Leituras na quarentena

Depois de um início de quarentena tumultuado, finalmente encontrei a concentração necessária para intercalar os afazeres domésticos com a leitura.

Comecei pelo livro Três Mulheres, um relato não ficcional sobre as escolhas sexuais de três mulheres e como elas afetaram suas vidas. O livro fez o maior sucesso nos EUA e foi lançado pouco depois do movimento #metoo.

Não foi uma leitura fácil. Se por um lado gostei do texto da escritora Lisa Taddeo e acho necessário falar sobre o desejo feminino, por outro lado incomodou-me o fato das personagens não se darem conta de como procuravam agradar mais os parceiros do que a si mesmas.

Com diferentes históricos de vida, era gritante a baixo auto estima dessas mulheres. E quando suas vidas privadas foram expostas, não encontraram compreensão ou solidariedade nem mesmo entre suas colegas de gênero.

Em seguida li A ridícula ideia de nunca mais te ver, da Rosa Montero. Um livro cujo assunto eu queria saber mais e ao mesmo tempo temia: a morte prematura do parceiro quando o amor entre o casal ainda não esmoreceu.

A autora faz um paralelo entre a sua experiência pessoal e a da cientista Marie Curie, cujo marido morreu atropelado por uma carruagem.

No entanto, fui surpreendida por uma leitura nem um pouco deprimente. Apesar de a dor estar presente – os trechos do diário de Marie Curie são bem sofridos -, a narrativa se abre a diversas considerações sobre o lugar da mulher no mundo contemporâneo. Inclusive, pude fazer um paralelo com a leitura anterior por também falar sobre o desejo feminino:

(…) Mas até bem pouco tempo, uma ou duas décadas atrás, o maior problema da mulher ocidental consistia em não saber viver para o seu próprio desejo: vivia sempre para o desejo dos outros, dos pais, dos namorados, maridos, filhos, como se suas aspirações pessoais fossem secundárias, improcedentes e defeituosas.”

Será que esse “problema” realmente ficou no passado? Tenho cá as minhas dúvidas. Como bem disse Lisa Taddeo:

As revoluções levam muito tempo para chegar a lugares onde as pessoas compartilham mais receitas da revista Country Living do que artigos sobre o fim da submissão feminina.”

É fácil recomendar A ridícula ideia de nunca mais te ver, mas a leitura de Três Mulheres, apesar de incômoda, é tão importante quanto.

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Eriane
    jun 09, 2020 @ 14:01:10

    Que ótimas sugestões! Ainda não tinha ouvido falar do primeiro livro, mas A ridícula ideia de nunca mais te ver está na minha lista de desejos há algum tempo.
    Agora que você disse que não é uma narrativa deprimente, como o título leva a imaginar, acho que vou apreciar essa leitura logo, logo.

    Um abraço,

    Responder

  2. fagulhadeideias
    jun 09, 2020 @ 14:10:15

    Pelo fato de me interessar mais por letras do que ciências também relutei em ler o livro, não tinha muito interesse em conhecer a vida de Marie Curie. Ó santa ignorância! Ainda bem que venci o preconceito porque se trata de uma mulher extraordinária. O meu livro está todo sublinhado. Espero que aprecie “A ridícula ideia de nunca mais te ver” tanto quanto eu.

    Responder

  3. Celina
    jun 10, 2020 @ 09:25:05

    As sugestões da Fagulha têm animado a minha quarentena literária, li a Ridícula Ideia, tão original o paralelo da autora com a cientista.

    Responder

  4. fagulhadeideias
    jun 10, 2020 @ 15:24:47

    É preciso ser muito especial para uma mulher se destacar em áreas profissionais consideradas redutos masculinos, não é minha Amiga?

    Responder

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