Uma história de Natal

Mais uma vez, minhas amigas se uniram para me presentear com o que mais gosto: livros.

Como não havia espaço para os recém-chegados, fui limpar as estantes. Ao selecionar os que iriam embora, caiu no chão um livro fininho.  Ele era do meu filho, quando ainda estava no colégio. Tendo conseguido sobreviver a tantos “expurgos”, esse livro deveria merecer uma atenção especial.

Trata-se do volume 8 da coleção Para Gostar de Ler, uma seleção de contos de autores como Ignácio de Loyola Brandão, Stanislaw Ponte Preta*  e outros expoentes da literatura brasileira.

Por ter chegado de Portugal às vésperas de cursar o ensino médio, não conheci alguns dos autores que compunham a seleção. O vestibular se avizinhava, e precisei me dedicar à longa lista de leituras obrigatórias.  Daquela época, lembro que achei José Alencar muito chato e gostei bastante de Aluísio Azevedo (mais tarde reli O Cortiço por puro prazer). A obra de Jorge Amado foi um caso todo especial.

Bem que tentei ler A morte e a morte de Quincas Berro d’água, mas quem disse que eu entendia o que estava escrito? De dez palavras oito eu precisava consultar no dicionário. Decepcionada, acabei deixando o livro de lado. Quem diria que, muitos anos depois, não só iria viver na mesma cidade dos personagens da história, como também iria me encantar com o linguajar do escritor baiano?

Mas voltando ao volume 8 da coleção Para Gostar de Ler, nele encontrei um conto natalino escrito por Marcos Rey que compartilho com vocês.

Pega ladrão, Papai Noel!

Ele não era bem um Papai Noel, era mais um Santa Claus, pois trabalhava numa cadeia de lojas multinacional, a Emperor Presentes e Utilidades Domésticas, aquela grande, da avenida. Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas no próprio States para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota, apesar de cantar o “Jingle Bell” com imperdoável sotaque latino-americano. Mas seu visual, mesmo sem uniforme, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isso: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

-Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a Emperor andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido numa bolsa promocional da Emperor. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, e fez voz de vigia:

-Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel aludido, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares. Aí, novamente Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão logo à saída da loja chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase… Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

(…) Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

-Mas não comprei.

-Ahn?

-Ganhei.

-De quem?

-De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir. Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

 

Torço para que um dia esta história seja apreciada apenas como uma bela peça literária – como fazemos com os contos de Charles Dickens – e não mais como um retrato ainda atual da nossa realidade social.

Desejo um Feliz Natal aos meus leitores, e muitas boas leituras em 2018.

 

*Pseudônimo do jornalista Sérgio Porto

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Adelia.x
    dez 25, 2017 @ 08:57:16

    A melhor história da história da suas arrumações. Como sempre leitura prazerosa.

    Responder

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