A ponte que faltava

Dei-me de presente uma linda caixa de lápis de cor. Daquelas que fazem os olhos de qualquer criança ou adulto brilharem de desejo.

A caixa veio em três camadas que arrumei em dégradé de cores. Em um caderno de páginas sem pauta rabisquei cada um dos setenta e dois lápis, e ao lado de cada cor escrevi o nome correspondente. Surpresa, constato que poucas foram as cores que receberam os nomes simples que sempre conheci.  Certo que o laranja continua sendo laranja, assim como o preto continua sendo preto e o branco, branco. Quanto às outras, há uma infinidade de denominações bem criativas: Tem o amarelo canário, o amarelo sol, o amarelo limão e o amarelo espanhol; o azul, por sua vez, tanto pode receber o nome de uma ave (pavão), como ser uma cidade (Copenhagen), ou ser nuvem (esse eu achei que acertou em cheio! Antes de saber como se chamava, risquei-o no papel e pensei que se precisasse pintar uma nuvem essa seria a cor perfeita). Quanto aos verdes, tem para todos os gostos: o papagaio, a primavera, a maçã, o jade, a grama… Só não encontrei o conhecido verde bandeira nem o verde abacate.

Se a maior caixa de lápis que eu tive possuía apenas duas tonalidades de cinza (uma mais escura do que a outra) e que duraram uma eternidade porque eram pouco usadas – assim como o branco -, agora diante de mim eu tinha nove (eu disse nove!) cinzas diferentes. Os quentes e os frios, que por sua vez se subdividiam em percentuais de 20, 50, 70, como se fossem a gradação do cacau contido nos tabletes de chocolate. Um em especial achei muito elegante, o cinza francês, que me lembrou invernos chuvosos parisienses.

Acaricio os lápis com volúpia, sentindo-os rolar sob as pontas dos dedos. A caixa de lápis de cor é a minha “madeleine”. Vejo-me criança pintando e escrevendo histórias, pouco importando se seriam lidas, apenas desfrutando o que a imaginação generosamente me oferecia.

Interiormente, anseio que os lápis de cor sirvam de ponte para conectar a menina criativa que fui à mulher – preocupada em não errar – que sou hoje.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. luisapiano
    maio 10, 2017 @ 13:52:01

    Sempre cativante, e inspiradora. É uma delícia ler e esperar para saber qual será a próxima “descoberta”

    Responder

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