Dom Sebastião, o desejado

Dom-SebastiaoAntes de Laurentino Gomes “descobrir” o filão literário sobre a História do Brasil e de Portugal, um escritor baiano já se debruçara sobre esse tema, Aydano Roriz.

Inicialmente, seus livros foram publicados pela Ediouro, mas há muito estavam esgotados.

Nunca tinha lido nada dele até que recentemente, numa visita à livraria apenas para ver as novidades, bati o olho em “O desejado – a fascinante história de Dom Sebastião”.

Foi amor à primeira vista e minhas intenções de não comprar absolutamente nada foram por água abaixo.

A contracapa informa tratar-se de (uma) leitura agradável e envolvente, O Desejado é um daqueles romances chamados no jargão internacional de page turner. Um livro tão excitante que não se consegue parar de ler.

Comprovei a veracidade da informação. O livro é ótimo!

O reinado de Dom Sebastião só começa de fato depois de se ler mais da metade do romance, quando ao completar 14 anos ele assume o trono de Portugal.

Antes, somos apresentados aos bastidores familiares e palacianos da corte portuguesa. E que bastidores!

Os arranjos matrimoniais entre as famílias reais de Portugal e da Espanha eram bastante promíscuos, beirando o incesto. Não é de se estranhar que alguns de seus rebentos, tanto de um lado quanto do outro, viessem a apresentar sérios problemas físicos ou mentais.

O próprio nascimento de Dom Sebastião foi envolto em muitos segredos. Para que não fosse revelado antes da hora, valia tudo. Inclusive contratar piratas para pilhar o próprio reino e assim desviar a atenção para assuntos mais urgentes.

Foi durante a regência de sua tia avó, Dona Catarina (irmã de Carlos V), que os franceses invadiram e criaram uma colônia protestante no litoral fluminense (França Antártica). Eles acabaram sendo expulsos em 1567 pelo fidalgo português e 3º governador do Brasil, Mem de Sá.

Sobre outras batalhas travadas contra os franceses, Aydano Roriz escreveu o livro Nova Lusitânia. Entretanto, as invasões que mais estimularam sua imaginação foram aquelas perpetradas pelos holandeses. Elas renderam três títulos: Invasão à Bahia, Jornada dos Vassalos e Invasão a Pernambuco.

Ainda faltam alguns meses para o Natal, mas já sei o que pedir de presente ao meu amigo oculto.

 

  • O desejado – a fascinante história de Dom Sebastião

Aydano Roriz

Editora Europa

R$ 39,90

E-Book R$ 20,00

Hoje

Hoje

É um dia comum para os cinco personagens do livro Hoje, escrito e ilustrado por Eva Montanari.

Um dia cinza com algumas pinceladas coloridas, porque afinal ninguém é de ferro.

Silencioso o carro roda na rua.

Niki amanheceu aborrecida, mas de sua boca em vez de saírem reclamações, saem…

Cristina chora desconsolada, mas as lágrimas que pulam de seus olhos se transformam em…

Os pensamentos de Alice estão irrequietos, mas suas ideias viram…

A cabeça de Antonio dói tanto, parece que vai explodir, até que ele escuta…

Que coceira é essa nas costas de Ana? Ah, só podem ser…

E o que aconteceu com o carro que rodava silencioso pela rua?

Hoje é um livro de poucas palavras, bonitas ilustrações e MUITA poesia.

 

(Prêmio 30 Melhores Livros do Ano 2015 – Revista Crescer)

 

 

  • HOJE

Eva Montanari

Editora Jujuba

R$ 40,00

Barba Ensopada de Sangue

Esta dica não é minha. Ela foi escrita por uma amiga querida, a jornalista Juliana Lisboa.

Resenhas servem para separar o trigo do joio, para não se perder tempo com bobagens. É claro que gostos não se discutem, mas quando se conhece a pessoa que indica, fica tão mais fácil acreditar e apostar. Este é um livro que com certeza entrará na lista do meu caderninho preto anotações.

Tomara que Juliana me presenteie com novas indicações.

Barba Barba ensopada de sangueensopada de sangue foi o meu primeiro livro de Daniel Galera. Li porque ele é aclamado como um dos maiores autores contemporâneos do Brasil. E tive um preconceito enorme em lê-lo justamente por isso. Tenho preguiça de modinhas.

Mas, em “Barba”, Galera parecia não saber disso. Ou sabia e não se importava. Porque se o que eu esperava eram frases arrogantes e complexas, um enredo cheio de reviravoltas e um vocabulário rebuscado, daqueles que você tem que ler com um dicionário do lado, o que veio logo que abri as primeiras páginas foi bem diferente. Foi simples. Um tapa na minha cara, sem luva de pelica.

A forma dele de escrever é tão simples que parece que alguém está contando uma história numa roda de amigos, com uma cerveja na mão e uma musiquinha de fundo. Não dá vontade de largar o livro porque você sente que o ritmo da narrativa é o ritmo de um diálogo normal, com as palavras usadas no seu dia a dia. Galera não se propõe a fazer análises psicológicas dos seus personagens. Não propõe seus leitores a fazê-lo, idem. Mas deixa espaço para que os que quiserem fazê-lo, façam, mesmo sem precisar. Eu comecei fazendo, até perceber como era pouco importante. E passei a achar o livro ainda melhor.

A história é mais simples ainda: o personagem principal (que não tem seu nome revelado, um detalhe delicioso) resolve largar a vida em Porto Alegre para viver em Garopaba após a morte do seu pai. A cidadezinha praiana serve de palco para boa parte do enredo, em que o personagem tenta se distanciar da vida que levava até então e se aproximar do passado de sua família. Suas únicas responsabilidades eram cuidar da cachorra do pai, que ele acabou adotando, e buscar informações sobre o avô.

Ele acaba fazendo algumas amizades, arranja um emprego como instrutor de natação e corrida, se apaixona. Mesmo com uma deficiência que o impede de guardar feições (ele não se lembra do próprio rosto), as relações interpessoais não são um problema.

Mas acho que o que mais prendeu a minha atenção foi a descrição da lógica introspectiva. Não sou gaúcha, nunca estive no Sul do país, não sou atleta nem tenho problema de memória. Mas me identifiquei com o personagem e entendi suas decisões por causa da forma dele pensar. Uma pessoa bem extrovertida pode gostar do livro pelas coisas inusitadas que acontecem. Alguém mais introvertido, como eu, vai achar muito mais fascinante o porquê das coisas acontecerem.

 

  • Barba ensopada de sangue

Daniel Galera

Companhia das Letras

Páginas: 424

Ano: 2012

R$ 42,00

E-Book R$ 27,50

A 25ª Hora

A 25ª horaA minha família e eu já morávamos no Brasil há dois longos anos quando meus pais perceberam que eu estava ficando doente com saudades de Portugal. Deixaram-me então passar algumas semanas com minha avó, que continuava vivendo no Estoril.

A estada não correu tão bem quanto eu imaginara, já que a temporada de férias escolares no Brasil não coincidia com a de Portugal e minhas amigas estudavam em horário integral. O clima também não convidava a passear, pois era pleno inverno, frio e chuvoso.

Sem ter quem ver ou o que visitar, restava-me a distração da leitura. Ao remexer na estante de minha avó comecei a folhear o livro A 25ª Hora, escrito por um romeno de nome esquisito, Virgil Gheorghiu.

As primeiras páginas me pegaram de tal jeito que esqueci o motivo da minha viagem. Tudo o que queria era mergulhar na história e terminá-la antes de voltar para casa.

Durante muito tempo tentei encontrá-lo no Brasil, mas parecia que nenhuma editora se interessara em publicá-lo.

Depois, quando trabalhei em livrarias e perguntava aos clientes mais idosos se o tinham lido, pouquíssimos o conheciam.

Até que, no final do ano passado, deparei com A 25ª Hora exposto na prateleira dos lançamentos. Quase me belisquei para confirmar que não estava sonhando e que o poderia ler ou indicar a amigos sempre que desejasse.

O curioso é que muitos meses se passaram antes de o comprar.  Vai lá saber o porquê da minha reação. Talvez temesse me decepcionar com uma leitura feita há tanto tempo.

Para falar a verdade, foi assim que me senti no início, principalmente porque não me lembrava de absolutamente NADA! Era como se estivesse lendo o livro pela primeira vez. E essa ignorância foi até o final, apesar de intuir o desfecho de um dos personagens.

O autor escreveu A 25ª Hora quando esteve detido em um campo de prisioneiros, vigiado pelo exército americano. Seu crime? Ter nascido na Romênia. O país fora invadido pela URSS no final da 2ª Guerra Mundial e, portanto, todos os seus cidadãos passaram a ser considerados inimigos dos países Aliados.

O livro denúncia a nova realidade mundial, na qual: Os homens não poderão mais viver em sociedade conservando suas características humanas. Serão considerados iguais, idênticos, e tratados segundo as mesmas leis aplicáveis aos escravos técnicos (máquinas), sem concessão possível à sua natureza humana. Haverá prisões automáticas, condenações automáticas, esquecimentos automáticos, execuções automáticas. O Indivíduo não terá mais direito à Existência, será tratado como uma válvula ou peça de máquina, e caso pretenda viver uma existência individual, será ridicularizado por todo o mundo. Vocês já viram uma válvula viver uma existência individual? Essa revolução se estenderá por toda a superfície do globo.

De início tive a impressão de estar lendo algo datado. O mundo mudara bastante desde a Queda do Muro de Berlim. As ditaduras ideológicas remanescentes estavam caducas e desacreditadas.

No entanto, à medida que embrenhava na leitura, percebi que o autor profetizara uma realidade à qual todos nós involuntariamente e submissamente nos sujeitamos.

Se não vejamos: O que acontece quando, por motivo de doença, precisa-se usar o plano de saúde e esse direito é negado porque uma combinação de logaritmos diz que não estamos habilitados a receber tal benefício? Ou quando após pagar por anos a fio, sem receber qualquer notificação dando ciência de que existe um problema, uma aposentadoria é recusada porque há conflito entre o nome digitado no sistema e o nome que consta no documento apresentado?

Com quem conversamos? Com uma pessoa que procura ajudar, ou com uma gravação que pede que apertemos a tecla um ou dois?

Fico horrorizada com as notícias que leio nos jornais. Ora é o desrespeito à dignidade humana, quando se autoriza um maquinista a passar com o trem sobre o corpo de um morto, para não atrasar as demais composições; ora são os campos de refugiados africanos em Callais na França, que se formam sem qualquer assistência e apoio governamental.

Se por um lado, atualmente é inadmissível que um país invada outro militarmente, por outro, aceita-se que organizações financeiras internacionais dominem uma nação pela via econômica, sem qualquer reflexão de que em ambos os casos as consequências são devastadoras.

Infelizmente, contrariando as minhas primeiras impressões, o livro de Virgil Gheorghiu continua tão atual quanto antes. Sem perceber ou sem poder reagir, a humanidade substitui um opressor por outro.

A 25ª Hora é aquela em que se perdeu o amor e o respeito pelo Homem. É a hora atual. Exatamente agora.

 

  • A 25ª Hora

Virgil Gheorghiu

Editora Intrínseca

R$ 39,90

E-Book R$ 24,90

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