Está na hora de visitar o inimigo

o-filho-do-terroristaRecentemente estive no Rio de Janeiro e, como sempre, fui visitar a livraria onde trabalhei por quase dois anos.  Queria saber quais eram as novidades e comprar o presente de aniversário de minha cunhada, que também gosta muito de ler.

Para mim não procurava nada de especial. O tamanho da pilha que me aguarda em casa faz com que freie o meu impulso consumista. Foi então que a vendedora me mostrou A arte da quietude; aventuras rumo a lugar nenhum dizendo que era a minha cara.

Já havíamos conversado outras vezes sobre nossas leituras, mas achei curioso o livro que ela me oferecia. Que opinião teria sobre mim?  De uma pessoa calma, tranqüila? Mal sabe ela que há anos não sai do topo da minha lista de boas intenções começar a fazer meditação. Um projeto que já iniciei e abandonei diversas vezes. Bom, não custava nada um empurrãozinho adicional, principalmente vindo de um palestrante das conferências TED.

O livro faz parte de uma coleção, por enquanto composta de quatro títulos, que reproduzem as palestras proferidas por especialistas. Os TEDBooks possuem formato pequeno, capa dura e sobrecapa. No interior trazem fotografias referentes ao tema de cada livro.

Além do que a vendedora me mostrou, já foram publicados A matemática do amor – padrões e provas na busca da equação definitivade Hannah Fry; O futuro da arquitetura em 100 construções, de Marc Kushner e O filho do terrorista – A história de uma escolha, de Zak Ebrahim. Pois foi este último que me interessou mais, principalmente depois dos últimos ataques perpetrados por extremistas islâmicos no início deste mês na Bélgica.

O que tem a nos dizer uma pessoa que foi criada entre duas culturas tão distintas? O autor nasceu nos EUA, mas seu pai, mesmo estando preso, foi um dos responsáveis pelo atentado à bomba no World Trade Center em 1993. Como conseguiu escapar da influencia fanática do pai e da comunidade onde nasceu?

Mais do que nunca precisamos conhecer o pensamento dos jovens que são aliciados pelos terroristas. Não sou a única a acreditar que se se sentissem respeitados e com perspectivas concretas de inclusão social e econômica, o chamado sedutor dos extremistas deixaria de fazer sentido. Precisamos construir pontes, chamá-los para mais perto de nós, visitar suas casas e apreciar o que eles têm para nos oferecer. Desconfiança gera ignorância e medo. Quem tem medo, se defende e agride. Está na hora de conhecer o nosso “inimigo”.

 

 

  • O filho do terrorista: A história de uma escolha

Zak Ebrahim

Editora Alaúde (coleção TED Books)

R$ 35,00

  • A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum

Pico Iyer

Editora Alaúde (coleção TED Books)

R$ 35,00

  • A matemática do amor: padrões e provas na busca da equação perfeita

Hannah Fry

Editora Alaúde (coleção TED Books)

R$ 42,00

  • O futuro da arquitetura em 100 construções

Marc Kushner

Editora Alaúde (coleção TED Books)

R$ 52,50

 

Duas boas leituras

Escrevendo-com-a-almaNão costumo ler dois livros ao mesmo tempo, mas como os assuntos pareciam ser bem diferentes, supus que a leitura de um não interferiria na compreensão do outro. Tive, portanto, a grata surpresa quando percebi que ambos terminavam por falar do mesmo tema: A paixão pela escrita.

O objetivo de Escrevendo com a Alma – liberte o escritor que há com você de Natalie Goldberg é claro. Apesar de desejar muito escrever, não é fácil encarar a tela ou a folha de papel em branco. Como se tivesse lido meus pensamentos, a jornalista Gloria Steinem disse por mim: “eu não gosto de escrever, eu gosto de ter escrito.”

Por isso procuro me cercar de livros que estimulem o escrever, tomando cuidado para não imitar o sujeito que, ao querer emagrecer, matriculou-se numa academia de ginástica mas nunca a frequentou.

Recentemente ouvi uma entrevista com Zuenir Ventura onde ele também dizia que não gostava de escrever, mas como não sabia fazer outra coisa na vida, não tinha alternativa senão fazê-lo. Comentou que para todo o lugar aonde ia carregava um caderno escolar bem baratinho, daqueles com capa mole fácil de dobrar, e o guardava numa sacola ou no bolso do casaco. Como preciso treinar o escritor que existe em mim, no dia seguinte comprei o meu “caderno-tênis”. Motivação não me falta, agora é correr atrás da força de vontade. discurso_do_tempo_alta_jpg

O segundo livro foi O discurso do tempo do escritor baiano Marcos A.P. Ribeiro. Trata-se de um romance de formação no qual o autor, ao narrar sua infância numa cidade do interior baiano e depois na capital, procura entender por que demorou tanto a abraçar sua verdadeira paixão e a reconhecer seu verdadeiro lugar no mundo. Não foi fácil romper com as amarras de um futuro seguro e pré-estabelecido, principalmente quando se possui um temperamento introvertido.

Admito que iniciei a leitura sem saber o que esperar de uma narrativa passada numa região pouco atraente e com personagens oriundos de uma  família classe média sem grandes conflitos.  Entretanto, a história me agarrou logo na primeira frase: “Muitos anos depois, soube por que ele mantinha os olhos baixos e a expressão dissimulada na comemoração de meus quatro anos.

À medida que embrenhava na leitura, reparei que o autor tinha genuíno prazer em construir frases que fluissem com elegância. Com observações muito pessoais sobre seus sentimentos e o meio social onde circula, o autor oferece um texto íntimo merecedor de ser conhecido.

 

  • Escrevendo com a Alma

Natalie Goldberg

Editora Martins Fontes

R$ 34,90

 

  • O discurso do tempo

Marcos A. P. Ribeiro

Editora 7 Letras

R$ 29,00

Livro-Objeto

Helmut Newton

Coffee Table Book da editora Taschen

Tenho uma irmã que com um simples arregaçar das mangas, uma ajeitada na gola ou um acessório irreverente consegue valorizar uma roupa.  Respeito também quem sabe mudar um móvel de lugar, colocar um vaso perto de um objeto de arte e, assim, renovar qualquer ambiente. Sou péssima em ambas as atividades e sempre que posso recorro à ajuda de uma profissional da área.

Após o comentário inicial posso falar do meu profundo desagrado quando vejo um livro ser tratado por um arquiteto ou decorador como algo meramente decorativo. Explico melhor. Trabalhei numa livraria que oferecia uma grande variedade de livros importados, os famosos Coffee Table Books. Normalmente são edições luxuosas com belíssimas fotografias e pouco texto.

Nada contra a utilização dos livros na decoração de uma sala. Inclusive, eu mesma faço isso.  Mas o que me incomodava profundamente era quando a decoradora entrava na loja – às vezes sozinha, outras vezes acompanhada pela cliente – e escolhia os livros de acordo com as dimensões da mesa onde iriam ser colocados. Outro critério adotado eram as cores das capas que deveriam, obrigatoriamente, combinar com os tecidos do sofá e com os quadros pendurados nas paredes. Do que se tratava o livro, ninguém tinha interesse em saber. Seu papel era transmitir uma imagem sofisticada e culta dos donos da casa.

Lembro especificamente de uma profissional que escolheu quatro livros de tamanhos diferentes que pretendia empilhar mais tarde em forma de pirâmide. Sua única preocupação era que as cores das lombadas fossem em tons de cinza azulado. Quanto à capa do que ficaria visível, no topo da pilha, pouco importava, porque estaria escondida debaixo de um objeto ainda a ser comprado.

Na época, bem que tentei argumentar que os livros deviam refletir a personalidade dos donos da casa.  Eles apreciavam o quê? Arte, fotografia, vinhos, automóveis, cinema, viagens? Que os livros revelassem os gostos dos moradores!

Minhas considerações entravam por um ouvido e saíam por outro. Esses livros não eram para ser apreciados, por isso o peso de papel, a escultura, o paliteiro de prata colocado em cima. Que visita seria tão deselegante a ponto de desarrumar uma decoração tão bem elaborada apenas para folhear um livro?

Recentemente, acompanhei uma amiga numa consulta a um cirurgião plástico.

Enquanto aguardávamos, aprovei a sala de espera decorada com elegância. Fotografias de artistas baianos consagrados enfeitavam as paredes e, diante de mim, uma mesinha com as revistas de sempre. Sobre outra menor, colocada entre a minha cadeira e a de minha amiga, um livro grosso praticamente cobria o tampo. Por cima dele, um intimidante bowl de Murano desencorajava o seu manuseio.

Curiosa, coloquei o objeto de lado e li o titulo: Small Luxury Hotels. Parecia interessante… Ajeitei-me melhor para pegá-lo com segurança, mas, assim que fiz isso, levei um susto. O livro ainda se encontrava envolto no plástico protetor que fora colocado na gráfica. Ele nunca tinha sido aberto! Destituído de sua função primordial, sua essência não podia ser conhecida. Ele virara um livro-objeto!

Desgostosa, coloquei-o de novo no lugar e repus a indefectível peça de cristal.

Concurso Literário aqui vamos nós!

Mesa de trabalho da ilustradora Rebeca Silva

Mesa de trabalho da ilustradora Rebeca Silva

Os tempos sempre foram bicudos para os novos escritores e o autor precisa encontrar alternativas às editoras que educadamente se recusam a publicar ou simplesmente ignoram os textos recebidos. Uma opção para escapar a esse funil apertadíssimo são os concursos literários.

Em breve vou colocar no correio uma história infantil cujo título original era Os periquitos da Vovó. Entretanto, modifiquei-o porque fui alertada do duplo sentido do título, que ingenuamente não percebi.

A segunda alteração foi no final do texto, quando a mãe chega com muita pressa para pegar a filha na casa da avó. O motivo inicial de sua afobação era por ter deixado o carro mal estacionado. Receosa de que os jurados pudessem achar que estava incentivando uma prática nada recomendável, acabei trocando por uma banal ida à lavanderia para buscar uma roupa.

Também fui advertida que o tema poderia incomodar algumas pessoas mais sensíveis por falar da venda de animais e sua manutenção em cativeiro. Já não bastasse a luta interna que travo contra a insegurança, ainda preciso me preocupar com os censores externos. Mas quanto ao enredo da história bati pé firme e não cedi um milímetro, ou era do meu jeito ou nada feito!

A categoria do concurso na qual me inscrevi é livro infantil ilustrado. Como Flávia Bomfim, a ilustradora do meu primeiro livro, estava assoberbada de trabalho e viajando muito, indicou-me Rebeca Silva, uma jovem ilustradora baiana.

Sem nunca nos termos visto, marcamos o nosso primeiro encontro dentro de uma livraria. Ela confundiu os horários e chegou quase uma hora depois. Mesmo assim, me encantei com seu jeito suave e gentil.

Voltamos a nos ver mais uma vez. Ela me mostrou o esboço dos três personagens e fiquei tão satisfeita que não quis que me mostrasse mais nada. Minha confiança em seu trabalho é total e quero ser surpreendida quando me entregar as ilustrações que irão acompanhar o texto.

Se ganharmos o concurso dividiremos o prêmio meio a meio: quinhentos exemplares para cada uma. Se perdermos, já temos um livro muito lindo, prontinho para mostrar às editoras.

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