A Senhora da Casa do Rio Vermelho

Casa do Rio Vermelho

O Museu Carlos Costa Pinto continua sendo um dos meus lugares favoritos para levar os amigos que visitam Salvador pela primeira vez. Entretanto, desde que a casa onde Jorge Amado e Zélia Gattai moraram abriu para visitação, tenho outro lugar para lhes mostrar.

Ela fica numa rua escondida do Rio Vermelho. O bairro acaba de passar por uma grande intervenção paisagística e, como não poderia deixar de ser, recebeu críticas e também aplausos.

Entretanto, a Casa do Rio Vermelho, como carinhosamente é conhecida, é uma unanimidade. Não há quem não saia de lá encantado com o memorial criado pelo talentoso arquiteto e cenógrafo gaúcho Gringo Cardia.

Um quiosque localizado no jardim reproduz vídeos com depoimentos dos amigos do escritor comentando sobre ele e a sua obra. Em outro, revestido de objetos e sons do candomblé, o visitante é apresentado à forte ligação que o dono da casa mantinha com essa religião.

Os quartos originais da casa viraram salas ou vitrines onde estão expostos fotografias, roupas, livros e objetos colecionados ao longo de uma vida. A maioria das exposições é interativa e apertando um botão aqui outro ali, o visitante escuta trechos dos livros de Jorge; lê cartas trocadas pelo casal; conhece o momento histórico brasileiro que os levou ao exílio político; além de aprender com a exuberante quituteira Dadá a preparar deliciosas receitas da culinária baiana.

Sempre que termino a visita tenho a impressão de estar saindo de um lugar alto astral. Imagino as reuniões promovidas pelo casal – descontraídas e animadas – regadas a muito uísque, água de coco e suco de seriguela.

Da última vez que estive na casa ganhei de uma amiga carioca um livro de Zélia Gattai: Senhora Dona do Baile.

Não conhecia o trabalho da escritora e apreciei bastante a leveza de sua prosa. Leve, não por ser superficial – muito pelo contrário! – mas por narrar acontecimentos marcantes, assim como outros de menor importância, sempre com perspicácia e um maravilhoso senso de humor.

Zélia começou a escrever, ou melhor, só teve seus livros publicados muito tarde, quando tinha 63 anos. O ofício não lhe era estranho, afinal era ela quem datilografava e revia todos os livros do marido.

Ao se olhar com atenção um dos mapas exposto na Casa do Rio Vermelho ficasse impressionado com a quantidade de viagens feitas pelo casal. Pode-se dizer, sem medo de errar, que eles deram a volta ao mundo! E o mais impressionante, numa época em que essa atividade requeria uma logística complexa e era privilégio de poucos.

No ano em que completaria 100 anos, faço um brinde a essa mulher de olhar luminoso que, sem o saber, estimulou outra a não desistir de também ser escritora, mesmo que tardiamente.

 

Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.”  (Zélia Gattai)

 

  • Senhora Dona do Baile

Zélia Gattai

Editora Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,00

 

  • Memorial Casa do Rio Vermelho

R. Alagoinhas, 33 – Rio Vermelho

(71) 3333-1919

Funcionamento de terça a domingo das 10 h às 17 h

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