Bem-vindo à Holanda

Ao ler uma das histórias de Tudo o que é belo recordei de uma outra que ouvi no audiolivro Maybe You Should Talk To Someone*, escrito pela psicóloga Lori Gottlieb.

Neste segundo livro a autora intercala relatos das sessões em que atuava como terapeuta com outros nos quais ela era a analisada. Curioso perceber como o comportamento sereno e o raciocínio lógico, utilizados ao conversar com seus pacientes, se diluíam quando precisava examinar os próprios sentimentos.

O elo que eu fiz entre os dois relatos teve origem num texto escrito por Emily Perl Kingsley, mãe de um bebê portador da Síndrome de Down.

Apesar do depoimento que me emocionou em Tudo o que é belo falar sobre o mesmo tema, conheci o texto de Emily no outro livro, Maybe you should talk to someone. Ele foi debatido durante uma sessão terapêutica com uma jovem recém-casada, diagnosticada com um câncer agressivo e incurável.

O que podem ter em comum uma mãe com um bebê com síndrome de Down e alguém que tem pela frente poucos anos de vida? À primeira vista nada. Mas o jogo da Vida forçou-as a jogar com cartas inesperadas com as quais não sabiam jogar.

Gostei muito da metáfora encontrada no texto da Emily, Bem-vindo à Holanda. Com cuidado ela mostra que é possível encontrar beleza no caminho, mesmo quando precisamos prosseguir por um outro que não escolhemos.

Bem-vindo à Holanda**

Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de criar um filho portador de deficiência, para tentar ajudar as pessoas que nunca compartilharam dessa experiência única a entender, a imaginar como deve ser. É mais ou menos assim…

Quando você vai ter um bebê, é como planejar uma fabulosa viagem de férias – para a Itália. Você compra uma penca de guias de viagem e faz planos maravilhosos. O Coliseu. Davi, de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases convenientes em italiano. É tudo muito empolgante.

Após meses de ansiosa expectativa, finalmente chega o dia. Você arruma suas malas e vai embora. Várias horas depois, o avião aterrissa. A comissária de bordo chega e diz: “Bem-vindos à Holanda”.

“Holanda?!? você diz, “Como assim, Holanda? Eu escolhi a Itália. Toda a minha vida eu tenho sonhado em ir para a Itália.”

Mas houve uma mudança no plano de voo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

O mais importante é que eles não te levaram para um lugar horrível, repulsivo, imundo, cheio de pestilências, inanição e doenças. É apenas um lugar diferente.

Então você deve sair e comprar novos guias de viagem. E você deve aprender todo um novo idioma. E você vai conhecer todo um novo grupo de pessoas que você nunca teria conhecido.

É apenas um lugar diferente. Tem um ritmo mais lento do que a Itália, é menos vistoso que a Itália. Mas depois de você estar lá por um tempo e respirar fundo, você olha ao redor e começa a perceber que a Holanda tem moinhos de vento, a Holanda tem tulipas, a Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece está ocupado indo e voltando da Itália, e todos se gabam de quão maravilhosos foram os momentos que eles tiveram lá. E toda sua vida você vai dizer “Sim, era para onde eu deveria ter ido. É o que eu tinha planejado.”

E a dor que isso causa não irá embora nunca, jamais, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se você passar sua vida de luto pelo fato de não ter chegado à Itália, você nunca estará livre para aproveitar as coisas muito especiais e absolutamente fascinantes da Holanda.

 

Li ou melhor ouvi Maybe You Should Talk To Someone no final do ano passado. Posso garantir que assim que o livro for publicado no Brasil, faço questão de reler, guardar na estante e presentear os amigos.

 

* Talvez você devesse conversar com alguém

** Encontrei o texto traduzido no site Pensador.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. O Miau do Leão
    fev 04, 2020 @ 17:47:38

    Não sei bem qual o nome correto, mas vou chamar de técnica.
    A técnica de utilizar um texto para introduzir uma conversa sobre um assunto delicado parece ser muito interessante.

    Responder

  2. fagulhadeideias
    fev 04, 2020 @ 21:47:21

    Na verdade foi uma associação de ideias. Lê-se um livro, lembramo-nos de outro e assim sucessivamente.

    Responder

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