Palestra na quarentena

Memorial Janusz Korczak e as crianças – Jerusalém

Nestes tempos de quarentena tenho assistido a muitas palestras e cursos. Recentemente participei de um encontro virtual promovido pelo Instituto Estação das Letras, entre a escritora e psicóloga Ninfa Parreiras e Volnei Canônica, fundador do Instituto de Leitura Quindim e especialista em literatura infantil. A conversa era sobre Recordar Infâncias: Anne Frank e Janusz Korczak.

Falar de Anne Frank é falar do seu diário, escrito durante os dois anos em que a adolescente viveu confinada com os pais, a irmã e uma outra família judia, para escapar da perseguição nazista. Sua história correu o mundo, e é difícil encontrar alguém que não tenha ouvido falar do seu nome. Januscz Korczak é menos conhecido e, assim como a adolescente, também morreu num campo de concentração.

Korczak foi um pediatra e educador polonês, que amou profundamente as crianças, principalmente as órfãs e abandonadas. Quando a Polônia foi invadida pelos alemães, os judeus foram confinados em um gueto e foi para lá que ele transferiu o orfanato que dirigia em Varsóvia. Nesse orfanato foram postas em prática as suas teorias – pelas quais ficou conhecido – de uma educação amorosa baseada no respeito aos direitos das crianças.

Korczak também escrevia um diário onde relatava os fatos de um cotidiano bruto e cruel. A sua última anotação, antes de seguir deliberadamente com as crianças para a morte, dizia o seguinte:

“Reguei as flores. Pobres plantas do orfanato! Plantas de um orfanato judeu. A terra queimada pelo sol respirou. A sentinela em serviço observou o meu trabalho. (…)”

Fiquei chocada. Como foi possível que mesmo vivendo uma situação tão desesperadora ele tivesse cabeça para cuidar de flores? Qualquer outro se preocuparia apenas em resolver as necessidades mais básicas de sobrevivência, e isso seria muito natural. Mas ele, não. Continuou apreciando e protegendo a beleza, tão inútil naquele lugar. Mas seriam as flores realmente inúteis ou seriam um lembrete de que, apesar de tudo, a vida sempre rompe com generosidade não importando em que circunstâncias? Assim como uma canção, ou um poema, aquelas singelas flores reforçavam a humanidade de Korczak. Se não as regasse, então tudo se tornaria definitivamente sem sentido. Ou melhor, mesmo que nada fizesse sentido, enquanto cuidasse das flores e das crianças, ainda haveria uma réstia de esperança e a ignomínia não conseguiria quebrar o seu espírito.

Reguei as flores. (…) A terra queimada pelo sol respirou.” Estas palavras singelas têm me ajudado a enfrentar os problemas que a pandemia provocou no cotidiano de todos nós.

Cuidar não só das flores, mas de mim mesma, dos parentes e amigos, de quem trabalha para mim, sem esquecer daqueles que vivem à margem da sociedade. Cuidar sempre, mesmo sabendo que tudo o que for feito será sempre pouco.

 

Um poema desconfortável

 

*

Descobri o poeta inglês Philip Larkin através da escritora Rosa Montero.

Em seu livro “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, ela comenta como, por vezes, os vínculos entre pais e filhos se tornam asfixiantes. Para exemplificar o seu pensamento Rosa Montero transcreveu um poema de Philip Larkin:

Eis aqui o verso

Eles te ferram, teu pai e tua mãe.
Talvez sem querer, porém te ferram.
Despejaram em você as culpas que tinham
E incluíram extras, só para você.

Mas eles também forram ferrados
Por cretinos de casacos e chapéus antiquados,
Que metade do tempo eram caretas ou severos
e a outra metade passavam brigando.

A desgraça passa de pessoa para pessoa.
Vai ficando tão funda como uma fossa marinha.
Saia daqui o quanto antes
E não tenha filhos.

Confesso que não estava preparada para receber uma bofetada em forma de poesia, mas, mesmo atordoada, achei-o admirável. Quis conhecer um pouco mais Philip Larkin e descobri que ele foi extremamente popular na Inglaterra entre a década de 50 e o final dos anos 70 do século passado.

Sua poesia precisa e descomplicada fala de temas extremamente caros a seus conterrâneos: trabalho, amor, sexo, desencontros, velhice, os lugares onde vivia e, principalmente, o temor da morte.

De personalidade melancólica e avesso aos holofotes literários, Larkin cresceu numa família disfuncional. O pai era autoritário e irritadiço. Germanófilo, viajou com o filho para assistirem a comícios nazistas na Alemanha. A mãe, por sua vez, possuía um temperamento nervoso e apagado, submetendo-se docilmente à prepotência do marido.

Não é de se estranhar que Larkin tivesse horror a ideia de se casar. Essa ojeriza à instituição matrimonial não o impediu de manter uma vida sentimental movimentada. Muito pelo contrário. Em dado momento chegou a ter três relacionamentos amorosos simultâneos.

Larkin morou sempre longe dos grandes centros cosmopolitas. E mesmo quando se tornou famoso como poeta, não abandonou a rotina de seu trabalho como bibliotecário na universidade de Hull.

Larkin faleceu de câncer em 1985, aos 63 anos de idade. Durante o funeral, seu amigo de longa data, o escritor Kingsley Amis, declarou que ele (Larkin) nunca demonstrou ser quem não era, nunca fingiu sentimentos que não sentia, e foi essa honestidade total que proporcionou tanto poder à sua poesia e a cada palavra por ele mencionada.

Essa unanimidade nacional foi posta à prova quando, após sua morte, foi revelado o conteúdo de diversas cartas enviadas a amigos. Nelas aparece um Larkin misógino e racista.

O lado sombrio não impediu que em dezembro de 2016, no 31º aniversário de sua morte, fosse colocada uma placa com o seu nome no Canto dos Poetas, na Abadia de Westminster em Londres, lugar de peregrinação dos apaixonantes pela literatura inglesa.

Infelizmente não encontrei nenhum livro de Philip Larkin publicado no Brasil.

*a caricatura do poeta é de David Levine para o New York Times Review

Leituras na quarentena

Depois de um início de quarentena tumultuado, finalmente encontrei a concentração necessária para intercalar os afazeres domésticos com a leitura.

Comecei pelo livro Três Mulheres, um relato não ficcional sobre as escolhas sexuais de três mulheres e como elas afetaram suas vidas. O livro fez o maior sucesso nos EUA e foi lançado pouco depois do movimento #metoo.

Não foi uma leitura fácil. Se por um lado gostei do texto da escritora Lisa Taddeo e acho necessário falar sobre o desejo feminino, por outro lado incomodou-me o fato das personagens não se darem conta de como procuravam agradar mais os parceiros do que a si mesmas.

Com diferentes históricos de vida, era gritante a baixo auto estima dessas mulheres. E quando suas vidas privadas foram expostas, não encontraram compreensão ou solidariedade nem mesmo entre suas colegas de gênero.

Em seguida li A ridícula ideia de nunca mais te ver, da Rosa Montero. Um livro cujo assunto eu queria saber mais e ao mesmo tempo temia: a morte prematura do parceiro quando o amor entre o casal ainda não esmoreceu.

A autora faz um paralelo entre a sua experiência pessoal e a da cientista Marie Curie, cujo marido morreu atropelado por uma carruagem.

No entanto, fui surpreendida por uma leitura nem um pouco deprimente. Apesar de a dor estar presente – os trechos do diário de Marie Curie são bem sofridos -, a narrativa se abre a diversas considerações sobre o lugar da mulher no mundo contemporâneo. Inclusive, pude fazer um paralelo com a leitura anterior por também falar sobre o desejo feminino:

(…) Mas até bem pouco tempo, uma ou duas décadas atrás, o maior problema da mulher ocidental consistia em não saber viver para o seu próprio desejo: vivia sempre para o desejo dos outros, dos pais, dos namorados, maridos, filhos, como se suas aspirações pessoais fossem secundárias, improcedentes e defeituosas.”

Será que esse “problema” realmente ficou no passado? Tenho cá as minhas dúvidas. Como bem disse Lisa Taddeo:

As revoluções levam muito tempo para chegar a lugares onde as pessoas compartilham mais receitas da revista Country Living do que artigos sobre o fim da submissão feminina.”

É fácil recomendar A ridícula ideia de nunca mais te ver, mas a leitura de Três Mulheres, apesar de incômoda, é tão importante quanto.

O poema escondido em Evelyn

Recentemente assisti ao documentário Evelyn que aborda um tema bastante duro: o suicídio.

Ele foi dirigido e estrelado pelo premiado diretor de documentários investigativos, Orlando von Einsiedel.

Apesar de não ter receio de se colocar em situações de alto risco, foram necessários treze longos anos para que o diretor encontrasse a coragem de enfrentar a tragédia que se abateu sobre a própria família: o suicídio do irmão, Evelyn, aos 20 anos de idade.

Quando finalmente o fez, foi do jeito que sabia se expressar. Convidou os outros irmãos para participarem de um documentário. Durante cinco semanas caminharam pelas trilhas que haviam feito antes com Evelyn, e conversaram sobre ele com os pais e amigos mais próximos.

Em dado momento do documentário surgiu um poema que me tocou profundamento. Os versos iniciais foram proferidos por Orlando.

Querendo conhecê-lo por inteiro, descobri que foi escrito por Nicholas Evans e está no livro The Smoke Jumper, ainda não publicado no Brasil. A tradução imperfeita é de minha autoria, e o original pode ser encontrado em https://www.evelynmovie.com/poem

Caminho em você

Se eu for o primeiro de nós a morrer,

Não deixe a tristeza escurecer o seu céu por muito tempo.

Seja intenso, mas modesto em seu luto.

Houve uma mudança, mas não uma partida.

Pois assim como a morte faz parte da vida,

Os mortos vivem para sempre nos vivos.

E todas as riquezas reunidas em nossa jornada,

Os momentos compartilhados, os mistérios explorados,

As camadas de intimidade que com o tempo acabaram acumuladas,

As coisas que nos fizeram rir, chorar ou cantar,

A alegria da neve sob o sol ou o primeiro desenrolar da primavera,

A comunicação sem palavras do olhar e do toque,

O saber,

Cada doação e cada receber,

Não são flores que desbotam,

Nem árvores que caem e se desfazem,

Nem são pedras,

Pois nem mesmo a pedra suporta o vento e a chuva,

E poderosos picos de montanhas com o tempo se reduzem a areia.

O que nós éramos, nós somos.

O que nós tivemos, nós temos.

Um passado conjunto, imperecível e presente.

Então, quando andar pela floresta, onde uma vez caminhamos juntos,

E buscar em vão pela minha sombra no caminho ao seu lado,

Ou fizer uma pausa, onde sempre fizemos, na colina para contemplar a terra,

E vendo alguma coisa, procurar como de costume pela minha mão,

E, ao não encontrá-la, sentir-se engolido pela tristeza,

Fique quieto.

Limpe seus olhos.

Respire.

Escute meus passos em seu coração.

Eu não fui embora, apenas caminho em você.

Entradas Mais Antigas Anteriores

%d blogueiros gostam disto: