A RAIVA

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Blandina e José Carlos são parceiros na vida amorosa e também na vida profissional. Juntos já produziram mais de trinta livros infanto-juvenis e esta união rendeu diversos prêmios e menções honrosas.

Um dos meus favoritos é Quem soltou o Pum? um texto muito engraçado, cheio de duplo sentido que conta a história de um cachorrinho travesso.

No final do ano passado publicaram pela editora Jorge Zahar um livro dirigido ao público infanto-juvenil, que pode servir de reflexão para os mais velhos, A Raiva.

As ilustrações  têm apenas duas cores: vermelho, preto e seus subtons. Mais nenhuma outra foi necessária para expressar um sentimento tão destruidor.

Algumas pessoas costumam dizer que quando sentem muita raiva começam a ver tudo preto, perdem a noção de contornos e dos alertas. A visão se estreita como se olhassem através de um funil, e enxergam apenas um ponto vermelho que precisa ser esmagado a qualquer custo.

Achei o livro A Raiva um excelente presente para muitos grandinhos. Afinal, a raiva de um adulto é bem mais perigosa do que a de uma criança. Esta extravasa imediatamente o que está sentindo, seja através de gritos, quebrando algo, se jogando no chão, enfim, fazendo  malcriação, para depois chorar exausta.

O adulto, por sua vez, alimenta a raiva devagarinho, junta lembranças daqui e dali que nada têm a ver com o ocorrido. Deixa-a crescer até que fique maior que ele mesmo. Depois da explosão a maioria das pessoas se arrepende do que fez e é um deus nos acuda para recolher o estrago provocado.

Ah, apenas para destacar o ótimo entrosamento entre o texto e as ilustrações, o livro tem apenas mais uma cor representando o bom senso. É o azul, que só aparece no finalzinho da história.

O texto se encaixa perfeitamente para falar de um outro sentimento tão destrutivo quanto A Raiva, a Inveja.

Para você qual seria a cor da INVEJA?

 

(Prêmio 30 Melhores Livros de 2015 – Revista Crescer)

 

  • A RAIVA

Blandina Franco e José Carlos Lollo

Pequena Zahar (Editora Jorge Zahar)

R$ 42,90

O Fio da Vida

O-fio-da-vidaImpressionante a maestria de Kate Atkinson em amarrar todos os “SE” possíveis nas múltiplas vidas de Ursula, personagem principal de O Fio da Vida. Vidas que se sobrepõem como se fossem camadas de massa fina e quebradiça de um mil folhas.

Em uma noite de forte nevasca, Ursula nasce  enrolada no próprio cordão umbilical e morre prematuramente.

Numa outra vida Ursula chega ao mundo estrangulada pelo cordão umbilical, mas desta vez, graças à chegada providencial do médico da família consegue sobreviver.

Ursula, agora uma garotinha de 4 anos, brinca na praia com sua irmã mais velha. As duas entram no mar e não percebem a chegada de uma grande onda que as engole. Ursula morre afogada.

Mas em outra vida as meninas são observadas à distancia por um pintor diletante, que pretende incluí-las na paisagem marítima que está retratando. Ele percebe o perigo eminente e salva Ursula e a irmã de uma tragédia.

Quantas possibilidades pode ter uma única vida? Muitas vezes me pergunto o que poderia acontecer se em vez de tomar uma decisão, tivesse tomado outra. Quantas possibilidades poderiam existir se cada pessoa, com quem nos relacionamos, também fizesse escolhas diferentes? Chega a dar um nó na cabeça só de tentar imaginar a infinidade de vidas factíveis.

Pois a autora consegue realizar essa proeza  ao dominar todos os “E SE…” de Ursula – que se cruzam, se adiantam e retrocedem – sem serem confusos ou deixarem pontas soltas. No meio desse emaranhado de vidas, existem personagens bem trabalhados e vivências históricas descritas com riquezas de detalhes.

Em 2013 O Fio da Vida foi  premiado com o Costa Book Award. Este prêmio britânico contempla obras com alto mérito literário, mas de leitura agradável e que transmitam o prazer da leitura para o maior público possível. O Fio da Vida é um romance inteligente que atende perfeitamente todos esses requisitos.

 

  • O Fio da Vida 

Kate Atkinson

Globo Livros

R$ 44,90 (os preços podem variar)

E-Book

R$ 31,40

À sombra do meu irmão

à-sombra-do-meu-irmãoQuando terminei de ler À sombra do meu irmão – as marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã, não comecei outro livro como normalmente costumo fazer.

Sempre quis saber como os alemães conseguiram refazer  suas vidas, e transformar uma mortífera máquina de guerra em uma nação economicamente poderosa e pacífica.

Que justificativas poderiam  dar às barbaridades cometidas durante a segunda guerra mundial?  Como superaram a ressaca moral de todo um povo?

Recentemente li uma matéria no jornal O Globo comentando que muitos alemães cometeram suicídio, apavorados com o futuro incerto que os aguardava, e temorosos de serem tratados pelos vencedores  da mesma forma como haviam tratado os judeus. Só em Berlim, mais de seis mil pessoas se suicidaram nos últimos dias da guerra *

Uwe Timm autor de À sombra do meu irmão, ao escrever sobre a própria família, fala na verdade de toda a nação.

Com a derrota, os  alemães assistiram a nova geração criticá-los e assimilar rapidamente a cultura dos vencedores.

Uma ofensa àqueles que acreditavam terem sido os eleitos para conquistarem o mundo, que acreditavam pertencer à raça escolhida.

Em relação ao genocídio cometido contra os judeus silenciaram ou disseram não saber o que estava acontecendo. Quanto à destruição que provocaram em quase toda a Europa adotaram a postura de vítimas. Eles também sofreram enormes baixas humanas  e suas  cidades foram ferozmente bombardeadas pelos aliados.

Gostei tanto de  À sombra do meu irmão que, ao terminar de o ler, não emendei com outro livro, nem o guardei na estante. Simplesmente o reli.

 

  • À sombra do meu irmão – as marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

Uwe Timm

Editora Dublinense

R$ 34,90

E-book R$ 18,90

 

* O Globo  (sábado 14/03/2015) Histeria de uma nação – Livro revela que suicídio de Hitler e Goebbles não foi fenômeno restrito à cúpula nazista. O´livro “Kind, versprich mir,dass du dich nicht erschiesst” foi escrito pelo historiador Florian Huber e pode ser traduzido livremente como “Criança, prometa que não vai se suicidar”

http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/suicidios-contaminaram-alemanha-nos-dias-finais-da-segunda-guerra-15594021

 

 

Vale do Encantamento

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Por quase três semanas acompanhei Amy Tan pelo Vale do Encantamento.

Conheci a Xangai do início do séc XX e me instalei no Caminho Oculto de Jade – uma casa de cortesãs de alto nível – onde os segredos da arte de seduzir me foram revelados.

Violet, a personagem principal do livro, é fruto do amor inter-racial entre Lucia, jovem americana, e o único herdeiro de uma tradicional e milenar família chinesa.

Logo no início não simpatizei com aquela menininha voluntariosa e insegura. No entanto, me condoí com seu sofrimento quando foi abandonada à própria sorte pela mãe.

Não era suposto Violet se tornar uma cortesã, assim como não era esperado que revivesse a experiência da infância e fosse forçada a entregar a única filha a estranhos.

Durante oito anos a autora viajou pela China procurando conhecer as paisagens descritas no livro; entrevistou diversas pessoas e fez uma pesquisa exaustiva com o intuito de retratar com fidelidade o período histórico da narrativa. Com certeza todo esse trabalho é um ponto forte do livro, mas ao procurar não deixar de fora nenhuma das informações colhidas, por vezes a narrativa torna-se um tanto ou quanto cansativa.

Violet não foi a única personagem com que antipatizei. O comportamento egoísta e irresponsável de sua  mãe quando adolescente também me irritou bastante.

Entretanto com o decorrer da leitura acabei por modificar a minha opinião. Tanto uma quanto a outra crescem bastante como personagens quando são confrontadas com as ciladas da vida e demonstram possuir qualidades de inegável valor, como astúcia, coragem, lealdade e paixão.

Vale do Encantamento é menos empolgante que O clube da felicidade e da sorte ou que A filha do restaurador dos ossos. Mas, mesmo quando não é brilhante, Amy Tan sabe contar uma boa história que vale a pena conhecer.

 

  • Vale do Encantamento

Amy Tan

Editora Planeta

R$ 53,90

E-Book R$ 39,80

 

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