Para onde vão os guarda-chuvas

É possível sentir saudades de um livro que ainda não se terminou? Pois é isso o que sinto enquanto leio devagarzinho “Para onde vão os guarda-chuvas”, do escritor português Afonso Cruz.

No início tive a impressão de adentrar em um labirinto. Por vezes a narrativa bifurcava, outras vezes conduzia-me a um beco sem saída. Curiosamente, não me senti confusa nem irritada, simplesmente deixei-me levar pelas múltiplas histórias contadas pelo autor.

A atmosfera que envolve o romance remete à magia das Mil e Uma Noites, sendo eventualmente perturbada por comportamentos desumanos ou ações fundamentalistas. Uma mistura aparentemente contraditória onde transitam personagens de todos os matizes: sábios, enamorados, cruéis, ingênuos, sensuais, brutos e conciliadores. Nesse universo mítico, a própria Morte também aparece para dar o seu recado.

A prosa de Afonso Cruz é sedutora e nela me perco:

“As pegadas não são as marcas dos nossos pés, são as marcas das nossas paixões, das nossas obrigações, dos nossos castigos, dos nossos prazeres. São o lugar por onde andamos, e isso revela muita coisa, mais do que impressões digitais e biografias oficiais. As pegadas, por vezes, (…) mostram quem pisamos, (e) evidenciam quem seguimos.”

Para onde vão os guarda-chuvas” merece ser apreciado agora, e guardado com carinho. Deixar o tempo maturar e relê-lo daqui a alguns anos, quando, com certeza, o livro será outro e eu também.

 

  •   Por enquanto o livro só foi publicado em Portugal. No Brasil a editora Companhia das Letras lançou outras obras do escritor: Flores e Jesus Cristo bebia cerveja

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Isabel Oliveira
    ago 27, 2019 @ 18:32:36

    Adorei este livro, dos que já li de Afonso Cruz para mim o melhor e o teu comentário acho lindo: ambiente das mil e uma noites , personagens de todos os matizes que se cruzam em múltiplas histórias.

    Responder

    • fagulhadeideias
      ago 28, 2019 @ 11:20:32

      Isabel,
      Este livro foi-me indicado por ti. Há alguns anos apresentaste-me a Chimamanda Adichie, e mais recentemente o Afonso Cruz e o João Tordo. Deste último, sugeriste dois livros: “Ensina-me a voar sobre os telhados” e “Biografia involuntária dos amantes”. Devo começar por qual?
      Tuas indicações são sempre muito bem vindas. Beijinhos

      Responder

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