Autobiografia em 5 capítulos

Acredito já ter comentado aqui que gosto de fazer as minhas leituras com um olho nas páginas impressas e o outro nas da internet.

Foi assim que soube que Sogyal Rinpoche, autor de “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, havia caído no ostracismo como figura pública, após vários de seus discípulos o acusarem de abuso físico, psicológico e sexual. Falecido no ano passado, Sogyal foi, por muitos e muitos anos, um mestre budista respeitadíssimo no Ocidente, e amigo muito chegado ao Dalai Lama.

Na hora, fiquei na dúvida se deveria continuar lendo a obra de uma figura comprovadamente problemática. Ponderei que se o fizesse não era porque validava o seu comportamento, apenas reconhecia que os ensinamentos eram acolhidos com respeito, e praticados por milhares de seguidores espalhados pelo mundo inteiro. Além disso eu estava gostando do livro, então por que abandoná-lo?

Será que não podia separar a obra do criador? Lembrei do pintor Cézanne, do escritor francês Louis-Ferdinand Céline, e, mais recentemente, do cantor Michael Jackson e do cineasta Roman Polanski. Todos eles tiveram comportamentos deploráveis e fizeram mal a muita gente, no entanto suas obras eram extraordinárias. Será que mereciam ser destruídas ou esquecidas?

Superado o dilema pessoal continuei a leitura de “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” e cheguei a um poema escrito por Portia Nelson.

Autobiografia em Cinco Capítulos

1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está Ainda assim caio… é um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5. Ando por outra rua.

Encantada com o que acabara de ler, recorri mais uma vez à internet, para conhecer a autora. Descobri que se tratava de uma cantora norte-americana famosa na década de cinquenta, que além de escrever poesias, compunha canções e era atriz. Continuei sem saber de quem se tratava, mas ao aprofundar a pesquisa tive uma agradável surpresa.

Portia Nelson atuou num dos meus filmes favoritos A Noviça Rebelde (BR) ou Música no Coração (PT), e fez o papel de uma freira rabugenta que, logo no início do filme, implica com a personagem Maria, interpretada por Julie Andrews, chamando-a de palhaça, dor de cabeça e demônio, na canção “How do we solve a problem like Maria”.

Provavelmente muitos acharão esta informação totalmente irrelevante, mas eu gostei de conhecer os outros talentos de uma artista que era, para mim, até então, uma estrela de segunda grandeza. A internet tem dessas coisas, joga focos de luz nos segredos esquecidos e naqueles que estão bem guardados.

7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Léo Campos
    out 07, 2020 @ 17:16:49

    Eu gostei de tudo. Obrigada.

    Responder

  2. Celina
    out 08, 2020 @ 06:57:05

    Bom dia com Fagulha é assim, um convite para lembrar de controvérsias, polêmicas e fazer pontes, muitas pontes, entre assuntos às vezes inesperados. Sempre uma delícia!

    Responder

  3. Teresa
    out 08, 2020 @ 07:57:55

    So real and needed today!

    Responder

  4. luisapiano
    out 08, 2020 @ 21:36:03

    Adorei o poema e o comentário sobre o livro, que tenho na minha prateleira em Inglês há mtos anos, mas ainda nao consegui mais do alguns capitulos.

    Responder

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