartilhar pode ser bem divertido.

Se Medhá gostou de dividir seus brinquedos com outras crianças, eu fiquei muito feliz por fazer o mesmo com a artista plástica Ana Verana. O resultado não poderia ter sido mais bonito.

Obrigada Editora Caramurê por apostar nessa parceria e por colocar O Menino Enrolado nas mãos de tantas crianças.

Ah, não poderia deixar de agradecer ao autor de “Oi Au-Au!” – sem o cachecol comprido de Lili, O Menino Enrolado não teria existido.

Na próxima quinta-feira, dia 26 às 18h, aguardo todos vocês para o lançamento do livro no box da Editora Caramurê, localizado no Piso 1 do Shopping Barra – Salvador. Até lá!

 

  • O Menino Enrolado

Paula Piano Simões

Ana Verana (Ilustrações)

Caramurê Publicações

R$ 39,00

The sound of silence

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Acho que nunca li tanto na vida como ultimamente, mesmo não sendo necessariamente livros. Por e-mail recebo artigos e resenhas de diversos sites e blogs com os assuntos mais variados. Acontece de se acumularem por dias até que, num rompante, jogo tudo fora sem ler.  Um dos sites que costuma sofrer com esses meus arroubos de limpeza é o Brain Pickings, cujos artigos exigem uma leitura demorada e atenta. Normalmente os olhos pulam de um título para outro, sem que eu me dê ao trabalho de abri-los.  Entretanto, se deparo num livro infanto-juvenil com bonitas ilustrações tudo muda de figura.

Sei por experiência própria como é difícil escrever para o público infantil e encontrar a cadência certa para mantê-lo interessado até o fim. É um trabalho de revisar e riscar (ou melhor, deletar),  de ficar parada olhando o cursor piscar na tela e se perguntar: o que eu quero mesmo dizer com isto?

Suponho que o (a) ilustrador (a) passe por questionamentos parecidos. Só que no caso dele (a) o erro pode ser mais complicado.  Como consertar o borrão em uma aquarela ou salvar a ilustração que não capturou o espírito da história? Muitas vezes é impossível fazer um simples retoque, e não há outro jeito a não ser recomeçar em uma nova folha de papel.

O processo criativo exige concentração, serenar a mente, o que me parece mais difícil à medida que o tempo passa. Deveria ser o contrário, não? Afinal para que serve a suposta maturidade adquirida com os anos?

Pois foi numa dessas visitas ao site Brain Pickings que encontrei o livro The Sound of Silence, escrito por Katrina Goldsaito e ilustrado por Julia Kuo.

O silêncio por acaso faz barulho? Um garotinho curioso busca encontrar esse som tão especial numa cidade vibrante como Tóquio. Tudo o distrai: as buzinas dos carros, as risadas, o canto dos pássaros… Até que um dia, ao realizar uma atividade de que gosta muito, ele perde a noção do tempo e encontra o que tanto procura.

O desenho simples e seguro da ilustradora reproduz com delicadeza a descoberta de como ser único e, ao mesmo tempo, participante do turbilhão da Vida.

Não é fácil ouvir MA, o nome dado ao silêncio pelos japoneses, mas quem o escutou diz que é de uma beleza indescritível.

 

  • The sound of silence

Katrina Goldsaito

Julia Kuo (ilustradora)

Little Brown & Company

US$ 17.99

A Família Regrada

familia-regradaJá me aconteceu de achar a vida meio parada, como se pedalasse uma bicicleta ergométrica que nunca sai do lugar.

Nessas horas, procuro me animar pensando que todo esse exercício físico vai me deixar preparada para quando a roda da fortuna movimentar de novo a minha “bicicleta”.

Depois de receber respostas negativas ou nenhuma resposta, “A Pergunta Mais Importante” encontrou um lugar acolhedor para morar. Com o apoio da editora, Rosa, a personagem principal do meu primeiro livro infantil, vislumbrou novos horizontes impossíveis de alcançar se estivesse pedalando sozinha.

Nas suas andanças, conheceu a escritora e blogueira Emília Nuñez (@maequele). Esse encontro proporcionou novas aventuras não só para Rosa como também para mim.

Estimulada por Emília ignorei o acanhamento e apresentei “A Pergunta Mais Importante” em praças e eventos culturais.  Aprendi a usar o Instagram e em pouco tempo o livro estava sendo divulgado e comentado por diversos fãs da literatura infantil.

Através da rede social cheguei à “A Família Regrada”, produção independente da escritora paraense Anna Cruz (@sobreissoeaquilo).

Como normalmente costuma acontecer, o que primeiro chamou a minha atenção foi a capa. Simplesmente fiquei encantada com o traço e o colorido das ilustrações feitas por Mariamma Fonseca.

Admito que se Emília não me tivesse oferecido de presente, talvez não o adquirisse. Quando cogitei essa possibilidade, o meu censor interno gritou forte: Mais um livro não!

Mas agora “A Família Regrada” era meu, e poderia desfrutá-lo à vontade.

Trata-se de um livro pequenino de poucas páginas. Seis histórias que narram com muito humor e doçura situações vividas pela maioria das famílias.

Quem não teve ciúme do irmão (ã) e ao se tornar pai ou mãe não precisou administrar a ciumeira entre os filhos?

Engraçado, recentemente conversando com a minha irmã caçula, em tom de brincadeira que vai dizendo as verdades, ela recordou ter sido sempre a última a escolher o que era oferecido a todas.

O livro também conta uma conversa muito engraçada entre mãe e filha a respeito da pergunta clássica: Mãe, como nascem os bebês? (suspiro)

O que posso dizer é que no meu tempo a resposta não envolvia tantas alternativas e explicações. O papai botava uma sementinha dentro da mamãe e o assunto estava resolvido.

Desnecessário enumerar os benefícios de se ler para uma criança. Mas à medida que ela cresce, e começa a ler sozinha, muitas vezes esse hábito tão gostoso é deixado de lado.  “A Família Regrada” é um bom motivo para recuperar esse costume, quer seja no aconchego de um sofá ou pouco antes do último beijo de boa noite. Garanto que não vai se arrepender.

  • Instagram:

@maequele

@sobreissoeaquilo

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