Grande Irmão

????????Gosto de como os romances de Lionel Shriver são escritos e de seus finais impactantes.

Sempre me surpreendo com a capacidade da autora em abordar os temas mais diferentes e não me desapontei com Grande irmão. Desta vez ela desnuda um tema espinhoso: a obesidade.

Aparentemente Pandora tem tudo o que uma mulher pode desejar. Ama e é correspondida por Fletcher, um homem metódico e de hábitos espartanos com quem casou.  Não tem conflitos com os filhos adolescentes que ele trouxe de um casamento anterior e complicado. A vida profissional é mais do que confortável. Na verdade é um sucesso com direito a ter a próprio rosto estampado na capa das principais revistas do país. Mas uma insatisfação que não sabe explicar ou definir a incomoda. Sua vida é perfeita demais, acomodada demais.

Mal pode imaginar a revolução que está por vir quando convida o irmão mais velho – no momento desempregado -e que não vê há mais de quatro anos, para passar uma temporada com ela e sua família.

Difícil acreditar que aquele homem obeso, que necessita ser retirado do avião em uma cadeira de rodas, seja o seu irmão Edison, o pianista de jazz arrogante, que costumava tocar nos mais descolados clubes de Nova Iorque.

A convivência do ascético Fletcher com o desregrado cunhado é tudo menos pacífica. Pandora tem dificuldade em equilibrar os laços fraternais, plenos de cumplicidade e afetos, com os laços mais recentes que paulatinamente veem construindo uma nova família.

“Meu paladar ficou mais amplo na idade adulta, mas não o meu caráter. Sou como o arroz branco. Sempre existi para dar destaque a pratos mais empolgantes. Fui um complemento quando menina. Sou um complemento agora”. (Pandora)

Quando chega a hora do irmão ir embora, ela toma uma decisão drástica e polemica. Determinada em restaurar a saúde física e psicológica do irmão – afinal a obesidade só pode ser fruto de uma depressão – decide abandonar temporariamente a própria família e cuidar pessoalmente de Edison.

A escolha de Pandora não é nada fácil. Como pode dar as costas ao sofrimento do irmão, sabendo que se o apoiar estará pondo em risco a própria felicidade e a vida que escolheu para si? No entanto se o ignorar como conviver com as consequências que, com toda a certeza, serão nefastas?

Além de abordar a lealdade entre irmãos e a responsabilidade que temos para com aqueles que amamos, outros temas são abordados.

Que feridas profundas levam uma parcela expressiva da população americana adoecer por excesso de comida? Numa sociedade em que todos olham para o próprio umbigo e buscam a qualquer custo serem idolatrados e reconhecidos, a necessidade de se empanturrar de comida seria uma forma de compensar a frustração pelos desejos não realizados e gritar “Olha eu aqui! Preste atenção em mim! CUIDE de mim!”?

Grande Irmão não tem o impacto demolidor de Precisamos falar sobre Kevin, mas é tão provocador quanto o “irmão” mais famoso, além de possuir um final surpreendente.

A leitura fica mais interessante quando se sabe que Grande Irmão foi escrito pouco tempo depois de a autora ter perdido o próprio irmão por complicações decorrentes de uma obesidade mórbida.

 

  • Grande Irmão

Lionel Shriver

Editora Intrínseca

R$ 29,90

eBook R$19,90

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: