Partiu envolto em carinho

Manta-de-bebêII

Impossível fazer exercício na esteira ergométrica sem ter uma distração. Pela televisão assisto ao concurso de pudins no programa da Ana Maria Braga. Enquanto caminho acelerada, minha boca se enche de água. Pudim de Nutella, pudim de claras, pudim de tapioca… Uhmmm quantas delícias. Mesmo não sabendo cozinhar, acho que vou tentar fazer o de tapioca.

Admiro quem sabe preparar pratos saborosos para os amigos e familiares. Acho fascinante todo o processo que começa com a definição do que será criado e continua com a escolha dos produtos e ingredientes. Depois vem todo o preparo cuidadoso, como o picar miudinho e o temperar sem exageros. É preciso estar por inteiro quando se cozinha senão o resultado desanda. Uma verdadeira arte, que tem o poder de transformar fisionomias macambúzias em rostos sorridentes e apaziguados.

Na verdade, gosto de tudo que é produzido com as mãos: Pintar, bordar, esculpir… Quando criança gostava muito de desenhar. Enchia cadernos só com desenhos que viravam histórias. Meus dedos moviam-se precisos pelo papel. Diferente de algumas colegas de sala, nunca precisei usar a régua para fazer uma casa ou uma cerca.

Nas aulas de trabalhos manuais já não era tão jeitosa. Fazer uma bainha, prender um botão, bordar miudinho eram artes delicadas demais para quem estava habituada a traçar e colorir com determinação e firmeza.

Nunca consegui manejar as duas agulhas do tricô. Como elas não tinham um gancho para segurar a linha, passava mais tempo recuperando os pontos fugidos do que realmente tricotando.

Em algum momento aprendi a fazer crochê e me distrai fazendo cachecóis e quadradinhos que, ao serem unidos, viravam mantas.

Corriam os anos oitenta e as mulheres lutavam com unhas e dentes para encontrar um lugar ao sol no mundo profissional. Pouco a pouco essas artes, mais ligadas a um universo feminino e doméstico, foram deixadas de lado. Admito que passei a enxergar os trabalhos manuais (costura, tricô, bordado, crochê) como um passatempo de desocupadas e senhoras idosas.

Entretanto, esse meu gostar ressurgia tímido toda vez que apreciava uma exclusiva toalha de mesa bordada à mão, os bicos delicados de crochê que valorizavam modestos panos de prato, ou admirava os bordados exuberantes de um vestido mexicano.

Recentemente caiu em minhas mãos um panfleto oferecendo aulas de crochê e, resoluta, me inscrevi.

Surpreendi-me ao conhecer a futura professora. Em nada correspondia ao estereótipo que imaginara de uma professora de crochê. Baixinha, com longos e lustrosos cabelos negros falava com desenvoltura sobre as suas duas paixões: crochê e o time do Bahia. Para a turma de oito alunas, contou que durante muitos anos fora titular da equipe feminina de futebol do clube.

Os primeiros dez minutos da aula foram uma decepção. Com a mão esquerda tentei fazer um cordãozinho básico, mas, de tão desajeitada, parecia que estava puxando um piano. Porém, quando a professora pegou a agulha para me explicar como deveria manuseá-la, veio o lampejo de uma lembrança antiga. E se eu  segurasse a agulha com a mão direita? Desta vez a linha deslizou fácil. Tinha me esquecido que as duas únicas coisas que faço como uma pessoa destra são segurar a faca para comer e fazer crochê.

Rapidamente o cordãozinho que parecera tão difícil estava pronto e pude começar o meu primeiro trabalho. O que queria fazer? A resposta veio rápida. Uma manta de bebê para a primeira filha de minha sobrinha que mora nos EUA. Ouvi dizer que lá não se encontra nada feito á mão. Que tudo é prático e industrializado, pronto para entrar na máquina de lavar.

Se deu trabalho? Claro que sim, mas a manta que será enviada por correio na segunda feira é única. Eu mesma escolhi e combinei as cores; cada quadradinho de pontos altos e pontos baixos foi crochetado pensando no bebê que vai nascer. A manta será embrulhada em papel de seda e amarrada com uma fita de cetim cor de rosa. Protegido pelas dobras da manta colocarei todo o carinho que sinto por minha sobrinha, junto com o desejo que essa criança chegue com saúde e seja uma fonte de muitas alegrias para ela e o marido.

Quanto ao pudim de tapioca, não sei não… Depois que terminei de ler a receita, não me pareceu tão fácil assim de fazer. Mas, vai saber. Desafios estão aí para serem enfrentados e talvez virarem tema para outra história.

6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Luciana Bergallo
    abr 26, 2016 @ 09:13:23

    Que lindo, Paula!
    Começar o dia lendo uma estória sua, além de ser um privilégio, faz com que saiba que o dia será harmonioso.
    Muito obrigada.
    Bjs.

    Responder

  2. fagulhadeideias
    abr 26, 2016 @ 10:54:22

    Luciana,
    É um privilégio tê-la como leitora do blog. Obrigada pelo comentário tão generoso!

    Responder

  3. Mariana Soledade
    abr 26, 2016 @ 12:32:18

    Oi, Paula!
    Vi os primeiros pontos dessa manta, você me mostrou a foto! Cores lindas! Deve ter ficado uma beleza!
    Parabéns por enfrentar o desafio que é o trabalho manual, haja paciência e dedicação!
    Bjs.
    Mariana

    Responder

  4. fagulhadeideias
    abr 26, 2016 @ 14:44:43

    Olá Mariana,
    Sem falsa modéstia ficou mesmo muito bonita. Gostei de ter recomeçado uma atividade que ao mesmo tempo que relaxa também é produtiva.
    Beijo

    Responder

  5. Celina
    abr 27, 2016 @ 06:53:01

    Fiquei muito curiosa para ver os quadradinhos coloridos! Será que combinam, será que são do tom da fita de cetim do embrulho? Beijo da Celina

    Responder

  6. fagulhadeideias
    abr 27, 2016 @ 09:52:47

    Cê, a manta é nas cores da campeã das escolas de samba deste ano. Afinal minha sobrinha-neta é metade carioca 🙂

    Responder

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