Que nem pão com manteiga

Ushuaia - Andes

Que a leitura é uma tremenda viagem quase todo o mundo concorda. Ela pode acontecer quando estamos sentados confortavelmente no sofá de nossa casa, talvez na poltrona de um avião, ou, quem sabe, na cadeira dura do consultório médico. Em questão de minutos somos transportados para outro lugar – o que anteriormente nos cercava se dilui e o tempo transcorre num compasso diferente. Imaginamos lugares, conhecemos outras pessoas, e maneiras diversas de pensar nos levam a refletir sobre as próprias crenças. Mas o que dizer sobre a viagem propriamente dita? Aquela que é mesmo de verdade, a Real?

É impressionante a quantidade de estímulos a que ela nos expõe. O vai e vem frenético nos aeroportos abarrotados de gente, as paisagens deslumbrantes que se derramam diante de nossos olhos, os paladares apreciados pela primeira vez e as histórias que escutamos.

Recentemente viajei até o fim do mundo, mais precisamente para Ushuaia. E foi navegando pelo canal de Beagle, ladeado por montanhas de picos escarpados, e com temperaturas que beiravam 0º C em pleno verão, que escutei falar pela primeira vez do povo que ali viveu praticamente nu.

Que susto não deve ter sido para os primeiros exploradores europeus encontrarem homens e mulheres sem roupas ou peles, sobrevivendo a temperaturas tão baixas. Deles não sobrou nenhum descendente, as doenças trazidas pelos estrangeiros conseguiram dizimá-los mais rapidamente que as intempéries climáticas.

Os historiadores supõem que subsistiam da pesca e da caça aos leões marinhos. Imagino-os em alto mar – lutando contra ventos gélidos e correntes marinhas traiçoeiras – esquartejando e comendo a carne crua e cheia de gordura desses animais. Seria o consumo dessa adiposidade que lhes daria a energia extra para viverem desnudos e em condições tão extremas.  Não é uma visão nada bonita, mas me surpreendo e não posso deixar de admirar a capacidade do corpo humano em suportar situações que inicialmente, e sem muita reflexão, diria serem impossíveis de aguentar.

Enquanto o catamarã deslizava suavemente pelas águas do canal observei com mais atenção as montanhas dos Andes. Curioso, parecia que uma mão invisível desenhara uma linha horizontal e paralela ao chão criando, assim, uma barreira imaginária impedindo a ocupação das regiões mais elevadas por árvores e plantas rasteiras.

O guia explicou que essa delimitação natural auxiliara, antigamente, a calcular a altura das montanhas. Por causa das baixas temperaturas a vegetação cresce nas vertentes até os 600 m de altitude, depois estas são formadas apenas por pedregulhos, terra congelada, e os cumes estão sempre cobertos de neve.

Os primeiros exploradores faziam então a seguinte consideração: se até certa altura a montanha tem 600 m e a parte superior parece ser menor, no total ela não chega a 1200 m. Os cálculos eram feitos de forma empírica, resultando em informações pouco precisas, mas de qualquer forma importantes para quem decidisse desbravá-las.

Satisfeito por encontrar uma plateia interessada nas histórias da região, o guia continuou: durante muito tempo o nome Ushuaia foi associado ao presídio construído – pelos próprios detentos – no inicio do século passado e posteriormente desativado em 1948 por óbvias razões humanitárias. Escutei diversos relatos de fugas mal sucedidas, e outras tantas narrando os crimes cometidos pelos presos. Uma delas, inclusive, me deixou particularmente estupefata.

Naquele fim do mundo, longe dos olhares críticos da sociedade e de quaisquer questionamentos embaraçosos, ou talvez estimulados pelos experimentos pseudocientíficos efetuados nos campos de concentração europeus, intervenções cirúrgicas – ditas inovadoras – foram realizadas para erradicar os instintos assassinos dos detentos.

Um pobre coitado teve as orelhas de abano operadas à força, porque os “especialistas” acreditavam serem elas as responsáveis por seu comportamento antissocial e violento. Será que ao realizarem o procedimento ofereceram-lhe anestésico suficiente e depois cuidaram de seus ferimentos? Duvido muito.

Infelizmente, e para desapontamento dos médicos, o “tratamento” não deu certo, e é bem possível que o criminoso tenha voltado mais agressivo para a cela do que quando a deixou.

Cada dia era mais estimulante que o anterior. Abandonei as preocupações e esqueci as responsabilidades do cotidiano tão envolvida fiquei com as novas descobertas.  E quando no final do dia retornava ao hotel cansada e com frio, minha mente vinha plena e meus olhos brilhavam.

O hábito de ler algumas linhas, antes de apagar a luz, foi temporariamente posto de lado, simplesmente não sentia falta.

Viajar na leitura ou viajar na Real, qual das duas aventuras me instiga mais? Difícil dizer, ambas se complementam que nem pão com manteiga e fazem parte de mim. Mas afinal, por que eleger a preferida se por enquanto posso usufruir de ambas?

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Iara
    mar 08, 2014 @ 10:21:18

    Hey, como você decidiu ir para um lugar tão desconhecido e ermo? Parece muito interessante e deu vontade de copiar sua viagem (mas eu tenho vontade de copiar todas as viagens). Penso que o que é realmente instigante não é a leitura/viagem por si só mas as descobertas que fazemos, a respeito do mundo, de outras pessoas, e de nós mesmos.

    Responder

    • fagulhadeideias
      mar 08, 2014 @ 10:57:08

      Oi Iara, Até que nesta época do ano o fim do mundo é bem movimento (risos).
      Você está certa, o que importa são as descobertas que fazemos enquanto viajamos, seja ela de que jeito for.
      Abraço
      P.

      Responder

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