Protagonismo negro na literatura infantil

Desde que voltei a morar no Rio tenho participado de diversas oficinas sobre literatura infantil. A última aconteceu em Laranjeiras e foi organizada pela Bamboleio, um canal de comunicação virtual criado pela escritora Padmini e o sócio Victor Mello, com o objetivo de debater e divulgar literatura infantil de qualidade.

O tema do encontro era Protagonismo Negro. A mediadora foi Tatiane Oliveira. Tati, como gosta de ser chamada, é empreendedora literária e montou uma livraria itinerante. Ela visita feiras e escolas, levando livros previamente escolhidos que apresentam personagens negros inspiradores.

A conversa foi muito interessante. Tati começou mostrando o livro “Meu cabelo é de rainha”, da escritora americana bell hooks*, uma homenagem ao cabelo afro e um incentivo para que as crianças tenham orgulho de suas cabeleiras.

Mostrou também outros livros que, sem perceber, fazem um trabalho contrário. Para comprovar o que dizia leu uma história que começava desvalorizando uma característica física, para só no final a admirar. Uma outra narrativa tinha uma ilustração que colocava nas mãos de uma menina negra uma boneca branca como sendo essa a sua favorita. Na mais chocante de todas, um personagem adulto dizia para uma criança negra que anjinhos com o tom da sua pele não existiam. Duro, não? Afinal estamos falando de livros para crianças.

Para quem não vive essa realidade, pode parecer que são comentários bobos, insignificantes. Mas quando se escreve para um público infantil, não seria melhor abolir todas as observações negativas? Crianças estão em formação e precisam de exemplos que reforcem a auto-estima.

Durante o encontro, um participante comentou sobre o último projeto da escritora baiana, e minha amiga pessoal, Emilia Nuñez. Com naturalidade, ela e a ilustradora Anna Cunha escolheram personagens negros para contar a história de Brincar de Livro.  O livro não tem texto escrito. A história é contada através de ilustrações que transbordam afeto, e desenham as múltiplas aventuras que a leitura pode propiciar, mesmo antes de se aprender a ler.

De todos os livros que Tati levou para a oficina, dois em especial chamaram a minha atenção: Omo-Oba histórias de princesas e Letras de Carvão.

O primeiro, escrito pela paulista Kiusam de Oliveira e ilustrado por Josias Marinho, faz uma homenagem a seis divindades femininas africanas. Desde muito cedo as crianças aprendem os nomes e feitos dos heróis da mitologia europeia, mas se a população brasileira é na sua maioria afro-descendente, como explicar o desconhecimento sobre as divindades da mitologia africana?

O segundo livro é da escritora colombiana Irene Vasco e do ilustrador Juan Palomino. O texto de Letras de Carvão narra com sensibilidade a alfabetização de uma pequena comunidade, após uma jovem perder um pretendente por não saber ler as cartas de amor que ele lhe enviava.

Agradeço a Tatiane Oliveira que através da literatura infantil abriu minha cabeça e me fez refletir sobre uma realidade que pouco conheço.

 

*O nome é assim mesmo, escrito com letras minúsculas e é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, feminista norte-americana.

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