Minha vida de menina

Recentemente uma amiga me pediu que a ajudasse a esvaziar as estantes da biblioteca dos pais.

O casal morou no apartamento por mais de sessenta anos, e nesse tempo todo nenhum deles se desfez dos livros que comprou ou ganhou de presente. Inclusive, guardaram a maioria dos que vieram como herança dos respectivos genitores. A tarefa não me intimidou. Afinal, já fiz mudanças suficientes para saber o que pode ser doado, o que merecia ser guardado mas jamais será relido, e aqueles impossíveis de serem descartados.

Admito que aceitei a incumbência porque sabia que, em algum momento, uma nova categoria seria criada: a dos livros que separaria para mim.

Foi assim que se “mudaram” para a minha estante As obras completas de Machado de Assis da editora Nova Aguilar, Raduan Nassar – Obra completa publicada pela Companhia das Letras (um único volume de capa dura forrado com tecido cor vinho tinto), um livro divertido de Frases para guardar da extinta editora Casa da Palavra, e Minha vida de menina.

Durante um bom tempo andei de olho no último livro. Acho que deste quando trabalhei como vendedora na Livraria Argumento, e já lá se vão vinte anos. Mas por conta de tantos lançamentos, indicações de blogs e sugestões de amigos, acabei por esquecê-lo. Finalmente, o tinha em mãos.

Minha vida de menina é o diário de uma adolescente e foi escrito no final do século XIX. Publicado pela primeira vez em 1942, teve como autora Alice Dayrell Caldeira, que utilizou o pseudônimo de Helena Morley

Desfrutei de uma leitura feita sem pressa. O relato de um cotidiano simples e rural no interior de Minas Gerais é feito numa prosa jovial, própria de uma menina de quatorze anos.

Os tempos são outros na cidade de Diamantina que antes foi próspera. Agora, ela atravessa um período de declínio econômico, pois a extração da pedra preciosa, que deu nome ao lugar, é cada vez mais escassa. Muitos são os “causos” que acontecem em uma família cheia de primos, tias e vizinhos bisbilhoteiros. As descrições de fartas e genuínas refeições mineiras aguçaram meu paladar. O fervor religioso católico se mistura com crendices e superstições que me fizeram rir: pentear o cabelo de noite, em nenhuma hipótese, pois se manda a mãe para o inferno.

Como não poderia deixar de ser, visto o período histórico no qual transcorre a narrativa (logo após a abolição da escravatura) aqui e ali surgem comentários que incomodam o leitor do século XXI. Triste é perceber que se em muitos outros quesitos a sociedade brasileira evoluiu, o preconceito e o racismo continuam enraizados como ervas daninhas entre nós. Até quando meu Deus?

Duas leituras imperdíveis

Aconteceu comigo há mais de vinte anos numa das primeiras viagens que fiz aos EUA. Entrei numa cafeteria da Starbucks e, enquanto não chegava a minha vez de ser atendida, comecei a ler a longa lista de cafés que eram oferecidos. Na mesma hora fiquei confusa. Naquela época eu conhecia apenas três opções: o café expresso, o coado e o café com leite. Quando me encontrei diante da atendente, perguntei educadamente se poderia me explicar qual a diferença entre dois produtos. Sua resposta foi tão agressiva que fiquei sem ação. Insegura, paguei por algo que não me lembro e nunca mais, na vida, pisei numa Starbucks.

Ao contar a um amigo brasileiro morador da cidade o que me acontecera, ele disse que nos EUA as relações sociais entre brancos e negros não eram das mais fáceis. Não fazia muito tempo os negros ainda precisavam lutar pela igualdade de direitos civis, e até 1967 era proibido (dava cadeia!) um casamento inter-racial. Portanto, não era de se estranhar, que pairasse no ar um clima de animosidade e desconfiança em relação aos não afro-americanos.

Esse episódio me veio à lembrança quando escutei o audiolivro Um casamento americano, de Tayari Jones, e pouco tempo depois li Compaixão: uma história de justiça e redenção de Bryan Stevenson.

Apesar de o primeiro ser um romance e o segundo um livro de não ficção, ambos abordam um tema bastante espinhoso: o encarceramento de negros nos EUA, na maioria das vezes com um viés preconceituoso e racista.

Um casamento americano retrata os desdobramentos na vida de um casal afro-americano recém-casado, depois que o marido é condenado injustamente a cinco anos de prisão. Quando finalmente consegue provar sua inocência, sua vida virou de ponta cabeça. O que fazer com os estilhaços que sobraram?

Se hipoteticamente pudesse existir alguma dúvida quanto à parcialidade da justiça americana, especificamente a praticada nos estados do sul, ela se desfaz após conhecer os relatos apresentados em Compaixão: uma história de justiça e redenção. Eles cortam o coração.

O livro foi escrito por Bryan Stevenson um advogado negro que se especializou em salvar a vida de quem foi condenado à prisão perpétua ou à morte sem ter recebido um julgamento justo.

A história central é de Walter McMillian, que sem provas foi jogado no corredor da morte antes de ser julgado e ali ficou por muitos anos. Mas há muitos outros casos revoltantes, como impor sentenças de prisão perpétua sem direito a condicional a jovens com menos de quatorze anos.

Ambas as leituras me impactaram bastante e me fizeram pensar no sistema judiciário brasileiro. Apesar das diferenças entre o nosso direito e o praticado nos EUA, o resultado final é muito parecido. Em ambos os países são os mais pobres e desamparados que amargam longas penas. Se por aqui a cor da pele não é o único fator determinante de condenação, a pobreza é. O estrato social do réu praticamente determina se ele terá um julgamento justo ou não, se poderá recorrer ou não.

Como bem colocou o autor de Compaixão: Algo está profundamente errado quando os ricos culpados são tratados melhor que os pobres inocentes.”

HEIMAT

Recentemente vi o filme Jojo Rabbit que, de maneira irreverente, retratou pelo olhar de um menino a ascensão do nazismo e os impactos dessa ideologia na vida de cidadãos comuns.

Apesar da abordagem caricatural, ele me fez refletir, pela milésima vez, como as pessoas se comportam em épocas de crise.

Recordei a minha infância e a lavagem cerebral que recebi durante o governo salazarista. Do alto dos meus onze anos, de tanto ouvir falar na grandeza da nação costumava dizer que preferia morrer a perder as colônias portuguesas. Por esse motivo não estranhei que um garoto se deixasse contaminar, e tivesse como amigo imaginário o próprio Hitler.

Entretanto não consegui apreciar a minissérie Hunters, onde, mais uma vez, os nazistas e suas ideias abomináveis entram em cena. Admito que me distraí em alguns momentos e até mesmo gostei do desfecho surpreendente. Mas incomodou-me a utilização leviana de relatos verídicos, sobre o grande sofrimento infligido aos judeus, para contar uma história caricata entre mocinhos e bandidos. Quando terminou fiquei com a impressão de ter assistido a mais uma desnecessária teoria de conspiração.

Por coincidência, na mesma época em que vi o filme e a minissérie, estava lendo um romance gráfico que me agradou bastante. Trata-se de Heimat – ponderações de uma alemã sobre sua terra e história. Nele, a escritora Nora Krug recuperou as lembranças dos familiares que viveram durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é composto de recortes, documentos oficiais, fotos, cartas e colagens e revela como foi a vida durante esse período sombrio da história da Alemanha. Estão lá os medos, dores, inseguranças, omissões e pouquíssimas esperanças. Um passado vivido por toda uma nação do qual as novas gerações procuram se distanciar.

Os alemães têm palavras bem compridas para designar com precisão uma sensação ou um sentimento. É o caso da palavra que dá nome ao título do livro: Heimat.

Heimat é um lugar especial onde você se sente acolhido e seguro. É mais do que um lar, ele pode ser real ou imaginário, mas você o associa a uma sensação de pertencimento onde suas crenças e valores o deixam confortável e não é necessário explicar quem se é. Mas qual seria esse lugar para a autora quando não se conhecem as fundações que o apoiam?

O livro não procura fazer um acerto de contas. Apenas reconhece que se grandes erros foram cometidos também houve tímidos e vitais gestos de solidariedade.

Ao tirar do limbo a história da família e se reconciliar com ela, Nora Krug abraça o presente sem guardar esqueletos escondidos no armário.

Heimat é uma biografia nada convencional que merece ser desfrutada.

Bem-vindo à Holanda

Ao ler uma das histórias de Tudo o que é belo recordei de uma outra que ouvi no audiolivro Maybe You Should Talk To Someone*, escrito pela psicóloga Lori Gottlieb.

Neste segundo livro a autora intercala relatos das sessões em que atuava como terapeuta com outros nos quais ela era a analisada. Curioso perceber como o comportamento sereno e o raciocínio lógico, utilizados ao conversar com seus pacientes, se diluíam quando precisava examinar os próprios sentimentos.

O elo que eu fiz entre os dois relatos teve origem num texto escrito por Emily Perl Kingsley, mãe de um bebê portador da Síndrome de Down.

Apesar do depoimento que me emocionou em Tudo o que é belo falar sobre o mesmo tema, conheci o texto de Emily no outro livro, Maybe you should talk to someone. Ele foi debatido durante uma sessão terapêutica com uma jovem recém-casada, diagnosticada com um câncer agressivo e incurável.

O que podem ter em comum uma mãe com um bebê com síndrome de Down e alguém que tem pela frente poucos anos de vida? À primeira vista nada. Mas o jogo da Vida forçou-as a jogar com cartas inesperadas com as quais não sabiam jogar.

Gostei muito da metáfora encontrada no texto da Emily, Bem-vindo à Holanda. Com cuidado ela mostra que é possível encontrar beleza no caminho, mesmo quando precisamos prosseguir por um outro que não escolhemos.

Bem-vindo à Holanda**

Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de criar um filho portador de deficiência, para tentar ajudar as pessoas que nunca compartilharam dessa experiência única a entender, a imaginar como deve ser. É mais ou menos assim…

Quando você vai ter um bebê, é como planejar uma fabulosa viagem de férias – para a Itália. Você compra uma penca de guias de viagem e faz planos maravilhosos. O Coliseu. Davi, de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases convenientes em italiano. É tudo muito empolgante.

Após meses de ansiosa expectativa, finalmente chega o dia. Você arruma suas malas e vai embora. Várias horas depois, o avião aterrissa. A comissária de bordo chega e diz: “Bem-vindos à Holanda”.

“Holanda?!? você diz, “Como assim, Holanda? Eu escolhi a Itália. Toda a minha vida eu tenho sonhado em ir para a Itália.”

Mas houve uma mudança no plano de voo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

O mais importante é que eles não te levaram para um lugar horrível, repulsivo, imundo, cheio de pestilências, inanição e doenças. É apenas um lugar diferente.

Então você deve sair e comprar novos guias de viagem. E você deve aprender todo um novo idioma. E você vai conhecer todo um novo grupo de pessoas que você nunca teria conhecido.

É apenas um lugar diferente. Tem um ritmo mais lento do que a Itália, é menos vistoso que a Itália. Mas depois de você estar lá por um tempo e respirar fundo, você olha ao redor e começa a perceber que a Holanda tem moinhos de vento, a Holanda tem tulipas, a Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece está ocupado indo e voltando da Itália, e todos se gabam de quão maravilhosos foram os momentos que eles tiveram lá. E toda sua vida você vai dizer “Sim, era para onde eu deveria ter ido. É o que eu tinha planejado.”

E a dor que isso causa não irá embora nunca, jamais, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se você passar sua vida de luto pelo fato de não ter chegado à Itália, você nunca estará livre para aproveitar as coisas muito especiais e absolutamente fascinantes da Holanda.

 

Li ou melhor ouvi Maybe You Should Talk To Someone no final do ano passado. Posso garantir que assim que o livro for publicado no Brasil, faço questão de reler, guardar na estante e presentear os amigos.

 

* Talvez você devesse conversar com alguém

** Encontrei o texto traduzido no site Pensador.

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