Conheci uma ilustradora de histórias

Uma das razões que me deixou animada para voltar a morar no Rio de Janeiro, foi a possibilidade de participar de cursos e palestras que não aconteciam em Salvador, e dos quais era informada através das redes sociais.

Assim que me instalei, matriculei-me na Estação das Letras. Até agora já me inscrevi em dois cursos: a oficina de Contação de Histórias com Francisco Gregório Filho, e o curso Letras de Brincar com Ninfa Parreiras.  Tanto um quanto o outro corresponderam as minhas expectativas, visto terem sido ministrados por profissionais apaixonados pelos respectivos ofícios. Entretanto, o que não esperava é que os meus colegas de turma tivessem algo a me ensinar.

Os participantes dos dois cursos foram diferentes. Apesar de uma natural timidez, gosto das apresentações iniciais quando cada aluno fala um pouco sobre a trajetória pessoal e por que está ali. Os relatos são bem diferentes, mas temos um ponto comum: o apreço pelas histórias quer sejam elas narradas oralmente, escritas ou ilustradas.

Em um post anterior comentei sobre a professora Sergiane que conheci na oficina de Contação de Histórias. A sua motivação era encontrar outros caminhos que estimulassem os alunos a descobrirem o prazer da leitura.

Hoje, quero apresentar Elê Nogueira, artista plástica, minha colega no curso realizado pela escritora e psicanalista Ninfa Parreiras.

Aparentemente, Elê era a única do grupo que não tinha muita familiaridade com a literatura infantil. Desejava construir uma ponte entre as histórias infantis e o trabalho que realizava. Quando se identificou como ilustradora meus olhos brilharam. Cada vez que escrevo uma história fico imaginando as múltiplas possibilidades visuais que ela pode ter, dependendo de quem a desenhar.

Assim que pude procurei @elenogueira no instagram. De imediato me apaixonei pelo colorido de suas aquarelas. O tema principal é a infância. A maioria dos desenhos retrata crianças risonhas brincando em grupo ou sozinhas. Eles transmitem a genuína alegria infantil. Outras mostram meninos desprotegidos dormindo ao relento, cobrindo-se com caixas de papelão. Surpreendi-me por Elê não reconhecer que cada uma de suas ilustrações é a semente de uma história em potencial.

No decorrer do curso, Ninfa propôs que criássemos pequenas narrativas. Deveríamos nos inspirar nos textos do Livro dos Abraços, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Baseada na narrativa de Burocracia 3, escrevi a crônica que se segue. Para ilustrá-la convidei Elê Nogueira.

 

Descasos

Josiane estava cansada de ser diarista. Três patroas diferentes, cada uma mais exigente que a outra. Nenhuma lhe dava moleza. O trabalho era instável. Se ficasse doente ou se uma delas viajasse perdia a diária.O delicado malabarismo para equilibrar as contas no final do mês ruía.

De tanto rezar para Padim Cíço finalmente arrumou um emprego como mensalista. Agarrou-o com unhas e dentes. É certo que ganharia menos, mas contava com um valor garantido e teria direito a todos os benefícios sociais. Finalmente poderia trocar o celular que pressentia estar prestes a pifar.

Ao completar o primeiro mês no emprego dirigiu-se toda animada a loja de departamentos. O vendedor atendeu-a muito bem e ficou acertado que pagaria o telefone em suaves prestações. Mas na hora de finalizar a compra constataram que havia algo de errado com o seu CPF.

No dia seguinte explicou o caso à patroa e pediu para sair mais cedo. Esta concordou, pensando: “pobre não pode ter dinheiro na mão que logo começa a gastar.”

Na repartição pública, Josiane aguardou em pé por quase duas horas. A funcionária que a atendeu despachou-a em menos de cinco minutos declarando que o problema não estava no CPF, mas no título de eleitor.

Como já era tarde para se deslocar até o cartório, no dia seguinte contou com a compreensão da patroa que, desta vez, não escondeu uma ligeira irritação.

O trânsito estava pior do que o costume. Para seu desespero, chegou a tempo de ver a pesada grade, que protegia a porta do cartório, sendo abaixada. Sem coragem de contar à patroa o que acontecera, Josiane esperou o mês terminar.

Assim que recebeu o segundo salário pediu de novo para sair mais cedo. Precisava saber o que estava errado com o título de eleitor.  Agora não era só a falta do CPF que a impedia de comprar parcelado, se não pudesse votar, no futuro teria sérios problemas.

Dentro do ônibus voltou a apelar a Padim Ciço. Como por milagre o transito fluiu. Josiane foi prontamente atendida por um servidor que se demorou em uma minuciosa pesquisa.  Por fim, ele afirmou convicto que não havia nada de errado com o seu título de eleitor.

Dali mesmo, a pobre moça foi direto à loja de departamentos, onde lhe disseram que o seu CPF continuava com problemas.

Exausta ligou para a patroa. Com um fiapo de voz avisou que no dia seguinte não iria trabalhar.

Madrugou na porta da Receita Federal e foi a primeira pessoa a entrar na repartição. Desanimou ao ver que teria que falar de novo com a mesma funcionária. Bem que tentou explicar o que estava acontecendo, mas de novo recebeu a mesma resposta: o erro estava no título de eleitor.

De volta ao Cartório Eleitoral, Josiane implorou por ajuda. Não sabia mais a quem recorrer e se não conseguisse regularizar o CPF, sua vida formal estaria toda travada.

Apiedado, o servidor assinou e carimbou uma declaração atestando que o titulo de eleitor dela estava nos conformes. De tão agradecida, Josiane quis beijar-lhe as mãos. Constrangido, ele as recolheu rapidamente, despedindo-se com um sorriso e dando-lhe um leve tapinha nas costas.

De volta à Receita Federal, Josiane conteve-se para não esfregar aquele papel no nariz da funcionária petulante. Esta depois de passar os olhos rapidamente na folha digitou alguma coisa, fitou a tela por longos minutos, teclou de novo, fez algumas perguntas e finalmente concordou. A explicação que deu a Josiane foi confusa, cheia de palavras difíceis. No entanto, ela compreendeu o final: “…, agora está tudo resolvido, mas o número do CPF só estará liberado daqui a quatro meses”.

Josiane não sabia se ria ou chorava de frustração. Murmurou algo incompreensível e cedeu o lugar a outro infeliz, que aguardava para ser mal atendido.

Desatenta, desceu a imponente escadaria da repartição pública. Não reparou no degrau quebrado, desequilibrou-se e caiu como se fosse um espantalho. Com o impacto, o celular pulou da bolsa, deslizou pela calçada e parou debaixo das rodas do ônibus que acabara de chegar no ponto.

Várias mãos ajudaram Josiane a se levantar. Quanto ao celular não havia nada a fazer. A perda era total.

Finalmente, ela pode dar vazão à frustração que se acumulava há dias. Chorou e gritou de dor pelo joelho que sangrava e pelo tornozelo inchado.

Sem poder avisar a patroa, Josiane ficou três dias em casa para se recuperar da queda. Quando regressou ao trabalho não teve tempo de explicar o que acontecera, foi sumariamente demitida.

Quem sabe a ilustração que complementa este post é o início de uma parceria de histórias construídas a quatro mãos?

 

 

6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. ElêNogueira
    jun 12, 2018 @ 17:02:32

    Muito obrigada Paula, tô na pista para negócios rsrs!

    Responder

  2. ninfa TEMP. BUSINESS PLEASURE VISITOR (B) de freitas parreiras
    jun 20, 2018 @ 20:11:28

    Que blog bacana, Paula! Gostei muito de reler “Descasos”. Sua escrita nos prende. E as ilustrações da Elê imprimiram um ar de movimento.

    Responder

  3. ionemattos
    jun 24, 2018 @ 17:20:20

    Seu blog está muito bonito, Paula. E interessante. Adorei esta postagem em particular, até porque estou nesse mesmo bonde das Letras de Brincar e também admiro o trabalho da Elê. E dos colegas em geral, inclusive o seu, como é o caso deste seu conto, agora acrescido da imagem significativa criada pela Elê. Voltarei por aqui para curtir outras postagens.

    Responder

    • fagulhadeideias
      jun 25, 2018 @ 10:38:22

      Obrigada Ione pelo seu comentário. Os cursos que fazemos são excelentes para conhecer pessoas que amam a literatura em geral e os profissionais que trabalham nessa área. Beijo

      Responder

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