O clube do livro do fim da vida

O-clube-do-livro-do-fim-da-vidaDurante quase dois anos O clube do livro do fim da vida fez parte da minha lista de desejos. Qual não foi a minha satisfação quando o ganhei de presente de aniversário.

Entretanto, esperas prolongadas costumam provocar expectativas que muitas vezes terminam em decepções. Foi, portanto, com certo receio que iniciei sua leitura.

Minha insegurança durou pouco. Fui logo cativada pela nota inicial do autor onde ele compartilhou uma frase que sua mãe costumava dizer: “Faça o seu melhor, e é só isso que pode fazer”. Se era com essa leveza que se tocava a vida, a leitura prometia ser descontraída e acolhedora.

A história se apóia em dois pilares. O primeiro são as leituras que Mary Anne compartilhou com o filho Will, autor deste livro. O segundo é ela mesma.

Ao ser diagnosticada com um câncer, Will começou a acompanhá-la às sessões de quimioterapia. Para torná-las menos desagradáveis, criaram um clube de leitura só para eles. Enquanto Mary Anne se submetia ao tratamento, os dois conversavam sobre personagens e trechos do livro que lhes tinham tocado.

Quando dei por mim, estava anotando numa folha de papel algumas sugestões que me interessaram: Encontro em Samara de John O’Hara ; Os detetives selvagens de Roberto Bolaño; Gilead de Marilynne Robinson;  A mordida da manga de Mariatu Kamara.

Outras indicações eu já conhecia: O ano do pensamento mágico de Joan Didion; Um delicado equilíbrio de Rohinton Mistry ; Os homens que não amavam as mulheres de Stieg Larsson.

Um livro em especial chamou minha atenção: A elegância do ouriço de Muriel Barbery. Não recordo qual foi o motivo, mas lembro que nos primeiros capítulos – e apesar dos elogios de diversas pessoas cujo gosto literário combina com o meu – o deixei de lado. Agora que confiava nas opiniões literárias do autor e sua mãe, talvez estivesse na hora de lhe dar uma segunda chance.

À medida que a leitura de O clube do livro do fim da vida se encaminhava para o final, percebi que deliberadamente a estava retardando. Não porque não estivesse gostando, mas porque sabia que quando o livro terminasse, a mãe do autor estaria morta. Mesmo sabendo que isso já acontecera na vida real, não queria que fosse verdade. Eu me afeiçoara a Mary Anne, queria conhecê-la!

Tudo bem que fui apresentada a ela pelo olhar amoroso do filho, mas como não me encantar por essa senhora cheia de energia, que gostava genuinamente das pessoas e lhes oferecia algo muito precioso, e que ultimamente anda bem escasso: Atenção. Ela as escutava e para todas tinha uma palavra amiga e um sorriso.

Desde muito jovem, sempre se envolveu em causas sociais. A família era importante, principalmente os netos, mas por mais de vinte anos visitou campos de refugiados e dedicou-se em aliviar seus sofrimentos. Sempre que possível, ajudou vários a refazerem suas vidas longe dos conflitos e zonas de guerra.

Sua crença no poder transformador e agregador da literatura, levou-a a lutar pela implantação de uma biblioteca em Cabul capital do Afeganistão. Essa foi sua última empreitada.

Acho que Mary Anne ficaria feliz se soubesse que sua vida – assim como o livro – inspirou muita gente inclusive a mim.

 

  • O clube do livro do fim da vida

Will Schwalbe

Editora Objetiva

R$ 39,90

E-Book  R$ 24,90

Terra dos Gigantes

Terra dos GigantesTodo final de ano me deleito escolhendo o tema para o novo calendário ilustrado que irei pendurar na parede da cozinha. Já o tive com pintores impressionistas; propagandas do início do século passado; faróis solitários à beira mar e alpendres de casas norte-americanas. O deste ano foi Arte Ambiental.

Cada mês mostra o trabalho artístico feito por um profissional diferente, colocado em um espaço aberto e sua perfeita integração na natureza. Algumas dessas obras se perpetuarão por dezenas de anos, outras sobreviverão apenas por alguns dias ou até mesmo horas.

Diante da mesa onde costumo rabiscar a lista do que está faltando na despensa, observo a imagem do mês de fevereiro. A paisagem retrata uma região inóspita com montanhas  marcadas por profundos sulcos, e dividida ao meio por um rio de águas serenas e escuras. A monotonia do cenário foi quebrada pela rede de transmissão de energia elétrica.

O interessante é que não se trata de uma rede convencional. Cada torre ou pilar é uma escultura estilizada de um ser humano. De braços erguidos essas representações artísticas são os suportes para os fios de alta tensão elétrica.

Impossível não se extasiar com a criatividade e leveza do projeto dos arquitetos Jin Choi e Thomas Shine. As torres além de se integrarem maravilhosamente à imensidão que as rodeia também a valorizam. E aquela região agreste passou a ser conhecida como A Terra dos Gigantes.

Entretanto o que mais me chamou a atenção foi a sensibilidade dos governantes em unir as necessidades elétricas da população a uma obra de arte.

Não conheço a Islândia, mas imagino que se já estão embelezando regiões remotas é porque o essencial está ao alcance de todos. Talvez, mas também é possível que os islandeses acreditem que a valorização de qualquer expressão artística – seja teatro, música, literatura ou artes plásticas – reforça a cidadania, além de estimular os indivíduos a serem mais exigentes de seus direitos e cumpridores de seus deveres.

Quem sabe um dia chegaremos lá.

A Senhora da Casa do Rio Vermelho

Casa do Rio Vermelho

O Museu Carlos Costa Pinto continua sendo um dos meus lugares favoritos para levar os amigos que visitam Salvador pela primeira vez. Entretanto, desde que a casa onde Jorge Amado e Zélia Gattai moraram abriu para visitação, tenho outro lugar para lhes mostrar.

Ela fica numa rua escondida do Rio Vermelho. O bairro acaba de passar por uma grande intervenção paisagística e, como não poderia deixar de ser, recebeu críticas e também aplausos.

Entretanto, a Casa do Rio Vermelho, como carinhosamente é conhecida, é uma unanimidade. Não há quem não saia de lá encantado com o memorial criado pelo talentoso arquiteto e cenógrafo gaúcho Gringo Cardia.

Um quiosque localizado no jardim reproduz vídeos com depoimentos dos amigos do escritor comentando sobre ele e a sua obra. Em outro, revestido de objetos e sons do candomblé, o visitante é apresentado à forte ligação que o dono da casa mantinha com essa religião.

Os quartos originais da casa viraram salas ou vitrines onde estão expostos fotografias, roupas, livros e objetos colecionados ao longo de uma vida. A maioria das exposições é interativa e apertando um botão aqui outro ali, o visitante escuta trechos dos livros de Jorge; lê cartas trocadas pelo casal; conhece o momento histórico brasileiro que os levou ao exílio político; além de aprender com a exuberante quituteira Dadá a preparar deliciosas receitas da culinária baiana.

Sempre que termino a visita tenho a impressão de estar saindo de um lugar alto astral. Imagino as reuniões promovidas pelo casal – descontraídas e animadas – regadas a muito uísque, água de coco e suco de seriguela.

Da última vez que estive na casa ganhei de uma amiga carioca um livro de Zélia Gattai: Senhora Dona do Baile.

Não conhecia o trabalho da escritora e apreciei bastante a leveza de sua prosa. Leve, não por ser superficial – muito pelo contrário! – mas por narrar acontecimentos marcantes, assim como outros de menor importância, sempre com perspicácia e um maravilhoso senso de humor.

Zélia começou a escrever, ou melhor, só teve seus livros publicados muito tarde, quando tinha 63 anos. O ofício não lhe era estranho, afinal era ela quem datilografava e revia todos os livros do marido.

Ao se olhar com atenção um dos mapas exposto na Casa do Rio Vermelho ficasse impressionado com a quantidade de viagens feitas pelo casal. Pode-se dizer, sem medo de errar, que eles deram a volta ao mundo! E o mais impressionante, numa época em que essa atividade requeria uma logística complexa e era privilégio de poucos.

No ano em que completaria 100 anos, faço um brinde a essa mulher de olhar luminoso que, sem o saber, estimulou outra a não desistir de também ser escritora, mesmo que tardiamente.

 

Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.”  (Zélia Gattai)

 

  • Senhora Dona do Baile

Zélia Gattai

Editora Companhia das Letras

R$ 59,90

E-Book R$ 39,00

 

  • Memorial Casa do Rio Vermelho

R. Alagoinhas, 33 – Rio Vermelho

(71) 3333-1919

Funcionamento de terça a domingo das 10 h às 17 h

A Redoma de Vidro

Redoma-de-vidroHá posts que são difíceis de escrever como o quê! De tão bom que o livro é, tenho a impressão que tudo o que disser será pouco e banal. Estou falando de A Redoma de Vidro, da escritora norte-americana Sylvia Plath.

Trata-se de um romance semi-autobiográfico. Nele, a autora transfere para Esther, uma jovem brilhante e com um futuro promissor, sua luta contra a depressão e os recorrentes pensamentos suicidas.

Esther tem a impressão de desvanecer dentro de uma intransponível redoma de vidro. O que se passa fora dela é inatingível e desinteressante.

Sempre imaginei a depressão como um nevoeiro denso e pegajoso, impossível de ser compreendida por quem está fora dela. Entretanto, a autora por conhecê-la intimamente, desvenda-a com lucidez e clareza e o leitor acompanha angustiado o deslizar contínuo e sem freios de uma vida motivadora, repleta de possibilidades, para outra em que nada mais interessa ou faz sentido.

A escrita de Sylvia é muito visual e poética, mesmo quando retrata o tratamento de eletrochoques:

Dr. Gordon colocou duas placas de metal nas minhas têmporas (…) então alguma coisa dobrou-se dentro de mim e me dominou e me sacudiu como se o mundo estivesse acabando. Ouvi um guincho, iiii-ii-ii-ii-ii, o ar tomado por uma cintilação azulada, e a cada clarão algo me agitava e moía e eu achava que meus ossos se quebrariam e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio.

Ou uma tentativa frustrada de acabar com a própria vida:

Avancei rumo ao fundo, mas, antes que eu pudesse saber onde estava, a água tinha me cuspido de volta para o sol, as coisas cintilando ao meu redor como pedras semipreciosas – azuis, verdes e amarelas.

A Redoma de Vidro é um livro vigoroso e belo. Infelizmente sua criação não foi suficiente para auxiliar a autora a expulsar seus demônios internos. Algumas semanas depois da publicação do livro, Sylvia Plath suicidou-se.

 

  • A Redoma de Vidro

Sylvia Plath

Biblioteca Azul

R$ 39,90

E-Book R$ 27,90

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