Onde se escondem os escritores palestinos? II

No último post comentei como é fácil encontrar autores israelenses expondo abertamente suas múltiplas versões sobre os conflitos no Oriente Médio, e como gostaria de ouvir o que o “outro lado” tem a dizer sobre esse mesmo assunto.

Na pesquisa que fiz na internet, além dos escritores palestinos mencionados anteriormente, encontrei outros que ainda não foram publicados no Brasil.

Como Selma Dabbagh, Chaker Khazaal  e Raba’i Al-Madhoun. Os três retratam de forma ficcional a vida nos campos de refugiados e como os árabes são considerados cidadãos de segunda classe.out-of-it

Selma Dabbagh nasceu na Escócia e é filha de mãe inglesa e pai palestino. Quando criança ele quase morreu, após ser atingido pelos estilhaços de uma granada atirada propositalmente na rua onde brincava com os amigos. Assim que pode viajar, os avós de Selma refugiaram-se na Síria juntamente com os outros seis filhos. Anos mais tarde o pai da escritora emigraria para a Inglaterra.

Seu primeiro livro Out of it, retrata uma família parecida com aquela de seus antepassados, morando em uma Gaza contemporânea. Entre bombardeios e a ascensão do fundamentalismo religioso, três irmãos procuram encontrar rotas de fuga  para as vidas que levam sem muitas perspectivas.

confessions-of-a-war-childChaker Khazaal nasceu em 1978 num campo de refugiados em Beirute, mas após receber o prêmio de Líder Global do Amanhã (Global Leader of Tomorrow Award ) emigrou para o Canadá. Atualmente Chaker é considerado uma das pessoas mais influentes nas mídias sociais do Oriente Médio e Norte da África.

Em 2013 lançou o primeiro livro da trilogia Confessions of a war child, inspirado nos relatos de refugiados palestinos. O segundo livro denuncia os ataques químicos perpetrados pelo governo sírio na cidade de Aleppo e os movimentos sociais que fizeram eclodir a Primavera Árabe. O último livro da trilogia ainda não foi publicado, mas abordará o fortalecimento de grupos extremistas como o EI.the-lady-from-tel-aviv

O terceiro escritor que fiquei com curiosidade de ler é Raba’i Al-Madhoun, tido como uma estrela em ascensão no mundo árabe literário.  Seu romance The Lady from Tel Aviv coloca lado a lado no mesmo voo, um escritor palestino retornando a Gaza depois de um longo exílio, e uma atriz israelense.

Os três romances Out of it, Confessions of a war child (os dois primeiros volumes) e The Lady from Tel Aviv podem ser adquiridos no site da Amazon na versão impressa ou E-Book.

Quando será que os escritores palestinos vão receber a visibilidade que merecem?

Onde se escondem os escritores palestinos?

Terminei de ler o último livro de Amós Oz publicado no Brasil, Judas. O que achei? Fabuloso.

Não é uma surpresa, afinal o autor israelense costuma figurar com certa regularidade na seleta lista de candidatos ao prêmio Nobel de Literatura.

Como já foram feitas várias críticas e resenhas sobre o livro gostaria de comentar sobre uma pergunta que fiz enquanto lia Judas. Quem são os escritores porta-vozes do povo palestino?

Por mais que Amós Oz procure ser imparcial, os diferentes pontos de vista dos personagens seguem a visão da comunidade judaica israelense. Comenta-se sobre as motivações que levaram árabes e judeus a entrar em confronto logo após a criação do Estado de Israel, e as consequências da guerra: a cidade de Jerusalém cercada por altos muros de arame farpado, e os povoados árabes  abandonadas pelos moradores, forçados a se refugiar nos países vizinhos.

Conheço outros autores judeus israelenses já publicados no Brasil, mas e quanto aos escritores palestinos? Será que enchem uma mão?

Além de Edward W. Said editado pela Companhia das Letras, encontrei apenas outros três, após passar uma tarde inteira pesquisando na internet.

a-cicatriz-de-davidO primeiro é uma mulher, Susan Abulhawa, autora de A cicatriz de David, romance publicado pela Record. Os outros dois são Mahmoud Darwish, autor de um livro de poesia: A terra nos é estreita e outros poemas  e Ghassan Kanafani: Homens ao Sol, escritor e ativista político, assassinado em Beirute por razões políticas. Cada um teve uma obra editada pela BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa America do Sul – Países Árabes).

Nada mais?? Não estou falando de escritores árabes em geral, mas palestinos de verdade só encontrei estes três. Acho que vou ter que continuar minhas pesquisas ou então aguardar indicações enviadas por amigos e leitores do blog.

 

  • Judas

Amós Oz

Editora Companhia das Letras

R$ 44,90

E-Book R$ 29,90

  • A Cicatriz de David

Susan Abulhawa

Editora Record

R$ 45,00

  • A Terra nos é Estreita e outros poemas

Mahmoud Darwish

BibliASPA

R$ 25,00

  • Homens ao Sol

Ghassan Kanafani

BibliASPA

R$25,00

 

 

Você conhece Hannah Senesh?

Hannah-SeneshMuitas vezes, minha leitura não é linear. Não é incomum interrompê-la, movida pela curiosidade em saber um pouco mais sobre algum personagem verídico citado no romance, ou me aprofundar num assunto que desconheço, e que está sendo comentado no livro que leio no momento.

Quando isso acontece, faço uma pausa e inicio uma pesquisa na internet. Abro um link, depois outro, numa sequência infinita, até perceber que essa busca não terá fim, e dou um basta em mim mesma.

Sempre encontro alguma  pedrinha de ouro. Normalmente são escritores que não conheço, mas cujas obras já foram publicadas no Brasil.

Quando isso acontece, meus dedos coçam inquietos. Devo aproveitar o fato de estar diante do computador  e comprar logo o livro – para deixá-lo, sabe-se lá por quanto  tempo, na pilha dos que aguardam por ser lidos um dia – ou devo frear minha impulsividade e anotar seu nome na longa lista dos “tenho que ler”?

Desta vez a busca começou por causa da primeira linha de um poema escrito por uma jovem judia, assassinada aos 23 anos pelos nazistas::

“Ouvi uma voz, e fui”

Cheguei até ele porque mergulhara de cabeça nos dilemas morais e nos questionamentos políticos expostos no maravilhoso livro de Amós Oz, Judas. Há muito tempo não lia algo tão instigante.

Esse poema era declamado pelos judeus como incentivo ao combate durante a sangrenta guerra travada entre israelenses e palestinos, logo depois da criação do estado de Israel em 1948.

Como seria o resto do poema?  E quem era a autora?

Uma rápida busca me levou até Chana Senesz também conhecida como Hannah Senesh.

Nascida na Hungria em 1921, Hannah era filha de uma abastada família de intelectuais judeus. Durante a infância, teve pouco contato com o judaísmo, pois seus pais, assim como muitos judeus húngaros, estavam totalmente integrados ao meio circundante.

O pai já era falecido quando a mãe a colocou numa escola particular protestante. Graças aos ensinamentos de um professor que também era rabino, aprofundou seus conhecimentos sobre  o judaísmo, vindo a se tornar uma fervorosa sionista.

Em 1939, Hannah foi morar num kibutz em Eretz Israel, região considerada como a Terra Prometida pelos judeus. Foi nessa época que seu talento poético desabrochou.

Infelizmente, as notícias vindas da Europa eram as piores possíveis. Desejosa em participar no salvamento do maior número possível de judeus – inclusive da própria mãe, que continuava vivendo na Hungria – alistou-se no exército britânico e em junho de 1944 retornou à terra natal.

Infelizmente, poucos meses depois de sua chegada , foi traída por um informante e Hannah acabou sendo presa e torturada. Morreu aos 23 anos fuzilada por um pelotão de nazistas.

Quanto ao poema propriamente dito, cheguei até ele entrando em contato com Frida Milgrom, a organizadora do livro Hannah Senesh: Diários, poesias, cartas, que gentilmente me o enviou.

 

NO CAMINHO…

Uma voz chamou, e segui.

Segui, pois chamou-me a voz.

Segui, fugindo de um destino

atroz.

Mas na encruzilhada

Com fria alvura tapei

meus ouvidos

E chorei

Pelo que havia perdido.

(Cesaréia, dezembro de 1942)

 

Devo ou não devo comprar o livro? Meu dedo acaricia a tecla que com um clique fará a encomenda.

Afinal, comprar é mais fácil do que encontrar e assistir ao documentário americano: Abençoado o fósforo: A vida e a morte de Hannah Senesh (Blessed Is The Match: The Life And Death Of Hannah Senesh), dirigido por Roberta Goldman. O filme chegou aos oito finalistas que concorreram ao Oscar 2008 na categoria Melhor Documentário, porém não entrou na seleção final.

 

 

Se quiser saber um pouco mais sobre essa jovem símbolo de heroísmo e dedicação, preciso fazê-lo. Decidida aperto a tecla.

 

  • Hannah Senesh: Diários, poesias, cartas

Frida Milgrom (organizadora)

Editora Tordesilhas

R$ 39,90

 

 

Queria ver você feliz

QueriaVerVoceFeliz (243x349)Quanta coragem! Foi esse o primeiro pensamento que tive em relação a Queria ver você feliz de Adriana Falcão.

São raríssimas as pessoas que expoem sem pudor os dramas familiares. Não foi esse, no entanto, o caminho escolhido pela autora.

O segundo pensamento foi achar inadequada a utilização das muitas cartas – que o pai e a mãe trocaram entre si – como estrutura do livro. Considerei a transcrição das mesmas uma escolha preguiçosa.

Termo forte não? Mas Adriana Falcão tem um jeito de escrever tão belo e sensível, por que não contar com suas próprias palavras a sofrida história de amor dos pais?

A correspondência era banal, sem qualquer pretensão literária, retratava apenas, e com veemência, os sentimentos que cada um nutria pelo outro. E como todas as cartas de amor, por vezes, seguiam a definição do poeta, eram exageradas e “rídiculas”.

Também não me agradou a escolha do narrador da história: O Amor. Imediatamente visualizei um cupido brincalhão e rosado atirando flechadas a torto e a direito.

Definitivamente começara Queria ver você feliz com o pé esquerdo.

Mas e há sempre pelo menos um “mas”, à medida que avançava na leitura percebia que ela perderia muito da sua força dramática se a autora tentasse usurpar as vozes dos pais, recriando-as ou tentando explicá-las.

Até com a escolha do narrador acabei por concordar. Afinal, quem melhor do que o Amor para contar uma história  da qual participou ativamente?

O Amor não escolhe um lado, não censura, nem faz julgamentos (como uma filha poderia fazer), apenas aprova e aplaude. Ele faz apenas uma exigência, que a entrega dos parceiros seja mútua e incondicional.

Queria ver você feliz é o relato corajoso de uma bonita e triste história de amor. Mas, afinal, quando genuínas não são elas quase sempre assim?

 

  • Queria ver você feliz

Adriana Falcão

Editora Intrínseca

R$ 34,90

E-Book R$ 14,90

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