a máquina de fazer espanhóis

a maquina de fazer espanhois

Foi com algum receio que comecei a ler a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe. Aqueles capítulos não muito longos, com pouquíssimos parágrafos, e sem letras maiúsculas para sinalizar o inicio das frases e os nomes próprios, me assustaram.

Feita esta consideração, quero dizer que após uma pequena dificuldade inicial, apreciei a narrativa segura do autor, e me emocionei com os personagens retratados no romance.

Com a morte da mulher, António Jorge da Silva, aos 84 anos, é colocado pela filha em um asilo. Revoltado por perder sua companheira de mais de cinco décadas, e ser obrigado a viver onde nunca imaginou, ele custa a se adaptar ao novo lar.

Mas, como diz a sabedoria popular “o que tem que ser tem muita força”. Aos poucos, a tristeza vai diminuindo, graças à solidariedade que recebe dos hóspedes mais antigos, e dos cuidados de profissionais atenciosos.

O Lar da Feliz Idade é um lugar de espera. Ali há poucos sonhos, muitos pesadelos e algumas alucinações. Os ecos de um passado subserviente e a constatação de antigas crenças equivocadas, rondam as lembranças do Sr. Silva, e também de seus novos amigos.

Uma leitura apressada poderá afastar o leitor, desconfortável com um tema tão duro e potencialmente angustiante.  Espero que isso não aconteça, porque, além de iluminar e dar voz de forma digna a uma parcela da população cada vez mais numerosa, o grande mérito do livro está em confirmar o que por vezes é esquecido. O que dá sentido à Vida – quer ela esteja no seu apogeu, ou prestes a se extinguir -, o que nos faz querer viver um pouco mais, o que nos resgatará do esquecimento, é o Outro.

precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade,nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingencia da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria.

Quem não cultiva afetos, ou não se preocupa em preservá-los, já morreu e não foi avisado.

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Priscilla Barbará
    out 21, 2014 @ 09:42:09

    Estou lendo “O homem que amava cachorros” adorando!!! vale a leitura e seu comentário depois!!!

    Responder

  2. fagulhadeideias
    out 21, 2014 @ 10:07:55

    Oi Priscilla, obrigada pela indicação. Vou procurá-lo na minha próxima visita à livraria. Beijo

    Responder

  3. Mariana
    out 24, 2014 @ 16:47:15

    Querida amiga,
    Já li “o nosso reino” e lhe confesso que também estranhei a forma de escrever do autor Valter Hugo Mãe. Mas sou insistente, consegui vencer esse estranhamento e adorei a história.
    Vou ler esse que indicou, pois parece ser bem interessante.
    Beijo.

    Responder

  4. fagulhadeideias
    out 28, 2014 @ 11:49:50

    Oi Mariana,
    Estes escritores reinventando a língua não são fáceis… (risos) Mas como sabem contar uma boa história!
    Beijo

    Responder

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