Ai que saudade!

Passei duas tardes inteirinhas passeando por Lisboa sem sair de casa. Graças ao guia Vá a Lisboa e me leve com você!, escrito pela embaixatriz Elza Maria da Costa e Silva Lima, e que atualmente mora com o marido em Abuja*. (como anda a sua Geografia? A minha, péssima. Precisei pesquisar na internet para saber onde fica esse lugar)

Revisitei lugares e conheci outros que surgiram desde a última vez que estive a passeio em Portugal. Relembrei expressões introdutórias de uma conversa que não são usuais no Brasil, como: Desculpe lá…, Não se importa… Já agora…, e uma palavra que a encerra: Obrigadinha!

Aprendi que se costumava comer os pastéis de nata acompanhados por vinho verde, mas que atualmente eles são consumidos com um cafezinho ou uma “bica”. Achei curiosa a primeira combinação, por não ser um tipo de vinho que acompanha um doce, e procurei saber mais a respeito. Apesar de não ter encontrado nenhuma confirmação desse hábito, aprendi que um pastel de nata vai muito bem com um cálice de um vinho generoso, como um Madeira, um Moscatel ou um Porto Tawnay.

Reza a lenda que os pastéis de nata são uma criação original dos monges que viviam no Mosteiro dos Jerónimos. Entretanto encontrei quem contrariasse essa teoria, alegando que desde o reinado de D. João II os homens estavam não só proibidos de mexer em açúcar, como de consumi-lo. Essa seria uma das razões pela qual a tradição da doçaria portuguesa está tão ligada ao sexo feminino.

Enquanto lia Vá a Lisboa e me leve com você, deu-me uma saudade da minha irmã que mora em Portugal e liguei para ela. Aproveitei para perguntar o que era “uma meia torrada aparada”. Ela me disse que ao se pedir numa cafeteria “uma torrada” são servidas duas.  No caso específico, “meia torrada” é uma única fatia de pão de forma onde a côdea (casca) foi retirada. Ah, agora entendi!

Como ela mora em Campo D’Ourique, contei que na próxima vez que for a Portugal quero conhecer o restaurante mais tradicional do bairro, o Coelho da Rocha (e isso lá é nome que se dê a um restaurante?!). Ela me disse que sim, mas que preferia me levar n’O Magano. Lá fui eu de novo procurar saber o significado dessa palavra e fiquei surpresa com a resposta. Magano quer dizer ardiloso, velhaco, folgazão. Os portugueses escolhem cada nome para os seus estabelecimentos comerciais!

Bom, mas por causa do guia já comecei a montar o meu roteiro de viagem. Quero subir na cobertura sinuosa ou “lombo” do novíssimo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), localizado à beira do rio Tejo; almoçar com a minha irmã no restaurante Magano, especializado em comida alentejana; conhecer o Palácio dos Marqueses de Fronteira (segundo a autora, “talvez seja o palácio mais memorável que você poderá ver em Lisboa”) e que foi construído no séc. XVII pelo primeiro Marquês de Fronteira. Até hoje os descendentes moram ali e por essa razão não abre à visitação nos finais de semana.

Quero também tomar um sorvete na minha sorveteria do coração, Santini (apesar das más línguas dizerem que a melhor sorveteria de Lisboa é a Nannarella); visitar o Museu Nacional do Azulejo, renovado recentemente, e admirar o painel intitulado O Casamento da Galinha;

Tomar chá no antigo salão de baile do Palacete Chafariz d’El Rei, construído por um português que fez fortuna no Brasil no início do século passado. Esse lugar tem uma arquitetura tão exótica que as autoridades tentaram demoli-lo por atentado ao bom gosto urbano.

Nunca imaginei que a leitura de um guia de viagens pudesse ser tão prazerosa. Vá a Lisboa e me leve com você! estimulou-me a rever os meus conhecimentos sobre os reis e a História de Portugal: estudei a sucessão monárquica desde D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) até o seu tataraneto D. Manuel II, que foi deposto no início do século passado, quando foi instaurada a República. Aprendi também quantas capitais teve Portugal (se me perguntassem num desses programas de perguntas e respostas eu seria sumariamente eliminada). Foram cinco no total: Guimarães, Coimbra, Rio de Janeiro, Angra do Heroísmo ** (!!) e Lisboa.

Com toda a certeza Vá a Lisboa e me leve com você! estará comigo na próxima vez que o meu destino for o Aeroporto da Portela.

Ai que saudade!

 

*capital da Nigéria! Achou que era Lagos, não é?

**cidade no arquipélago dos Açores

 

  • Vá a Lisboa e me leve com você!

Elza Maria da Costa e Silva Lima

Topbooks

R$41,90

Uma opinião sincera

Quando soube que o novo livro de Dennis Lehane tinha chegado às livrarias, fiquei toda animada. Não sou exatamente uma fã de literatura policial, mas desse autor já li Sobre Meninos e Lobos e Gone Baby Gone e gostei muito. Ambos abordam o desaparecimento de crianças em circunstâncias diferentes e são histórias bem impactantes.

Tanto um quanto o outro viraram filmes, sendo que o primeiro foi dirigido por Clint Eastwood e premiou Sean Penn com o Oscar de Melhor Ator e Tim Robbins com o de Melhor Ator Coadjuvante no ano de 2004. O segundo filme recebeu no Brasil o título de Medo da Verdade e foi dirigido por Ben Affleck. O elenco tem ótimos atores, como o irmão do diretor Casey Affleck, Morgan Freeman, Ed Harris e Amy Ryan, que concorreu ao Oscar de melhor atriz em 2008.

Apesar da pilha de livros que me aguardava em casa, não resisti ao ver Depois da Queda na seção de lançamentos. Lembrei dos livros que tinha para ler, mas nenhum deles me apetecia. Era como se pudesse escolher entre comida italiana, japonesa ou churrasco, quando na verdade eu desejava um acarajé. E, naquele momento, o meu “paladar” aguava por um bom suspense. O funcionário do caixa só fez reforçar a minha escolha ao comentar: “excelente leitura para se fazer no final de semana”.

Eu sabia que não iria conseguir ler um livro de quase 400 páginas em apenas dois dias, muito menos quando pretendia assistir a alguns filmes concorrentes à premiação do Oscar marcada para o próximo domingo. Além disso, queria ver os finais das últimas temporadas no Netflix de Merlí e Club de Cuervos. Mesmo assim, encontrei uma brecha para iniciar a leitura de Depois da Queda.

A história arrancou muito bem, capturando o meu interesse logo no início com a consumação de um assassinato. Depois, a narrativa retrocedeu à época em que a personagem principal, Rachel, procurava incessantemente descobrir quem era o pai, e sofreu um colapso nervoso durante uma transmissão ao vivo na TV. Este episódio terminou não só com a promissora carreira de jornalista como também com o seu casamento.

Psicologicamente destruída, Rachel afastou-se dos amigos e buscou refugio trancando-se em casa. Os meses se sucederam, mas ao precisar sair para assinar os papéis do divórcio, acidentalmente reencontrou alguém que conhecera no passado. Uma relação bonita se iniciou entre os dois, culminando em um novo casamento para ela. Com paciência o marido aceitava os ataques de pânico que aprisionavam Rachel em casa.

Um dia, depois de muita insistência, ela saiu para almoçar fora com uma amiga. Ao retornar para casa, Rachel presenciou algo que fez a história virar de cabeça para baixo.

O problema é que a partir deste ponto a primeira parte da narrativa meio que se tornou dispensável. Como se uma nova história, de ritmo bem mais nervoso mas desconectada da anterior, começasse de fato.

Para quem já escreveu histórias tão marcantes como a dos livros mencionados anteriormente, a de Depois da Queda é, a meu ver, totalmente absurda. Isto para não falar do final que é bem inverossímil.

Acredito que se for levado às telas do cinema, Depois da Queda até pode funcionar como uma distração interessante. A regra é de primeiro ler o livro para depois se ver o filme, mas neste caso é totalmente desnecessário.

 

  • Depois da queda

Dennis Lehane

Companhia das Letras

R$ 54,90

E-book R$ 37,90

Duas leituras bem diferentes

Gosto de intercalar uma leitura “séria” com outra mais leve, e normalmente acerto nas escolhas. Mas emendar Amsterdam do escritor Ian McEwan com O ódio que você semeia da rapper americana Angie Thomas foi ousado demais.

O primeiro romance narra o embate entre dois amigos que alcançaram grande sucesso profissional, e voltam a se encontrar durante o funeral de uma amante que tiveram em comum. A reaproximação os faz trocar promessas e confidências. Vaidosos, eles acreditam estar acima de quaisquer dilemas morais, mesmo quando suas atitudes podem prejudicar outras pessoas. No entanto quando um deles censura a atitude que o outro pretende tomar, este se sente ofendido e revida acusando o agressor de se comportar de forma infame. A miopia moral dos dois ex-amigos se exacerba em insultos e rasteiras mútuas, terminando por provocar uma tragédia.

Apesar de ter apreciado esta história, que em 1998 venceu o Booker Prize na categoria de melhor romance, o meu livro favorito de Ian McEwan continua sendo Na Praia. Mesmo assim agradou-me a construção refinada dos personagens e as descrições precisas e elegantes.

Talvez tenha sido essa por razão que estranhei a escrita de O ódio que você semeiarepleta de diálogos coloquiais e frases curtas -, perfeita para leitores que ainda não aprenderam a apreciar uma leitura mais burilada. É importante ressaltar que o livro é classificado como ficção juvenil, recomendado para leitores entre 14 e 21 anos.

Também me incomodou a quantidade de referências aos diversos modelos de tênis das marcas Jordan, Eleven, e Js, cantores como Salt-N-Pepa, gênero musical R&B, danças Wobble, Hit the Quan e Nae-Nae, e a diferença entre comer um sorvete com cobertura de cereal Cap’n Crunch ou biscoito Oreo. Tudo muito comum para um afro-americano nascido na virada do milênio, mas que só fizeram confirmar a minha ignorância de costumes e o abismo geracional.

Feitas estas considerações um tanto ou quanto rabugentas, quero dizer que não só gostei de O ódio que você semeia como considero a sua leitura extremamente necessária por abordar um tema cruel com profundas raízes, tanto na sociedade norte-americana quanto na brasileira: o preconceito racial.

A personagem principal Starr é uma adolescente negra que presenciou o assassinato do melhor amigo de infância ser cometido à queima roupa por um policial branco.

Cansada de ver casos como este serem tratados com parcialidade e complacência pela justiça, ela se questiona se deve permanecer calada ou mostrar a sua indignação e contar exatamente o que sucedeu.

Pessoas como nós em situações assim viram hashtags, mas raramente conseguem ter justiça.

Além de ser testemunha dessa chocante brutalidade, na escola Starr suporta “brincadeiras” e comentários dúbios por parte de uma colega que se diz ser sua amiga. Mas até quando ela estará disposta a ouvir sem reclamar, apenas para não ser tachada de suscetível ou encrenqueira?

Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?

Assim como Starr, precisamos denunciar os preconceitos que persistem na nossa sociedade, quer sejam raciais, econômicos, de gênero ou culturais.

Aproveito para fazer o mea-culpa. Qualquer estilo literário deve ser valorizado por suas qualidades intrínsecas e não ser rotulado de forma depreciativa. Não existem gêneros melhores ou piores, existem livros bem escritos e livros ruins. Definitivamente não é o caso de O ódio que você semeia.

 

 

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