Uma Escolha Imperfeita

Uma-escolha-imperfeitaO que seria da vida do leitor sem a ajuda de uma livreira* experiente! No meio de tantos livros, com toda a certeza, não teria prestado atenção neste romance de capa sombria.

Estou falando de Uma escolha imperfeita de Louise Doughty, escritora inglesa pouco conhecida no Brasil. Apesar de ser autora de outros seis romances, e finalista de diversos prêmios literários, como o Costa Novel Award e o Orange Prize for Fiction, este é o seu primeiro livro publicado no país.

Trata-se de um suspense psicológico cuja trama gira em torno de uma mulher com pouco mais de cinquenta anos, e que tem uma vida perfeitamente arrumada e exitosa, tanto em termos profissionais, quanto pessoais.

Mas um dia ao sair de uma reunião de trabalho, seu olhar cruza com o de um homem sentado num banco do corredor. Eles não se conhecem, mas algo nele a atrai. Trocam sorrisos, alguns comentários banais, ela o acompanha até um aposento discreto e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, entrega-se sexualmente a ele.

A possibilidade de viver uma vida dupla é sedutora. Em momento algum deseja abandonar o marido ou a vida que construiu. Por sua vez, o amante nada lhe pede e muito menos revela. Trata-se de uma relação secreta, sem cobranças e sem futuro. Dela pretendem apenas extrair prazer, sem magoar ninguém.

Porém e há sempre um porém… Não será essa ligação clandestina que a destruirá, mas, uma outra familiar e enganosamente inofensiva, que irromperá de forma violenta nunca imaginada.

Precipitadamente poder-se-ia supor que se trata de mais um livro retratando o que acontece de excitante em toda relação clandestina. Ledo engano, ele é muito mais que isso.

Com maestria o leitor é enredado numa trama inteligente onde nada é atabalhoado ou leviano. O que realmente importa são as motivações, os questionamentos e como os personagens reagem ao serem confrontados com situações-limite indesejáveis.

Assim que comecei a ler Uma escolha imperfeita, não consegui mais parar, e seu final surpreendente me perseguiu por algum tempo.

 

*Ana, a gerente da livraria Argumento no Leblon – RJ

 

  • Uma escolha imperfeita

Louise Doughty

Editora Rocco

R$ 39,50

E-Book R$ 24,50

As aventuras do bom soldado Švejk

???????????????????????????????????????????Para quem leu o post anterior e ficou curioso em saber qual foi o romance escandaloso, que mitigou os sofrimentos de Dita Dorachova – a personagem principal do romance “A bibliotecária de Auschwitz” – tenho uma boa notícia para dar.

Trata-se de As aventuras do bom soldado Švejk de Jaroslav Hasek e já chegou às livrarias numa publicação cuidadosa da editora Alfaguara.

Em artigo intitulado ‘Um subversivo êxtase cômico’, publicado no jornal Rascunho*, Marcelo Laier comenta:

“O frenesi despertado pela Copa do Mundo aqui nestas paragens infelizmente impediu a devida repercussão de um dos grandes lançamentos literários do ano.

Traduzido diretamente do tcheco para o português brasileiro pela primeira vez, As Aventuras do bom soldado Švejk é uma irresistível sátira do agonizante Império Austro-Húngaro, do ‘imperial e real’ exército e por extensão da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário da deflagração foi relembrado em julho último.”

Para o senhor general tudo era simples.

O caminho para a  glória bélica repousava nesta receita:

Às seis os soldados recebem gulache com batatas,

às oito e meia fazem c… nas latrinas

e às nove se retiram para dormir.

diante de um exército como este,

 o inimigo foge assustado.

Mais adiante, e nesse mesmo artigo, escreveu: “Recentemente comentei com um amigo cidadão do mundo que estava lendo o livro de Hasek. Ele me respondeu: ‘Estive em Praga diversas vezes e sempre vi as vitrines das livrarias tomadas por esse livro’. (…) Como todo o grande escritor, Hasek foi contra seu próprio país, para depois ser canonizado por ele.”

Por sua vez Bertolt Brecht afirmou: “Se me pedissem para apontar três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, As aventuras do bom soldado Švejk.”

Desconfio que na próxima visita a uma livraria, sairei com um exemplar na sacola.

 

*Rascunho nº 173 – setembro 2014

  • As aventuras do bom soldado Švejk

Jaroslav Hasek

Editora Alfaguara

R$ 69,90

A Bibliotecária de Auschwitz

A-bibliotecaria-de-auschwitzTenho a impressão de caminhar por tempos estranhos, em que a desfaçatez e o egoísmo chegaram para reinar definitivamente.

Quando esse sentimento parece me dominar, procuro refúgio na leitura de relatos inspiradores de homens e mulheres, que apesar das enormes adversidades por que passaram, conseguiram manter acessa a frágil chama de sua humanidade. Vidas como a de Dita Dorachova personagem do romance A Bibliotecária de Auschwitz.

Antonio G. Iturbe, o autor deste livro, não pretendia escrever sobre os horrores do Holocausto, mas quando terminou de ler A biblioteca à noite de Albert Menguel, quis saber mais sobre a minúscula biblioteca que existiu dentro de um campo de concentração em Auschwitz.

Suas pesquisas o levaram até à verdadeira bibliotecária – atualmente uma senhora octogenária morando em Israel – que à época dos fatos relatados era uma adolescente de 14 anos.

Dita Dorachova foi responsável por cuidar de oito preciosos livros em papel que circulavam clandestinamente no pavilhão 31 (um atlas estropiado, um tratado de geometria, Uma breve história do mundo de H. G. Wells, uma gramática russa, um romance em francês, um compêndio de psicanálise e um romance tcheco considerado escandaloso pelos adultos).

Além desses existiam outros, os chamados livros “vivos”.  Na verdade pessoas que conheciam tão profundamente uma história que podiam repeti-la todas as vezes que um professor solicitasse a sua “leitura”.

O pavilhão 31 serviu como fachada “humanitária” dos nazistas. Enquanto os pais trabalhavam era ali que se amontoavam, durante o dia, mais de 500 crianças. Monitores procuravam tranquilizá-las, improvisando uma rotina de estudos e brincadeiras.

“Os livros alinhados formam uma fileira minúscula, um modesto desfile de veteranos. Nos últimos meses, porém, conseguiram que centenas de crianças passeassem pela geografia do mundo, aproximassem-se da história e aprendem-se matemática. E adentrassem os caminhos sinuosos da ficção, multiplicando suas vidas. Nada mau para um punhado de livros velhos.”

O medo de ser descoberta era companheiro constante de Dita. A posse de qualquer livro, por mais inofensivo que fosse, equivalia a uma sentença de morte.  Imagine, então, o que poderia acontecer com quem fosse responsável por tomar conta de oito!

Ela reconhecia a força que a leitura tinha na vida dessas crianças, porque também a vivenciava. Os livros a faziam imaginar outros lugares, viajar para outros tempos, enfim fugir dali!

Mas se as leituras podiam ser inspiradoras e reconfortantes também eram perturbadoras e revolucionárias. Não é que aquele romance tcheco considerado por muitos como indecente e escandaloso conseguiu fazê-la rir, e, ao mesmo tempo, denunciou a estupidez de todas as guerras?

A Bibliotecária de Auschwitz é uma belíssima homenagem ao poder redentor encontrado nos livros, e a seus defensores – autênticos heróis anônimos que os protegeram até às ultimas consequências.

“Se o homem não se emociona coma beleza, se não fecha os olhos e põe em funcionamento os mecanismos da imaginação, se não é capaz de fazer perguntas e vislumbrar os limites de sua ignorância, é homem ou mulher, mas não é pessoa”.

 

  • A Bibliotecária de Auschwitz

Antonio G.Iturbe

Editora Agir

R$ 39,90

E-book R$ 27,40

Uma visita à Casa dos Budas Ditosos

Casa-dos-budas-ditosos

A vida é assim mesmo. Basta um escritor morrer para se ficar com vontade de conhecer ou reler seus livros.

Não que João Ubaldo Ribeiro estivesse esquecido, muito pelo contrário. Todo o domingo O Globo e A Tarde – jornais do Rio de Janeiro e de Salvador, publicavam sua crônica semanal. Na última, ele ironizava a forma infantilizada, como nos dias de hoje, os cidadãos são tratados pelos governantes, tamanha a quantidade de leis policialescas criadas com a única finalidade de tolher a individualidade e o discernimento das pessoas.

Mas o fato é que, desde 2009, João Ubaldo não publicou nada direcionado ao público em geral, sendo que o ultimo livro a chegar às livrarias foi o infanto-juvenil “Dez bons conselhos de meu pai.

Saudosa de suas crônicas dominicais, procurei na estante o que poderia ter sobrevivido à Grande Mudança*, quando, com o coração partido, me desfiz de doze (eu disse doze!) caixas de livros.

Espremido entre Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto encontrei A Casa dos Budas Ditosos. Não sei como, mas esse escapara à minha leitura. Tinha uma noção do tema abordado. Recordo que na época do lançamento o livro criara o maior estardalhaço, e vários estabelecimentos recusaram-se a vendê-lo.

Não importa se a história, contada pelo autor, é fruto da sua imaginação ou, se como ele mesmo diz, trata-se da transcrição fiel e secreta das confissões de uma senhora de 68 anos. O certo é que a narrativa é pra lá de caliente! Comparado com ele a popular trilogia Cinquenta Tons de Cinza é apenas uma versão pálida e envergonhada da literatura erótica.

Pensamentos, opiniões e as descrições das mais variadas peripécias sexuais, jorram de forma ininterrupta. Eventualmente o leitor tem até vontade de descansar, de respirar um pouquinho, mas quem disse que a senhorinha quer parar? Ela é insaciável, “um grande homem fêmea” como ela mesmo se autointitula.

Escandaloso, pornográfico? Com certeza, mas muito divertido e, por que não dizer, instrutivo. A Casa dos Budas Ditosos é provocador até o ultimo parágrafo.

Gostando, ou não, o livro é um reflexo do pensamento contestador e anárquico de João Ubaldo, que, até ao ultimo escrito, esbravejou contra a mesmice do politicamente correto e se rebelou contra tudo e todos que sufocassem a liberdade de pensamento – por mais estapafúrdio que ele pudesse ser.

 

  • A Casa dos Budas Ditosos

João Ubaldo Ribeiro

Editora Objetiva

R$ 36,90

E-book R$ 24,90

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