O que Nina e Ilda me contaram

Livros GastronomiaGostaria que tivessem escutado a conversa que travei comigo mesma na livraria.

– Não Paula, outro livro de culinária, não. Na verdade, você não quer um só, mas dois! Esqueceu-se das duas prateleiras lotadas com esse tipo de livro, que estão no escritório? E você nem sabe cozinhar!

– Mas eles não são exatamente livros de culinária, são de gastronomia… – respondeu o outro eu – São de literatura! Um, conta a trajetória profissional da portuguesa Ilda Vinagre, chef do restaurante paulistano A Bela Sintra, e como sou portuguesa, tenho que prestigiar! O outro são as crônicas gastronômicas de Nina Horta, e ela escreve tão bem…

Fiquei nesse impasse pensando nos prós e nos contras de mais uma compra feita por impulso e sentei-me numa poltrona para apreciá-los melhor.

A minha intenção era escolher apenas um, nada mais. Meu aniversário será no mês que vem e sei que vou receber vários livros de presente. Inclusive já preparei uma lista caso alguém me pergunte o que quero ganhar.

Comecei por Saudade tem gosto. Mas, como não ser arrebatada por uma citação de José Saramago que não conhecia, o destino desconhece a linha reta ou pela receita de bacalhau Fernando Pessoa?

E o que dizer da crônica em O Frango ensopado da minha mãe que conta a história de uma senhora alto astral já entrada nos anos, que é levada às pressas para o hospital porque ingeriu uma dose excessiva de calmantes? O motivo? Não aguentava mais escutar a cozinheira perguntar todos os dias: O que eu faço pra janta? Céus! Como a compreendo!

Preciso contar como terminou esse meu dilema? Quem me conhece tem certeza que, assim que terminar de lê-los, irão se espremer na estante junto com os demais livros de culinária ou gastronomia (não importa o nome), ou então iniciar uma terceira prateleira.

Arrependimento? Nenhum!

 

  • Saudade tem gosto

Ilda Vinagre

Editora Melhoramentos

R$ 45,00

 

  • O Frango Ensopado da Minha Mãe

Nina Horta

Editora Companhia das Letras

R$ 44,90

E-Book R$ R$ 30,90

 

A Garota no Trem

Capa A Garota no Trem AG.aiTomara que você esteja com tempo para mergulhar no suspense psicológico A Garota no Trem da escritora inglesa Paula Hawkins. O livro é daqueles que quando se começa a ler não se quer mais parar.

Se estiver soterrado por afazeres e compromissos, deixe-o guardado para quando entrar de férias. Senão seu pensamento vai ficar distante, enredado num labirinto de informações e pistas falsas criadas pela imaginação fértil da personagem principal.

A história é narrada por Raquel uma mulher ainda jovem, recém-divorciada, que de segunda a sexta pega o trem para Londres fingindo que vai trabalhar. Na verdade ela não tem coragem de contar a ninguém que foi demitida por causa de seu problema com a bebida. Ela é alcoólatra e, quando exagera, não consegue lembrar depois o que disse ou o que fez.

De dentro do vagão, Raquel vê os quintais das casas que margeiam a linha do trem. Em uma delas mora um casal que ela não conhece, mas que imagina levar a vida que sempre desejou para si: uma união afetiva harmoniosa. Uma vida que chegou a conhecer, mas que infelizmente perdeu por causa de seu descontrole com a bebida.

Certa manhã, ela vê algo perturbador acontecendo no quintal do casal. Pouco tempo depois, a foto da jovem que tanto endeusava está estampada na primeira página dos jornais, noticiando o seu desaparecimento.

Raquel acha que tem informações que poderão ajudar a encontrar Megan – esse é o nome da jovem, mas ninguém a leva a sério. Afinal, se não consegue lembrar o que fez na véspera como pode ter certeza do que viu quando olhou pela janela de um trem?

O romance parece um quebra cabeças distorcido. Quando um pedaço encaixa no outro, logo aparece mais um para ocupar esse mesmo lugar. À versão de Rachel se contrapõem e complementam as interpretações de Megan e a de Anne, atual mulher do ex-marido de Rachel.

Quem avisa amigo é. Se embarcar nesse trem não vai querer saltar até descobrir toda a verdade. Definitivamente uma leitura viciante.

(Como era de se esperar o livro já está sendo adaptado para o cinema. O desenrolar da história que ocorre nos subúrbios de Londres foi transferido para os de Nova Iorque. Gostei da escolha da  atriz Emily Blunt para representar Rachel. O filme deve chegar às salas de cinema em outubro de 2016.)

 

  • A Garota no Trem

Paula Hawkins

Editora Record

R$ 35,00

E-Book R$ 24,00

Elas vêm da Bahia

Eu Vim da Bahia

Minha intenção inicial era falar apenas da recém-lançada coleção EU VIM DA BAHIA da Caramurê Publicações.

Composta de seis títulos, ela apresenta personalidades baianas que talvez o jovem leitor não conheça ainda.

É verdade que quase todo mundo aqui na Bahia já ouviu falar no poeta Castro Alves. Se não leu a sua obra poética, pelo menos sabe onde fica a praça que leva seu nome e possui uma das vistas mais bonitas da baia de Todos-os-Santos, além de ser ponto de encontro dos trios elétricos em dias de Carnaval.

Há, no entanto, outros nomes menos populares como o do geógrafo e historiador Theodoro Sampaio. Os outros personagens contemplados pela coleção são o educador Anísio Teixeira, a enfermeira Ana Nery, a mãe de santo Tia Ciata e o geógrafo Milton Santos.

A coleção é muito bonita, feita no maior capricho pelo artista plástico e editor Fernando Oberlaender.

Gostei muito de saber que o papel utilizado para imprimir as histórias foi produzido a partir de plásticos reciclados. Ele também é especial porque não rasga e não molha, sendo perfeito para ser manuseado por muitas mãozinhas infantis.

Mas algo mais chamou minha atenção. Corre nos meios de comunicação um movimento intitulado #AgoraÉqueSãoElas, no qual as mulheres são convidadas pelos homens a utilizar o espaço onde eles costumam escrever para falar de suas conquistas e desafios.

O site da Publishnews disponibilizou um artigo de Maria José Silveira. Segundo a escritora, o tratamento de gênero é desigual inclusive no universo literário:

A literatura escrita por mulheres brasileiras é muito menos conhecida do que a literatura escrita por homens brasileiros”.

Pode até ser verdade, mas com certeza isso não se aplica à literatura infanto-juvenil. Coincidência ou não, a coleção EU VIM DA BAHIA é formada só por escritores mulheres: Adelice Souza, Ayêsca Paulafreitas, Lena Lois, Mabel Velloso, Maria Antônia Ramos e Neide Cortizo. Quanto aos ilustradores, as mulheres são a maioria: Daiane Oliveira, Janete Kislansky, Neide Cortizo e Rebeca Silva, “contra” Mike Sam Chagas e Paulo Rufino.

Palmas para elas, palmas para o editor. Aqui na Bahia as mulheres vêm na frente!

 

  • Ana, meu avô e eu (Ana Nery)

Maria Antônia Ramos Coutinho / Janete Kislansky

  • Cecéu, Poeta do Céu (Castro Alves)

Adelice Souza / Daiane Oliveira

  • O Menino e o Globo ( Milton Santos)

Ayêska Paulafreitas / Mike Sam Chagas

  • Tia Ciata e um sonho de menina (Tia Ciata e a história do Samba)

Lena Lois / Paulo Rufino

  • Quem está aí? (Anísio Teixeira)

Neide Cortizo (texto e ilustrações)

  • Theodoro, uma viagem no ontem (Theodoro Sampaio)

Mabel Velloso /Rebeca Silva

 

(cada título custa R$ 34,00)

 

 

 

 

 

A Segunda Pátria

A-segunda-patria

O bom de ser escritor é que se pode inventar qualquer história. Quer seja a mais bela e fantasia ou o pior dos pesadelos.

Pois é desse segundo tipo a narrativa de Miguel Sanches Neto em A Segunda Pátria.

Imagine o leitor se, em troca de apoio científico, industrial e econômico, o presidente Getúlio Vargas tivesse feito um pacto com Hitler e concordasse com a implantação de um posto avançado germânico no sul do Brasil.

Ali, a língua oficial seria a dos colonos alemães e nas escolas os alunos aprenderiam a ideologia nazista. Os judeus seriam deportados para a Alemanha, negros e mestiços confinados em galpões, forçados a trabalhar como escravos, e as mulheres tratadas como meras reprodutoras da raça ariana.

Por mais esquizofrênico que esse cenário possa parecer, convém lembrar que no final da década de trinta o maior aliado comercial do Brasil era o governo nazista, e, como demonstração de boa vontade, o governo brasileiro criou um sem número de dificuldades para impedir a entrada de judeus no país.

Gostei muito de A Segunda Pátria e de seu final surpreendente.

Quando terminei a leitura fiquei imaginando o que poderia ter acontecido se a Alemanha tivesse ganhado a guerra. Até onde teriam chegado os tentáculos de sua ideologia belicosa e eugênica? Balancei com força a cabeça para expulsar esse pensamento. Mas uma frase dita por um dos personagens principais permaneceu:

Mãos acostumadas às armas dificilmente amam virar páginas.

 

  • A Segunda Pátria

Miguel Sanches Neto

Editora Intrínseca

R$ 34,90

E-Book R$ 14,90

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