O acerto de contas de uma mãe

acerto-de-contas-de-uma-maeSó mais tarde reparei que comprara O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine no dia em que aconteceu o atentado à boate Pulse em Orlando. Será que estava sugestionada por mais um ataque sem sentido, que volta e meia acontece nos EUA? Talvez.

Nunca tive simpatia ou o interesse em saber o que se passava na cabeça desses assassinos malucos. Na verdade, só consigo ter muita raiva deles. Entretanto, sempre quis saber como os familiares e amigos conseguiam tocar suas vidas depois do ocorrido.

Logo nas primeiras páginas me peguei com os olhos marejados de lágrimas e, mesmo sem o querer, me identifiquei com o sofrimento da autora Sue Klebold.

Ela era a mãe de Dylan, um dos dois adolescentes que, em abril de 1999, entraram atirando na escola onde haviam concluido o segundo grau. O desejo de seu filho era matar o maior número de pessoas possível.  Desde o início ele sabia que a chacina terminaria em suicídio, o dele e o do parceiro.

Parece clichê, mas todos os relatos das pessoas que conheceram Dylan disseram que ele era um garoto legal e afetuoso. Não houve nada, absolutamente nada, diferente ou traumatizante em sua criação. Ele era o segundo filho de uma família bem estruturada, amorosa e com sólidos valores éticos.

Tanto a autora quanto o marido sempre foram muito presentes e estavam atentos às mudanças de comportamento do filho, inclusive aquelas consideradas normais em um adolescente. Infelizmente, não perceberam que o isolamento social e o aumento da irritabilidade escondiam algo mais: uma depressão profunda associada a pensamentos suicidas.

No íntimo, eu acreditava que os que estavam ao meu redor eram imunes ao suicídio porque eu os amava, ou porque tínhamos um bom relacionamento, ou porque eu era uma boa observadora, sensível e carinhosa que poderia mantê-los a salvo. Eu não estava sozinha ao acreditar que o suicídio só pudesse acontecer em outras famílias, mas estava errada.

Em momento algo a autora tenta justificar os atos do filho. Inclusive, custa a acreditar que seja ele que aparece nas imagens das câmaras de segurança da escola, ridicularizando e xingando os colegas antes de os matar.

Seu grande remorso foi não ter percebido a tempo o quanto seu filho estava doente e precisava de ajuda.

Como pais, costumamos estar atentos à saúde física de nossos filhos. Os levamos ao pediatra, dentista e a qualquer outro especialista que seja necessário. Mas relutamos em reconhecer que a saúde mental também precisa ser monitorada. Fico imaginando quantas “dores de crescimento” poderiam ser evitadas se houvesse um acompanhamento psicológico preventivo. A não ser que seja algo gritante, achamos que um comportamento diferente é apenas uma fase e que com o tempo as coisas vão se ajeitar. Problemas mentais ou doenças cerebrais, como a autora prefere chamar, são um assunto tabu.

O reconhecimento de sua própria cegueira e a percepção de que a tragédia poderia ter sido evitada impulsionaram Sue Klebold a se expor e escrever este livro.

Em momento algum ela menospreza a facilidade com que se adquirem armas de fogo, mas sua luta é para que se discuta abertamente sobre depressão e suicídio entre jovens. Afinal, pessoas mentalmente saudáveis não se matam nem dão cabo à vida de outras. Em prol dessa sanidade mental, a autora defende, como projeto de governo a inclusão de procedimentos rotineiros nas escolas de todo o país, para detectar a tempo quais jovens apresentam problemas psicológicos.

O acerto de contas de uma mãe é um dos livros mais corajosos que li ultimamente. E por mais que tenha me angustiado, recomendo-o vivamente, não só pela relevância do tema, mas por ser muito bem escrito.

 

  • O acerto de contas de uma mãe – a vida após a tragédia de Columbine

Sue Klebold

Editora Verus

R$ 39,90

A Casa do Céu

A-casa-do-ceuSe Amanda Lindhout foi a co-autora do livro, é porque conseguiu sobreviver.

Apesar desse pensamento me tranquilizar, não consegui desgrudar de A Casa do Céu até confirmar que realmente tudo terminara bem.

O livro é autobiográfico. Nele a autora conta com riqueza de detalhes o seu sequestro em um dos países mais perigosos do planeta, a Somália.

Amanda nasceu e viveu até os dezenove anos numa cidadezinha nos arredores de Calgary, no Canadá. Sua infância não foi das mais felizes. Depois que os pais se separaram, ela presenciou diversas vezes a mãe ser agredida pelo namorado ciumento. Sempre que podia Amanda se refugiava nas páginas da National Geographic. Elas a transportavam para lugares exóticos e instigantes. As revistas de segunda mão eram compradas com o que ganhava catando latas e garrafas vazias.

Assim que foi possível, mudou-se para a cidade grande. Trabalhando como garçonete em lugares badalados, juntou o suficiente para realizar a sua primeira viagem. O destino: Venezuela.

Achei curiosa as escolhas feitas por Amanda. Londres, Paris, Toscana ou Ilhas Gregas? Esqueça! Ela viajou para as regiões com que sonhara na adolescência: América do Sul, Sudeste Asiático, África, Oriente Médio.

Confesso que gostei de saber que, no meio de tantas andanças, passou umas férias em Portugal, apesar de não ter feito qualquer comentário sobre o que achou do meu país natal.

Como muitos mochileiros, eu contava os países por onde passava. Listar o número de países que visitávamos era uma maneira de medir o nosso sucesso. A maioria dos viajantes que contavam os países não apregoava seus números até passar dos trinta. Depois de quatro anos e várias viagens, eu já havia chegado a quarenta e seis.

Por mais que controlasse os gastos, todas essas viagens consumiam rapidamente suas economias. Inicialmente tentou vender as fotografias que tirava para agências de notícias, mas não teve muito sucesso. A concorrência era grande. Por isso, quando foi convidada para trabalhar como correspondente internacional em uma televisão no Iraque, aceitou prontamente. Era a oportunidade que ela tanto queria: se sustentar com as viagens que fazia e pretendia continuar fazendo.

Infelizmente as coisas não correram como esperava. Por inexperiência, gravou uma matéria que desagradou os jornalistas estrangeiros que trabalhavam em outras redes.  Sem nunca ter feito parte do grupo, agora ela era ignorada por todos.  Esse isolamento punitivo fez com olhasse com outros olhos para a Somália, um país temido pelos profissionais mais calejados em zonas de guerra. Quem sabe, nesse lugar evitado por todos, ela não faria a sua matéria jornalística redentora?

Seriam apenas dez dias. Chegar, tirar fotos, visitar alguns campos de refugiados e sair do país o mais rápido possível. Entretanto, no quarto dia em Mogadíscio, Amanda e o ex-namorado que a acompanhava nessa aventura perigosa foram capturados. O cativeiro duraria 460 longos dias.

Os sequestradores não tinham a menor empatia pelos prisioneiros. Eles eram apenas uma mercadoria valiosa. Dois estrangeiros infiéis, oriundos de uma cultura depravada e inimiga, sendo que Amanda era apenas uma mulher impura e má. Se começassem a dar muitos problemas poderiam ser facilmente eliminados e ela seria a primeira.

Apreciei a descrição das viagens feitas por Amanda e principalmente a coragem em relembrar como foi o cativeiro. Entretanto, o que me fascinou de verdade – e torna o livro tão extraordinário – foi a capacidade da autora em encontrar forças e criar maneiras engenhosas de sobreviver àquela barbárie.  Sua resiliência é inspiradora e A casa no céu é o relato de uma heroína do séc. XXI.

 

  • A Casa do Céu

Amanda Lindhout & Sara Corbett

Editora Novo Conceito

R$ 39,90

Sempre em movimento – Uma vida

Oliver-SacksNão li nenhum dos livros que fizeram o neurologista Oliver Sacks famoso. Apesar dos títulos curiosos como Tio Tungstênio, Um antropologista em Marte, Com uma perna só e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, nunca me interessei muito pelo tema: patologias neurológicas.

Com um atraso de 25 anos, assisti ao filme Tempo de despertar, no qual Oliver Sacks é representado pelo ator Robin Williams e um de seus pacientes por Robert de Niro. O filme baseou-se no livro do mesmo nome, onde o médico narrou os resultados de uma experiência medicamentosa que fez em 80 pacientes que viviam paralisados e sofriam as sequelas de uma epidemia de encefalite letárgica, também conhecida como doença do sono, que se espalhou pelo mundo no início dos anos 1920.

Aos poucos comecei a prestar atenção nesse médico de barba branca e olhar perspicaz. No final do ano passado, li a carta de despedida que publicou no New York Times, quando soube que estava com um câncer terminal. Ao concluir a leitura estava irremediavelmente encantada por esse velhinho que até o fim se manteve curioso e grato com tudo que aprendeu e viveu.

Logo depois, ganhei de presente seu livro de memórias: Sempre em Movimento – uma vida.  Foram quase quinze dias de leitura e muitas recomendações aos amigos para que fizessem o mesmo.

Recentemente li no jornal Rascunho uma entrevista com o escritor holandês Arnon Grunberg em que ele dizia: “A nossa vida pessoal é um grande material (para criar histórias), o autor só precisa de distância e uma saudável aversão pela auto-censura.”

Pois desse mal o autor não padece. Com a maior naturalidade, comenta as próprias vivências que muitos outros em seu lugar prefeririam esconder. Uma das histórias que mais me impressionou foi a admissão de ter sido responsável, mesmo que involuntariamente, pela derrocada de um querido amigo, ao lhe apresentar drogas pesadas. Drogas que por alguns anos ele também consumiu!

Entre muitas outras lembranças o autor recorda a péssima reação da mãe ao saber que ele era homossexual; as dificuldades em conviver com um irmão esquizofrênico, e a frustração de ter suas idéias para um futuro livro “roubadas” pelo orientador.

Não foi difícil recuperar todas essas memórias porque, desde os 14 anos, o autor mantinha o hábito de escrever um diário. Na última vez que os contou, ele era composto de quase 1.000 cadernos nos mais variados tamanhos e espessuras.

Entretanto, sua verdadeira paixão sempre foi o estudo de distúrbios neurológicos e como eles afetaram a vida de milhares de pessoas.  Síndromes como a Tourette e o autismo ganharam uma visibilidade que até então não possuíam.

Após conhecer o estilo literário de Oliver Sacks, compreendi a razão de seus livros fazerem tanto sucesso. Ao aliar o rigor científico a uma escrita afetuosa e instigante, tornaram-se acessíveis ao grande público. Um público sempre ávido por compreender a linguagem misteriosa dos médicos.

 

  • Sempre em movimento – uma vida

Oliver Sacks

Editora Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,90

A Redoma de Vidro

Redoma-de-vidroHá posts que são difíceis de escrever como o quê! De tão bom que o livro é, tenho a impressão que tudo o que disser será pouco e banal. Estou falando de A Redoma de Vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath.

Trata-se de um romance semi-autobiográfico. Nele, a autora transfere para Esther, uma jovem brilhante e com um futuro promissor, sua luta contra a depressão e os recorrentes pensamentos suicidas.

Esther tem a impressão de desvanecer dentro de uma intransponível redoma de vidro. O que se passa fora dela é inatingível e desinteressante.

Sempre imaginei a depressão como um nevoeiro denso e pegajoso, impossível de ser compreendida por quem está fora dela. Entretanto, a autora por conhecê-la intimamente, desvenda-a com lucidez e clareza e o leitor acompanha angustiado o deslizar contínuo e sem freios de uma vida motivadora, repleta de possibilidades, para outra em que nada mais interessa ou faz sentido.

A escrita de Sylvia é muito visual e poética, mesmo quando retrata o tratamento de eletrochoques:

Dr. Gordon colocou duas placas de metal nas minhas têmporas (…) então alguma coisa dobrou-se dentro de mim e me dominou e me sacudiu como se o mundo estivesse acabando. Ouvi um guincho, iiii-ii-ii-ii-ii, o ar tomado por uma cintilação azulada, e a cada clarão algo me agitava e moía e eu achava que meus ossos se quebrariam e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio.

Ou uma tentativa frustrada de acabar com a própria vida:

Avancei rumo ao fundo, mas, antes que eu pudesse saber onde estava, a água tinha me cuspido de volta para o sol, as coisas cintilando ao meu redor como pedras semipreciosas – azuis, verdes e amarelas.

A Redoma de Vidro é um livro vigoroso e belo. Infelizmente sua criação não foi suficiente para auxiliar a autora a expulsar seus demônios internos. Algumas semanas depois da publicação do livro, Sylvia Plath suicidou-se.

 

  • A Redoma de Vidro

Sylvia Plath

Biblioteca Azul

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

Entradas Mais Antigas Anteriores

%d blogueiros gostam disto: