Parem o mundo que eu quero voltar

Cesta de pães servida no café da manhã do hotel Petit Casa da Montanha

Só depois, ao conversar com uma amiga sobre a semana que passei em Gramado, me dei conta da ironia.

No meio da comilança de fondues, cafés coloniais pantagruélicos, massas com molhos cremosos e engordativos, vinhos e muitos, muitos chocolates localiza-se na mesma cidade o mais famoso SPA do Brasil, o Kurotel. Era ali, em vez de pegar o avião de volta para casa, que eu deveria ter me hospedado para perder o excesso de “bagagem” adquirido.

Foram dias em que segui à risca a expressão “parem o mundo que eu quero saltar”.  Esqueci os hábitos alimentares regrados, passeei de dia e de noite com uma segurança que desconheço – a delegacia fecha aos finais de semana por falta de movimento -, e me surpreendi por Gramado não possuir um único semáforo para controlar o tráfego.

Se não fosse pelo acesso às mídias sociais, não ouviria falar em delações, Lava-Jato, desemprego, violência e outros assuntos que assombram os brasileiros nos últimos anos.

Conheci um outro Brasil, onde propriedades familiares são abertas  à visitação pública, como o Parque das Pedras Silenciosas e o Le Jardin ou Parque da Lavanda, e novas construções não podem desfigurar as redondezas arquitetônicas do lugar. Uma cidade que tem orgulho de seus fundadores alemães e italianos e preserva suas tradições.

O único senão é que, com tantas atrações e passeios a serem feitos, talvez os turistas não tenham tempo para ler e, por isso, não encontrei uma livraria na cidade.

Não precisava ser muito grande, uma pequenina que refletisse a pujança da literatura gaúcha, onde autores como Mário Quintana, Érico Veríssimo, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, Cintia Moscovich, Letícia Wierzchowski, Daniel Galera e Martha Medeiros pudessem ser encontrados.

Se eu me mudasse para cá… (devaneio) a loja teria que ser de rua…  Hum, este prédio parece interessante…  Apartamentos residenciais em cima e espaços comerciais embaixo… Minha livraria seria pequenina que nem esta lojinha que vende mesmo o que?…

Encantada com o colorido da vitrine, entro e me vejo rodeada por lombadas de meias arrumadas com capricho nas prateleiras que chegam quase ao teto. Meias de lã e de algodão, lisas, com listras, losangos e estampas divertidas. Aqui não se vende meias para fazer esportes ou aquelas femininas fininhas cujo fio corre com facilidade. Por instantes me vejo proprietária de uma loja de meias… meias? Não!!

Parem o mundo que eu quero voltar!

Livros, lembranças e novas amizades

Tardes de autógrafos são excelentes para rever amigos, conhecer pessoas e, na medida do possível, conversar sobre livros.

Em meados de julho lancei O Menino Enrolado na Livraria Argumento do Leblon, onde trabalhei como vendedora antes de vir morar em Salvador.

As redes sociais me ajudaram a rever amigos que não via há bastante tempo. Entre um autógrafo e outro, consegui matar as saudades das colegas do Colégio Teresiano e saber um pouquinho do que fizeram nas ultimas décadas. (Tanto tempo assim? A alegria que senti ao vê-las lembrou-me dos nossos reencontros após as férias.)

Foi assim que soube que Ana Cristina Leonardos havia publicado três livros: dois de poesia (“Porto Breve” e “Tempo Outro”) e outro com as memórias afetivas das viagens que fez ao Líbano (“Longe”).

Conheci também Gabriela Leão, uma jovem escritora que, vencendo a timidez, gentilmente me ofereceu o seu primeiro romance policial, A mulher no lago.

De volta a Salvador e ainda no avião, surpreendi-me com a prosa instigante da autora.  Não o larguei até terminar a trama muito bem urdida por Gabriela.

Sorrio ao lembrar o timing perfeito, mas no dia em que cheguei ao fim recebi pelo correio um envelope pesado contendo os três livros de Ana Cristina.

Recordei as nossas conversas animadas durante o recreio, e tive a certeza que os livros refletiriam o temperamento reflexivo e o apreço pelo Conhecimento de minha amiga.

Gostei muito de sua poesia, especialmente aquela encontrada em o “Tempo Outro”, e que se intercala com o trabalho fotográfico de outra amiga querida, a juíza Vera Lage.

Em seu livro “Longe – memórias de um Líbano recente”, Ana Cristina relata a saga da família do marido forçada a se espalhar pelo mundo para fugir dos conflitos de uma guerra civil. Estas lembranças remeteram às minhas, e de quando por razões bem menos traumáticas, mas mesmo assim dolorosas, meus pais se mudaram para o Brasil com as filhas.  Assim como o marido e as cunhadas da autora, também procurei me integrar ao cotidiano do novo país, sem, no entanto, esquecer as raízes culturais que forjaram a minha identidade e caráter. Acredito ter encontrado o equilíbrio.

A Mulher no Lago, Porto Breve, Tempo Outro, Longe… Para mim, os livros são como pontes. Ajudam a recuperar antigas amizades e auxiliam no surgimento de outras, como não amá-los?

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