O ventre da baleia

Quando alguém se apaixona pensa em tudo, menos no que está pensando – Sofocleto (pseudônimo de Luis Felipe Angell poeta, escritor e humorista peruano)

O-ventre-da-baleiaComo é possível uma paixão provocar um comportamento tão tresloucado? Era o que me perguntava perplexa enquanto lia O Ventre da Baleia de Javier Cercas.

Tomás é um professor assistente universitário, casado há cinco anos com Luisa que  recentemente soube estar grávida do primeiro filho do casal. Assim como o marido, ela também é professora universitária, e no início da história viajou para participar de um congresso no exterior.

Aproveitando a primeira tarde das curtas férias conjugais, Tomás vai ao cinema. Ao sair da sessão depara- se com uma antiga namorada de adolescência. A surpresa e satisfação de se reverem é mútua. Cláudia (esse é o nome da ex-namorada) convida Tomás para tomar uma cerveja e relembrar os velhos tempos. Como a conversa se estende saem para jantar e, ao final de uma noite regada a muito vinho, quando ele a deixa em casa, Cláudia o convida para subir e tomar o ultimo drinque. Inevitavelmente acabam por dormir juntos.

Para Tomás essa noite é um divisor de águas. Ele acredita ter reencontrado a mulher de sua vida, e, agindo como um rolo compressor desgovernado decide romper com Luisa,  assim que ela regressar da viagem.

Tomás está certo que Cláudia também deseja recuperar o tempo perdido, principalmente depois que ela lhe confidencia que terminou com o marido egoísta e agressivo.

Ao procurá-la no dia seguinte, Cláudia não atende as suas chamadas telefônicas. Inicialmente tenta  justificar o sumiço, mas com o passar das horas e depois dos dias, começa a acreditar que algo de muito grave aconteceu com ela.

Em apenas uma semana Tomás mergulha numa espiral de decisões atrapalhadas que culminarão por destruir não só sua vida familiar, como também a sua vida acadêmica.

No decorrer da narrativa ele e os amigos fazem diversas digressões literárias, analisam o sistema universitário espanhol e comentam sobre alguns filmes do diretor  Fritz Lang.  É  possível que essas conversas escondam a razão da escolha do título do livro, infelizmente não consegui perceber.

Será que o autor quis fazer um paralelo entre Jonas, o personagem bíblico que sobreviveu três dias dentro da barriga de uma baleia, e a reclusão forçada de  Tomás (provocada por uma forte gripe) e vivida por um prazo idêntico?  Se for esse o caso, achei a comparação um tanto ou quanto exagerada.

É correto dizer que os desejos, ou melhor dizendo as convicções de ambos sofreram uma grande reviravolta depois de saírem do confinamento indesejado: Jonas terminou por aceitar a missão que lhe fora confiada, e Tomás expurgou a paixão que o envenenara, apesar de suas “feridas” demorarem ainda algum tempo para cicatrizar.

A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. ( Cesare Pavese)

Dizem que O ventre da baleia tem um quê de autobiográfico. Desejei saber se os desabafos narrados no livro revelavam algum conflito vivido pelo autor como professor universitário ou se eram algum tipo de mea culpa sentimental.

Dizem também que esta é uma obra menor de Javier Cercas, e que excepcional mesmo é Os soldados de Salamina. A conferir.

 

  • O ventre da baleia

Javier Cercas

Globo Livros – Biblioteca Azul

R$ 44,90

Atiçando a minha curiosidade

Recebo de amigas várias sugestões de leitura. Celina me envia uma matéria com as melhores de 2014 segundo a revista TIME. São 10 indicações de livros de ficção e outros 10 de não-ficção.

Me interesso pela primeira lista. No Brasil só foram publicados 3 dos autores ali relacionados: Tana French, David Mitchell  e Martin Amis.

O tema do livro The Zone of Interest (3º lugar) de Martin Amis é polêmico. Ele faz uma abordagem irônica dos campos de concentração nazistas. Apesar de ter sido recebido com entusiasmo pela crítica anglo-americana, sua publicação foi rejeitada tanto na Alemanha quanto na França. Não sei qual será a posição da editora Companhia das Letras responsável pelos livros do escritor aqui no Brasil.

menino-de-lugar-nenhum

Não conheço o escritor David Mitchell, autor do The Bone Clocks (2º lugar). Dele só foi publicado e pela mesma editora Menino de lugar nenhum. Me interesso em ler este livro. Trata-se de um romance de formação que narra a vida de um garoto prestes a completar 13 anos às voltas com a impopularidade no colégio e as brigas constantes de seus pais. O livro foi finalista do prestigiado prêmio Man Booker Prize de 2006.

No-bosque-da-memória

Por fim e em 1º lugar está The Secret Place de Tana French. Assim como David Mitchell, também não conhecia esta escritora irlandesa. Mas pesquisando, soube que é considerada o principal nome da literatura policial contemporânea na Europa e nos Estados Unidos. Seu romance de estreia No bosque da Memória  recebeu o importante prêmio Edgar concedido à melhor obra literária de mistério e suspense. Pronto! Mais um outro candidato a entrar na minha interminável lista de livros “tenho que ler”.

Uma-parisiense-no-brasil

Por fim Adélia me manda uma mensagem de texto dizendo que está lendo Uma parisiense no Brasil e gostando muito. Lá vou eu de novo querer saber do que ser trata.

Não é um lançamento, mas como conheço o gosto apurado de minha amiga fico curiosa. Procuro mais informações sobre ele e chego no blog do Rogério Beier. Está decidido, em algum momento Uma parisiense no Brasil entrará nas leituras que farei este ano!

 

  • Menino de lugar nenhum

David Mitchell

Editora Companhia das Letras

R$ 67,00

  • No bosque da memória

Tana French

Editora Rocco

R$ 39,50

  • Uma parisiense no Brasil

Adèle Toussaint-Samson

Editora Capivara

R$ 25,00

Olho ao redor e só vejo histórias

Breve-historia-de-um-pequenoAqueles que acompanham o blog já devem ter percebido o quanto sou apaixonada por literatura infanto-juvenil. Podem então  imaginar como fiquei feliz  ao saber que o vencedor do  prêmio  Jabuti de 2014 fora Breve história de um pequeno amor de Marina Colasanti, que já ganhara o 1º lugar na categoria infantil.

Compartilho com a autora a opinião de que se um livro não encanta um adulto não tem como agradar uma criança. Há que se tratar o pequeno leitor com respeito, estimular sua sensibilidade, fazê-lo sonhar e refletir. Quando  isso não ocorre ele se desinteressará pela leitura. Afinal, qual é a graça em largar uma atividade estimulante e se aquietar para ouvir ou ler alguma coisa, se esta não lhe desperta a curiosidade?

Nos créditos finais do livro Marina diz que “olho ao redor e só vejo histórias” e mais uma vez concordo com ela. Mas é preciso treinar o olhar para as perceber e depois saber contá-las. Não é tarefa fácil, e é aí que entra o talento de Marina Colasanti.

Quem diria que um episódio cotidiano tão banal – como a descoberta de um ninho com dois frágeis pombinhos – daria uma história tão bonita onde se lê “Naquele espaço ainda cheio de penumbra e cheiro de sol guardado…”

“Cheiro de sol guardado”, quando dei por mim tinha parado a leitura e tentava imaginar que tipo de cheiro seria esse. Provavelmente algo gostoso, acolhedor, morno…

Breve história de um pequeno amor narra os cuidados da autora para salvar o passarinho sobrevivente. Cuidados de quem se preocupa e, por vezes, se sente insegura se está agindo certo ou não; de quem está atenta às mudanças e se orgulha das conquistas; enfim, cuidados de quem sabe amar.

 

  • Breve história de um pequeno amor

Marina Colasanti

Rebeca Luciani (ilustrações)

Editora FTC

R$ 37,70

Indicado para leitores com mais de 10 anos

Aguapés

aguapes_capa.pdfQuando em 2013 soube que Jhumpa Lahiri havia escrito um novo romance fiquei animadíssima. Ela é a autora de Intérprete de Males, um livro que considero como dos melhores que li até hoje.

Apesar de saber que esse novo romance, Aguapés, fora finalista de dois prêmios literários importantíssimos, o Man Booker Prize e o National Book Award, resisti o quanto pude para o ler. Estranho, não?

Talvez nem tanto se explicar que tenho a estranha mania de não ler mais nada de um escritor se após ler algo que me agradou muitíssimo, leio em seguida algo dele que me decepciona. E foi isso o que aconteceu com O Xará, de Jhumpa Lahiri. Não me recordo mais qual foi a razão, pois já faz muito tempo, mas não gostei do livro.

Recentemente reli Intérprete de Males e mais uma vez senti o frescor e contentamento da primeira leitura.

Deixei de lado as minhas bizarrices e comprei Aguapés. Mas não me rendi facilmente. O livro estáva ali, do meu lado, mas vários outros passaram na sua frente.

Aguapés foi a ultima leitura do ano, e posso dizer que o fechei com chave de ouro!

Entrei em águas conhecidas e mergulhei na prosa elegante e enxuta de Jhumpa Lahiri que desliza sem sobressaltos.

Aguapés são bonitas plantas aquáticas que nascem nos rios ou em terras alagadas.  Podem ser utilizadas para despoluir as águas que estiverem contaminadas por esgotos. Mas se proliferarem desordenadamente acabam por “asfixiar” os rios e lagoas que haviam salvado.

Pois foi à beira de terras como essas, na periferia de Calcutá na Índia,  que os irmãos Subhash e Udayan cresceram. Inseparáveis e de temperamentos opostos, eles se completam. Até que o mais velho decide seguir os estudos nos EUA e o mais novo entra numa organização politica clandestina.

Durante algum tempo trocam cartas contando como corre a vida de cada um. Mas Subhash conhece o irmão melhor do que ninguém e percebe o fosso que se forma entre eles dois.

Um dia recebe um telegrama avisando, sem maiores explicações, que Udayan morreu.

Ao retornar à casa dos pais conhece a cunhada, agora viúva e grávida. É Gauri que lhe conta que o irmão foi assassinado pela polícia.

Num gesto impensado Subhash decide se casar com ela e levá-la para os EUA. No entanto as coisas não correm exatamente como imaginou. Por mais que se esforce, eles não conseguem construir uma familia. Gauri ergue muralhas invísiveis ao seu redor e silencia sobre o próprio passado, do qual não consegue se libertar.

São muitos os estranhamentos e descompassos – tanto culturais quanto os de relacionamento entre os personagens – e  Jhumpa Lahiri  com sua prosa segura e delicada os apresenta de maneira magistral e sedutora.

Um segredo pode ser tão danoso quanto um aguapé.  Inicialmente pode proteger alguém, mas com o passar do tempo torna-se um fardo difícil de suportar, alastra-se silenciosamente e quando nos damos conta já contaminou tudo ao redor.

  • Aguapés

Jhumpa Lahiri

Globo Livros (Biblioteca Azul)

R$ 44,90

E-Book R$ 31,40

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