Maria vai com a outras

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Tem histórias que agradam e outras nem tanto. Tem momentos em que a criança está interessada em ouvir e tem outros em que está irrequieta. Mas tem também aquela ocasião especial cercada de aconchego, quando são feitas descobertas, percebe-se um brilho diferente no olhar do filho, e esse momento único será lembrado por toda a vida.

Recordo com muito carinho, as imitações de balidos que nós fazíamos – intercaladas por muitas risadas – enquanto lia para ele Maria vai com as outras de Sylvia Orthof. Uma história que se tornou um clássico da literatura infantil brasileira e continua sendo mais atual do que nunca.

Ela fala da Maria, uma ovelhinha branca, igualzinha a todas as outras do rebanho. O que as ovelhas fazem ela faz também, nunca se perguntando se concorda com isso ou não. Mas foram tantas coisas que fez sem vontade que, aos poucos, Maria começa a matutar por conta própria. Por que tinha que fazer o que não gostava?

Um belo dia, depois de ver as amigas se machucarem, decide escolher e seguir o próprio caminho.

Não se sabe qual foi a reação das outras ovelhas ao grito de liberdade de Maria. Sabemos que na vida real não é fácil conquistar a própria individualidade; quem pensa diferente, na maioria das vezes, costuma receber muitas críticas.

Toda a criança e adolescente gosta de fazer parte de um grupo, de se sentir acolhida. É tão mais fácil colocar a responsabilidade no outro “foi ele que começou!” ou então “Todos fazem isso, por que eu não posso fazer?

Cabe a nós adultos ajudá-los a escutar aquela vozinha interior que diz: “não está legal, não estou gostando…” Ensiná-los a pensar por conta própria, a não abrirem mão daquilo que acreditam ser o melhor para eles.

O livro é indicado para crianças pequenas, mas nada impede que seja “esquecido” no quarto de um adolescente. Sempre pode servir como ajuda para relembrá-lo de quem deve estar no comando da própria vida.

 

 

(O livro foi considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ em 1982 e encontra-se atualmente na 22ª edição)

  • Maria vai com as outras

Sylvia Orthof (texto e ilustrações)

Editora Ática

R$ 27,50

A intrusa

Elton John

Elton John  meu ídolo de sempre, veio fazer um show na cidade. Fiquei animadíssima com a possibilidade de assistir o evento com meu filho que, para meu espanto e incredulidade, não conhecia o cantor.

Na noite do espetáculo chegamos cedo ao estádio de futebol – ocasionalmente utilizado como palco de grandes eventos culturais. Éramos nós e uma multidão barulhenta e animada.

A antecedência se justificava. Apesar do ingresso não ter sido barato os lugares não eram marcados, e quem chegasse por ultimo corria o risco de ter diante de si um gigantesco andaime impedindo a visão do palco.

Meu filho e eu estávamos quites. Se ele não conhecia Elton John, eu nunca tinha entrado num estádio de futebol (foi a vez de ele se surpreender). Admirei a nova construção e a bonita cobertura de lona branca que protegia as arquibancadas; reparei que a maioria do público regulava com a minha faixa etária; fiz piada sobre os saltos altíssimos e inadequados usados por muitas das espectadoras; tiramos muitas fotos, mas, ainda assim, teríamos que aguardar uma hora até o show começar.

Suspirei e comentei que na próxima vez traria um livro comigo. Ele deu uma risada e disse “só mesmo você, mãe, para ter uma ideia dessas!”

Como era de se esperar o show foi ótimo. O vozeirão do Elton John continua potente, e as luzinhas tremeluzentes dos celulares iluminaram o estádio às escuras quando ele cantou as canções mais conhecidas do publico.

O show terminou e saímos de forma tranquila – apesar de espremidos como sardinhas em lata – mas nada que assustasse ou transmitisse uma sensação de perigo.

Foi então que no meio da multidão reparei num rapaz, pouco mais velho que meu filho, que tivera a mesma ideia que eu. Ele segurava um livro, e com certeza o lera antes do show começar! Curiosa, aproximei-me o máximo que pude, para espiar o titulo.

Nada poderia ser mais inusitado do que a sua leitura. Ele trouxera para um show de rock in roll “Eichmann em Jerusalém” de Hannah Arendt! Um livro de tema sombrio, onde a autora discorre sobre a banalidade do mal. Uma leitura difícil, nada apropriada para quem aguarda o início de um acontecimento festivo. Que maravilhoso poder de concentração ele deveria ter para mergulhar na leitura e se abstrair de todo o barulho que o cercava!

No retorno para casa lembrei-me de uma brincadeira que costumava fazer em criança, quando prestava atenção em vários objetos da mesma categoria ou classe – como instrumentos musicais – e precisava descobrir o intruso no meio deles, que, no caso, poderia ser uma frigideira.

Nessa noite Hannah Arendt era a intrusa na festa de Elton John.

Jantar indigesto

O-Jantar-Herman-KochO sucesso alcançado pelo escritor holandês Herman Koch com O JANTAR é mais do que merecido. Desde seu lançamento em 2009 o livro vendeu mais de 1 milhão de exemplares (só na Europa), foi publicado em 33 idiomas, virou peça de teatro, e em breve será adaptado para o cinema com direção da atriz Cate Blanchett, que estará pela primeira vez do outro lado das câmeras.

O tema central do livro lembra a peça de teatro de Yasmina Reza Deus da Carnificina* – onde dois casais se encontram para conversar de forma civilizada sobre uma bobagem que os respectivos filhos fizeram – mas as semelhanças terminam aí.

Dois garotos de quinze anos cometeram um ato bárbaro e covarde. O crime foi registrado por uma câmera de segurança, mas a identidade dos agressores não ficou clara. No entanto ao verem as imagens transmitidas em cadeia nacional, os pais dos rapazes reconhecem os próprios filhos.

Um encontro é marcado para decidirem o que fazer diante da terrível revelação. O lugar não poderia ser mais inadequado – um restaurante de moda, onde o maître interrompe a conversa para falar sobre a procedência de cada ingrediente, e como foram preparados os pratos escolhidos.

Os pais dos adolescentes são irmãos, mas esse laço de sangue em vez de gerar uma cumplicidade fraternal esconde conflitos, até então, convenientemente disfarçados sob o manto das relações socialmente corretas. Enquanto o mais velho é um político de prestígio, o outro é um professor de ensino médio de licença por estar com problemas de saúde.

À medida em que transcorre o jantar fica mais distante a possibilidade de uma solução conjunta que agrade às duas famílias. A um debate acalorado, com pontos de vistas opostos, seguem-se decisões que levarão a um surpreendente e sinistro desenlace da trama.

Quando terminei de ler este suspense psicológico (difícil de largar) lembrei-me da frase atribuída a Maquiavel “aos amigos os favores, aos inimigos a lei”.

* A peça de teatro foi adaptada para o cinema em 2011, e o filme dirigido por Roman Polanski

  • O jantar

Herman Koch

Editora Intrínseca

R$ 29,90

E-Book R$ 19,90

Que nem pão com manteiga

Ushuaia - Andes

Que a leitura é uma tremenda viagem quase todo o mundo concorda. Ela pode acontecer quando estamos sentados confortavelmente no sofá de nossa casa, talvez na poltrona de um avião, ou, quem sabe, na cadeira dura do consultório médico. Em questão de minutos somos transportados para outro lugar – o que anteriormente nos cercava se dilui e o tempo transcorre num compasso diferente. Imaginamos lugares, conhecemos outras pessoas, e maneiras diversas de pensar nos levam a refletir sobre as próprias crenças. Mas o que dizer sobre a viagem propriamente dita? Aquela que é mesmo de verdade, a Real?

É impressionante a quantidade de estímulos a que ela nos expõe. O vai e vem frenético nos aeroportos abarrotados de gente, as paisagens deslumbrantes que se derramam diante de nossos olhos, os paladares apreciados pela primeira vez e as histórias que escutamos.

Recentemente viajei até o fim do mundo, mais precisamente para Ushuaia. E foi navegando pelo canal de Beagle, ladeado por montanhas de picos escarpados, e com temperaturas que beiravam 0º C em pleno verão, que escutei falar pela primeira vez do povo que ali viveu praticamente nu.

Que susto não deve ter sido para os primeiros exploradores europeus encontrarem homens e mulheres sem roupas ou peles, sobrevivendo a temperaturas tão baixas. Deles não sobrou nenhum descendente, as doenças trazidas pelos estrangeiros conseguiram dizimá-los mais rapidamente que as intempéries climáticas.

Os historiadores supõem que subsistiam da pesca e da caça aos leões marinhos. Imagino-os em alto mar – lutando contra ventos gélidos e correntes marinhas traiçoeiras – esquartejando e comendo a carne crua e cheia de gordura desses animais. Seria o consumo dessa adiposidade que lhes daria a energia extra para viverem desnudos e em condições tão extremas.  Não é uma visão nada bonita, mas me surpreendo e não posso deixar de admirar a capacidade do corpo humano em suportar situações que inicialmente, e sem muita reflexão, diria serem impossíveis de aguentar.

Enquanto o catamarã deslizava suavemente pelas águas do canal observei com mais atenção as montanhas dos Andes. Curioso, parecia que uma mão invisível desenhara uma linha horizontal e paralela ao chão criando, assim, uma barreira imaginária impedindo a ocupação das regiões mais elevadas por árvores e plantas rasteiras.

O guia explicou que essa delimitação natural auxiliara, antigamente, a calcular a altura das montanhas. Por causa das baixas temperaturas a vegetação cresce nas vertentes até os 600 m de altitude, depois estas são formadas apenas por pedregulhos, terra congelada, e os cumes estão sempre cobertos de neve.

Os primeiros exploradores faziam então a seguinte consideração: se até certa altura a montanha tem 600 m e a parte superior parece ser menor, no total ela não chega a 1200 m. Os cálculos eram feitos de forma empírica, resultando em informações pouco precisas, mas de qualquer forma importantes para quem decidisse desbravá-las.

Satisfeito por encontrar uma plateia interessada nas histórias da região, o guia continuou: durante muito tempo o nome Ushuaia foi associado ao presídio construído – pelos próprios detentos – no inicio do século passado e posteriormente desativado em 1948 por óbvias razões humanitárias. Escutei diversos relatos de fugas mal sucedidas, e outras tantas narrando os crimes cometidos pelos presos. Uma delas, inclusive, me deixou particularmente estupefata.

Naquele fim do mundo, longe dos olhares críticos da sociedade e de quaisquer questionamentos embaraçosos, ou talvez estimulados pelos experimentos pseudocientíficos efetuados nos campos de concentração europeus, intervenções cirúrgicas – ditas inovadoras – foram realizadas para erradicar os instintos assassinos dos detentos.

Um pobre coitado teve as orelhas de abano operadas à força, porque os “especialistas” acreditavam serem elas as responsáveis por seu comportamento antissocial e violento. Será que ao realizarem o procedimento ofereceram-lhe anestésico suficiente e depois cuidaram de seus ferimentos? Duvido muito.

Infelizmente, e para desapontamento dos médicos, o “tratamento” não deu certo, e é bem possível que o criminoso tenha voltado mais agressivo para a cela do que quando a deixou.

Cada dia era mais estimulante que o anterior. Abandonei as preocupações e esqueci as responsabilidades do cotidiano tão envolvida fiquei com as novas descobertas.  E quando no final do dia retornava ao hotel cansada e com frio, minha mente vinha plena e meus olhos brilhavam.

O hábito de ler algumas linhas, antes de apagar a luz, foi temporariamente posto de lado, simplesmente não sentia falta.

Viajar na leitura ou viajar na Real, qual das duas aventuras me instiga mais? Difícil dizer, ambas se complementam que nem pão com manteiga e fazem parte de mim. Mas afinal, por que eleger a preferida se por enquanto posso usufruir de ambas?

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