Dias (nem um pouco) Perfeitos

dias-perfeitos 2

Depois de passar algumas horas tensa e por vezes bem angustiada com a leitura de Dias Perfeitos, finalmente terminei o livro com um sorriso e um pensamento: Que história mais louca, muito louca mesmo!

Raphael Montes é um jovem escritor carioca com uma imaginação para lá de fértil. Já no primeiro parágrafo o leitor entra numa montanha russa e só quem tiver estomago forte conseguirá enfrentar as 274 páginas de um fôlego só. Eu não consegui. Por diversas vezes parei e pus o livro de lado, para logo depois ser vencida por uma curiosidade mórbida e  retomar sua leitura.

O personagem principal é Théo, jovem estudante de medicina, ensimesmado e com dificuldades de relacionamento não só com a mãe  mas também com colegas e professores. Théo só gosta de Gertrudes, o cadáver que disseca nas aulas de anatomia.

Desejando que o filho socialize um pouco mais, a mãe o obriga a acompanhá-la a um churrasco, mesmo sabendo que ele é vegetariano. Sentindo-se deslocado, Théo se afasta do burburinho da festa e é abordado por uma jovem ligeiramente ébria. Clarisse é amistosa, cheia de vida e pela primeira vez na vida ele se sente irremediavelmente atraído emocionalmente por uma mulher.

Trocam comentários banais, como o que cada um está estudando na faculdade. Clarisse diz que escreve um roteiro para cinema, Dias Perfeitos, e quem sabe um dia o mostrará para ele. Com um beijo rápido na boca despede-se de Théo, sem saber que um psicopata acabara de se apaixonar por ela.

Mil vezes me perguntei se estava gostando ou não do livro e se não seria melhor largar este suspense aflitivo. Por fim, venceu o autor, que me prendeu com seus diálogos ágeis, trama repleta de reviravoltas e final surpreendente.

 

  • Dias Perfeitos

Raphael Montes

Editora Companhia das Letras

R$ 35,00

E-Book R$ 24,50

 

Uma coleção para poucos

Cachoeira - BA

Não é verdade que todo baiano gosta de se exibir. É o que deduzo com a relutância dos idealizadores da Coleção Gente da Bahia em divulgá-la do jeito que ela merece.

Como é possível que um selo criado pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, com o intuito de homenagear baianos legítimos ou de coração, tenha a distribuição dos livros restrita apenas aos deputados, bibliotecas estaduais,  visitantes da Assembléia e esporádicas noites de autógrafos?

Será que os nobres deputados pagaram do próprio bolso a publicação da coleção? Se assim o fizeram, estão de parabéns. Mas não seria muito mais interessante se os livros pudessem ser comercializados e encontrados nas livrarias de todo o país (ou pelo menos nas livrarias do estado) para o usufruto de um maior numero de interessados, além de possibilitar um eventual reembolso financeiro do que foi gasto com a publicação dos mesmos?

A Coleção Gente da Bahia já homenageou 37 personalidades do séc. XX que se distinguiram nos seus respectivos campos de atuação. Como bem lembrou o jornalista Samuel Celestino em artigo publicado no início do ano passado, infelizmente são poucas as mulheres ali representadas. Deixo como sugestão para futuras edições os nomes de Irmã Dulce, Mãe Stella de Oxóssi, Yeda Pessoa de Castro e Eliana Calmon.

Toda esta digressão foi  para dizer o quanto gostaria de ver mais pessoas conhecendo e apreciando a poesia de Damário Dacruz, cujo perfil foi pesquisado com desvelo pela jornalista e escritora Mariana Paiva.

Graças a ela conheci a vida e a obra do jornalista / escritor / publicitário / fotógrafo e poeta ícone da geração baiana dos anos 70 e 80.

Se a autora durante a adolescência pendurava na parede de seu quarto o poster-poema Todo Risco de Damário Dacruz, tenho espetado, na cortiça de recados que fica ao lado da minha mesa de trabalho, um panfleto com a poesia Tempo Reinscrito:

Que

as manhãs

nunca entardeçam.

Que

as tardes

 nunca anoiteçam.

Que

as noites

nunca amanheçam iguais.

 Vale muito a pena reler (ou descobrir) os poemas de Damário, falecido prematuramente aos 56 anos vítima de um câncer de pulmão.

Os quatro livros do poeta estão esgotados, mas Mariana Paiva pretende empenhar-se para que essa lacuna seja solucionada ainda este ano e a poesia dele volte a ser declamada por todos os baianos.

Nesse meio tempo é possível apreciar a obra de Damário Dacruz pelo site  http://www.damariodacruz.com.br

Rabiscos sobre o Rascunho

Rascunho

Não é a primeira vez e com certeza não será a última que comentarei sobre o jornal de literatura Rascunho, publicado pelo escritor catarinense Rogério Pereira. Gosto bastante dessa publicação mensal que oferece aos apaixonados pela boa literatura uma multiplicidade de resenhas sobre livros escritos por autores nacionais e estrangeiros, além de entrevistas com escritores e notícias sobre feiras e concursos literários .

O primeiro exemplar do ano me agradou em cheio. No caderninho de Livros que lerei um dia, anotei  a recomendação feita pelo colunista Rinaldo de Fernandes.

O livro em questão era Os dias roubados do escritor cearense Carlos Vazconcelos (com z mesmo). Interessada, tentei localizar o livro nos principais sites das grandes livrarias para me informar sobre o preço e por qual editora fora publicado, mas não encontrei absolutamente nada.

Digitei o nome do autor na Wikipedia e li um brevíssimo currículo sobre ele. Quando cliquei em Os dias roubados fui encaminhada diretamente para a Estante Virtual.

Inacreditável! Como era possível que um livro publicado apenas há dois anos e premiado pela secretaria de Cultura do Estado do Ceará só pudesse ser adquirido num sebo? Pesquisei mais um pouco e voltei a me surpreender.  A editora responsável pela publicação, Expressão Gráfica Editora, não possui site, nem tem e-mail, só um número de telefone para contato!

Triste a realidade dos escritores que estão distantes dos grandes centros e não têm a chance de ter o seu trabalho facilmente divulgado.

(O autor confirmou que o livro pode ser encontrado na Estante Virtual, mas que tem planos de em breve relançá-lo por uma editora maior. Gostei da notícia.)

o – o – o – o – o

E eu que, no ultimo post, estava preocupada em não ser muito dura quando critiquei um livro que larguei pela metade.  Pois meus olhos se arregalaram incrédulos quando li  a crítica demolidora feita por Carolina Vigna  ao livro Morada das Lembranças de Daniella Bauer , vencedor do prestigiado Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional 2014.

Moralista, caricato e pouco emocionante. Com estes adjetivos nada edificantes, Carolina arrasou com o livro de Daniella.

Por mais incrível que possa parecer, fiquei curiosa em ler o livro. Será que ela não estava sendo dura demais? Será que minha opinião seria parecida com a dela?

Talvez esteja na hora de reconsiderar a minha decisão em não falar o nome do livro que deixei de lado. Quem sabe, uma crítica devastadora é  bem mais estimulante do que aquela que é só elogios.

Leituras decepcionantes também acontecem

Livros

Não é fácil escrever um post sobre um livro todas as semanas. Algumas vezes a leitura se estende por mais de sete dias e outras vezes não gostamos do que acabamos de ler. Nesse último caso o que fazer?

Sei que toda verdade é multi-facetada, mas até hoje me surpreendo quando encontro gostos e opiniões radicalmente diferentes e antagônicos.

Mil vezes pergunto: Como é possível alguém ter coragem de vender estes sapatos pavorosos ou como é possível alguém se encantar por este livro chato até dizer chega?

Pois é, leituras decepcionantes acontecem de vez em quando.

Recentemente segui entusiasmada a indicação de uma colunista que escreve para um dos jornais mais prestigiados do país. Seus elogios ao livro não poderiam ser melhores:

Passadas as primeiras páginas, fui me surpreendendo até que, ao ler a última página, conclui que o livro é um dos melhores lançados este ano.(…) Delicado, intenso, verdadeiro, o livro é de uma beleza impressionante.”

O livro em questão não era muito grande, apenas 142 páginas. Infelizmente só consegui chegar à metade.

Quando o pus de lado, reprovei -me severamente  considerando-me  uma troglodita insensível e obtusa. Mas a verdade é que, enquanto lia o romance, tinha a impressão de escutar um adulto tentando se passar por uma criança e isso me incomodou bastante. Pareceu falso. Em minha defesa, mentalmente argumentava  que a racionalização verbal de uma menina de seis anos não poderia ser tão sofisticada quanto o texto dava a perceber.

Não direi mais nada. Afinal, quem sou eu para detonar o trabalho de alguém? Todo o texto reflete um trabalho árduo mental; um burilamento feito por horas a fio e, acima de tudo, uma coragem de se expor ao julgamento alheio. Por tudo isso a obra e seu autor merecem meu respeito, mas não o pouco tempo que dedico à leitura.

%d blogueiros gostam disto: