Um poema para Gloria Bell

Fui ver o filme Gloria Bell porque aprecio bastante o trabalho de Juliane Moore e John Turturo. Sabia que era a  reconstituição de um filme chileno (Glória), que eu tinha visto há algum tempo e gostado. Ambas as versões falam de uma mulher madura, divorciada e emocionalmente bem resolvida, que está pronta a viver um novo relacionamento amoroso.

Uma cena em especial chamou-me a atenção. Foi quando o personagem masculino leu em voz alta uma poesia. Ele não disse de quem era, mas pela capa do livro percebi tratar-se de um escritor latino-americano.

Ao chegar em casa, descobri que não era um poema romântico, como imaginei a princípio, mas um texto escrito para alguém que havia tentado o suicídio.

Poema para uma jovem amiga que quis tirar a própria vida

Eu gostaria de ser um ninho, se tu fosses um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço, se tu fosses um pescoço e estivesses com frio
Se tu fosses música, eu seria uma orelha
Se tu fosses água, eu seria um copo
Se tu fosses a luz, eu seria um olho
Se tu fosses um pé, eu seria uma meia
Se tu  fosses o mar, eu seria uma praia
E se tu ainda fosses o mar,
eu seria um peixe e nadaria em ti
E se tu  fosses o mar, eu seria sal
E se eu fosse sal,
tu serias alface,
um abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se tu fosses um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
tu serias manteiga ou geleia
Se tu fosses geleia,
eu seria o pêssego na geleia
Se eu fosse um pêssego,
tu serias uma árvore
E se tu fosses uma árvore,
eu seria tua seiva
e correria em teus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em teu coração.

 

O autor do poema é o escritor, fotógrafo e artista visual chileno, Claudio Bertoni.

Versão Original: http://www.lediorosa.com.br/poesias/poema-una-joven-amiga-intento-quitarse-la-vida-claudio-bertoni/

 

A Dona da História

A-dona-da-históriaPor muito tempo segui o costume de minha mãe que munida de tesoura e cola bastão recortava das revistas e jornais tudo o que lhe interessava, para depois colar num caderno.

Domingo passado decidi fazer uma limpeza em algumas pastas repletas com recortes de crônicas, receitas e resenhas de livros que planejava ler um dia. Não mexia nelas há séculos e consegui encher duas cestas de lixo.

Nesse processo, de separar o que valia a pena guardar, encontrei um artigo do psicanalista Contardo Calligaris, datado de 21 de outubro de 2004, falando de A Dona da História.

Não lembro se o guardei como lembrete para assistir ao filme ou porque o artigo defendia uma ideia que me agrada: a valorização das escolhas que fazemos durante a vida, independentemente de serem glamourosas ou não.

Se soubermos atribuir à nossa vida a qualidade de uma história, reconheceremos sua dignidade.*

Pois bem, foi com um atraso de mais de dez anos que assisti ao filme na internet.  Durante 87 minutos deliciei-me com as interpretações de Marieta Severo, Antonio Fagundes, Débora Falabella e Rodrigo Santoro.

A Dona da História retrata os questionamentos de uma mulher casada há trinta anos com o primeiro namorado. A ela é dada a oportunidade de dialogar com o seu eu mais jovem, e descobrir se tomou a decisão correta quando abriu mão de seus sonhos para se casar com o grande amor de sua vida.

Por que escolhemos ir por um caminho e não por outro? Nossas escolhas, certas ou não, merecem ser valorizadas. São elas que nos fazem ser quem somos e estar onde estamos.

A Dona da História é um filme inteligente e sensível. Nunca é tarde para fazer um brinde às mil e uma possibilidades contidas em uma única vida.

 

* Contardo Calligaris / Folha de S.Paulo – 21 de outubro 2004

Assista ao filme:

http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-a-dona-da-historia-nacional-online.html

O africano de todas as cores

O filme “Longa caminhada até a liberdade” do diretor inglês Justin Chadwick foi aclamado pela crítica, ao ser exibido em setembro no Festival Internacional de Toronto, e já é apontado como um possível candidato ao Oscar de 2014.

Baseado na autobiografia de Nelson Mandela  narra a luta contra o apartheid, e os vinte sete anos que passou na prisão até se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul. É também a história de amor entre o ativista e a segunda mulher Winnie. Uma relação conturbada que perdurou por décadas até terminar com denúncias de traição por parte dela e de seu apoio à utilização de métodos bárbaros para obter confissões de opositores.

MandelaO livro “Longa caminhada até a liberdade” foi publicado ano passado no Brasil pela editora Nossa Cultura, e vem com prefácio escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – colega da Mandela no grupo não governamental The Elders formado por ex-líderes mundiais que se reúnem para discutir e encontrar soluções para a paz mundial e defender os direitos dos mais desafortunados.

Para quem não se recorda, Nelson Madela recebeu juntamente com o ultimo presidente branco sul-africano Frederik Willem de Klerk o Prêmio Nobel da Paz de 1993, por trabalharem em conjunto na construção da NAÇÃO ARCO-ÍRIS onde brancos, negros, indianos, judeus e muçulmanos pudessem conviver pacificamente.

Seguindo as comemorações mundiais aos 95 anos de vida, do pacifista maior, acaba de chegar às prateleiras “Mandela – o africano de todas as cores” uma referência a essa nova nação.

Indicado para o público infanto-juvenil especialmente para aqueles com mais de 11 anos, o livro traz ilustrações de traços fortes, sendo estas bem coloridas ao retratarem os anos vividos em liberdade, e em poucas cores os muitos anos em que esteve preso. Os textos são curtos, mas oferecem uma boa explicação de como era viver sob um regime racista e segregacionista, e marcam cronologicamente o tempo em que Mandela viveu encarcerado. No final é oferecido um “para compreender melhor” às crianças que quiserem conhecer melhor as riquezas e problemas da África do Sul.

O-africano-de-todas-as-cores

Por último termina com o poema favorito de Nelson Mandela, Invictus escrito por William Ernest Henley:

(…) Prisioneiro dos fatos que me atormentam,

       Não gemi nem chorei

      Sob o infortúnio dos golpes,

      Estou acabado, mas de pé

(…) Pouco me importa a estreiteza dos caminhos,

      Os penosos castigos em minha senda,

      Sou senhor do meu destino.

      Sou capitão da minha alma

  • Longa caminhada até a liberdade

Nelson Mandela

Editora Nossa Cultura

R$ 79,00

  • Mandela – O africano de todas as cores

Alain Serres e Zaü

Editora Zahar

 R$ 39,90

 E-book: R$ 24,90

As dicas do crocodilo

Editado recentemente no Brasil, “Os olhos amarelos dos crocodilos” é o primeiro livro da trilogia escrita por Katherine Pancol e esteve várias semanas na lista dos mais vendidos na França, quando foi publicado em 2006.

Leve e despretensioso, é perfeito como leitura de férias, ou então para aqueles momentos em que se está com a cabeça quente e procura-se algo distraído para ler e esquecer os problemas.

A trama envolvendo duas irmãs com personalidades e estilos de vida totalmente diferentes, não é das mais originais.

Iris, a primogênita, é linda, maravilhosa e não tem preocupações financeiras. Por sua vez Josephine é desde pequenina o patinho feio. A primeira é admirada por todo o mundo, a segunda leva uma vida sacrificada no subúrbio e tem uma filha adolescente insuportável.

Tudo muda, quando displicentemente, Iris comenta num jantar que começou a escrever um romance histórico sobre a vida das mulheres no séc. XII. Pressionada a publicá-lo e sem saber nada sobre o assunto, acaba por implorar ajuda à Josephine, que na verdade é  historiadora e uma especialista nesse tema. Por se encontrar às voltas com o pagamento de dívidas elevadas, esta acaba por aceitar participar da farsa criada pela irmã.

Apesar de algumas vezes inverossímeis, as tramas paralelas (e eventualmente apimentadas) fazem com que a leitura deste livro repleto de clichês, não seja de todo desagradável.

No entanto “Os olhos amarelos dos crocodilos” acabou por aguçar a minha curiosidade, ao inserir na trama comentários sobre filmes das décadas de 50 e 60, que até então não conhecia.

Forçada a escrever o romance, Josephine depara-se com uma absoluta falta de inspiração.  Mas ao conversar com sua amiga e vizinha de porta, tem um “estalo” quando esta lhe conta a história do filme que na véspera havia passado na televisão.

A heroína do seu livro seria como a personagem interpretada por Shirley MacLaine, em “What a way to go!” .¹  Nessa comédia romântica, a protagonista principal procura o verdadeiro amor, casa-se quatro vezes e por quatro vezes fica viúva.  Apesar de não dar muito valor às riquezas materiais, cada falecido a deixa mais rica que o anterior e, inevitavelmente sozinha.

Mais uma vez será em outro filme que Josephine encontrará inspiração para compor o perfil de um dos maridos da heroína de seu livro. Ele é a cópia fiel do pregador fanático Harry Powell, personagem de Robert Mitchum, no suspense “The night of the hunter” ², que viaja pelo país seduzindo viúvas ricas para depois do casamento as roubar e assassinar.

Por ultimo, o livro cita o filme “Wild River” ³ com Montgomery Clift, que Josephine, em um  raro momento de lazer, assiste debulhando-se  em lágrimas, por estar dividida entre a história que se desenrola diante de seus olhos e uma retrospectiva interior não muito positiva que faz de sua própria vida.

Procurei esses filmes na videolocadora que frequento em Salvador, mas ela não alugava nenhum dos três. Tentei encomendar e comprar numa grande livraria brasileira, mas só encontrei “The night of the hunter”. O DVD com Shirley MacLaine está esgotado e “Wild River” além de não constar do catálogo, também não pôde ser baixado pelo aplicativo NETFLIX . Restou-me recorrer à “Mãe” de todas as livrarias e lojas de DVD: a Amazon.  Lá encontrei não só os três filmes, mas otras cositas más. Agora é aguardar a chegada do correio!

¹ “A senhora e seus maridos” (Br.) – 1964 –  diretor: J. Lee Thompson, com Shirley MacLaine, Paul Newman, Robert Mitchum, Dean Martin, Gene Kelly

² “O Mensageiro do diabo” (Br.) (1955) –  diretor: Charles Laughton, com Robert Mitchum e Shelley Winters

³ “Rio Violento” (Br.) (1960) diretor: Elia Kazan, com Montgomery Clift e Lee Remick

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