Instruções para os criados

instruções-para-os-criadosO azedume que ultimamente tem contaminado os relacionamentos sócio-políticos brasileiros chegou ao irreverente Carnaval. Enquanto o politicamente correto tenta abolir algumas marchinhas consagradas, alegando serem racistas, homofóbicas e degradantes às mulheres, escuta-se e dança-se o funk “Deu onda” em todo o lugar. Fazer o quê? Gosto não se discute, lamenta-se.

Como antídoto à rabugice baixo astral, sugiro a leitura de Instruções para os criados escrito por Jonathan Swift, em 1731.

Encontrei esse pequenino livro enquanto zanzava pela livraria do shopping. Despreocupada, li uma ou outra frase e comecei a rir sozinha. Os conselhos oferecidos não poderiam ser mais estapafúrdios:

“Ao cometer algum erro, seja sempre atrevido e insolente, e comporte-se como se você mesmo tivesse sido ofendido, assim o senhor ou senhora perderá o ímpeto (de repreendê-lo).”

“Nunca use meias ao servir uma refeição (…), além de a maioria das senhoras gostar do cheiro dos dedos dos pés dos jovens, isso é um excelente remédio para a melancolia.”

“Se uma criança estiver doente, dê-lhe o que ela quiser comer ou beber, mesmo que tenha sido proibido pelo médico, pois o que desejamos na doença nos faz bem, e jogue o remédio pela janela, assim a criança a amará mais, mas ordene que ela não conte.”

O livro escrito em 1731 é um manual nada convencional de como mordomos, lacaios, cocheiros, governantas, lavadeiras, preceptoras, cozinheiras, porteiros, criadas de quarto – e quem mais fosse essencial para cuidar de uma casa – deveriam se comportar no ambiente de trabalho. Uma tática de guerrilha esdrúxula, mas eficiente para tirar a paz de espírito da preguiçosa e a insensível classe patronal.

Se as marchinhas merecem críticas, é preciso antes de mais nada contextualizá-las no tempo e no espaço em que foram compostas, da mesma forma que o livro de Swift não pode ser lido ao pé da letra, mas visto como uma crítica ao sistema social da época. Promover qualquer comportamento preconceituoso é tão impensável quanto imaginar que os empregados seguiriam à risca as rotinas descritas no manual Instruções para os Criados*. Apesar de que consigo imaginar o dissimulado valete, Thomas Barrow, personagem da mini-série Downton Abbey , lendo e consultando esse livro todas as noites.

*Instruções para os Criados faz parte de uma coleção com doze títulos mais “sérios” como Sobre o exílio de Joseph Brodsky, Crítica da vítima de Daniele Giglioni e Pela supressão dos partidos de Simone Weil, e foram publicados pela editora Âynié.

Para quem, assim como eu, ficou curioso com o nome da editora, Âynié significa espelho em persa.

 

  • Instruções para os criados

Jonathan Swift

Editora Âynié

R$ 29,00

Ebook R$ 12,00

 

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Nem tudo será esquecido

nem-tudo-sera-esquecidoDecidi ler Nem tudo será esquecido de Wendy Walker quando soube que os direitos autorais haviam sido comprados pela atriz e produtora cinematográfica Reese Witherspoon. Ela costuma ter um bom “faro” para escolher histórias que se adaptarão bem na tela de cinema.

Foi o que aconteceu com Garota Exemplar de Gillian Flynn e Livre: a jornada de uma mulher em busca do recomeço, escrito por Cheryl Strayed. Inclusive, no último caso, gostei mais da versão cinematográfica do que o próprio livro. Quem sabe ela não acerta de novo?

Por enquanto o elenco e a direção do filme não foram escolhidos. Tento imaginar quem representará o psiquiatra Allan Forrester, narrador e figura central deste suspense psicológico.

O médico é chamado para ajudar uma jovem a resgatar a lembrança de um acontecimento violento, depois que ela tenta tirar a própria vida. O psiquiatra está a par de um novo tratamento  aplicado em veteranos de guerra, que apaga os fatos traumatizantes por que passaram.

Com o intuito de proteger a filha, os pais autorizam que ela faça parte desse mesmo experimento. No entanto o resultado não é o esperado. A jovem não lembra o que lhe aconteceu, mas uma angústia inexplicável permanece, e a impede de retomar a vida normal.

À medida que a trama avança, a linha divisória que separa os bonzinhos dos suspeitos se dilui. Todos têm segredos inconfessáveis, inclusive a mãe da adolescente e o médico que tenta salvá-la.  Se uma memória for apagada, outra pode ser criada e manipulada? Quais serão as conseqüências?

A autora consegue manter o leitor interessado até o fim, mas, por mais perspicaz que seja, nada o preparará para o final surpreendente de Nem Tudo Será Esquecido. Pode acreditar em mim.

X-X-X

Escrevi este post no domingo e, coincidentemente no mesmo dia, li que Reese Witherspoon comprou os direitos de outro livro. Desta vez, transformou-o em uma mini série para a televisão. Trata-se de “Pequenas Grandes Mentiras” da escritora australiana Liane Moriarty. O diretor é Jean-Marc Vallée, o mesmo que a dirigiu em Livre. Nos papéis principais, além dela, atuam Nicole Kidman e Laura Dern.  A mini série acaba de estrear no canal HBO e tem tudo para ser um grande sucesso.

 

  • Nem tudo será esquecido

Wendy Walker

Editora Planeta

R$ 36,90

E-Book R$ 25,83

E não é que o livro voltou?

Rio-das-FloresRecebi recentemente a visita de Marta*, uma amiga que não via há muito tempo. Ela se mudou para outra cidade deixando aqui um relacionamento que não era mais amoroso.

De passagem por Salvador, quis me devolver algo que era meu. E mais não disse.

Sua fisionomia mantinha o mesmo sorriso sereno e acolhedor, mas os cabelos agora estavam curtos e revelavam uma cor prateada. Admirei sua coragem.

Quem nos visse diria que tínhamos nos encontrado na véspera, tal era nosso entendimento. Segurei a curiosidade enquanto pude, até que não resisti, e perguntei o que ela queria me entregar. Ao pegar o embrulho notei tratar-se de um livro. Era Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares. Nem me lembrava mais!

Rindo, citei o ditado que diz existirem dois tipos de idiotas: o que empresta livros e aquele que devolve. Mas ali estávamos nós para desmentir o provérbio.

Então, ela pegou o livro e o abriu para me mostrar que o mais importante estava dentro.

Entre as páginas, escondia-se um marcador de livros que meu filho desenhou e me ofereceu num longínquo Dia das Mães. Tinha também um envelope azul com duas fotografias tiradas no Vale do Capão. Na primeira, meu marido e eu estávamos prontos para iniciar uma caminhada sob um sol inclemente, e na segunda aparecia apenas minha cabeça, porque o corpo estava submerso nas águas refrescantes de uma piscina natural cavada na rocha.

O seu gesto me sensibilizou profundamente. Imaginei-a olhando para o livro, por quase dez anos, lembrando que precisava devolvê-lo.

Quantos livros eu emprestei – movida pelo entusiasmo de querer compartilhar uma leitura – e que jamais serão restituídos.

Mas para Marta as minhas estantes estão liberadas. Ela pode escolher quantos livros quiser. Tenho a certeza que o retorno de cada livro será a celebração de uma duradoura amizade.

*Nome fictício

A Casa e o Mundo lá fora

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A primeira vez que tomei conhecimento de “A Casa e o Mundo Lá Fora” foi através de uma nota pequenina que saiu em um jornal paulista. Chamou a minha atenção o fato do livro reproduzir as cartas escritas pelo educador Paulo Freire, durante o tempo em que viveu como exilado político, para sua prima em segundo grau de apenas nove anos, Nathercia Lacerda.

É incrível como um homem ocupado, que se encontrava numa situação tão sofrida, encontrava tempo para responder às cartas escritas por uma criança. Um pequeno-grande gesto que apenas confirma o quanto o educador sempre procurou escutar e dar voz àqueles que, pelas mais variadas razões, não recebiam o devido reconhecimento ou atenção.

As cartas falavam das belezas do novo país para onde se mudou com a família e, como educador, ele aconselhava a menina a nunca deixar morrer a curiosidade que existia dentro dela, mesmo quando crescesse e se tornasse adulta; e que se preocupasse com os outros porque “(…) hoje não são todas (as crianças) que podem rir. Rir não é só abrir ou entreabrir os lábios e mostrar os dentes. É expressar uma alegria de viver, uma vontade de fazer coisas, de transformar o mundo, de amar o mundo e os homens, somente como se pode amar a Deus”.

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A correspondência ficou guardada por muitos anos até que numa conversa despreocupada com as amigas Cristina Porto e Denise Gusmão (sobre os pertences que cada uma guardava de recordação), Nathercia comentou sobre as cartas que escrevera e das respostas que recebeu do parente querido de quem sentia saudades. Imediatamente as duas reconheceram que estavam diante de um tesouro que precisava ser revelado.

A editora Zit acolheu com entusiasmo a descoberta e, ignorando tempos de crise e contenção de despesas, publicou um livro muito lindo. Há muito tempo eu não via um projeto gráfico tão caprichado. As ilustrações, o design da capa e do miolo são criação da premiada ilustradora Bruna Assis Brasil.

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Não é de se estranhar que o livro tenha sido escolhido para compor o catálogo que a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) apresentará na Feira do Livro em Bolonha (3 a 6/04). Torço para que volte de lá premiado.

 

  • A Casa e o Mundo Lá Fora:  Cartas de Paulo Freire para Nathercinha

Nathercia Lacerda

Bruna Assis Brasil (ilustrações)

R$ 47,90

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