A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas

O livro A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas não é novidade. Na verdade, trata-se da reedição de um romance lançado em 2002. Na época, não lembro de o ter visto nas livrarias. Também pudera, eu tinha acabado de me mudar para Salvador, e a única livraria que conhecia e frequentava era a Siciliano. Seguindo os princípios da matriz, ela destacava os bestsellers e livros de auto-ajuda, e deixava a literatura nacional em segundo plano.

Recentemente, interessei-me pelo anúncio colorido de um livro que saiu em meia página de jornal (sim, sou jurássica e todas as manhãs leio o periódico impresso). Era sobre A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas. Rasguei a página e na primeira oportunidade comprei-o.

Acertei em cheio. Com gosto, mergulhei no relato de uma linhagem de mulheres que começou no ano de 1500 e chegou até aos dias de hoje. O embasamento histórico é consistente e os perfis psicológicos femininos são construídos de maneira bem interessante.

Entretanto, fiquei desapontada ao perceber que eu não sabia absolutamente nada sobre a antropóloga e escritora goiana, Maria José Silveira.

Uma pesquisa rápida na internet mostrou que este romance ganhara o prêmio Revelação da APCA*, e que a produção da autora além de extensa, transitava por diversos gêneros literários.

Como de costume, controlei-me para não sair comprando outros títulos que me interessaram: O Fantasma de Luis Buñuel, indicado para os vestibulandos da UFG**, mesmo sendo uma leitura obrigatória, surpreendentemente, recebeu críticas elogiosas dos estudantes; e O voo da arara azul direcionado a um público mais jovem – na faixa dos 12 anos -, que começa a abandonar histórias consideradas infantis e procura leituras mais “adultas”.

Espero que o relançamento de  A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas siga os passos de outro romance nacional: Arroz de Palma. O livro de Francisco Azevedo está na 12ª edição e ganhou uma edição comemorativa. Para que o mesmo aconteça com o primeiro, só é preciso que ele receba uma boa propaganda boca a boca. Eu já comecei.

 

*Associação Paulista de Críticos de Arte

**Universidade Federal de Goiás

 

  • O fantasma de Luis Buñuel

ZLF Editorial

R$ 39,90

  • O voo da arara azul

Editora Callis

R$ 32,90

Saí para comprar um colchão

Mais uma vez estou de mudança. Desta vez, não de cidade, mas de bairro. Volto para o apartamento que sempre foi meu e que esteve alugado por muito tempo. Para celebrar o acontecimento, decido que está na hora de trocar de colchão.

O shopping tem três lojas de colchões, todas bem próximas umas das outras. Entro na primeira decidida. Sei exatamente o que quero. Passei o final de semana na casa de uma amiga em Itaipava e dormi maravilhosamente, como há muito tempo não dormia. Prefiro acreditar que o sono reparador é por conta do colchão e não por causa do silêncio e do friozinho da serra. Mas são tantas as opções… Fico perdida. Tem colchões de espuma com densidades diferentes,  colchões com molas pocket e colchões com molas nanolástico e longarinas de reforço. Céus, o que será isso? Sento-me num e balanço o corpo, repito o mesmo em outro, avalio a firmeza dos materiais. O vendedor bombardeia-me com diferentes informações e descontos imperdíveis. Não consigo decidir. Confusa, saio da loja. Por hoje chega.

Passo batida pela loja de chocolates, pelo quiosque com doces portugueses e subo a escada rolante. O que eu preciso é de uma livraria. Não aquela para adultos – a lembrança do que ainda tenho para ler funciona como um excelente freio -, mas não haverá mal nenhum se eu entrar na Malasartes dedicada ao público infanto-juvenil.

Cláudia, uma das sócias do espaço, mostra-me as novidades. Quero todas, mas uma me atrai especialmente. É Casa de Passarinho da escritora e professora Ana Rosa Costa.

Gosto muito de histórias com pássaros. A que tenho em mãos não poderia ser mais bonita. No texto, duas crianças encontram um ninho em cima de uma arvore. Com o passar dos dias, acompanham o vai e vem de um casal de passarinhos. O que será que eles estão fazendo?

As Ilustrações são do maravilhoso Odilon Moraes. O curioso é que os desenhos não possuem margens certas e definidas. São esboços, rascunhos de poucas cores que dão visibilidade à história escrita.

Estou pronta para encerrar a compra quando olho displicentemente para o lado. Bem à minha direita estão as histórias do personagem folclórico Malasartes recontadas por Augusto Pessôa. Por coincidência, na semana anterior, terminei um curso na PUC de Contação de Histórias, tendo Augusto como professor. E que professor! Foram aulas extremamente prazerosas. Como não levar o livro cujo título, ainda por cima, dá nome à livraria?

Saí pra comprar um colchão e voltei para casa com dois livros.

Duas decepções e uma boa surpresa

Fiquei mais de um mês sem postar, mas isso não significa que pus os livros de lado. Acontece que as ultimas leituras foram pouco prazerosas – apesar de terem recebido ótimas críticas – e, por essa razão, não me apeteceu comentá-las.

A primeira decepção foi com A Gorda, da escritora Isabela Figueiredo. Interessei-me pelo livro porque, como disse em um post anterior, gostei muito do outro livro da escritora, Caderno de memórias coloniais.

Decidida a não me deixar abater e interessada em conhecer outros autores lusófonos, iniciei a leitura de Esse cabelo – a  tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteira, da angolana, Djaimilia Pereira de Almeida. A escritora havia sido um dos destaques da FLIP no ano passado.

A trama não poderia ser mais atual e interessante, já que aborda temas como racismo, padrões de beleza feminino, identidade social, etc. Mas de novo, a leitura não fluiu. Li uma frase, reli, e nada do texto me cativar. Dei-me por vencida e pus o livro de lado.

Lembrei que fizera o mesmo quando tentei ler O Apanhador no Campo de Centeio na adolescência. Acho que os problemas próprios da idade eram mais do que suficientes para me fazer debruçar com paciência sobre a rabugice depressiva de outro jovem.

Felizmente, no início deste ano, resolvi dar uma  nova chance a Holden Caulfield, e constatei que meu olhar havia mudado. Com satisfação, mergulhei com empatia nos questionamentos do atormentado personagem.

Por essa razão, decidi fazer o mesmo com Esse cabelo…  Quem sabe se o deixar hibernando por algum tempo na estante eu possa apreciá-lo melhor?

Por último, gostaria de fazer uma ressalva muito importante para quem ainda não leu ou gostaria de reler “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Como é possível que a editora, detentora por anos a fio dos direitos da obra no Brasil, não tenha se dado ao trabalho de corrigir erros ortográficos, nem de melhorar o projeto gráfico do livro? Nele, não consta uma linha sequer sobre o autor, nem uma pequenina resenha da história. Ainda por cima cobram o exorbitante preço de R$ 75,00.

Lamentei ter lido o livro antes do lançamento da caprichada edição feita em junho pela editora Todavia. A tradução foi atualizada, a ilustração da capa é a original americana e o preço está bem mais em conta: R$ 59,90. Essa nova versão de O Apanhador no Campo de Centeio vale a pena guardar ou oferecer de presente.

Novas aquisições

Há uns dois meses fui ao lançamento do segundo livro da escritora Padmini*, Senhora Incerteza, num lugar que a minha caretice considerou como inusitado. Tratava-se de um espaço multiuso, localizado numa casa discreta na Gávea. Nenhuma placa do lado de fora sinalizava que ali se escondia um estabelecimento comercial. Quando abriram a porta tive a impressão de adentrar numa sociedade secreta.

Surpreendi-me com a descontração do lugar. Além da mesa montada especialmente para a escritora e ilustradora autografarem os livros, havia um café onde serviam cervejas artesanais. O espaço possuía um pequeno jardim decorado com lanternas e almofadas coloridas, que bem poderia ser utilizado para meditar. Pais liam histórias para seus filhos, enquanto aguardavam pela contação de histórias que aconteceria mais tarde.

A responsável pela venda dos livros foi a Anna Luiza Guimarães, criadora de um projeto literário inovador, a Biblioteca Amarela. O nome já diz em parte a que veio. Trata-se de uma biblioteca, mas também de uma livraria itinerante. Os livros que fazem parte do acervo foram selecionados por Anna Luiza com cuidado, e muitos são de profissionais que os editaram de maneira independente.

Foi assim que encontrei os livros de uma ilustradora que conheci através do Instagram, a Daniela Galanti. Ela trabalha com lápis de cor e seus desenhos são lindos.

O primeiro livro chama-se Vermelho e não possui texto. Ele é em papel cartonado, no formato de uma dobradura. A história acontece em apenas duas cores, vermelho e cinza, até terminar numa longa e colorida ilustração.

O segundo livro Das árvores que caminham quando nelas me aninho foi feita em parceria com o poeta João Proteti.

Eu tenho aptidão

para ave

e tenho aptidão

para árvore.

Não sei se bato asas,

não sei se crio folhas.

Enquanto não se resolve,

humano permaneço.

Porém,

às vezes gorjeio,

às vezes floresço.

O projeto gráfico de ambos os livros é caprichado e a tiragem de cada um tem apenas 200 exemplares.

No acervo da Biblioteca Amarela descobri também … E o que veio antes?, um pequenino livro  produzido pelo coletivo de criação literária Baba Yaga. A história contada de trás para a frente responde às perguntas de uma criança curiosa. O texto é de Carolina Moreyra e as ilustrações são de Marcia Misawa, cujo trabalho também sigo no Instagram.

Saí de casa com o propósito de comprar apenas um livro, regressei com quatro. A conta bancária pode estar um pouco mais magra, mas a minha satisfação é imensa.

 

 

O primeiro livro de Padmini, Fitá, foi escrito em parceria com Karla Tenório.

  • Senhora Incerteza

Padmini

Semente Editorial

R$49,00

  • Vermelho

Daniela Galanti

R$ 38,00

  • Das árvores que caminham quando nelas me aninho

João Proteti & Daniela Galanti

R$ 45,00

  • … e o que veio antes?

Carolina Moreyra e Marcia Misawa

casa Baba Yaga

R$38,00

 

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