Primatas da Park Avenue

Primatas-da-park-avenueNão sei por que, mas sempre associei o estudo da antropologia a pesquisas efetuadas em aldeias remotas, onde os habitantes tiveram pouquíssimo contato com o chamado mundo civilizado. Como se tudo que está perto de nós já fosse por demais conhecido, e não causasse mais espanto.

Pois o livro de Wednesday Martin fez ruir por terra essa minha crença.

Primatas da Park Avenue retrata um grupo humano, não muito numeroso, que reside em um pedacinho específico da cosmopolita ilha de Manhattan: os moradores de Upper East Side. O grupo dos mega, mega ricos.

Na faculdade a autora estudou um pouco de antropologia, e com um olhar científico, distanciado e curioso, procura compreender essa tribo onde entrou meio que por acaso.

As regras para fazer parte dessa exclusiva tribo são duríssimas. Como achar normal, pelos padrões brasileiros, que para ser aceito como morador de um prédio seja necessário informar o número dos cartões de créditos (!!), o coeficiente acadêmico que se tirou na faculdade ou dizer em que escolas seus pais estudaram e quais são as que seus filhos frequentam?

Como admitir que outras mulheres não respondam ao seu educado cumprimento de bom dia, simplesmente porque não se faz parte do circulo de amizades delas, ou não se tem a bolsa considerada como a correta pelo grupo?

Por falar em bolsa, o livro tem todo um capítulo falando sobre esse objeto. Aquela que é o supra-sumo de todas. O símbolo máximo de status: a bolsa Birkin produzida pela Casa Hermès.

O modelo básico começa em 8.000 dólares e o mais caro segundo, a autora, pode ultrapassar os 150.000 dólares (não, você não leu errado). Curiosa sobre o tema, aprofundei minha pesquisa na internet e encontrei outra bolsa Birkin à venda por escandalosos 432.000 dólares*!!! Fico imaginando se é possível pedir para arredondar esse valor, conseguir um desconto de dois mil dólares e oferecê-los como gratificação à vendedora.

Com o mesmo interesse que me debruçaria sobre os costumes de uma tribo canibal nos confins da Amazônia, mergulhei fascinada nesse mundo onde mulheres engavetam diplomas obtidos nas melhores universidades do país e voluntariamente se metamorfoseiam em gueixas capitalistas.

Se para os padrões americanos essa comunidade é altamente exótica, a ponto de merecer um livro, como qualificá-la segundo os parâmetros dos habitantes do hemisfério sul do continente? Surreal? Apesar de que, pensando bem, consigo imaginar um pequeno grupo de brasileiras vivendo esses mesmos dilemas.

 

  • Primatas da Park Avenue

Wednesday Martin

Editora Intrínseca

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

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