Vida & Morte

Dama-de-branco Pricipio-meio-e-fim

Claro – escuro, quente – frio, cara – coroa, vida – morte. Se tudo tem um oposto ou complemento por que, então, temos tanta dificuldade em aceitar a Morte? As coisas se complicam quando precisamos conversar sobre ela com uma criança.

Já comentei o tema em outro post. Mais recentemente encontrei dois livros que podem ajudar a sua melhor aceitação.

Em A dama de Branco, editado pela Solisluna, Lucas faz amizade com uma linda mulher, sem saber que se trata da Morte. Ambos estão tristes, ele porque perdeu sua melhor amiga, e ela porque não é compreendida, nem desejada.

Mas pode alguém aceitar o beijo mortal dessa senhora sem reclamar? Talvez, se compreender que perdas acontecem constantemente na vida de cada um de nós. A perda, seja ela qual for, é como uma morte pequenina e sofrida. Entretanto, sem ela não haveria a renovação nem a possibilidade de novos começos.

Como seria terrível se um relacionamento onde não existe mais amor, ou um emprego que não satisfaz mais, se perpetuassem para sempre.  E o que dizer se, um dia, todas as criaturas ficassem aprisionadas eternamente, em corpos envelhecidos e doentes?

O luto há que ser vivido para, quando chegar a hora certa, podermos abrir o coração a novas possibilidades.

O delicado texto de Graziela Domini é acompanhado das bonitas ilustrações em tons pastéis, feitas pela artista plástica Edsoleda Santos.

A editora também caprichou no projeto gráfico do livro: imagens coloridas e complementares se escondem debaixo das orelhas da capa e da contracapa.

O outro livro que me encantou foi Começo, Meio e Fim escrito por Frei Betto, editado pela Rocco.

A história gira em torno de uma menininha, que ao visitar os avós percebe os pais e a avó muito tristes falando entre cochichos. O avô está doente e em breve vai morrer.

No entanto, será esse mesmo avô que, com todo o carinho, explicará que tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Quer seja uma peça de roupa, um desenho animado, uma pessoa de quem se gosta muito, ou, até mesmo, o planeta onde vivemos.

Com sensibilidade ele responde ás perguntas da neta. Pois quando não se sabe alguma coisa, imaginam-se outras bem piores e assustadoras, que nem sempre são verdadeiras.

A leitura destes livros – de preferência acompanhada por um adulto – com toda a certeza, deixará o coração do pequeno leitor, se não de todo feliz, ao menos mais tranquilo e reconfortado.

 

  • A dama de Branco

Graziela Domini & Edsoleda Santos

Solisluna Editora

R$ 35,00

  • Começo, meio e fim

Frei Betto & Vanessa Prezotto

Rocco – pequenos leitores

R$ 29,50

a máquina de fazer espanhóis

a maquina de fazer espanhois

Foi com algum receio que comecei a ler a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe. Aqueles capítulos não muito longos, com pouquíssimos parágrafos, e sem letras maiúsculas para sinalizar o inicio das frases e os nomes próprios, me assustaram.

Feita esta consideração, quero dizer que após uma pequena dificuldade inicial, apreciei a narrativa segura do autor, e me emocionei com os personagens retratados no romance.

Com a morte da mulher, António Jorge da Silva, aos 84 anos, é colocado pela filha em um asilo. Revoltado por perder sua companheira de mais de cinco décadas, e ser obrigado a viver onde nunca imaginou, ele custa a se adaptar ao novo lar.

Mas, como diz a sabedoria popular “o que tem que ser tem muita força”. Aos poucos, a tristeza vai diminuindo, graças à solidariedade que recebe dos hóspedes mais antigos, e dos cuidados de profissionais atenciosos.

O Lar da Feliz Idade é um lugar de espera. Ali há poucos sonhos, muitos pesadelos e algumas alucinações. Os ecos de um passado subserviente e a constatação de antigas crenças equivocadas, rondam as lembranças do Sr. Silva, e também de seus novos amigos.

Uma leitura apressada poderá afastar o leitor, desconfortável com um tema tão duro e potencialmente angustiante.  Espero que isso não aconteça, porque, além de iluminar e dar voz de forma digna a uma parcela da população cada vez mais numerosa, o grande mérito do livro está em confirmar o que por vezes é esquecido. O que dá sentido à Vida – quer ela esteja no seu apogeu, ou prestes a se extinguir -, o que nos faz querer viver um pouco mais, o que nos resgatará do esquecimento, é o Outro.

precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade,nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingencia da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro, eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria.

Quem não cultiva afetos, ou não se preocupa em preservá-los, já morreu e não foi avisado.

Uma viagem afetiva no tempo II

Recordo-me com carinho da estudante ingênua que fui, quando frequentei um colégio para meninas localizado em Sintra, e que é dirigido até hoje por freiras da Ordem Dominicana.

Eram tempos severos e silenciosos. O vendaval nos costumes – que só chegou com a Revolução dos Cravos – ainda não acontecera.

diario-de-ana-mariaConversas “picantes” eram cochichadas, e informações estapafúrdias circulavam livremente entre as alunas, sem que nenhum adulto esclarecesse o que quer que fosse.

Em casa o diálogo também era difícil, mas minha mãe tinha uma maneira curiosa de responder às perguntas que, minhas irmãs e eu, não tínhamos coragem de lhe fazer.

De vez em quando era “esquecida”, em cima da nossa mesa de estudos, uma revista com um artigo que ela achava que deveríamos ler, ou um livro com um tema supostamente do nosso interesse.

Foi assim que recebi minha educação sexual, através dos livros: “O Diário de Ana Maria” e “O Diário de Dany” ambos escritos por um francês, Michel Quoist, que na época eu desconhecia ser um padre. Provavelmente se o soubesse, não os teria lido com tanto entusiasmo.diario-de-dany

Finalmente minhas preces, ou melhor, dizendo, minha curiosidade, estava sendo saciada. Se por um lado “O diário de Ana Maria” foi esclarecedor e fez-me sentir única, por outro, mostrou que o que estava vivendo era idêntico ao que todas as meninas da minha idade sentiam. Eu não era tão especial assim, e também não estava tão só.

O diário de Dany” revelou-se muito mais interessante. O que se passava pela cabeça de um garoto era uma grande incógnita para alguém que não tinha irmãos ou primos, e estudava num colégio de freiras. Além do mais, o livro vinha com desenhos da anatomia masculina!

Imagino que se uma adolescente os lesse hoje, reviraria os olhos em sinal de enfado. Mas, como primeira abordagem do tema, acredito que a mensagem foi, e continua sendo, a mais bonita possível: Aprender a ter respeito por si mesma e depois pelo parceiro, são requisitos fundamentais para uma vida sexual feliz.

 

(os diários de Ana Maria e Dany também foram publicados no Brasil, mas no momento encontram-se esgotados)

Uma viagem afetiva no tempo

Recentemente circulou no FaceBook uma mistura de convite/desafio para que as pessoas dissessem quais foram os livros que, de alguma forma, foram importantes para elas.

Esse é o tipo de reflexão que me agrada. Afinal, de tudo o que li até hoje, quais teriam sido os meus livros inesquecíveis?

Mentalmente fiz uma viagem no tempo, e lá estava eu sentada numa poltrona, abstraída de todo o barulho que minhas irmãs faziam em volta de mim, lendo algo de Enid Blyton*, uma escritora inglesa, percussora de J. K. Rowling em saber cativar os corações e mentes dos jovens leitores.

As gemeas no colegio de santa claraDe sua máquina de escrever saíram diversas séries de livros, e eu gostava de todas elas. Tanto podia ser “As gêmeas no colégio de Santa Clara” quanto “O Colégio das Quatro Torres”, cujas tramas aconteciam num internato feminino na Inglaterra. Na época, cheguei a invejar a minha irmã mais velha, aluna interna num colégio em Sintra – Portugal.  Com toda a certeza, sua vida deveria ser igualzinha a uma dessas histórias, e, portanto, bem mais divertida que a minha.Os cinco no castelo da Bela Vista

Depois tinha as séries de aventuras como “Os cinco” e “O clube dos sete”, que estimulavam o desejo de viver situações de perigo e realizar atos heroicos, acrescidos de muita coragem e lealdade, para no final tudo terminar bem.

Mas se esses foram os livros que devorei com 8 e 11 anos, o que é que tinha lido antes?

Retrocedi um pouco mais no tempo, até chegar à lembrança mais antiga: Anita dona de casa.Anita dona de casa

Este livro fazia parte de uma grande coleção dedicada ao publico infantil na faixa de 4 a 8 anos e publicada em Portugal pela Editorial Verbo. Cada um representava uma situação específica vivida pela personagem, como ir à escola, ficar doente, passear na praia ou fazer compras. Os textos eram curtos e acompanhados por ilustrações belíssimas! Recordo ter passado horas de encantamento, examinando-as com máxima atenção, e sonhando com cada uma delas.

Anita de aviãoPesquisando imagens para este post fiquei sabendo que o autor e o ilustrador desses livros foram dois belgas, Gilbert Delahaye e Marcel Marnier, respectivamente.

Só nessa coleção publicaram 56 títulos diferentes, sendo que o primeiro livro saiu em 1954 e o ultimo em 2010, ano anterior ao falecimento do ilustrador aos 80 anos.

Já se passou mais de meio século e as histórias de Anita continuam encantando milhões de crianças ao redor do mundo. Certamente suas lindas ilustrações estimularam muitas a adentrar confiantes no mundo apaixonante da leitura, para dele nunca mais sair.

As histórias de Anita e os livros de Enid Blyton há muito deixaram de ser encontrados nas minhas estantes.  No entanto foram eles que deram início à leitora que hoje sou. Por eles tenho grande carinho, e sempre serão mencionados como as minhas primeiras leituras favoritas.

 

*Apesar de ter escrito mais 600 livros dedicados ao público infanto-juvenil, a autora não chegou a ser publicada no Brasil.

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