Na Terra do Cervo Branco

Quando vi pela primeira vez o livro Na Terra do Cervo Branco fiquei encantada. Gostei da sobrecapa elegante de fundo preto, com o título em letras laranjas e a imagem de um chifre comprido onde se enrosca um pano vermelho esvoaçante.

A textura das páginas era agradável, e as letras de formato e tamanho adequado proporcionavam uma leitura confortável. Peguei no livro com interesse. Puxa, era bem pesado. Quantas páginas teria? Oitocentas e sessenta e quatro no total. Será que eu encontraria tempo e teria paciência para ler esse “tijolo”? Não era um livro barato. O preço equivalia a dois bons romances. Sem poder contar com a opinião de uma vendedora que o tivesse lido, duvidei da minha capacidade de concentração e o devolvi à estante.

Pouco tempo depois chegou em minha casa o exemplar do mês de outubro do jornal Rascunho. (Abro um parêntesis para recomendar esta publicação, que tanto pode ser lida em papel como na versão digital. Sou assinante há anos e o jornal literário está cada vez melhor.) Pois bem, ele trazia uma matéria escrita por Marcos Alvito, que comentava sobre Na Terra do Cervo Branco:

O artigo ocupava duas páginas, e transcrevo aqui o que me capturou a minha atenção: “Se o propósito de Chen Zhongshi consistia em fazer um retrato do povo chinês antes da grande virada da segunda metade do século 20, a obra é um triunfo completo. Envolvente como uma novela televisiva, rico em costumes e religião, temperado com violência, sexo e pitadas de realismo mágico, tornou-se um enorme sucesso na China e foi adaptado para a televisão. Para quem desejar conhecer um pouco mais da cultura chinesa tradicional, Na Terra do Cervo Branco é um livro imperdível.”

Nas últimas semanas, tenho mergulhado diariamente nas paisagens, hábitos e conflitos de um povo fascinante. Sem esforço cheguei a página 509. Pelo caminho sublinhei esta passagem com a qual me identifiquei (Novo parêntesis. Sou considerada um bom garfo e não tenho medo de experimentar algo que não conheço):

Para Mestre Zhu, ler já não era um hábito, mas uma necessidade vital. Nenhuma iguaria deste mundo, depois de ser mastigada, conservaria seu sabor. Já os livros escritos pelos sábios suportam repetidas mastigações, pois uma frase pode levar a compreensões e inspirações diferentes a cada releitura. O leitor não só não enjoa, como tem a chance de perceber seu sabor de forma ainda mais intensa. Um prato saboroso, se for servido por três refeições seguidas, perderia seu encanto; uma bela roupa, se usada por quinze dias consecutivos, viraria um trapo; um bom livro, porém, pode ser lido por uma vida inteira.

Enquanto a vacina não chega, Na Terra do Cervo Branco é um ótimo companheiro. Fique em casa!

Tirza

Os motivos que me levam a escolher um livro são, por vezes, bem inusitados.

Certa vez, conversava com a vendedora da Livraria Argumento, quando ela me perguntou se eu já tinha lido algo de Arnon Grunberg.

Surpresa com a minha resposta negativa, meio brincando meio falando a sério, ela me disse que só voltaria a trocar “figurinhas” comigo depois que eu lesse o escritor. Achei engraçado o desafio e perguntei por qual deveria começar. Ela recomendou-me Tirza.

Este episódio aconteceu pouco antes do início da pandemia e, apesar de a livraria já ter voltado a funcionar, ainda não tive a oportunidade de lhe dar a minha opinião sobre o livro.

Quando a encontrar, vou dizer que há muito tempo uma leitura não me impactava tanto: desconfortável, angustiante, mas impossível de largar.

O autor holandês prende o leitor a um personagem que é obcecado pela filha mais nova. Difícil saber se gostamos dele ou, se assim como a sua ex-mulher, o menosprezamos. Ela abandonou-o e às duas filhas adolescentes, para viver uma aventura amorosa irresistível. Anos depois, quando foi forçada a engolir do mesmo veneno, retornou para casa como se nada tivesse acontecido. E, para minha revolta, ele a aceitou de volta!

O personagem se esforça, se rebaixa, faz de tudo para criar – de acordo com o que acredita ser o certo – um ambiente idílico para as suas meninas. Mas o projeto parece uma frágil canoa em alto-mar, cheia de furos impossíveis de serem tapados. Todos percebem o naufrágio eminente, menos ele.

Publicado em 2007, Tirza ganhou diversos prêmios. Em 2010 virou filme e foi selecionado para representar a Holanda ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar no ano seguinte.

Guardei o livro na estante faz alguns meses, mas, até hoje, quando lembro do final, revivo o choque que senti na época. Estou tomando coragem para ver o filme.

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