Ana Paula – perfil duma lisboeta

Não gosto do nome Ana Paula. Considero-o piroso, cafona. Se bem me lembro, quando morava em Portugal, os prenomes bonitos eram os de rainhas, como Margarida, Isabel, Catarina, Felipa ou então os de santas: Teresa, Cecília, Inês. O onipresente Maria era muito bem visto, quer fosse usado solitáriamente ou na companhia de outros que soam estranhos ao ouvido brasileiro, como Maria João. Certas combinações apesar de muito comuns como Maria das Dores, Maria das Graças, Maria de Lurdes, eram sem graça, assim como  Gracinda, Conceição ou Lúcia. Naquela época os prenomes deviam ser clássicos e atemporais. Nomes, que bem mais tarde aprendi a gostar, como Alice, Andreia ou Beatriz  eram pouco usuais e Gabrielas simplesmente não existiam.  Ana Paula era um nome sem tradição, retirado do romance de um escritor português: Joaquim Paço D’Arcos.

Meu pai apreciava bastante o escritor. Tinha todos os seus livros encadernados em couro marmorizado e letras douradas. Como Joaquim Paço D’Arcos não era citado nas aulas de literatura, eu, do alto das minhas certezas de adolescente, considerava-o um escritor menor.

No entanto, por ser muito ligada a meu pai, fiquei curiosa em conhecer a heroína que tanto o encantara.  Enfrentei as pouco mais de trezentas páginas com uma irritação crescente. Como era possível alguém em sã consciência desejar para a própria filha um destino tão cruel? Tudo bem que Ana Paula era muito bonita, graciosa, um ser repleto de virtudes, mas, por escolha própria, fadada a uma vida infeliz. Uma idiota!

Esbravejei de tudo o que foi jeito, apesar de não haver mais nada a fazer: Ana Paula é o meu nome.

Quando mais tarde herdei a biblioteca do meu pai, assim que surgiu uma oportunidade, desfiz-me de todos os Joaquim Paço D’Arcos.

Os anos se passaram, mas inexplicavelmente eu não esquecia a Ana Paula. Sempre que encomendava algum livro no site Estante Virtual procuráva-o sem sucesso. Até que na última viagem que fiz a Lisboa entrei despreocupada num sebo e o encontrei. Encadernado em couro vermelho o livro mantinha no seu interior a capa original.

No voo de regresso comecei a lê-lo mais uma vez. Impressionante como o meu olhar sobre a obra se modificou. Não importa mais se a personagem é idiota ou não. Estou encantada com o enredo da história, a elegância da escrita, a construção psicológica dos personagens e a descoberta de novas palavras como êmulo, arreganho, nimbar, souteneur.

Leio Ana Paula sem pressa e transporto-me para uma Lisboa dos anos trinta no século passado. Uma época de rígidas convenções sociais e auto infligidas prisões morais.

Pergunto-me como é possivel um escritor tão popular, com uma obra tão vasta e merecedora de tantos prêmios estar praticamente esquecido. Talvez porque Joaquim Paço D’Arcos era salazarista e se opôs à Revolução dos Cravos ocorrida em 1974. Se for esse o caso, a poeira dos exaltamentos políticos já baixou e está na hora de recuperar a obra de quem retratou com maestria a vida portuguesa entre as décadas 30 a 60 do século XX.

Quanto a mim, pretendo aos poucos recuperar os livros de que me desfiz, e tentar fazer as pazes com o meu nome.

 

* Êmulo – rival, adversário, oponente

*Arreganho – ousadia, valentia

*Nimbar – tornar sublime, enaltecer

*Souteneur – cafetão

E eu fui a Lisboa!

Antes de mais nada, quero pedir desculpas às amigas portuguesas por não as ter procurado quando estive recentemente em Portugal. Foram poucos dias e as saudades que tinha da minha irmã e de meu filho eram tantas que foi neles que concentrei todos os meus beijos e vontade de atualizar as conversas.

Levei o guia ‘’Vá a Lisboa e me leve com você’’. Minha irmã, que acompanhou as andanças, ficou impressionada como ele está atualizado.

Quando o adquiri no início do ano, montei um mini roteiro com o que pretendia visitar da próxima vez que fosse a Lisboa. Claro que não pude fazer tudo o que queria, mas mesmo assim estive no Museu Nacional do Azulejos e apreciei o painel O Casamento da Galinha mencionado no guia. Dentro do complexo, do qual faz parte o museu, surpreendi-me com a beleza da igreja do convento Madre de Deus, de deixar qualquer visitante de queixo caído.

Consegui tambem almoçar n’O Magano em Campo de Ourique. Felizmente fizemos reserva, porque o restaurante estava socado de gente. O couvert oferecido, por si só, era uma refeição completa: saladinha de polvo, mini rissoles de camarão, empadinhas de galinha, cogumelos recheados. Cada entrada mais deliciosa do que a outra. Para fechar com chave de ouro o programa, sentado numa mesa ao lado rodeado de amigos, estava o escritor Miguel Sousa Tavares. Ele é o autor de um romance histórico que muito aprecio e costumo indicar para todo mundo: Equador.

A minha empolgação foi grande porque na véspera ao fazer  uma visita relâmpago a uma livraria, tinha comprado o seu último livro: Cebola crua com sal e broa. Pena que o deixara no hotel e não pude pedir-lhe que escrevesse uma dedicatória.

Na verdade, eu tinha ido à livraria atrás de outro livro, que me havia sido indicado pela professora do curso que estou fazendo no Instituto das Letras. Era a primeira vez que ouvia falar em Afonso Cruz e achei o título muito curioso: ‘’Vamos comprar um poeta’’.

Fiquei sabendo que o escritor é tambem ilustrador, cineasta e músico, e recebeu diversos prémios nas áreas em que atua. Aqui no Brasil a editora Companhia das Letras publicou: ‘’Flores’’ e “Jesus Cristo bebia cerveja’’.

A ideia inicial era ler rapidamente ‘’Vamos Comprar um Poeta’’, visto que o livro tem apenas 100 páginas, e depois oferecê-lo à professora. Mas achei a história tão original que mudei de ideia. Posso até emprestá-lo (que perigo!), mas quero guardá-lo na minha estante.

Na manhã do dia em que regressei ao Brasil, encontrei tempo para visitar o Centro Cultural de Belém. Depois, passei rapidinho na loja de souvenirs. Bem na entrada, uma capa despojada com um título sucinto chamou minha atenção: ‘’Lisboa o guia ilustrado’’, um projeto pessoal de Amir-Alexandros Afendras. Folheei-o apressadamente e me apaixonei. O livro era todo ilustrado com aquarelas que contavam resumidamente os costumes e a história da cidade.

Os desenhos referentes às comidas foram decisivos para esquecer que as malas estavam fechadas. Com certeza encontraria um espaço para guardá-lo. Onde mais, se não ali, aprenderia as diversas maneiras de beber um café (bica, italiano, carioca, pingado, garoto, com cheirinho, mazagran, abatanado e outras mais) ou encontraria uma ilustração tão bonita que mostrasse os diferentes tipos de frutos de mar servidos nos restaurantes lisboetas?

Depois, quando pude apreciá-lo com mais calma, encontrei um capítulo referente a personalidades que iam desde reis e escritores, passando por Cristiano Ronaldo e artistas plásticos. Lá estava Joana Vasconcelos –  tem um enorme e flamejante coração de Viana, construido com talheres de plástico vermelhos, bem na entrada da exposição -, e uma pessoa que não conhecia. Em cima do nome Alexandre Farto (Vhils) está desenhado um prédio cuja fachada tem um rosto pintado. Pesquiso na internet e descubro tratar-se de um pintor e grafiteiro considerado um dos maiores nomes mundiais da arte urbana. Sorrio e penso como os livros por mais despretensiosos que sejam sempre me surpreendem e ensinam alguma coisa.

Se mesmo assim minhas amigas não estiverem convencidas,  saibam que não consegui tomar um sorvete no Santini e nem comer um único pastel de nata!

 

  • Cebola crua com sal e broa

Miguel Sousa Tavares

Editora Clube do Autor

20 euros

  • Vamos comprar um poeta

Afonso Cruz

Editora Caminho

12,90 euros

  • Lisboa o guia ilustrado

Amir-Alexandros Afendras

Editora Majericon

20 euros

Bordados em dose dupla

Semana passada estive no CRAB (Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro). Queria ver as duas novas exposições que estavam sendo apresentadas: Galeria Pop e A Casa Bordada.

A proposta da primeira é bem interessante. Todas as obras expostas – num total de 250 – estão à venda.  De tão bonitas que são, precisei me segurar para não levar algumas para casa.

Entretanto, eu estava mesmo de olho na outra exposição, a Casa Bordada. Sou apaixonada, e dou muito valor a tudo o que é feito com as mãos: quer seja uma aquarela, um pote de cerâmica, uma comida saborosa, uma peça de crochê ou um bordado.

Pois o CRAB reuniu os trabalhos de diversas bordadeiras e criou um espaço belo, que transporta o visitante para uma tenda no deserto ou um barco de velas enfunadas. Os panos estão revestidos de pássaros, peixes e flores, barcos, frutos, rostos de amigos, tradições religiosas e atividades do cotidiano. Os pontos utilizados têm nomes curiosos como vagonite, richelieu, cruz, labirinto, cheio, aberto, turco, livre, da vovó…

Numa sala contígua a da exposição principal, acontecia outra mais singela. Se a “casa” era bem colorida, o ambiente menor reunia trabalhos feitos, apenas, com linha branca sobre tecidos da mesma cor. Este tipo de bordado foi muito utilizado na confecção de enxovais de casamento, vestidos de batizado, paramentos religiosos, lençóis e toalhas de mesa de antigamente. Vestígios de uma época em que se valorizava a paciência e se costuravam delicadezas.

Por coincidência, na véspera da minha visita ao CRAB eu havia terminado de ler Memória por Correspondência da pintora colombiana Emma Reyes.  A artista foi uma exímia bordadeira, ofício que aprendeu quando viveu confinada num estabelecimento religioso, misto de convento de freiras e instituição de caridade para crianças pobres.

Memória por Correspondência reúne as 23 cartas que ela enviou para o amigo, diplomata e historiador German Areiniegas.

As cartas não têm nenhuma pretensão literária, inclusive porque a autora só aprendeu a ler e escrever com mais de dezessete anos. Entretanto, elas cativam o leitor por narrarem, com precisão de detalhes, uma época extremamente dura e sofrida sem serem lamurientas ou queixosas. Emma apenas constata o que viveu. Como quando deveria ter uns quatro ou cinco anos e um menino, com quem costumava brincar, quis saber “(…) se eu tinha pai e mãe, e eu lhe perguntei o que era isso; ele respondeu que também não sabia.”

Emma e a irmã eram filhas ilegítimas de um figurão político que jamais as reconheceu. Depois de perambularem de cidade em cidade na companhia de uma mulher – que talvez fosse, mas a quem nunca chamaram de mãe -, as meninas acabaram por ser abandonadas na instituição religiosa.

Emma aprendeu a costurar e tornou-se uma das melhores bordadeiras da escola. Nada mais lhe foi ensinado. Afinal, ela, assim como as outras internas, estava ali para aprender um ofício e, no futuro, servir às famílias abastadas de Bogotá.

O livro termina com Emma contando como fugiu do convento. Mas e depois, como foi que ela se tornou uma artista famosa? Felizmente, o livro traz um posfácio escrito pelo jornalista Diego Garzon contando um pouco sobre a vida adulta de Emma Reyes. O que ele apurou é tão interessante que, com certeza daria um ótimo livro ou até mesmo um filme… Um filme ou, quem sabe, uma minissérie! Se fosse dirigido pelo cineasta colombiano Rodrigo Garcia (filho de Gabriel Garcia Marquez) com certeza seria um sucesso. Afinal, tragédias e triunfos não faltaram na vida de Emma Reyes.

  • CRAB

Praça Tiradentes 69, 71

Centro – Rio de Janeiro

(21) 3380-1805

(as duas exposições podem ser vistas até 30/11/18)

  • Memória por Correspondência

Emma Reyes

Companhia das Letras

R$ 39,90

E-Book R$ 23,90

 

Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre é uma escritora paulista que merece ser conhecida. Gostei do seu primeiro livro, Restos de Nós (premiado pela Fundação Biblioteca Nacional), e agora ela se superou. A temática de “Arroz, feijão, crimes e farofa e O banquete das hienas” é bem diferente  do livro anterior. Se Restos de Nós era um romance histórico e transcorria entre duas épocas cronologicamente distintas, este é bem atual e espirra sangue para todos os lados.

Na verdade são dois títulos reunidos no mesmo volume. O primeiro engloba vinte contos, ao mesmo tempo, brutais e belos. Estranho não? Como é possível encontrar beleza naquilo que é abjeto ou cruel? Pois a escritora consegue essa proeza. A linguagem literária é limpa, quaisquer excessos e penduricalhos foram eliminados, e a violência é descrita no osso. Os horrores são viciantes, difíceis de serem esquecidos.

Segundo Bia Onofre, as histórias são ficcionais, mas para o leitor instala-se a dúvida.  Cometidos por pessoas comuns, iguais aquelas com quem esbarramos todos os dias, passamos a olhar para os vizinhos com mais cuidado. Será que esse rapaz tão simpático esconde alguma coisa, e o gerente de banco, e o menino de rua?  Quantas maldades perambulam por aí que nem desconfiamos?

A segunda parte do título, O banquete das hienas, reúne mini e nano contos. A temática é a mesma. Só que, desta vez, alguns explicitam aquilo que pensamos ou gostaríamos de verbalizar e realizar… caso fossemos psicopatas.

 

“Tentei explicar que o problema era no hardware, mas ele não me ouviu. Culpa do Windows, alegou. Foi fechando os programas, precisava formatar.

Não me perguntou se eu tinha back-up. Arremessei lá de cima. Pela única janela que o analista havia deixado aberta.”

 

Raphael Montes que se cuide. Bia Onofre chegou com vontade de dividir com ele o espaço dedicado às histórias de crime e horror.

 

  • Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre (biaonofre@hotmail.com)

Giostri Editora

R$ 30,00

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