Misturadas mas inconfundíveis

 

3 livros II

Na mesinha de cabeceira estão três livros que leio ao mesmo tempo. A disparidade dos temas e autores é tanta que me divirto só de olhar para eles: Lygia Bojunga, Sthephen King e Rubem Alves.

De Lygia leio A Bolsa Amarela. O livro já se tornou um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, mas pasmem, nunca o tinha lido.

A minha edição é das antigas, talvez por isso a capa não seja lá das mais atraentes. Mas o texto, ah o texto… Continua leve, enternecedor, divertido e muito inteligente.

Uma passagem do livro fez lembrar da minha infância. Em dado momento, a personagem principal é forçada a dançar diante dos parentes. Algo que antes a fazia feliz, agora não tinha a menor graça. Eu também costumava dançar para a minha mãe. Até que cresci e essa alegria foi substituída por um sentimento desconfortável que não conhecia, o ridículo. Eu começava a descobrir as minhas próprias vontades e precisava aprender a respeitá-las, mesmo que para isso tivesse que desapontar a pessoa que mais amava.

O segundo livro é Sobre a escrita de Sthephen King. Apesar de não apreciar o gênero literário (terror e fantástico) pelo qual o autor é conhecido, fiquei curiosa em saber quais seriam as razões que o levaram a escrever, e quais as sugestões que teria a oferecer para quem deseja ser um escritor de sucesso como ele.

Ainda estava nas primeiras páginas quando precisei compartilhar com o meu filho a leitura de um parágrafo. Assim como o autor, ele também tomou consciência da irreversibilidade da morte aos cinco anos de idade. Lembro que foi uma época de muitos medos e noites mal dormidas.

Diferentemente de mim, a mãe de Stephen foi bem explícita no dia em que o filho lhe perguntou se já tinha visto alguém morrer. Com riqueza de detalhes, ela contou como presenciara sem poder ajudar e escutara os gritos de uma menina morrer afogada.  Contou também ter visto um desconhecido pular do telhado de um prédio e se espatifar no chão. Para completar, disse que jamais se esqueceu da gosma líquida verde que saiu de dentro dele. Pronto, estava explicado de onde surgiu o fascínio do autor pelo macabro!

O ultimo livro é de Rubem Alves: Se eu pudesse viver minha vida novamente… e as crônicas que o compõem falam de lembranças da infância e a finitude da vida. Apesar de Rubem ser um excelente contador de histórias e possuir um senso de humor aguçado, fiquei um pouco triste com o tom de despedida que trespassava na maioria delas.

Entretanto, em uma das crônicas, ele citou um pintor japonês nascido no século XVII cujas palavras de tão inspiradoras transcrevo aqui:

Desde os 6 anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinqüenta publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver 80 anos, terei realizado mais progressos, aos 90 penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e , quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.

Copiei o texto e desenhei ao redor. Coloquei-o numa moldura e pendurei na parede que fica em frente à mesa onde trabalho. Não tenho mais pressa, sei que o tempo é meu amigo.

 

  • A bolsa amarela

Lygia Bojunga

Casa Lygia Bojunga

R$28,00

  • Sobre a escrita

Stephen King

Suma de Letras (editora Objetiva)

R$ 39,90

  • Se eu pudesse viver a minha vida novamente

Rubem Alves

Planeta do Brasil

R$29,90

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Juliana Lisboa
    jul 12, 2016 @ 09:29:36

    Que post rico! Amo Rubem Alves, certamente vou correr atrás desse livro. Fiquei muito interessada em A Bolsa Amarela (também nunca li!), mas Stephen King confesso que ainda tenho uma resistência… 🙂

    Responder

    • fagulhadeideias
      jul 12, 2016 @ 16:07:36

      Olá Juliana,
      Com exceção de “Sobre a Escrita”
      não pretendo ler mais nada de Stephen King. No final ele indica diversos livros de gêneros bem diferentes. Eu não sabia, mas ele é um leitor voraz. Em um ano costuma ler de 80 a 90 títulos!
      Rubem Alves é uma delícia. Só de escrever o nome dele já estou sorrindo.
      Quanto a Lygia Bojunga foi a primeira escritora brasileira a receber o prêmio Hans Christian Andersen considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. (a segunda foi Ana Maria Machado).
      Beijo

      Responder

      • fagulhadeideias
        jul 12, 2016 @ 16:12:47

        Fico muito feliz com seu comentário. A ideia é essa mesma, falar sobre os livros que li e saber o que meus amigos andam lendo. O que me recomenda Andrea?
        Beijo

  2. Andrea Morizot
    jul 12, 2016 @ 13:17:48

    Adorei! Suas impressões valem qualquer livro.

    Responder

  3. luisapiano
    jul 13, 2016 @ 15:57:23

    Se puder compartilhe conosco uma foto do texto emoldurado com o desenho. Como sempre uma delicia seu blog.

    Responder

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