A intrusa

Elton John

Elton John  meu ídolo de sempre, veio fazer um show na cidade. Fiquei animadíssima com a possibilidade de assistir o evento com meu filho que, para meu espanto e incredulidade, não conhecia o cantor.

Na noite do espetáculo chegamos cedo ao estádio de futebol – ocasionalmente utilizado como palco de grandes eventos culturais. Éramos nós e uma multidão barulhenta e animada.

A antecedência se justificava. Apesar do ingresso não ter sido barato os lugares não eram marcados, e quem chegasse por ultimo corria o risco de ter diante de si um gigantesco andaime impedindo a visão do palco.

Meu filho e eu estávamos quites. Se ele não conhecia Elton John, eu nunca tinha entrado num estádio de futebol (foi a vez de ele se surpreender). Admirei a nova construção e a bonita cobertura de lona branca que protegia as arquibancadas; reparei que a maioria do público regulava com a minha faixa etária; fiz piada sobre os saltos altíssimos e inadequados usados por muitas das espectadoras; tiramos muitas fotos, mas, ainda assim, teríamos que aguardar uma hora até o show começar.

Suspirei e comentei que na próxima vez traria um livro comigo. Ele deu uma risada e disse “só mesmo você, mãe, para ter uma ideia dessas!”

Como era de se esperar o show foi ótimo. O vozeirão do Elton John continua potente, e as luzinhas tremeluzentes dos celulares iluminaram o estádio às escuras quando ele cantou as canções mais conhecidas do publico.

O show terminou e saímos de forma tranquila – apesar de espremidos como sardinhas em lata – mas nada que assustasse ou transmitisse uma sensação de perigo.

Foi então que no meio da multidão reparei num rapaz, pouco mais velho que meu filho, que tivera a mesma ideia que eu. Ele segurava um livro, e com certeza o lera antes do show começar! Curiosa, aproximei-me o máximo que pude, para espiar o titulo.

Nada poderia ser mais inusitado do que a sua leitura. Ele trouxera para um show de rock in roll “Eichmann em Jerusalém” de Hannah Arendt! Um livro de tema sombrio, onde a autora discorre sobre a banalidade do mal. Uma leitura difícil, nada apropriada para quem aguarda o início de um acontecimento festivo. Que maravilhoso poder de concentração ele deveria ter para mergulhar na leitura e se abstrair de todo o barulho que o cercava!

No retorno para casa lembrei-me de uma brincadeira que costumava fazer em criança, quando prestava atenção em vários objetos da mesma categoria ou classe – como instrumentos musicais – e precisava descobrir o intruso no meio deles, que, no caso, poderia ser uma frigideira.

Nessa noite Hannah Arendt era a intrusa na festa de Elton John.

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