O Anjo Pornográfico

Apesar de só assistir a jogos de futebol de quatro em quatro anos e apenas quando o Brasil entra em campo (depois da derrota na ultima sexta vou hibernar até 2022), lembro que gostei bastante de ler a biografia de um jogador de futebol: “Estrela solitária- um brasileiro chamado Garincha”, escrita pelo jornalista Ruy Castro.

Recentemente, deleitei-me com a transcrição no Jornal Literário Rascunho da conversa feita pelo escritor durante a abertura do evento cultural Paiol Literário, que  ocorreu em junho em Curitiba.

O escritor discorre sobre o seu processo de escrever biografias e cita algumas normas que costuma seguir: a de não aceitar pedidos para escrever sobre alguém específico ou que ainda esteja vivo. Comenta sobre o trabalho descomunal que é pesquisar a vida de uma pessoa, e que é impossível traçar um perfil consistente sem entrevistar no mínimo duzentas outras.

Uma observação em especial chamou minha atenção. A de que os parentes costumam ser os menos informados sobre o biografado. É verdade que conhecem seus hábitos, seus gostos e idiossincrasias, mas o que sabem daquele homem ou mulher quando se encontrava longe do ambiente familiar? Afinal é esse lado escondido que torna a vida do biografado interessante e verossímil.

O moderador perguntou a Ruy Castro o que achava de ter sido processado por revelar assuntos que, na maioria das vezes, os familiares preferiam que continuassem escondidos. O escritor concordou que o biógrafo poderia ser responsabilizado caso fizesse um trabalho mal feito, mas que a obra não deveria ser censurada. Em último caso, quem não concordasse com os fatos narrados que escrevesse a própria versão.

Todas as irmãs do Nelson Rodrigues ficaram de mal comigo. (…) Elas acharam que protegi a viúva do Nelson. As irmãs – não só do Nelson como de todos os Rodrigues – tinham uma relação quase incestuosa com seus irmãos e ódio a todas as cunhadas, naturalmente. Tanto que se você ler as peças do Nelson, todas aquelas tias virgens, solteironas e neuróticas são as irmãs dele.

O comentário fez-me retroceder a quando cheguei ao Brasil e a revista reinante nos cabeleireiros cariocas era a Fatos &Fotos. Foi ela quem me apresentou à obra de Nelson Rodrigues. Na época procurava com uma mistura de fascínio e pudor a página com a crônica do escritor maldito. Agora, essa curiosidade ressurgia.

Quando terminei de ler o artigo lembrei que tinha diversos livros do Ruy Castro na estante. Será que a biografia sobre Nelson Rodrigues conseguira sobreviver às mudanças de apartamentos e cidades? Lá estava ela junto aos outros livros do Ruy Castro, que meu marido e eu compramos ao longo dos anos (não me desfiz de nenhum). O livro tinha as páginas amareladas pelo tempo e conservava a etiqueta da livraria Sicilano.

Assim que li os primeiros parágrafos,  atraquei-me a O Anjo Pornográfico.

A escrita de Ruy Castro além de ser extremamente envolvente – ele é uma autêntica Sherazade versão masculina – é bastante informativa. Ainda estou no início, mas já recebi uma aula de história bem interessante. A poucos meses de uma eleição presidencial, constato que por mais instável que seja o momento político brasileiro, o país já atravessou outras crises tão ou mais dramáticas do que esta. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues teria a dizer sobre tudo isto.

 

  • O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues

Ruy Castro

Editora Companhia das Letras

R$ 77,90

Rita Lee – uma autobiografia

Apesar do estrondoso sucesso de vendas, não me interessei em comprar o livro Rita Lee uma autobiografia.

Dancei, pulei e namorei muito ouvindo suas canções, mas nunca me identifiquei com as maluquices da cantora. No entanto, como me emprestaram, não custava nada dar uma olhada.

E foi assim, meio com um pé atrás e certa curiosidade que iniciei a leitura.

Ainda estava me familiarizando com os personagens que fizeram parte da infância cor de rosa da autora, quando, sem a menor cerimônia, recebi o primeiro chacoalhão. Acorda que é para ficar esperta, muitos outros abalos sísmicos virão!

Algumas revelações da cantora/compositora me incomodaram bastante, mas em outras passagens do livro me peguei sorrindo. Aos poucos a minha má vontade para com a artista foi sumindo.

Impossível não admirar uma mulher que após ter feito uma cesariana, no dia seguinte já estava “namorando” com o marido. Ao casal serei sempre grata pelas canções “Mania de você” e “Banho de espuma”.

Costuma-se associar o caos à destruição, mas após ler Rita Lee uma autobiografia constatei que o caos também pode ser muito fértil. Não é que “a ovelha negra da família” (como ela mesma se intitula) soube utilizá-lo a seu favor?

 

  • Rita Lee – uma autobiografia

Globo Livros

R$44,90

O acerto de contas de uma mãe

acerto-de-contas-de-uma-maeSó mais tarde reparei que comprara O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine no dia em que aconteceu o atentado à boate Pulse em Orlando. Será que estava sugestionada por mais um ataque sem sentido, que volta e meia acontece nos EUA? Talvez.

Nunca tive simpatia ou o interesse em saber o que se passava na cabeça desses assassinos malucos. Na verdade, só consigo ter muita raiva deles. Entretanto, sempre quis saber como os familiares e amigos conseguiam tocar suas vidas depois do ocorrido.

Logo nas primeiras páginas me peguei com os olhos marejados de lágrimas e, mesmo sem o querer, me identifiquei com o sofrimento da autora Sue Klebold.

Ela era a mãe de Dylan, um dos dois adolescentes que, em abril de 1999, entraram atirando na escola onde haviam concluido o segundo grau. O desejo de seu filho era matar o maior número de pessoas possível.  Desde o início ele sabia que a chacina terminaria em suicídio, o dele e o do parceiro.

Parece clichê, mas todos os relatos das pessoas que conheceram Dylan disseram que ele era um garoto legal e afetuoso. Não houve nada, absolutamente nada, diferente ou traumatizante em sua criação. Ele era o segundo filho de uma família bem estruturada, amorosa e com sólidos valores éticos.

Tanto a autora quanto o marido sempre foram muito presentes e estavam atentos às mudanças de comportamento do filho, inclusive aquelas consideradas normais em um adolescente. Infelizmente, não perceberam que o isolamento social e o aumento da irritabilidade escondiam algo mais: uma depressão profunda associada a pensamentos suicidas.

No íntimo, eu acreditava que os que estavam ao meu redor eram imunes ao suicídio porque eu os amava, ou porque tínhamos um bom relacionamento, ou porque eu era uma boa observadora, sensível e carinhosa que poderia mantê-los a salvo. Eu não estava sozinha ao acreditar que o suicídio só pudesse acontecer em outras famílias, mas estava errada.

Em momento algo a autora tenta justificar os atos do filho. Inclusive, custa a acreditar que seja ele que aparece nas imagens das câmaras de segurança da escola, ridicularizando e xingando os colegas antes de os matar.

Seu grande remorso foi não ter percebido a tempo o quanto seu filho estava doente e precisava de ajuda.

Como pais, costumamos estar atentos à saúde física de nossos filhos. Os levamos ao pediatra, dentista e a qualquer outro especialista que seja necessário. Mas relutamos em reconhecer que a saúde mental também precisa ser monitorada. Fico imaginando quantas “dores de crescimento” poderiam ser evitadas se houvesse um acompanhamento psicológico preventivo. A não ser que seja algo gritante, achamos que um comportamento diferente é apenas uma fase e que com o tempo as coisas vão se ajeitar. Problemas mentais ou doenças cerebrais, como a autora prefere chamar, são um assunto tabu.

O reconhecimento de sua própria cegueira e a percepção de que a tragédia poderia ter sido evitada impulsionaram Sue Klebold a se expor e escrever este livro.

Em momento algum ela menospreza a facilidade com que se adquirem armas de fogo, mas sua luta é para que se discuta abertamente sobre depressão e suicídio entre jovens. Afinal, pessoas mentalmente saudáveis não se matam nem dão cabo à vida de outras. Em prol dessa sanidade mental, a autora defende, como projeto de governo a inclusão de procedimentos rotineiros nas escolas de todo o país, para detectar a tempo quais jovens apresentam problemas psicológicos.

O acerto de contas de uma mãe é um dos livros mais corajosos que li ultimamente. E por mais que tenha me angustiado, recomendo-o vivamente, não só pela relevância do tema, mas por ser muito bem escrito.

 

  • O acerto de contas de uma mãe – a vida após a tragédia de Columbine

Sue Klebold

Editora Verus

R$ 39,90

A Casa do Céu

A-casa-do-ceuSe Amanda Lindhout foi a co-autora do livro, é porque conseguiu sobreviver.

Apesar desse pensamento me tranquilizar, não consegui desgrudar de A Casa do Céu até confirmar que realmente tudo terminara bem.

O livro é autobiográfico. Nele a autora conta com riqueza de detalhes o seu sequestro em um dos países mais perigosos do planeta, a Somália.

Amanda nasceu e viveu até os dezenove anos numa cidadezinha nos arredores de Calgary, no Canadá. Sua infância não foi das mais felizes. Depois que os pais se separaram, ela presenciou diversas vezes a mãe ser agredida pelo namorado ciumento. Sempre que podia Amanda se refugiava nas páginas da National Geographic. Elas a transportavam para lugares exóticos e instigantes. As revistas de segunda mão eram compradas com o que ganhava catando latas e garrafas vazias.

Assim que foi possível, mudou-se para a cidade grande. Trabalhando como garçonete em lugares badalados, juntou o suficiente para realizar a sua primeira viagem. O destino: Venezuela.

Achei curiosa as escolhas feitas por Amanda. Londres, Paris, Toscana ou Ilhas Gregas? Esqueça! Ela viajou para as regiões com que sonhara na adolescência: América do Sul, Sudeste Asiático, África, Oriente Médio.

Confesso que gostei de saber que, no meio de tantas andanças, passou umas férias em Portugal, apesar de não ter feito qualquer comentário sobre o que achou do meu país natal.

Como muitos mochileiros, eu contava os países por onde passava. Listar o número de países que visitávamos era uma maneira de medir o nosso sucesso. A maioria dos viajantes que contavam os países não apregoava seus números até passar dos trinta. Depois de quatro anos e várias viagens, eu já havia chegado a quarenta e seis.

Por mais que controlasse os gastos, todas essas viagens consumiam rapidamente suas economias. Inicialmente tentou vender as fotografias que tirava para agências de notícias, mas não teve muito sucesso. A concorrência era grande. Por isso, quando foi convidada para trabalhar como correspondente internacional em uma televisão no Iraque, aceitou prontamente. Era a oportunidade que ela tanto queria: se sustentar com as viagens que fazia e pretendia continuar fazendo.

Infelizmente as coisas não correram como esperava. Por inexperiência, gravou uma matéria que desagradou os jornalistas estrangeiros que trabalhavam em outras redes.  Sem nunca ter feito parte do grupo, agora ela era ignorada por todos.  Esse isolamento punitivo fez com olhasse com outros olhos para a Somália, um país temido pelos profissionais mais calejados em zonas de guerra. Quem sabe, nesse lugar evitado por todos, ela não faria a sua matéria jornalística redentora?

Seriam apenas dez dias. Chegar, tirar fotos, visitar alguns campos de refugiados e sair do país o mais rápido possível. Entretanto, no quarto dia em Mogadíscio, Amanda e o ex-namorado que a acompanhava nessa aventura perigosa foram capturados. O cativeiro duraria 460 longos dias.

Os sequestradores não tinham a menor empatia pelos prisioneiros. Eles eram apenas uma mercadoria valiosa. Dois estrangeiros infiéis, oriundos de uma cultura depravada e inimiga, sendo que Amanda era apenas uma mulher impura e má. Se começassem a dar muitos problemas poderiam ser facilmente eliminados e ela seria a primeira.

Apreciei a descrição das viagens feitas por Amanda e principalmente a coragem em relembrar como foi o cativeiro. Entretanto, o que me fascinou de verdade – e torna o livro tão extraordinário – foi a capacidade da autora em encontrar forças e criar maneiras engenhosas de sobreviver àquela barbárie.  Sua resiliência é inspiradora e A casa no céu é o relato de uma heroína do séc. XXI.

 

  • A Casa do Céu

Amanda Lindhout & Sara Corbett

Editora Novo Conceito

R$ 39,90

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