I Prêmio AEILIJ

No final de março foram anunciados os vencedores do I Prêmio AEILIJ de Literatura Infantil e Juvenil.  (AEILIJ é o acrônimo para associação de escritores e ilustradores da literatura infanto-juvenil).

Os participantes da associação são na sua maioria profissionais brasileiros que tiveram seus trabalhos publicados por editoras de diversos tamanhos em todo o país.

Gostei da criação desse prêmio, porque além de oferecer aos pais e educadores uma seleção de títulos com qualidade literária; dá visibilidade a escritores e ilustradores menos conhecidos; e indiretamente, divulga as pequenas editoras que costumam ter suas publicações restritas aos estados de origem.

Imagino que não tenha sido fácil selecionar os quinze finalistas entre tantos participantes.

Nessa primeira triagem, um título forte e poético chamou-me a atenção: Os filhos do deserto combatem na solidão, publicado pela editora CEPE de Pernambucano.

Achei curioso o fato de o autor não ser nativo nem residente no Estado, mas um gaúcho de quem nunca tinha ouvido falar: Lourenço Cazarré*.  Ignorância minha. O escritor que também é jornalista e autor de mais de cinqüenta livros, já recebeu mais de vinte prêmios literários, inclusive o prêmio Jabuti em 1998 na categoria infanto-juvenil.

Além do título, que remete ao poema Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, o que me atraiu para conhecer o trabalho de Lourenço Cazarré foi um comentário que ele fez em uma entrevista:

Meu objetivo como escritor juvenil é provar para um garoto de doze anos que se ele atravessa um livro de cem páginas, ele lê e não morre.

Concordo com essa observação. Realmente nessa faixa etária os jovens, mesmo aqueles que sempre gostaram de ler, deixam de lado essa atividade tão prazerosa. Eventualmente alguns a retomam mais adiante, mas outros se desinteressam pela leitura por completo.

Suponho que isso aconteça por algumas razões: a variedade de novos interesses que surgem na adolescência, a transformação do que era uma atividade recreativa numa obrigação escolar, e a falta de incentivo por parte dos pais. Sim, porque se quando o filho era pequeno ofereciam livros, liam juntos antes de dormir e visitavam livrarias, agora com os filhos crescidos deixam de presenteá-los achando que eles não precisam mais de incentivos.

Acredito que livro é  um objeto de primeira necessidade assim como a pasta de dentes.

Cabe aos pais cuidar da “higiene” literária dos filhos e oferecer-lhes sempre histórias de todos os tipos, quer eles peçam ou não. Duvido que se um exemplar for “esquecido” no quarto de um adolescente ele não o abra por mera curiosidade.

Os filhos do deserto combatem na solidão é uma ótima sugestão, mas vale a pena dar uma espiada na relação dos finalistas e vencedores do I Prêmio AEILIJ, tenho certeza que vai gostar.

 

*O escritor é pai do premiado ator Juliano Cazarré

O homem que plantava árvores

Impossível não lembrar de Sebastião Salgado quando se lê o conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono.

Assim como o personagem principal do livro, que saiu plantando árvores de espécies diferentes numa região inóspita no sul da França, o famoso fotógrafo brasileiro também reflorestou a propriedade que herdou do pai em Minas Gerais.

Ambos chamaram para si essa tarefa – que aos olhos de muitos parecia impossível -, sem esperar que as autoridades governamentais tomassem as providências necessárias que a elas competia.

O homem que plantava árvores foi escrito em 1953 quando a Europa ainda tentava compreender como tamanha barbaridade pudera acontecer em nome de… Em nome do quê mesmo?

Um sentimento amargo contaminava o espírito daqueles que haviam sobrevivido a duas guerras mundiais tão próximas uma da outra. Definitivamente, a raça humana estava condenada a se autodestruir.

Aí surgiu um livrinho despretensioso, de não mais de quatro mil palavras, que rapidamente se tornou um sucesso mundial. Ele contava a história de um pastor de ovelhas que sozinho recuperou uma região quase deserta. Sem esperar aplausos ou reconhecimento, fez o que achava ser necessário.  A sua atitude modificou não só toda a paisagem de um vale, como deu qualidade de vida aos habitantes desse lugar.

Recentemente voltei a pensar nesse pastor quando aceitei o convite da professora Sergiane para participar das comemorações da semana do Livro Infantil, realizadas na Escola Municipal Embaixador Dias Carneiro.

Eu a conheci no início do ano quando fizemos uma oficina com Francisco Gregório Filho sobre a arte de contar histórias. As aulas aconteciam no final do dia e eram ministradas bem longe de onde ela morava. Lembro que me imaginei no seu lugar e tive a certeza de que jamais teria a determinação para enfrentar, entre idas e vindas, duas horas dentro de um transporte público sujeito a atrasos e assaltos.

O entusiasmo dessa profissional contagiou-me, e assim, em uma manhã ensolarada, consultei o Waze e fui desbravar o bairro do Tanque, localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A fachada externa da escola bem que merecia uma pintura, mas lá dentro encontrei corredores limpos e uma sala de leitura com as estantes organizadas. Minha colega de curso é a responsável pela sala e procura mantê-la atualizada com novos lançamentos, mesmo que, para isso, eventualmente precise pagar do próprio bolso. Ela também promove jogos e cirandas, convida escritores e contadores de histórias para conversar com as crianças, e está sempre se reciclando em busca de novidades.

É bem possível que assim como o trabalho do anônimo pastor não foi reconhecido, o mesmo aconteça com o da professora Sergiane.  Muitos irão dizer que ela não faz mais do que a sua obrigação. Talvez seja verdade. Mas quando se vê tanto descaso para com a Educação, é bom encontrar alguém perseverante que forma futuros leitores com tanta paixão. Obrigada professora Sergiane por me mostrar que nem tudo está perdido.

 

  • O homem que plantava árvores

Jean Giono

Editora 34

R$ 49,00

Kafka e a boneca viajante

Uma amiga adepta do desapego convidou-me para dar uma olhada nos livros que pretendia doar. Entre vários, um livro fininho chamou-me a atenção: Kafka e a boneca viajante.

O livro escrito por Jordi Sierra i Fabra venceu em 2007 o Prêmio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil da Espanha. Desde muito cedo, o autor de nacionalidade catalã se apaixonou pelo ofício de contar histórias. Era ainda um garoto, de apenas doze anos, quando escreveu um romance (nunca publicado) com quase quinhentas páginas.

Na presente história, o autor parte de um fato verídico que aconteceu um ano antes de Franz Kafka morrer, e que posteriormente foi lembrado por sua companheira, Dora Dymant, em conversas com amigos.

Ao caminhar por um parque em Berlim, o casal encontrou uma menina – inexplicavelmente sozinha – chorando desolada porque havia perdido a boneca preferida. Tentando confortá-la, o famoso escritor disse que, com certeza, a boneca tinha viajado e que lhe mandaria uma carta contando as novidades. Para convencê-la, o escritor – conhecido por seu temperamento atormentado e anti-social – disse que era um carteiro de bonecas e que no dia seguinte traria uma carta escrita pela boneca fujona.

Durante três semanas Franz Kafka, que não teve filhos, dedicou seu tempo e talento para consolar uma criança desconhecida. As cartas nunca foram encontradas e foram apreciadas apenas por uma única leitora, cuja verdadeira identidade também nunca foi descoberta.

Para que essa breve e improvável amizade não caísse no esquecimento, Jordi Sierra i Fabra imaginou como essas cartas poderiam ter sido escritas. Respeitosamente, o autor catalão debruçou-se sobre as primeiras perdas e sofrimentos da infância, ao mesmo tempo em que com ternura estimulou a menina a acolher com alegria e confiança os acontecimentos e mudanças em sua vida, assim como na de uma simples boneca.

 

  • Kafka e a boneca viajante

Jordi Sierra i Fabra

Editora Martins Fontes

R$ 39,90

 

Canção de Ninar

Há certos livros que demoro a pegar por causa do tema. Se por um lado ele aguça a minha curiosidade, por outro me deixa desconfortável. Olho para o livro meio de esguelha e me pergunto: será que tenho coragem?

A primeira vez que isso aconteceu foi com Paula, de Isabel Allende.  O assunto não poderia ser mais triste. O relato de uma mãe – no caso ela própria – falando sobre a filha que morreu aos 28 anos vítima de um erro médico.  Inquietava-me mergulhar no sofrimento da autora e encontrar uma leitura deprimente. Inacreditavelmente, não foi o que aconteceu. Apesar de ter lido Paula há muitos anos, lembro que foi uma leitura envolvente. Terminei com a sensação de que a autora conseguira fazer as pazes com uma dor imensurável e homenagear a curta vida da filha.

Recentemente voltei a ficar dúvida se deveria ler ou não outro livro. Desta vez foi Canção de Ninar, vencedor do Prêmio Goncourt de 2016, escrito pela franco-marroquina Leïla Slimani.

As opiniões das vendedoras que consultei na livraria do Leblon eram opostas: Enquanto uma dizia que em hipótese alguma leria algo sobre o assassinato de crianças – principalmente agora que era avó de um menino -, a outra o recomendava vivamente, alegando tratar-se de uma história muito bem narrada, graças ao estilo claro e direto da autora.

Como descobri depois, tanto este quanto o primeiro romance de Leila Slimani não são nem um pouco adocicados ou rasos. Ela gosta de mergulhar no lado sombrio da alma humana.

Se o livro Canção de Ninar foi inspirado num fato verídico que aconteceu nos EUA – o assassinato de duas crianças pela babá colombiana -, No Jardim do Ogro é tão perturbador quanto. Neste, a personagem principal sofre por ser ninfomaníaca. As duas narrativas transcorrem em ambientes familiares aparentemente serenos, que de uma hora para a outra são chacoalhados por acontecimentos devastadores.

Canção de Ninar escancara o pesadelo mais inconfessável de todos os pais que, pelas razões mais diversas, precisam deixar os filhos com estranhos. Esse medo costuma ser maior nas mães e, às vezes, vem acompanhado de um sentimento de culpa por não se sentirem realizadas exclusivamente com a maternidade.

Por mais apavorante que seja a história, ela serve de alerta para quando preferimos não prestar atenção a pequenos sinais de que algo não vai bem, e os empurramos para debaixo do tapete, esperando que tudo se resolva com o tempo.

Recomendo a leitura de Canção de Ninar, mas desde já aviso: é uma paulada violenta, difícil de ser esquecida.

 

  • Canção de Ninar

Leïla Slimani

Tusquets Editores

R$ 41,90

 

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