Do Canadá à Bíblia

a-mulher-que-escreveu-a-biblia2Recentemente encontrei uma amiga que não via há algum tempo. Como sempre acontece, depois de contarmos o que cada uma fizera ultimamente, começamos a falar sobre os filhos.

Orgulhosa, comentou que seu único filho estava fazendo um curso no Canadá.

Perguntei brincando se estava sofrendo a síndrome do ninho vazio.  Ela, sorridente, afirmou que estava longe de sofrer desse mal. Primeiro porque tudo ia bem, tanto na vida profissional quanto na amorosa. Segundo porque, apesar da distância e das saudades, estava mais tranquila com ele morando fora do país. Aqui, toda a vez que o filho demorava um pouco mais a chegar a casa, preocupava-se que tivesse sofrido um assalto ou um acidente de carro. Lá, ele andava de transporte público seguro, a violência era praticamente nula, estava ganhando fluência numa língua estrangeira e aprimorando o currículo profissional. Que mais poderia uma mãe desejar? Se as saudades fossem o preço a pagar, ela o pagaria de bom grado.

É curioso como nossas mentes funcionam e fazem digressões inexplicáveis. Só sei que o comentário de minha amiga fez-me lembrar da passagem bíblica em que o rei Salomão demonstrou sabedoria ao decidir quem seria a verdadeira mãe de um bebê disputado por duas mulheres.

É claro que são histórias com finais bem diferentes, mas ambas falam de escolhas feitas em prol da sobrevivência de quem se ama.

Mas o devaneio não parou por aí. Mulheres, Bíblia… Onde estaria aquele livro que li há mais de dez anos e me agradou bastante?  “A mulher que escreveu a Bíblia”, de Moacyr Scliar.

Procurei nas estantes e nada. Mais um que não sobreviveu à limpeza que fiz quando me mudei para o novo apartamento.

Claro que não me lembro dos detalhes, mas recordo que era uma história muito engraçada narrada por uma mulher muito feia e inteligente que, diferentemente de suas congêneres, sabia ler e escrever.

Infelizmente o livro está esgotado na editora. Só mesmo procurando em sebos ou no site Estante Virtual. No entanto, é bom saber que sempre posso comprá-lo na forma de e-book. Incrível como tem gente que ainda menospreza a leitura digital! Obrigada Michael Stern Hart*!

 

*Fundador do projeto Gutenberg o mais antigo produtor de livros eletrônicos do mundo que iniciou a digitalização de livros de domínio público para oferecê-los gratuitamente.

 

  • A mulher que escreveu a Bíblia

Moacyr Scliar

Editora Companhia das Letras

E-Book R$ 19,00

A Dona da História

A-dona-da-históriaPor muito tempo segui o costume de minha mãe que munida de tesoura e cola bastão recortava das revistas e jornais tudo o que lhe interessava, para depois colar num caderno.

Domingo passado decidi fazer uma limpeza em algumas pastas repletas com recortes de crônicas, receitas e resenhas de livros que planejava ler um dia. Não mexia nelas há séculos e consegui encher duas cestas de lixo.

Nesse processo, de separar o que valia a pena guardar, encontrei um artigo do psicanalista Contardo Calligaris, datado de 21 de outubro de 2004, falando de A Dona da História.

Não lembro se o guardei como lembrete para assistir ao filme ou porque o artigo defendia uma ideia que me agrada: a valorização das escolhas que fazemos durante a vida, independentemente de serem glamourosas ou não.

Se soubermos atribuir à nossa vida a qualidade de uma história, reconheceremos sua dignidade.*

Pois bem, foi com um atraso de mais de dez anos que assisti ao filme na internet.  Durante 87 minutos deliciei-me com as interpretações de Marieta Severo, Antonio Fagundes, Débora Falabella e Rodrigo Santoro.

A Dona da História retrata os questionamentos de uma mulher casada há trinta anos com o primeiro namorado. A ela é dada a oportunidade de dialogar com o seu eu mais jovem, e descobrir se tomou a decisão correta quando abriu mão de seus sonhos para se casar com o grande amor de sua vida.

Por que escolhemos ir por um caminho e não por outro? Nossas escolhas, certas ou não, merecem ser valorizadas. São elas que nos fazem ser quem somos e estar onde estamos.

A Dona da História é um filme inteligente e sensível. Nunca é tarde para fazer um brinde às mil e uma possibilidades contidas em uma única vida.

 

* Contardo Calligaris / Folha de S.Paulo – 21 de outubro 2004

Assista ao filme:

http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-a-dona-da-historia-nacional-online.html

O Segredo do Oratório

O-segredo-do-oratorioAs resenhas não podiam ser mais elogiosas e O Segredo do Oratório foi recomendado por uma livreira cujo gosto literário costuma bater com o meu.

O tema também era interessante e cercado de mistérios: a história dos judeus perseguidos pela Inquisição que escolheram o nordeste brasileiro como sua nova pátria. Sob a dominação holandesa viveram tranquilos por quase duas décadas, mas quando estes, em 1654, foram expulsos pelos portugueses, a intolerância religiosa voltou a reinar. Alguns judeus preferiram se embrenhar pelo sertão nordestino, mas aqueles que haviam se convertido ao catolicismo e voltaram a praticar o judaísmo foram encarcerados e enviados de volta a Portugal para serem julgados e condenados sumariamente pelo Santo Ofício.

O romance, propriamente dito, começa no início deste século narrando os esforços de uma jovem paraibana para recuperar a memória de seus ancestrais cristãos-novos. Ela procura provar sua legitimidade como judia e, assim, não precisar passar pelo ritual ortodoxo da conversão.

No entanto, á medida que lia O Segredo do Oratório, me perguntava se estava gostando ou não da leitura.

Se por um lado aprendi bastante, ao ponto de achar que o livro deveria ser adotado como leitura interdisciplinar pelos colégios brasileiros, por outro senti falta de certa leveza literária. Por diversas vezes tive a impressão de estar participando de uma palestra, na qual a autora introduzia as histórias paralelas dos personagens apenas como forma da plateia poder repousar e absorver todas as informações recebidas.

Apesar do didatismo encontrado em O Segredo do Oratório a autora consegue prender atenção do leitor até o final, ao mesmo tempo que resgata a desconhecida herança judaica na formação do povo brasileiro.

 

 

  • O segredo do oratório

Luize Valente

Editora Record

R$ 45,00 (esgotado no momento)

E-Book R$ 27,00

Avó Dezanove e o Segredo do Soviético

Avo-dezanove-e-o-segredo-do-sovieticoRecentemente entrei para um clube de leitura. Por indicação do mediador, lemos Avó Dezanove e o segredo do soviético do escritor angolano Ondjaki.

O corretor de texto automaticamente corrigiu a grafia do número cardinal. Essa palavra é apenas uma das muitas diferenças que existem entre a escrita do português-brasileiro e aquela dos outros países de língua portuguesa, especificamente o de Angola.

A minha primeira impressão foi a mesma de uma colega do grupo, que definiu o texto como uma leitura sonora… como se as palavras fossem feitas de música.

O s livros deOndjaki contam histórias da sua infância – vivida na década de oitenta – quando os ecos de uma guerra civil batiam às portas de Luanda.

Personagens verídicos e fictícios se unem para contar causos de “um tempo em que os mais-velhos chamam de antigamente”.

Em Avó dezanove e o segredo do soviético a história é narrada por um menino que, com a ajuda de dois amigos, pretende salvar o pacato bairro onde mora da demolição. Isso está prestes a acontecer porque na praça central está sendo construído um mausoléu em homenagem ao primeiro presidente angolano, e toda a área ao redor precisará passar por um processo de reurbanização.

Confesso que a história propriamente dita não me empolgou, mas gostei bastante da linguagem sensível de Ondjaki. Como não se encantar com a cumplicidade existente entra a avó e o garoto quando ele diz: “Gosto muito das nossas conversas mesmo quando às vezes não dizemos nada”, ou então “Acho que lembranças são cócegas invisíveis que ficam dentro da gente”. Pura poesia!

O livro Avó dezanove e o segredo do soviético recebeu em 2010 o Prêmio Jabuti na categoria juvenil.

Para conhecer um pouco mais sobre a independência de Angola e compreender por que havia tantos soviéticos e cubanos naquela época, assisti a um vídeo em que Ondajki fala sobre escritores angolanos. No caso específico de Angola, a literatura e a política estão bem interligadas. Vale a pena conferir.

 

 

  • Avó Dezanove e o Segredo do Soviético

Ondjaki

Editora Companhia das Letras

R$ 41,00

E-Book R$ 26,50

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