Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre é uma escritora paulista que merece ser conhecida. Gostei do seu primeiro livro, Restos de Nós (premiado pela Fundação Biblioteca Nacional), e agora ela se superou. A temática de “Arroz, feijão, crimes e farofa e O banquete das hienas” é bem diferente  do livro anterior. Se Restos de Nós era um romance histórico e transcorria entre duas épocas cronologicamente distintas, este é bem atual e espirra sangue para todos os lados.

Na verdade são dois títulos reunidos no mesmo volume. O primeiro engloba vinte contos, ao mesmo tempo, brutais e belos. Estranho não? Como é possível encontrar beleza naquilo que é abjeto ou cruel? Pois a escritora consegue essa proeza. A linguagem literária é limpa, quaisquer excessos e penduricalhos foram eliminados, e a violência é descrita no osso. Os horrores são viciantes, difíceis de serem esquecidos.

Segundo Bia Onofre, as histórias são ficcionais, mas para o leitor instala-se a dúvida.  Cometidos por pessoas comuns, iguais aquelas com quem esbarramos todos os dias, passamos a olhar para os vizinhos com mais cuidado. Será que esse rapaz tão simpático esconde alguma coisa, e o gerente de banco, e o menino de rua?  Quantas maldades perambulam por aí que nem desconfiamos?

A segunda parte do título, O banquete das hienas, reúne mini e nano contos. A temática é a mesma. Só que, desta vez, alguns explicitam aquilo que pensamos ou gostaríamos de verbalizar e realizar… caso fossemos psicopatas.

 

“Tentei explicar que o problema era no hardware, mas ele não me ouviu. Culpa do Windows, alegou. Foi fechando os programas, precisava formatar.

Não me perguntou se eu tinha back-up. Arremessei lá de cima. Pela única janela que o analista havia deixado aberta.”

 

Raphael Montes que se cuide. Bia Onofre chegou com vontade de dividir com ele o espaço dedicado às histórias de crime e horror.

 

  • Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou O banquete das hienas

Bia Onofre (biaonofre@hotmail.com)

Giostri Editora

R$ 30,00

Gatos, gatinhos e flores

No horóscopo chinês, 2018 é o ano do cão. Para mim, em termos literários, este tem sido o ano do gato. Explico

Numa das visitas que fiz à livraria, uma vendedora recomendou-me vivamente o livro Sobre gatos, da escritora inglesa Doris Lessing.

Em um post anterior, comentei que não sou uma apaixonada pelos felinos, e por essa razão declinei a sugestão.

No entanto, a conversa sobre gatos fez-me lembrar de ter em casa um livro de capa bonita, que também abordava esse universo: Relatos de um gato viajante.

 Imperturbável, ele aguardava – escondido no meio da pilha que não para de crescer – pelo momento certo em que eu lhe daria atenção.

Acredito sinceramente que é o livro que escolhe quando deseja ser lido pelo leitor, e não o contrário. A hora de ler Relatos de um gato viajante havia chegado.

A história, narrada pelo próprio gato, começa quando ele é atropelado por um carro, sendo depois resgatado por um jovem solitário.

Para quem estava habituado a viver nas ruas e sempre prezou a liberdade não foi fácil aceitar a vida doméstica. Mas, como tudo na vida, existem as compensações. Aos poucos estabeleceu-se uma convivência harmoniosa entre Nana o gato, e Satoru o humano.

Tudo parecia ir muito bem, até que um dia Satoru e Nana iniciam uma viagem pelo Japão para encontrar, entre os amigos do primeiro, alguém que pudesse ficar com o animal.

Reconheço que no inicio levei a leitura de Relatos de um gato viajante de uma maneira um tanto ou quanto despreocupada. Era uma leitura agradável fazendo um contraponto à anterior que tinha sido mais densa. No entanto, à medida que a trama avançava, envolvi-me numa história sutil e emocionante que encheu meus olhos de lágrimas, como não acontecia há muito tempo.

Nova visita à livraria, nova descoberta. Jogado displicentemente, como se tivesse sido descartado por outro cliente, encontrei um gatinho aninhado no meio de flores.

Folheei O gato e as orquídeas e foi amor à primeira vista. O livro possui o formato de um quadradinho, tendo cada lado não mais de dezessete centímetros. O interior é composto de quarenta delicadas aquarelas, que retratam as paixões da ilustradora Kwong Kuen Shan.  Cada desenho é acompanhado por um poema, provérbio ou trecho de clássicos chineses, como este pensamento bem felídeo:

Às vezes deito e durmo,

Às vezes deito e bocejo,

Na maioria das vezes, só deito e vivo

Pois estar vivo é a maior dádiva de todas.

Curiosamente, hoje de manhã, entreouvi na seção de frutas do supermercado a conversa de dois funcionários. Um criticava os comentários sarcásticos feitos por um colega: “ele é um cara muito felino”.

A frase pinçada no ar fez-me sorrir, e soou como um sinal de que talvez estivesse na hora de dar uma chance às páginas de Sobre Gatos, inicialmente rejeitadas.  Quem sabe eu gosto?

 

  • Sobre gatos

Doris Lessing

Editora Autêntica

R$39,80

  • Relatos de um gato viajante

Hiro Arikawa

Editora Alfaguara

R$ 44,90

E-book R$ 29,90

  • O gato e as orquídeas

Kwong Kuen Shan

Estação Liberdade

R$ 28,00

Tudo é rio

A primeira vez que ouvi falar nesse livro foi no final de julho pelo Facebook. Era uma indicação feita pela Martha Medeiros, na linha do tempo de uma amiga que temos em comum.

Para mim, uma recomendação dessa escritora que tanto aprecio, era para ser seguida sem questionamentos ou demora. O problema estava na pequena editora mineira, a Quixote + Do Editoras Associadas (nome estranho, não?), que com certeza não deveria ter uma boa distribuição no Rio de Janeiro.

Como esperava, não foi fácil encontrar o livro nas livrarias tradicionais, e me esqueci da sugestão. Até que no Dia dos Pais, a crônica de Martha Medeiros – que sai todos os domingos, na revista Ela do jornal O Globo – falava exatamente sobre ele: Tudo é rio.

“É bem possível que você nunca tenha escutado falar em Carla Madeira, mas sugiro que abra espaço para ela entrar na sua vida. Até o final de 2018, espero que essa autora mineira já esteja encabeçando as listas dos mais vendidos, que esteja sendo disputada para entrevistas e que esteja recebendo propostas de editoras para lançar algum novo livro, já que o de estréia, Tudo é rio, é a revelação do ano.”

E continua: “Tudo é rio é uma obra-prima, e não exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao serem terminados, dão vontade de começar tudo de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa.”

Assim que surgiu uma oportunidade, corri para a minha livraria dileta, aquela localizada numa rua interna do Leblon. Logo na entrada encontrei exposta com destaque a pilha de Tudo é rio.

Confesso que no primeiro momento fiquei surpresa com a força erótica do texto.  A falta de escrúpulos da personagem Lucy – apresentada logo no início da história – ao mesmo tempo em que incomodava me fascinava. E foi assim de espanto e respeito que me deixei seduzir pela trama enxuta e lírica de Tudo é rio.

Para quem não tem o hábito de ler escritores nacionais, vale muita a pena conhecer Carla Madeira, uma escritora com o frescor da novidade e o poder de fisgar o leitor.

 

  • Tudo é rio

Carla Madeira

Quixote + Do Editoras Associadas

R$ 49,00

%d blogueiros gostam disto: