Novas aquisições

Há uns dois meses fui ao lançamento do segundo livro da escritora Padmini*, Senhora Incerteza, num lugar que a minha caretice considerou como inusitado. Tratava-se de um espaço multiuso, localizado numa casa discreta na Gávea. Nenhuma placa do lado de fora sinalizava que ali se escondia um estabelecimento comercial. Quando abriram a porta tive a impressão de adentrar numa sociedade secreta.

Surpreendi-me com a descontração do lugar. Além da mesa montada especialmente para a escritora e ilustradora autografarem os livros, havia um café onde serviam cervejas artesanais. O espaço possuía um pequeno jardim decorado com lanternas e almofadas coloridas, que bem poderia ser utilizado para meditar. Pais liam histórias para seus filhos, enquanto aguardavam pela contação de histórias que aconteceria mais tarde.

A responsável pela venda dos livros foi a Anna Luiza Guimarães, criadora de um projeto literário inovador, a Biblioteca Amarela. O nome já diz em parte a que veio. Trata-se de uma biblioteca, mas também de uma livraria itinerante. Os livros que fazem parte do acervo foram selecionados por Anna Luiza com cuidado, e muitos são de profissionais que os editaram de maneira independente.

Foi assim que encontrei os livros de uma ilustradora que conheci através do Instagram, a Daniela Galanti. Ela trabalha com lápis de cor e seus desenhos são lindos.

O primeiro livro chama-se Vermelho e não possui texto. Ele é em papel cartonado, no formato de uma dobradura. A história acontece em apenas duas cores, vermelho e cinza, até terminar numa longa e colorida ilustração.

O segundo livro Das árvores que caminham quando nelas me aninho foi feita em parceria com o poeta João Proteti.

Eu tenho aptidão

para ave

e tenho aptidão

para árvore.

Não sei se bato asas,

não sei se crio folhas.

Enquanto não se resolve,

humano permaneço.

Porém,

às vezes gorjeio,

às vezes floresço.

O projeto gráfico de ambos os livros é caprichado e a tiragem de cada um tem apenas 200 exemplares.

No acervo da Biblioteca Amarela descobri também … E o que veio antes?, um pequenino livro  produzido pelo coletivo de criação literária Baba Yaga. A história contada de trás para a frente responde às perguntas de uma criança curiosa. O texto é de Carolina Moreyra e as ilustrações são de Marcia Misawa, cujo trabalho também sigo no Instagram.

Saí de casa com o propósito de comprar apenas um livro, regressei com quatro. A conta bancária pode estar um pouco mais magra, mas a minha satisfação é imensa.

 

 

O primeiro livro de Padmini, Fitá, foi escrito em parceria com Karla Tenório.

  • Senhora Incerteza

Padmini

Semente Editorial

R$49,00

  • Vermelho

Daniela Galanti

R$ 38,00

  • Das árvores que caminham quando nelas me aninho

João Proteti & Daniela Galanti

R$ 45,00

  • … e o que veio antes?

Carolina Moreyra e Marcia Misawa

casa Baba Yaga

R$38,00

 

Circe

Em julho de 2013 li A Canção de Aquiles e considerei-o por antecipação a melhor leitura que faria naquele ano. A narrativa abordava de forma ágil e eletrizante a história do herói grego Aquiles e a Guerra de Troia. Encantada com o estilo da escritora norte-americana, Madeline Miller, fiquei aguardando pelo próximo livro.

No final do ano passado, surgiram na impressa estrangeira críticas elogiosas ao seu novo trabalho, Circe, e em abril o livro chegou às livrarias brasileiras.

A trama parecia bem interessante. Ela contava a história de Circe, filha do poderoso titã Hélio, o deus sol. Circe apaixonou-se por um pescador chamado Glauco. Como deusas e mortais não podiam casar entre si, ela o transformou numa divindade marinha. Em vez de se sentir agradecido, Glauco caiu de amores pela ninfa Cila. Enfurecida e cheia de ciúmes, Circe transformou-a em um monstro horrendo de seis cabeças. O seu gesto enfureceu os deuses que a exilaram para todo o sempre na ilha Eana.

Os séculos se passaram, até que um dia atracou na ilha, Odisseu, também conhecido como Ulisses. Ele voltava para casa, para os braços de sua amada Penélope, depois de lutar durante anos na guerra de Troia. Seduzido por Circe, acabou ficando mais tempo do que deveria, e quando partiu deixou a feiticeira grávida. Dessa união nasceu Telêmaco, que mais tarde viria a matar o pai, e depois casaria com… O livro não diz com quem, mas vale a pena pesquisar, porque se trata de uma união, para dizer no mínimo, surpreendente.

Como esperado, comecei a leitura de Circe bem animada. Mas para meu desapontamento, a magia que me envolveu logo no começo de A Canção de Aquiles, desta vez não aconteceu.

O texto parecia-me repleto de descrições hiperbólicas e desnecessariamente melodramático. Para piorar, tive muita dificuldade para simpatizar com a personagem principal. Bem que a autora tentou fazer uma releitura mais simpática daquela que era considerada a deusa máxima da feitiçaria e da magia negra, mas achei Circe lamurienta e possessiva, chatinha mesmo. As referências sobre mitologia que tanto haviam me agradado no primeiro livro, desta vez, me soaram didáticas e pouco inspiradoras. Se não fosse por uma descrição ou outra, como o nascimento do Minotauro ou a luta entre Circe e o monstro marinho, diria que a leitura foi decepcionante.

Em 2012 Madeline Miller concorreu ao Orange Award* com A Canção de Aquiles e venceu. Este ano ela está na disputa com Circe. Se ganhar não contará com o meu aplauso.

 

  • Circe

Madeline Miller

Editora Planeta

R$ 59,90

 

* O prêmio literário britânico concedido somente a mulheres de qualquer nacionalidade, que escrevem em inglês e foram publicadas no Reino Unido. Atualmente a condecoração chama-se Prêmio Feminino de Ficção.

Emília, a mãe que lê

Gosto de lembrar como conheci a escritora Emília Nuñez. Estava eu, na livraria Boto Cor de Rosa, colocando a conversa em dia com Flávia Bomfim, quando o telefone do estabelecimento tocou. Era Emília querendo saber se estavam vendendo A Pergunta mais Importante.

Ela ganhara o livro de presente da mãe, que sabia do seu interesse por histórias com bicicletas. Além da pertinência do tema, Emília ficou encantada quando viu que as ilustrações de A Pergunta mais Importante eram da Flávia, com quem tinha acabado de fazer uma oficina sobre ilustrações de livros infantis. Na ocasião, Flávia não mostrou nenhum trabalho próprio.

Sarah, dona da livraria, disse que não só tinha o livro como, por coincidência, tanto a autora quanto a ilustradora estavam ali, naquele momento, papeando e tomando um cafezinho. Sarah perguntou se ela gostaria de falar comigo, mas pega de surpresa Emilia desligou. Claro, que ligou logo em seguida. Trocamos algumas amenidades e marcamos um encontro.

Olhando para trás parece que faz muito tempo, mas na verdade só se passaram três anos. Na época, Emília acabara de criar o blog “Mãe que lê” (que acabou virando só Instagram), onde estimulava os pais a lerem para o filhos e indicava livros para crianças. Se não me falha a memória, havia publicado o seu primeiro livro, A menina da cabeça quadrada, que estava começando a fazer o maior sucesso.

Conversamos sobre nossos projetos pessoais e  ela me mostrou a “boneca” do seu próximo livro: Felicidade bicicleta. Na hora entendi por que sua mãe a presenteara com o meu.  Ambas as histórias falavam de filhos que aprendiam a andar de bicicleta com os pais.

Desde então tenho acompanhado com admiração a trajetória profissional da Emília, que atualmente considero como amiga. Juntamente com o irmão, ela montou uma editora. Desse projeto, além dos dois primeiros livros, nasceram duas coleções: a turma da Jaquinha  e a Meninocas. A primeira é para crianças pequeninas  e aborda temas como o que fazer quando se morde o amiguinho ou não se quer largar as fraldas. A outra coleção é dirigida a um público mais “velho”, especialmente meninas na faixa entre 6 e 10 anos.

Mas o meu livro favorito é um pequenino, ilustrado pela mineira Anna Cunha: Brincar de Livro. A ideia surgiu depois que Emília leu a dissertação de mestrado de Maria Beatriz Serra, falando sobre livros de literatura para bebês e crianças pequenas.

O livro não tem texto escrito, mas a narrativa que Emilia quis contar está toda lá, só que em ilustrações. E quem conhece o trabalho da Anna Cunha sabe exatamente o impacto e beleza que elas provocam.

O livro é do tamanho certo para um bebê de seis meses segurar, mas nada impede que a mãe conte a história mesmo antes dele nascer.

Por experiência própria, posso dizer que escrever um livro não é um processo fácil. Risca-se muita coisa e as inseguranças são muitas. Por essa razão, fiquei sensibilizada por Emília ter me mostrado o projeto do livro quando ele ainda estava bem no início. Se Emília Nunez e Anna Cunha são as mães de Brincar de Livro, eu me considero um pouco madrinha.

Construído com tanto esmero, não me surpreendi quando foi escolhido para fazer parte do catálogo brasileiro apresentado na Feira de Bolonha* deste ano, e recebeu o selo de altamente recomendável pela FNLIJ**.

Ah! E como se tudo o que contei fosse pouca coisa, Emília Nuñez ignorou as notícias alarmistas do mercado editorial e livreiro, e acaba de abrir uma livraria em Salvador, a “Mãe que Lê” ***. A perseverança de Emília é inspiradora e merece uma salva de palmas!

 

Para conhecer melhor o trabalho de Emília Nuñez acesse:

Instagram: @maequele

Site: http://www.maequele.com.br

*Feira Internacional do Livro Infantil

**Fundação Nacional Livro Infanto Juvenil

***Shopping AlphaMall Alphaville 1 – Paralela – Salvador – BA

Uma questão de prioridades

Manual-de-desculpas-esfarrapadasExploro as estantes da sala de leitura na escola municipal onde sou voluntária, e encontro o “Manual de desculpas esfarrapadas”, do escritor Leo Cunha. A edição que tenho em mãos é de 2004 e está em bom estado. Divirto-me com as crônicas, até que chego a uma que toca num tema espinhoso: por que se lê tão pouco no Brasil?

No texto, o escritor narra o encontro que aconteceu entre pais, alunos e o também escritor Pedro Bandeira, em um colégio da elite financeira de São Paulo.

Em dado momento, uma senhora reclamou do preço alto dos livros. O escritor olhou para ela e reparou nos tênis importados que os filhos calçavam. Na mesma hora, retrucou:

“Ô, minha senhora, não é o livro que é caro. É a senhora que prefere investir no pé do que na cabeça dos seus filhos”.

Não é preciso dizer que o auditório veio abaixo de tanta risada. Fico até com pena do puxão de orelhas que a senhora levou. Entretanto , o escritor estava coberto de razão.

Afinal, quais são as prioridades dos brasileiros quando vão as compras? Por certo não são os livros.

Independentemente da classe econômica-social, o que importa é ostentar. Quer seja um corpo sarado, a festinha de aniversário do filho, ou o exagero na compra de bens supérfluos que comprometem o orçamento familiar.

Enquanto se priorizar o invólucro ao conteúdo, o retrato da educação no Brasil continuará sendo um vergonhoso 63º lugar.*

 

*Resultado do Brasil na prova aplicada em setenta países pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA)– 2015

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/02/06/colombia-ultrapassa-brasil-em-ranking-de-educacao-com-foco-em-professores-e-avaliacao-de-aprendizagem.ghtml

 

  • Manual de desculpas esfarrapadas

Leo Cunha

FTD

R$ 50,00

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