Por que não me separo dos meus livros

Ao limpar os e-mails que recebo com indicações de livros, chamou-me a atenção o título de um que havia sido resenhado no  New York Times: The Ruined House (A Casa Arruinada em tradução livre).

Li a matéria meio que na diagonal e fiquei sabendo que essa obra ganhou o prestigiado Prêmio Sapir, concedido a escritores israelenses. Rudy Namdar nasceu em Jerusalém e mora em NY há décadas. Ele foi o ultimo escritor não residente no país a receber a honraria. Em 2015 as regras mudaram e só podem concorrer escritores que morem em Israel. A justificativa foi de que a recompensa financeira deveria ser concedida a quem supostamente não teria acesso a outras premiações internacionais mais vantajosas.

O texto continuava fazendo considerações sobre o livro propriamente dito, e, em dado momento, o articulista comentou que a temática de Namdar se aproximava mais daquela de Cynthia Ozik do que da prosa secular dos seus colegas escritores judeus americanos: Philip Roth e Saul Bellow. Do segundo nunca li nada, mas sou fã do primeiro e todo o ano aguardo ansiosa que, finalmente, ele receba o tão merecido prêmio Nobel de Literatura.

Mas Cynthia Ozik… Esse nome era familiar… Onde foi mesmo que o escutara?  Procurei na estante e lá estava ela, a autora de um livro fininho com dois contos apenas: O Xale.

Dentro dele estava colada a etiqueta da Galeria do Livro. Provavelmente fui eu mesma que a coloquei quando trabalhava na livraria, pouco depois de chegar a Salvador. Já lá se vão quinze anos! Da história guardava uma vaga lembrança: a de uma mãe judia que perdera a filhinha durante uma extenuante marcha forçada em pleno inverno polonês.

Parei o que estava fazendo e nessa tarde devorei as oitenta e três páginas de O Xale de Cynthia Ozik.

A história não era exatamente como recordava. O bebezinho não morreu durante a marcha, mas depois, quando lhe roubaram o xale que a protegia do frio inclemente. E é sobre essa perda que versa o primeiro conto. O segundo dá um salto de trinta anos no tempo e agora a mãe do bebê mora na Flórida. Ela é uma sobrevivente amargurada e sem rumo. Rosa – esse é o nome da personagem principal – continua presa ao passado. Na verdade, o passado é o seu presente e será o seu futuro. Porque prisioneira voluntária dos seus fantasmas familiares, aos poucos, ela mergulha numa espiral de loucura.

Considerada uma das maiores escritoras vivas norte-americanas, o texto de Cynthia Ozik é brutal e impactante. Com precisão cirúrgica ela conseguiu transformar a história de um farrapo humano em uma preciosidade literária.

Quando terminei, guardei o livro na estante. Ali ficará talvez por mais dez ou quinze anos até quem sabe eu volte a relê-lo.

Quando eu voltar a ser criança

Desejosa por aprimorar a minha voz infantil, já que gosto de escrever para crianças, pedi ajuda a uma escritora mais experiente, a Anna Cláudia Ramos. Ela me indicou a leitura de “Quando voltar a ser criança”, de Janusz Korczak.

Após uma rápida pesquisa, fiquei surpresa por nunca ter ouvido falar nesse escritor e pedagogo que viveu no século passado.

Revolucionário, Korczak fundou um orfanato em Varsóvia onde cuidava das crianças como se elas fossem gente grande, protegendo-as da prepotência dos adultos. Como diretor da instituição criou um tribunal onde elas eram estimuladas a solucionar não só os próprios conflitos como também a julgar os seus educadores, caso achassem necessário.

Quando os nazistas ocuparam a Polônia, ele e os órfãos foram confinados no gueto de Varsóvia. Ali viveram por pouco mais de dois anos até serem deportados para o campo de concentração de Treblinka. Antes de partir, Korczak teve a chance de escapar, pois lhe foi oferecido um salvo conduto, que ele recusou. Em agosto de 1942, juntamente com duzentas crianças, morreu asfixiado nas câmaras de gás.

A leitura de “Quando voltar a ser criança” me comoveu. Fiquei encantada como o autor compreendeu e soube colocar em palavras o turbilhão de emoções que se atropelam no intimo de uma criança.

(…) É incômodo a gente ser pequeno. A toda a hora tem que se esticar, levantar a cabeça. As coisas acontecem lá nas alturas, acima de nós. A gente se sente sem importância, desprestigiado, fraco, perdido. Talvez seja por isso que gostamos de ficar em pé ao lado dos adultos que estão sentados. Então podemos ver os seus olhos.

Mesmo assim, por se tratar de um interesse pessoal – ligado ao desejo de escrever literatura infantil – num primeiro momento achei que não precisava compartilhar esta leitura no blog.

Nesse meio tempo, a mudança para o Rio de Janeiro e as festas de fim de ano fizeram com que eu diminuísse o ritmo de leitura. No entanto, uma resenha elogiosa a um livro juvenil – que li no blog Um tempo entre meus livros – chamou-me a atenção. Por se tratar de um livro fininho, coloquei-o na frente de outras leituras mais volumosas. E assim, descobri o impactante “Uma vez”, do escritor australiano Morris Gleitzman.

Ele conta a historia de um menino que, depois de esperar por três anos que os pais o fossem buscar no internato católico onde o deixaram, decide fugir para procurá-los.

Se no início a inocência do garoto chegou a me irritar, aos poucos acompanhei o seu sofrido amadurecimento à medida que ele era engolfado pela cruel realidade existente fora dos muros protetores do internato.

Exímio contador de histórias, o menino acreditava que os pais não podiam buscá-lo porque ainda não tinham encontrado um lugar seguro para guardar os livros que estavam na livraria da qual são proprietários. Tudo o que ele sabia é que existiam pessoas más que não gostavam de livros escritos por judeus e por isso os queimavam assim que os encontravam.

A liberdade durou muito pouco, porque logo ele foi capturado por soldados que falavam uma língua estrangeira. Se durante muito tempo as histórias que ele inventou o protegeram, agora não podiam mais.

Quando tudo parecia perdido, ele foi salvo por um desconhecido que aparentemente possuía algum prestígio entre os nazistas. Este homem misterioso o levou para um lugar seguro onde estavam outras crianças.

Apesar de ter como público alvo os jovens e, por essa razão, intercalar momentos de leveza como implicâncias e brincadeiras de crianças, a história não suavizou o sofrimento e as humilhações sofridas pelos judeus.  Por diversas vezes precisei respirar fundo para prosseguir com a leitura.

Mas a grande surpresa de “Uma Vez” aguardava-me no final. No posfácio do livro o autor revelou que fizera uma homenagem ficcional a Janusck Korczak.

Agora eu entendia o porquê da história de “Uma Vez” ser contada na primeira pessoa e descrever algumas das picuinhas e brincadeiras infantis. Eram referências indiretas ao livro “Quando voltar a ser criança” de Janusck Korczack, sendo que o salvador do menino era na verdade o próprio Korczack.

Como poderia ignorar a coincidência e não comentar sobre os dois livros em um mesmo post? Apesar de serem duas propostas de leitura bem diferentes – uma escrita em tempos de paz e a outra em tempos de guerra, assim como para públicos distintos – são vários os pontos que unem as duas obras.

Claro que cada uma pode ser lida independentemente da outra, mas com certeza ficará bem mais interessante se se conhecer a vida e a obra de Janusck Korczak.

 

  • Quando eu voltar a ser criança

Janusck Korczak

Summus Editorial

 

  • Uma Vez

Morris Gleitzman

Editora Paz e Terra

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