Para onde vão os guarda-chuvas

É possível sentir saudades de um livro que ainda não se terminou? Pois é isso o que sinto enquanto leio devagarzinho “Para onde vão os guarda-chuvas”, do escritor português Afonso Cruz.

No início tive a impressão de adentrar em um labirinto. Por vezes a narrativa bifurcava, outras vezes conduzia-me a um beco sem saída. Curiosamente, não me senti confusa nem irritada, simplesmente deixei-me levar pelas múltiplas histórias contadas pelo autor.

A atmosfera que envolve o romance remete à magia das Mil e Uma Noites, sendo eventualmente perturbada por comportamentos desumanos ou ações fundamentalistas. Uma mistura aparentemente contraditória onde transitam personagens de todos os matizes: sábios, enamorados, cruéis, ingênuos, sensuais, brutos e conciliadores. Nesse universo mítico, a própria Morte também aparece para dar o seu recado.

A prosa de Afonso Cruz é sedutora e nela me perco:

“As pegadas não são as marcas dos nossos pés, são as marcas das nossas paixões, das nossas obrigações, dos nossos castigos, dos nossos prazeres. São o lugar por onde andamos, e isso revela muita coisa, mais do que impressões digitais e biografias oficiais. As pegadas, por vezes, (…) mostram quem pisamos, (e) evidenciam quem seguimos.”

Para onde vão os guarda-chuvas” merece ser apreciado agora, e guardado com carinho. Deixar o tempo maturar e relê-lo daqui a alguns anos, quando, com certeza, o livro será outro e eu também.

 

  •   Por enquanto o livro só foi publicado em Portugal. No Brasil a editora Companhia das Letras lançou outras obras do escritor: Flores e Jesus Cristo bebia cerveja

A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas

O livro A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas não é novidade. Na verdade, trata-se da reedição de um romance lançado em 2002. Na época, não lembro de o ter visto nas livrarias. Também pudera, eu tinha acabado de me mudar para Salvador, e a única livraria que conhecia e frequentava era a Siciliano. Seguindo os princípios da matriz, ela destacava os bestsellers e livros de auto-ajuda, e deixava a literatura nacional em segundo plano.

Recentemente, interessei-me pelo anúncio colorido de um livro que saiu em meia página de jornal (sim, sou jurássica e todas as manhãs leio o periódico impresso). Era sobre A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas. Rasguei a página e na primeira oportunidade comprei-o.

Acertei em cheio. Com gosto, mergulhei no relato de uma linhagem de mulheres que começou no ano de 1500 e chegou até aos dias de hoje. O embasamento histórico é consistente e os perfis psicológicos femininos são construídos de maneira bem interessante.

Entretanto, fiquei desapontada ao perceber que eu não sabia absolutamente nada sobre a antropóloga e escritora goiana, Maria José Silveira.

Uma pesquisa rápida na internet mostrou que este romance ganhara o prêmio Revelação da APCA*, e que a produção da autora além de extensa, transitava por diversos gêneros literários.

Como de costume, controlei-me para não sair comprando outros títulos que me interessaram: O Fantasma de Luis Buñuel, indicado para os vestibulandos da UFG**, mesmo sendo uma leitura obrigatória, surpreendentemente, recebeu críticas elogiosas dos estudantes; e O voo da arara azul direcionado a um público mais jovem – na faixa dos 12 anos -, que começa a abandonar histórias consideradas infantis e procura leituras mais “adultas”.

Espero que o relançamento de  A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas siga os passos de outro romance nacional: Arroz de Palma. O livro de Francisco Azevedo está na 12ª edição e ganhou uma edição comemorativa. Para que o mesmo aconteça com o primeiro, só é preciso que ele receba uma boa propaganda boca a boca. Eu já comecei.

 

*Associação Paulista de Críticos de Arte

**Universidade Federal de Goiás

 

  • O fantasma de Luis Buñuel

ZLF Editorial

R$ 39,90

  • O voo da arara azul

Editora Callis

R$ 32,90

Saí para comprar um colchão

Mais uma vez estou de mudança. Desta vez, não de cidade, mas de bairro. Volto para o apartamento que sempre foi meu e que esteve alugado por muito tempo. Para celebrar o acontecimento, decido que está na hora de trocar de colchão.

O shopping tem três lojas de colchões, todas bem próximas umas das outras. Entro na primeira decidida. Sei exatamente o que quero. Passei o final de semana na casa de uma amiga em Itaipava e dormi maravilhosamente, como há muito tempo não dormia. Prefiro acreditar que o sono reparador é por conta do colchão e não por causa do silêncio e do friozinho da serra. Mas são tantas as opções… Fico perdida. Tem colchões de espuma com densidades diferentes,  colchões com molas pocket e colchões com molas nanolástico e longarinas de reforço. Céus, o que será isso? Sento-me num e balanço o corpo, repito o mesmo em outro, avalio a firmeza dos materiais. O vendedor bombardeia-me com diferentes informações e descontos imperdíveis. Não consigo decidir. Confusa, saio da loja. Por hoje chega.

Passo batida pela loja de chocolates, pelo quiosque com doces portugueses e subo a escada rolante. O que eu preciso é de uma livraria. Não aquela para adultos – a lembrança do que ainda tenho para ler funciona como um excelente freio -, mas não haverá mal nenhum se eu entrar na Malasartes dedicada ao público infanto-juvenil.

Cláudia, uma das sócias do espaço, mostra-me as novidades. Quero todas, mas uma me atrai especialmente. É Casa de Passarinho da escritora e professora Ana Rosa Costa.

Gosto muito de histórias com pássaros. A que tenho em mãos não poderia ser mais bonita. No texto, duas crianças encontram um ninho em cima de uma arvore. Com o passar dos dias, acompanham o vai e vem de um casal de passarinhos. O que será que eles estão fazendo?

As Ilustrações são do maravilhoso Odilon Moraes. O curioso é que os desenhos não possuem margens certas e definidas. São esboços, rascunhos de poucas cores que dão visibilidade à história escrita.

Estou pronta para encerrar a compra quando olho displicentemente para o lado. Bem à minha direita estão as histórias do personagem folclórico Malasartes recontadas por Augusto Pessôa. Por coincidência, na semana anterior, terminei um curso na PUC de Contação de Histórias, tendo Augusto como professor. E que professor! Foram aulas extremamente prazerosas. Como não levar o livro cujo título, ainda por cima, dá nome à livraria?

Saí pra comprar um colchão e voltei para casa com dois livros.

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