Uma viagem afetiva no tempo II

Recordo-me com carinho da estudante ingênua que fui, quando frequentei um colégio para meninas localizado em Sintra, e que é dirigido até hoje por freiras da Ordem Dominicana.

Eram tempos severos e silenciosos. O vendaval nos costumes – que só chegou com a Revolução dos Cravos – ainda não acontecera.

diario-de-ana-mariaConversas “picantes” eram cochichadas, e informações estapafúrdias circulavam livremente entre as alunas, sem que nenhum adulto esclarecesse o que quer que fosse.

Em casa o diálogo também era difícil, mas minha mãe tinha uma maneira curiosa de responder às perguntas que, minhas irmãs e eu, não tínhamos coragem de lhe fazer.

De vez em quando era “esquecida”, em cima da nossa mesa de estudos, uma revista com um artigo que ela achava que deveríamos ler, ou um livro com um tema supostamente do nosso interesse.

Foi assim que recebi minha educação sexual, através dos livros: “O Diário de Ana Maria” e “O Diário de Dany” ambos escritos por um francês, Michel Quoist, que na época eu desconhecia ser um padre. Provavelmente se o soubesse, não os teria lido com tanto entusiasmo.diario-de-dany

Finalmente minhas preces, ou melhor, dizendo, minha curiosidade, estava sendo saciada. Se por um lado “O diário de Ana Maria” foi esclarecedor e fez-me sentir única, por outro, mostrou que o que estava vivendo era idêntico ao que todas as meninas da minha idade sentiam. Eu não era tão especial assim, e também não estava tão só.

O diário de Dany” revelou-se muito mais interessante. O que se passava pela cabeça de um garoto era uma grande incógnita para alguém que não tinha irmãos ou primos, e estudava num colégio de freiras. Além do mais, o livro vinha com desenhos da anatomia masculina!

Imagino que se uma adolescente os lesse hoje, reviraria os olhos em sinal de enfado. Mas, como primeira abordagem do tema, acredito que a mensagem foi, e continua sendo, a mais bonita possível: Aprender a ter respeito por si mesma e depois pelo parceiro, são requisitos fundamentais para uma vida sexual feliz.

 

(os diários de Ana Maria e Dany também foram publicados no Brasil, mas no momento encontram-se esgotados)

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Vera Lúcia Coêlho Aziz LIma
    out 14, 2014 @ 14:31:03

    Que delícia recordar dessa leituras que também fizeram parte da minha formação, quando estudava na Piedade- Convento de Ilhéus, também de freiras” ursulinas”
    obrigada, por despertar essas lembranças.

    Responder

    • fagulhadeideias
      out 14, 2014 @ 15:05:42

      Ao lembrar as leituras que fizemos Vera Lúcia é que percebemos como tínhamos acesso a verdadeiros tesouros!

      Responder

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